Igualdades

Jogando dados com o vírus

Camille Lichotti e Renata Buono
17ago2020_10h44

O risco de morrer de Covid-19 depende do endereço. O local de moradia aumenta ou diminui a chance de pessoas da mesma geração morrerem por causa do SARS-CoV-2. O país faz diferença, mas também a cidade e até o bairro. Um brasileiro maduro corre 11 vezes mais risco de virar vítima do novo coronavírus do que um italiano da mesma faixa etária. A mortalidade de idosos durante a pandemia na Vila Jacuí, periferia paulistana, é duas vezes a de idosos do Morumbi. O =igualdades compara o risco de morrer por Covid-19 de pessoas que se equivalem na idade mas estão separadas pelo fosso da desigualdade na vida e na morte.

Entre Brasil e Itália, a maior discrepância no risco de morrer por Covid-19 está na faixa etária de 30 a 39 anos. Na Itália, até dia 4 de agosto, 67 pessoas que se encaixam nesse grupo morreram por Covid-19 – uma taxa de 1 morte a cada cem mil habitantes. No Brasil, até dia 08 de agosto, foram 3.662 mortes confirmadas nessa mesma faixa etária – uma taxa de 11 mortes por cem mil habitantes. Ou seja, o risco de um brasileiro que tem de 30 a 39 anos morrer por Covid-19 no Brasil é onze vezes o risco enfrentado por um italiano da mesma idade.

Em Nova York, uma das cidades com mais mortos por Covid-19 no mundo, 879 pessoas que tinham até 44 anos morreram pela doença até dia 13 de agosto – uma taxa específica de 17,2 mortes por cem mil habitantes. No Rio, na mesma faixa etária, foram 693 – uma taxa de 17,6 mortes por cem mil habitantes até a mesma data. Ou seja, para pessoas de 0 a 44 anos, o risco de morte no Rio de Janeiro é igual ao de Nova York. 

Mas mesmo dentro da cidade do Rio de Janeiro, os riscos não são iguais para todos, ainda na mesma faixa etária. Até o dia 13 de agosto, pelo menos oito pessoas de 30 a 49 anos morreram de Covid-19 na região administrativa de Copacabana* – taxa de 16 mortes por cem mil habitantes. Na região de Campo Grande*, que tem um dos piores índices de desenvolvimento humano da cidade, a mesma taxa foi de 62 mortes a cada cem mil habitantes – quatro vezes a de Copacabana. 



Na região administrativa de Copacabana*, as mortes se concentraram principalmente entre os idosos (acima de 60 anos). Até o dia 13 de agosto, pelo menos 21 pessoas de até 59 anos morreram de Covid-19 na região – 18 mortes a cada cem mil habitantes. Entre os idosos, foram pelo menos 305 mortes, ou seja, 484 a cada cem mil – uma taxa que é 27 vezes a encontrada entre o resto da população. 

Na cidade de São Paulo, Covid-19 matou 3388 pessoas de 30 a 59 anos, até o dia 13 de agosto. A taxa específica para essa faixa etária foi de 65 mortes por cem mil habitantes. No Rio de Janeiro, foram 2250 vítimas na mesma faixa etária – uma taxa de 81 mortes por cem mil habitantes. Ou seja, os cariocas de 30 a 59 anos enfrentaram um risco 25% maior de morrer por Covid-19 que os paulistanos. 

 

Mas, entre idosos, o cenário se inverte. Em São Paulo, 13184 pessoas com mais de 60 anos morreram por Covid-19 até dia 13 de agosto – uma taxa de 711 mortes por cem mil habitantes. No Rio, foram 7524 mortes nessa mesma faixa etária – uma taxa de 606 mortes por cem mil habitantes. Ou seja, os idosos paulistanos enfrentaram um risco 17% maior de morrer por Covid-19 que os cariocas. 

O cenário desigual também se repete dentro da capital paulista. As taxas de mortalidade na Vila Jacuí, distrito da periferia Leste de São Paulo, são maiores que as do Morumbi em todas as faixas etárias. Até 13 de agosto, pelo menos 74 idosos com mais de 75 anos morreram por Covid-19 na Vila Jacuí – uma taxa específica de 2151 mortos por cem mil habitantes. No Morumbi, foram 31 mortes nessa faixa etária, uma taxa de 1106 mortes a cada cem mil habitantes. Ou seja, o risco de um idoso nessa faixa etária morrer por Covid-19 na Vila Jacuí é duas vezes o enfrentado no Morumbi.

 

Fontes: Ministério da Saúde; Ministério da Saúde italiano; IBGE; Organização das Nações Unidas; Governo da cidade de Nova York; United States Census Bureau; Tabnet – prefeitura do Rio de Janeiro (dados coletados dia 13 de agosto); Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos; Tabnet – prefeitura de São Paulo (dados coletados dia 13 de agosto). 

*Notas metodológicas: A região administrativa de Copacabana compreende dois bairros: Copacabana e Leme. A região de Campo Grande é formada por cinco bairros: Campo Grande, Santíssimo, Senador Vasconcelos, Inhoaíba e Cosmos – segundo divisão do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, órgão de pesquisa e informação da prefeitura do Rio de Janeiro. Para os dados de Nova York, Rio de Janeiro e São Paulo foram consideradas mortes suspeitas e confirmadas por Covid-19.

Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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