Igualdades

Jogando gasolina na fogueira da inflação

Amanda Gorziza e Renata Buono
27set2021_09h28

O preço da gasolina no Brasil é o maior dos últimos quinze anos. Na semana entre os dias 12 e 18 de setembro, o litro da gasolina comum custou, em média, R$ 6,076 para o consumidor. Foi a sétima semana consecutiva de aumento no preço do combustível, segundo levantamento da ANP – a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Em postos do Acre e do Rio Grande do Sul, o combustível passou dos R$ 7. Com o preço atual do litro da gasolina, o valor médio do Bolsa Família paga apenas meio tanque de um carro Gol. O presidente Jair Bolsonaro tem atribuído ao ICMS, imposto estadual, a culpa pela alta nos preços, mas os dados mostram o contrário. De 2016 para cá, o peso dos impostos federais no custo da gasolina aumentou, enquanto o dos estaduais diminuiu. Os fatores que realmente causaram a alta no preço da gasolina foram a cotação internacional do barril de petróleo e o câmbio do dólar no Brasil. Nesta semana, o =igualdades mostra o quanto aumentou o preço da gasolina e o impacto que isso tem na vida dos brasileiros.

No Brasil, o preço mínimo registrado da gasolina entre os dias 12 e 18 de setembro foi de R$ 5,19 o litro. O valor máximo foi R$ 7,19. Considerando o preço médio de R$ 6,076, quem quiser encher meio tanque de um Gol vai pagar R$ 167 – praticamente o valor médio que é pago aos beneficiários do Bolsa Família, de R$ 189. 

De um total de 168 países analisados pela GlobalPetrolPrices, o Brasil ocupa a 86ª posição na lista dos que têm a gasolina mais cara. O litro do combustível no país custa mais que o dobro que na Bolívia. Entre as nações pesquisadas, o preço médio da gasolina é de R$ 6,36 o litro. Em Hong Kong, no topo da lista, o combustível chega a custar R$ 13,6 o litro.

O preço do litro da gasolina está mais alto. Em 2016, o dinheiro que era necessário para encher um tanque de gasolina (R$ 200) poderia comprar 45 litros de leite. Atualmente, paga-se R$ 334 pelo tanque cheio – valor que permite comprar 68 litros de leite.

A cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, tem o preço médio mais alto de gasolina no Brasil (R$ 7,12 o litro), seguida por Bagé, no Rio Grande do Sul (R$ 7,11), e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro (R$ 6,83). No extremo oposto desse ranking, São José dos Campos (SP), Caçapava (SP) e Macapá (AP) têm os preços mais baixos de gasolina no país.

O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é uma tarifa estadual aplicada sobre o valor final de vários produtos – entre eles, o da gasolina. O presidente Jair Bolsonaro culpa os governadores pela alta no preço do combustível, afirmando que eles teriam aumentado a taxação do ICMS, mas isso não é verdade. De 2016 a 2021, o peso dos impostos estaduais sobre o preço do litro de gasolina na bomba caiu de 28% para 27,5%. No mesmo período, o peso dos impostos federais (PIS/PASEP, COFINS e CIDE) subiu de 9% para 11,3%.

Tanto o preço da gasolina, quanto o preço da cesta básica subiram no Brasil nos últimos cinco anos. Em setembro de 2016, em São Paulo, o tanque cheio de um Gol custava R$ 187 e uma cesta básica, R$ 471,6. Atualmente, paga-se R$ 316 para abastecer o carro e R$ 650,5 pela cesta. 

Os principais fatores que levaram à alta no preço da gasolina foram a cotação internacional do barril de petróleo e o câmbio do dólar no Brasil. Embora seja produzido com matéria-prima nacional (principalmente a cana-de-açúcar), o álcool sofre influência direta da cotação do dólar. Como essa cotação disparou nos últimos anos, o preço do álcool também subiu. Em um ano, o custo de um tanque cheio de um Gol com etanol subiu 55%. O preço, no entanto, varia entre os estados: com o dinheiro necessário para abastecer 50 Gols com etanol em São Paulo é possível abastecer somente 40 Gols no Rio de Janeiro.

Fontes: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP); Volkswagen; GlobalPetrolPrices; Bolsa Família; Dieese; Ministério de Minas e Energia; Petrobras

Amanda Gorziza (siga @amandalcgorziza no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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