questões de mídia e política

Lula bate Bolsonaro, mas perde do arroz

Nas redes, vídeo do ex-presidente fez mais sucesso que pronunciamento oficial; inflação dos alimentos dominou semana

Pedro Bruzzi
10set2020_17h41
Intervenção de Paula Cardoso sobre fotos de Marcos Corrêa/PR/Agência Brasil e Marlene Bergamo/Folhapress
Intervenção de Paula Cardoso sobre fotos de Marcos Corrêa/PR/Agência Brasil e Marlene Bergamo/Folhapress

O presidente Bolsonaro escolheu falar à nação em rede nacional, no Dia da Independência, 7 de setembro, às 20 horas. Panelaços – com menor força do que no início da pandemia – foram ouvidos em algumas cidades. Com pouco menos de três minutos, fez um pronunciamento burocrático, protocolar. Lula também se apresentou, num vídeo mais longo, de 24 minutos. Mas quem roubou a cena nas redes foi, novamente, o deputado André Janones (Avante-MG), falando do auxílio emergencial e do preço dos alimentos.

Apesar de todo barulho, o presidente Bolsonaro não incluiu em sua fala nada sobre o aumento de preços dos alimentos nem tratou da redução do auxílio emergencial, temas que vêm sendo caros a ele nos últimos dias. O ponto alto (ou baixo) do pronunciamento oficial de Bolsonaro foi quando falou sobre a sombra do comunismo” que, segundo ele, ameaçou o Brasil nos anos 1960. Falou para o seu público, como em diversas oportunidades. Nada de novo no front.

  

O interesse das redes no pronunciamento do presidente foi proporcional à intensidade de seu texto. No YouTube, o canal TV BrasilGov (773 mil inscritos) registrou até 9 de setembro aproximadamente 108 mil visualizações. Bem diferente daquele enérgico Bolsonaro no pronunciamento de 24 de março, quando falou de seu histórico de atleta” e alcançou mais de 5,4 milhões de visualizações.

 

Mesmo em seu canal no YouTube, Bolsonaro não empolgou. Com 3,1 milhões de inscritos, obteve pouco mais de 106 mil visualizações até o momento do fechamento deste texto.



Acontece que nas redes sociais a precedência às vezes importa.

Enquanto Bolsonaro desfilava, sem máscara, com crianças, também sem máscara, numa tarde inédita de 7 de setembro sem parada militar, onde levantou a neta de um colega da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras) (o post com a imagem registrou mais de 200 mil interações no Facebook), Lula estava esquentando os motores no mundo online. Havia anunciado que faria um discurso à nação, assim como quando era presidente, e se preparava para publicar sua fala gravada.

 

Mas como competir com toda a máquina de propaganda do governo e mais, com as próprias redes sociais do bolsonarismo? Vencê-las é tarefa quase impossível. Rivalizar de igual pra igual é quase uma vitória. E neste episódio a precedência importou, mas o conteúdo também parece ter importado.

Ainda que longos, os mais de 23 minutos da fala do ex-presidente, ao menos para as redes, tinham um conteúdo com alguma novidade. Lula começou falando sobre a pandemia. Carregou na emoção ao falar dos mais de 125 mil mortos com nome, sobrenome e endereço”. Chamou o governo Bolsonaro de insensível, irresponsável e incompetente” logo de cara, e o conteúdo viralizou. Somente em seu canal do YouTube foram mais de 678 mil visualizações (cinco vezes o registro do canal de Bolsonaro).

 

Com temas atuais e surfando no que está em alta no debate das redes sociais, falou de auxílio emergencial, inflação e também sobre o ministro militar na pasta da Saúde, que não entende muito do assunto que comanda. Tratou de soberania nacional e soberania popular. Esboçou uma ainda tímida autocrítica. Propôs até um novo contrato social. E, no fim, arriscou uma citação de Victor Hugo: “É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos.” Somando os canais da Rede TVT e do PT Nacional no YouTube, alcançou mais cerca de 100 mil visualizações.

Ainda assim, mesmo obtendo um resultado mais satisfatório que Bolsonaro no YouTube, Lula teve menos da metade de menções que Bolsonaro no Twitter. De todo modo, para o petista é razoável, se compararmos aos dias anteriores. No dia 7 de setembro, o volume de menções sobre ele foi quase 370% maior que o do dia anterior, enquanto Bolsonaro teve um aumento de apenas 6% no Dia da Independência.

Na estratégia do Facebook, outra improvável vitória de Lula, ao menos no número de visualizações dos vídeos reproduzidos dos pronunciamentos. Comparando os cinco perfis apoiadores do petista (incluindo o próprio) que publicaram o pronunciamento na íntegra e obtiveram maior número de visualizações (Lula, Gleisi, Rogério Correia, Henrique Fontana e Jornalistas Livres) com os perfis bolsonaristas mais visualizados que fizeram o mesmo (Jair Bolsonaro, Carla Zambelli, TV Brasil, Eduardo Bolsonaro e Bia Kicis), tem-se 2,8 milhões de visualizações de Lula contra cerca de 2,1 milhões de Bolsonaro.

Mas, como diz a terceira lei de Newton, toda a ação tem uma reação de igual intensidade.  Bolsonaristas subiram, no dia seguinte, a hashtag #LulaVoltaPraCadeia, registrando mais de 135 mil menções até o dia 8 de setembro. Outra ação organizada pelo grupo foi dar “dislike” nos canais de YouTube com vídeos da fala de Lula. Tudo isso evidenciou o incômodo dos apoiadores do governo nas redes.

Em determinado trecho da fala de Lula, ele se intitulou como o menino que desmentiu a lógica”. No dia 7 de setembro de 2020, nas redes sociais, houve um espasmo que também desmentiu a lógica.

 Enquanto tudo isso acontecia, o deputado André Janones dava seu show. Realizou duas lives em seu perfil do Facebook, somando 3,8 milhões de visualizações. Sozinho, desbancou Lula e Bolsonaro juntos. Além de abordar seu tema principal (auxílio emergencial), trouxe novos assuntos, com destaque para uma detalhada explicação de sua teoria sobre a alta de preços de alimentos. Por fim, sua proposta para resolver o novo problema: apresentar um PL proibindo o aumento de preço de itens da cesta básica durante a pandemia.

No Dia da Independência, Janones acertou… quem venceu foi o arroz.

      

Pedro Bruzzi

Sócio da Arquimedes, consultoria de análise de mídias sociais. É mestre e graduado em administração pela Fundação Getulio Vargas.

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