tribuna da educação

Mais nebuloso e mais conservador

Professores respondem a tréplica de Benamê Kamu Almudras

Demétrio Toledo, Regimeire Maciel, Maria Carlotto e Flávio Francisco
06maio2021_17h37
Escárnio, obra de Hirotoshi Ito, em foto feita pelo autor/ intervenção de Paula Cardoso sobre a foto original

No texto Uma visão nebulosa e conservadora (piauí_174, de março) apontamos como o artigo Parece revolução, mas é só neoliberalismo (piauí_172, de janeiro) tinha por alvo principal não o que seu autor chama de “neoliberalismo cultural”, mas as políticas de democratização da universidade pública e o consequente aumento do protagonismo de novos grupos raciais, sociais e de gênero no ambiente antes elitista e discriminatório do ensino superior.

Como dissemos, o autor, apesar de não atacar frontalmente as políticas de inclusão na universidade, se colocava em oposição a elas, na medida em que investia contra uma de suas mais importantes consequências: o questionamento, por recém-ingressos na universidade, de práticas, procedimentos, programas, temas de pesquisa e até mesmo do vocabulário que até agora imperou, inconteste, na universidade.

Em sua edição de maio, a revista publicou uma tréplica do autor (Pós-verdade e carteiradas da identidade, piauí_175) ao nosso artigo, que revela como eram acertadas as críticas que lhe fizemos.

O texto Parece revolução, mas é só neoliberalismo obteve grande repercussão, mas o mais interessante não foi a magnitude da reação, mas seu caráter cindido. Essa cisão expressa a divisão corrente nos debates políticos e intelectuais sobre a questão racial no Brasil e o papel da universidade no enfrentamento das desigualdades históricas. De um lado estão aqueles que lutam para que a inclusão de novos grupos sociais e raciais se intensifique e leve a uma transformação da universidade como forma de enfrentar as desigualdades. De outro, aqueles que, apesar de serem formalmente a favor da inclusão, se incomodam com suas consequências e veem na ampliação do acesso à universidade pública um ataque à meritocracia.

Em nosso artigo, explicitamos essas posições e nos colocamos ao lado de uma delas. Não temos, portanto, a pretensão de professar um universalismo desinteressado, menos ainda forjado no anonimato, como o da pessoa que se autodenominou Benamê Kamu Almudras. Fazemos parte de um conjunto amplo de intelectuais e ativistas que criticaram abertamente o conteúdo do primeiro artigo pelo caráter conservador e preconceituoso de suas posições e por sua limitação intelectual, revelada tanto no uso pedestre do conceito de neoliberalismo quanto na incapacidade de entender do ponto de vista histórico e sociológico a profunda transformação em curso na universidade pública brasileira.

Embora o autor (ou autora?) tente no primeiro texto e na tréplica apresentar sua posição como uma denúncia desinteressada de supostos ataques feitos à universidade pública pela “esquerda neoliberal” ou identitária, ele toma posição clara nesse debate. Ao destacar o impacto do que chamou de uso instrumental da identidade, acaba por atacar o processo de democratização da universidade pública, que tem nas cotas étnico-raciais e em suas consequências a sua característica definidora.

O autor tem plena consciência dos limites que ultrapassou ao apresentar uma visão conservadora e preconceituosa: o anonimato revela que ele sabe que sua posição é retrógrada e será criticada como tal.

O tema de fundo do seu primeiro artigo reaparece nos termos usados na tréplica. Ao recorrer aos termos identidade e identitária, o autor ativa o recurso do dog whistle, em que o emissor de uma mensagem se utiliza de palavras e expressões-chaves para despertar e atrair indivíduos que compartilham da mesma posição política que ele.

 

A expressão “causa identitária” mobiliza afetos e subjetividades de pessoas que têm dificuldade para compreender a função da raça e do gênero nas dinâmicas sociais e, consequentemente, propor uma agenda que contemple os sujeitos subalternizados pela história brasileira. Os dois textos do autor anônimo mostram o quanto é difícil para alguns entender o lugar do racismo na conformação das relações sociais.

O ativismo antirracista e a intelectualidade comprometida com tal luta elaboraram uma interpretação sobre a abrangência desse processo na sociedade brasileira que retirou o foco dos comportamentos individuais e mostrou que o racismo é um processo sistemático e sistêmico de opressão e exploração. O autor, que pretende denunciar o individualismo dos neoliberais culturais, trata um problema social e coletivo, o racismo, como questão individual.

Além de revelar uma profunda incompreensão do que é o racismo na sociedade brasileira, também demonstra não saber o que é preciso fazer para enfrentá-lo. Por exemplo, ao mencionar o caso de um docente que foi acusado de racismo pela aluna depois de reprová-la, o autor afirma que “o professor caluniado, entusiasta da diversificação racial na universidade, havia incentivado e ajudado a citada aluna a entrar no mestrado. A disciplina que ele lecionou e que ela não frequentou era sobre racismo, colonialismo e capitalismo; a maior parte da bibliografia era escrita por autores não brancos”. Conclui dizendo que “essa mestranda perdeu a rara oportunidade de conhecer e discutir textos sofisticados sobre questões raciais, escritos por autores negros”.

Ora, ensinar pessoas negras ou ler as obras escritas por elas não torna ninguém automaticamente antirracista, assim como ser entusiasta da “diversificação racial” não é o mesmo que se comprometer com a luta contra o racismo. Para ser antirracista é preciso, entre outras coisas, saber refletir com serenidade sobre suas concepções de mundo quando alguém aponta como atos, palavras e opiniões resvalam para o preconceito racial. A tréplica simplifica essas questões e realiza aquilo que condena, ao fazer a apropriação oportunista de uma questão que é mais ampla e publicar opiniões preconceituosas.

As mudanças já produzidas nos currículos, resultantes da adoção de ações afirmativas no acesso à graduação e à pós-graduação, não podem ser usadas como salvo-condutos para práticas racistas ou como mecanismo de concessão de “selo antirracista”. São medidas necessárias, mas ainda insuficientes para a reformulação das bases da universidade. A instrumentalização que o autor faz das ações afirmativas e seus resultados produz um antirracismo apenas performático que muda muito pouco as coisas – ou quase nada.

Incompreensões desse tipo perpassam os dois artigos do autor, revelando seu escasso domínio intelectual e político sobre a questão racial e os desafios de ensinar e pesquisar na universidade brasileira atual, em processo de democratização. Somados ao anonimato e às anedotas citadas por ele para sustentar sua opinião, os textos resultam, como continuamos a dizer, em uma posição nebulosa e conservadora.

*

NOTA DA REDAÇÃO: Com este texto a piauí encerra a publicação de artigos a respeito do ensaio Parece revolução, mas é só neoliberalismo. Outras manifestações sobre o mesmo tema podem ser enviadas na forma de cartas para o e-mail redacaopiaui@revistapiaui.com.br 

Demétrio Toledo

É professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC

Regimeire Maciel

É professora de políticas públicas na Universidade Federal do ABC

Maria Carlotto

É professora de relações internacionais na Universidade Federal do ABC

Flávio Francisco

É professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC

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