questões de negócios

A linha cruzada de Max

Como um empurrão de Flávio Bolsonaro ajudou a minúscula telecom do dono da Precisa Medicamentos – e por que a Xis está no jogo bilionário do 5G

Ana Clara Costa
04ago2021_14h51
o prefeito de Águas Lindas de Goiás, Hildo do Candango, Francisco Emerson Maximiano, o presidente da Vivo, Christian Gebara, e o então porta-voz da Xis, Marco Carbonari, no lançamento da fibra ótica no município goiano –
o prefeito de Águas Lindas de Goiás, Hildo do Candango, Francisco Emerson Maximiano, o presidente da Vivo, Christian Gebara, e o então porta-voz da Xis, Marco Carbonari, no lançamento da fibra ótica no município goiano – FOTO: DIVULGAÇÃO/TERRA FIBRA

A compra da vacina indiana Covaxin pode ter subido no telhado para o dono da Precisa Medicamentos, Francisco Emerson Maximiano. Mas seus negócios no ramo das telecomunicações, que ele recém-começou a explorar – com empurrão do senador Flávio Bolsonaro –, são promissores. O empresário que negociou a compra de 20 milhões de doses de vacinas da Bharat Biotech por 1,61 bilhão de reais e deveria ser ouvido nesta quarta-feira, 4, na CPI da Pandemia, é dono de uma empresa de serviços de banda larga, a Xis Internet Fibra. Presente em sete municípios, com investimento estimado de 2,5 milhões de reais em cada um, a empresa, que oferece fibra ótica como franqueada da Vivo, surfa num mercado promissor à medida que se aproxima o leilão do 5G, embora seus números ainda sejam tímidos: ela tem apenas 10 mil assinantes em quase dois anos de operação.

Apesar de pequena, a Xis foi criada num contexto bastante favorável. Tem um dono bem -relacionado em Brasília, embora novato no setor, e está habilitada para participar do leilão do 5G, que deve movimentar pelo menos 40 bilhões de reais e está previsto para ocorrer em outubro deste ano. Mesmo se decidir não participar do leilão, o cenário é auspicioso para a Xis: o 5G exigirá uma ampliação expressiva da rede de fibra ótica, e a empresa que já está nesse mercado tende a crescer ou a ser vendida a concorrentes mais capitalizadas.

A Xis ainda tem uma parcela diminuta num mercado em que o maior provedor, no segmento de empresas de pequeno porte, tem 730 mil assinantes, que é o caso da Brisanet, operadora do Nordeste. Quando a telecom de Maximiano foi criada, em 2019, reportagens relataram as expectativas nascidas com a empreitada: o então porta-voz da companhia, Marco Antonio Carbonari, disse que o objetivo era investir 100 milhões de reais para levar a fibra ótica para 100 cidades, sendo 50 delas até 2020. Ao final de 2021, são apenas sete.

A Xis ganhou notoriedade por dois motivos: o fato de seu dono, Maximiano, estar envolvido no caso Covaxin, e sua aproximação com Flávio Bolsonaro. A revista Veja revelou que o senador do Patriota acompanhou Max e o CEO da empresa, Danilo Fiorini, a uma reunião realizada por videoconferência com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, para discutir as linhas de crédito disponíveis no banco. A instituição explicou o encontro: foram duas reuniões, uma com e outra sem a presença de Montezano, para tratar de linhas de financiamento disponíveis para o setor de telecom. Segundo o banco, nada foi contratado. Já o senador, em vídeo publicado na internet, disse que tinha “amigos em comum” com Maximiano em Brasília, mas que não tinha “relação comercial ou financeira” com ele. “O que eu fiz sim foi pedir ao presidente do BNDES que ouvisse uma boa ideia que foi trazida pelo senhor Maximiano, para que o BNDES pudesse entender e, quem sabe, dar algum suporte para levar internet para o Norte e Nordeste”, disse o senador.

Apesar da explicação fornecida pelo parlamentar, seu movimento foi bastante atípico. A reunião com Maximiano no BNDES foi o único encontro oficial de Flávio sozinho, como autoridade, com o banco desde que Montezano iniciou sua gestão, em julho de 2019. Da parte de Montezano, o encontro tampouco foi corriqueiro. Segundo a agenda oficial do presidente, é comum que ele receba parlamentares, de forma individual ou em grupo. O que não é comum é que senadores e deputados estejam acompanhados de um empresário amigo. Ao longo dos dois anos em que Montezano chefia o BNDES, isso aconteceu apenas uma vez, segundo sua agenda: com Flávio e Maximiano. O único episódio correlato foi quando Montezano recebeu o senador Irajá Silvestre (PSD-TO), acompanhado de membros de uma associação setorial de empresas de tecnologia. O encontro foi incomum, mas não se tratava de uma agenda individual com uma companhia patrocinada por um parlamentar, como no caso da Xis. 

 

O interesse na empresa de Maximiano não é o primeiro movimento do Zero Um no setor de telecom. Quando o presidente mundial da Telefonica, controladora da Vivo, esteve no Brasil, em setembro de 2019, para uma agenda com Jair Bolsonaro, seu filho primogênito marcou presença no encontro, embora seu nome não estivesse na lista de convidados. Mesmo sem integrar a comissão parlamentar temporária para o 5G, Flávio Bolsonaro tem participado de viagens internacionais oficiais cujo intuito é conhecer melhor a nova tecnologia. 

O senador foi até a China, em 2019, a convite do governo chinês, e visitou as instalações da Huawei para entender a tecnologia 5G. Em junho deste ano, foi a Washington e a Nova York, numa comitiva liderada pelo Ministro das Comunicações, Fábio Faria, com técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, para falar com o governo americano e investidores do setor de telecom sobre o 5G. Também foi convidado para a missão o então senador Ciro Nogueira (hoje ministro da Casa Civil). Deputados que integram o grupo de trabalho para o 5G no Congresso não foram chamados. Num vídeo publicado nas redes de Nogueira, Flávio comemorou o sucesso da viagem dizendo que a “reunião com o setor de inteligência americano foi muito esclarecedora”. Em outro vídeo publicado em suas redes, após uma reunião no BID, em Washington, o senador disse que o Brasil acabara de incrementar com mais de 1 bilhão de reais uma linha de crédito destinada a financiar projetos de banda larga para levar internet rápida aos “rincões do país” e aos “povos indígenas”.

Conforme a data do leilão do 5G se aproxima, também cresce o interesse dos partidos do Centrão pelo assunto. Nogueira acompanhou Fábio Faria aos Estados Unidos e a Barcelona, no principal evento mundial do setor de telecom, o World Mobile Congress, em junho. Flávio Bolsonaro não compareceu a esse compromisso, mas outros parlamentares do Centrão seguiram a trupe do 5G. Novamente, nenhum deles é integrante da comissão que discute o tema. Estes continuaram não sendo convidados. Estiveram na agenda os deputados Hugo Motta (REP-PB), considerado hoje os olhos e ouvidos do presidente da Câmara Arthur Lira, Marcos Pereira (REP-SP), Silvio Costa Filho (REP-SP) e Eduardo da Fonte (PP-PE).

O interesse político em torno da nova oferta de internet de alta velocidade vem acompanhado de um forte apetite econômico em cima de empresas de fibra ótica como a Xis, de Maximiano. Estimativas do setor apontam que, uma vez implantada, a nova tecnologia precisará de uma extensa rede de fibra para dar vazão ao aumento monumental de dados gerados pelo 5G. Será necessário um cabeamento dez vezes maior do que aquele utilizado hoje, nas redes de 3G e 4G. Isso se dá porque, com a tecnologia atual, as antenas de transmissão de dados são instaladas a quilômetros de distância umas das outras. Com o 5G, serão poucos metros de distância — e cada uma vai requerer fibra para interligá-las. Parte desse cabeamento será feito por pequenos provedores, que hoje já somam mais de 17 mil empresas que representam mais de 40% do mercado de banda larga fixa, segundo a Anatel. “O grande atrativo desses pequenos provedores é o mercado que conquistaram. Em conjunto, elas são líderes hoje, à frente de qualquer grande operadora. Até a Vivo falou isso recentemente, sobre as grandes começarem a comprar as menores para recuperar o terreno perdido”, afirma Eduardo Tude, presidente da consultoria de telecomunicações Teleco.

Além do aumento da demanda por fibra, outro fator que torna empresas como a Xis atrativas é a própria característica do leilão, que permitirá que companhias deem lances por frequências regionais e nacionais de internet, desde que se comprometam a metas de investimento na rede de fibra ótica. Provedores menores poderão disputar frequências regionais para oferecer a internet em alta velocidade em áreas específicas. Já o leilão de frequência nacional, com cobertura em todo o país, ficará com as grandes operadoras já estabelecidas no mercado brasileiro. As empresas, pequenas ou grandes, que estiverem capitalizadas, poderão arrematar lotes. Dos provedores de pequeno porte, a Algar, a Brisanet e a Vero têm captado recursos no mercado de capitais e feito aquisições de empresas menores com foco em aumentar sua rede de fibra para a chegada do 5G.

A Xis, de Maximiano, não fez IPO nem aquisições, mas, apenas quatro meses depois de sua criação, fechou uma parceria inovadora com a Vivo para comercializar fibra ótica, com a marca Terra Fibra. O serviço funciona da seguinte maneira: o franqueado da Vivo investe para criar a infraestrutura de fibra num determinado local carente desse serviço, usa a logomarca Terra Fibra e paga royalties para a empresa espanhola. No caso da Xis, os royalties são de 8% a 12% da receita bruta do negócio, segundo reportagem publicada no site Telesíntese. Embora Maximiano nunca tenha atuado no setor de telecom até criar a Xis, foi o primeiro franqueado da Vivo nesse tipo de serviço. Hoje, são três empresas que oferecem a fibra para dezesseis cidades. Quando o serviço foi lançado, em novembro de 2019, a expectativa do grupo era ter franqueados em mil cidades. A meta, portanto, ainda está distante. 

Nas entrevistas concedidas quando a companhia foi criada, Maximiano não aparecia publicamente como dono da Xis — e tampouco seu filho, João Vitor. Numa rara aparição pública, registrada em imagem que ilustra esta reportagem, ele foi ao evento de inauguração da primeira franquia Terra Fibra, em novembro de 2019. A celebração ocorreu em Águas Lindas de Goiás (GO) e contou com a presença do presidente da Vivo, Christian Gebara, de Maximiano, do então prefeito da cidade, Hildo do Candango, e de Marco Antonio Carbonari, então sócio e porta-voz da Xis. Candango, que deixou o cargo em 2020, relembra que a prefeitura foi procurada pela Xis em razão da proximidade geográfica com a primeira loja da empresa, em Novo Gama (GO). As duas cidades ficam próximas de Brasília. “Fomos procurados, eles fizeram o cabeamento e foi um investimento totalmente privado”, diz o ex-prefeito. Procurada para comentar sobre a parceria com a Xis, a Vivo não concedeu entrevista à piauí.

Coube a Carbonari representar a empresa naquela época. Ele afirmava que os donos da Xis eram oito investidores anônimos que constituiriam dois fundos para captar recursos para investir na empresa. Segundo a Junta Comercial de São Paulo, os sócios da Xis são apenas Maximiano e seu filho e não se trata de uma sociedade anônima nem de um fundo. Naquele período, segundo o empresário afirmou à imprensa, o objetivo era de que a Xis tivesse a adesão de ao menos 60 mil residências em Águas Lindas de Goiás. Quase dois anos depois, foram apenas 4.972.

Carbonari, que também ocupava o posto de vice-presidente de Relações Institucionais da Xis, não é mais o rosto da empresa. Desde 2020, é investigado no âmbito da Operação Descarte, da Polícia Federal, que apura o uso de empresas de fachada para lavar dinheiro com o intuito de sonegar impostos. Segundo as investigações, sua empresa, IMA do Brasil, superfaturava produtos para lavar dinheiro de caixa dois para o banco BMG, cujos executivos também são investigados. O executivo teve os seus sigilos bancário e fiscal quebrados em 2020, mas o Ministério Público ainda não apresentou denúncia contra ele. Na quebra de sigilo bancário da Precisa, que foi entregue à CPI da Pandemia, a firma investigada de Carbonari, IMA, recebeu 90 mil reais da empresa de medicamentos. Carbonari não respondeu aos contatos da reportagem. A Xis Internet Fibra foi procurada diretamente e por meio da Precisa Medicamentos, mas não respondeu à reportagem.

Ana Clara Costa (siga @anaclaracosta no Twitter)

Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época

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