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Mais que um rebanho

Bolsonaro vem perdendo o voto evangélico, mesmo apoiado por líderes religiosos

Ana Carolina Evangelista
26out2018_07h30

Ainda antes do primeiro turno o que mais se lia sobre a subida do candidato Jair Bolsonaro nas pesquisas dizia respeito à antecipação do segundo turno e à responsabilidade “dos evangélicos” e do tal “efeito Edir Macedo”. Sua candidatura acabou crescendo dias antes da primeira votação. Na população em geral e mais fortemente no segmento evangélico.

Mas o que está por trás desse voto evangélico no candidato do PSL? As motivações são muito distintas dos demais segmentos da sociedade? Podemos falar em “voto evangélico” no geral? É um voto de “siga o líder religioso” como se tem dito por aí?

Primeiramente é preciso entender que o segmento evangélico não está apartado da sociedade, está conectado a demandas e a dinâmicas sociais que não dizem respeito apenas à sua identificação de fé. Segundo, esta população cresce em todos os estratos sociais, mas está predominantemente na base da pirâmide social. Os crentes são em sua maioria pobres e estão nas periferias dos centros urbanos. Vivenciam cotidianamente a ausência do Estado nesses territórios e têm opiniões e reações sobre isso.

As eleições deste ano vão deixando claro que existem alguns eixos orientadores da preferência pela candidatura Bolsonaro: um antipetismo de diferentes motivações, a demanda por mais segurança num país que mata mais de 63 mil pessoas por ano, o combate à corrupção que vê na antipolítica uma resposta e a agenda moral – valores da família, sexualidade e questões de gênero. Isso também está presente com força no segmento evangélico.

Esse “antipetismo” em específico, ou uma espécie de “antiesquerdismo” em geral, está relacionado à questão da corrupção e à proteção da família, mas também à ausência de políticas públicas nos territórios periféricos. Parte desse eleitorado que adere ao Bolsonaro se pergunta “quem pode mudar a minha vida depois de anos de governos do PT?”. Não é um voto de “rebanho religioso” apenas, é um voto crítico com base em insatisfações e demandas reais.

Importante lembrar que, no primeiro turno, quando o Lula ainda era o candidato do PT, ele liderava as intenções de voto também no segmento evangélico, seguido de perto por Jair Bolsonaro – numa espécie de deslocamento da figura do Lula do que seria o “antipetismo” presente na sociedade. Assim que se consolida a ausência do ex-presidente no pleito, Bolsonaro nunca deixa de liderar.

Quando, ainda no primeiro turno, indica-se que o embate seria com o candidato do PT, os ecos da candidatura Bolsonaro foram se expandindo para além do seu nicho inicial. Isso também aconteceu no estrato evangélico. Ainda que seja mais fácil a todos nós atribuir essa ascensão entre os evangélicos ao “efeito Edir Macedo”, isso não é correto. O mundo evangélico é mais heterogêneo e amplo do que apenas os membros da Igreja Universal do Reino de Deus, e mesmo entre eles, as demandas reais da população já estavam lá.

Quando atribuímos tudo ao tal “efeito Edir Macedo” estamos, por um lado, afirmando que aproximadamente um terço da população brasileira acima de 16 anos não tem opinião própria e, por outro, atribuindo ao Bispo Macedo uma escala de poder que no fundo ele adoraria ter. Ele agradece quando fazemos isso. Suas barganhas sobem de valor e ele vai poder cobrar mais caro as faturas de quem quer que assuma o governo depois. Ele surfa uma onda, que ele sabe já estar se formando, para chegar na praia como campeão. Entra eleição, sai eleição, e sempre fazemos esse favor a ele ao interpretarmos os votos evangélicos como rebanho do Bispo.

Isso significa dizer que toda a máquina que ele tem por trás de business religioso e de mídia – com a TV Record – não tem nenhum impacto? Claro que não. Mas a sua ação tem mais influência por ser um “business”, do que pelo componente religioso. É mais uma máquina empresarial que coloca seus recursos à disposição para influenciar eleitores e os rumos políticos do país, do que uma influência religiosa ou de fé.

Outro elemento muito atribuído ao crescimento da candidatura Bolsonaro foi a adesão de outras lideranças evangélicas na reta final e a disseminação de notícias falsas.

É importante separar o peso dos dois movimentos. Quem acompanha grupos evangélicos sabe que a disseminação de notícias falsas, principalmente no que se refere à chamada agenda moral, é antiga e vem sistematicamente relacionando “ameaças morais” a partidos, ativistas ou políticos de esquerda. A adesão, portanto, de diferentes lideranças mais midiáticas e de perfil mais impositivo sobre suas bases encontra, na reta final, um terreno já semeado.

Já a disseminação de notícias falsas, que aconteceu de ambos os lados, acabou tendo um efeito importante especialmente no eleitorado evangélico voltado ao candidato Bolsonaro. Porque focou nas pautas morais, no caso do segmento religioso, e porque o eleitorado bolsonarista é o que mais se informa por meio de redes sociais.

 

De acordo com pesquisa Datafolha, são os eleitores de Bolsonaro os que mais se informam sobre política pelas redes sociais, 61% considerando o Facebook e 57% o WhatsApp. Entre os eleitores de Haddad está em 40% e 38% respectivamente. Os bolsonaristas também lideram no hábito de assistir a vídeos sobre política na internet – 63% disseram que sim, e 43% no eleitorado Haddad.

A possível movimentação desse eleitorado durante o segundo turno também reforça a tese de que existem nuances. Mesmo com o bombardeio midiático de diferentes lideranças religiosas, Bolsonaro vem perdendo votos nesse segmento pela primeira vez.

Se observarmos a curva de intenção de voto entre o segmento evangélico, ela aponta pra baixo no caso do Jair Bolsonaro – passando de 66% para 59% – e aponta para cima no caso do Fernando Haddad – passando de 24% para 27%. Um crescimento menor do que a queda do seu adversário, uma vez que brancos/nulos e “não sabe” também cresceram.

Intenção de voto entre o segmento evangélico:

(Pergunta original da pesquisa: Se o segundo turno da eleição para Presidente da República fosse hoje e os  candidatos fossem estes, em quem o(a) sr(a) votaria?)

Fonte: Ibope, 15/out e 23/out.

Outra dado importante é aquele que indica certeza no voto. Entre evangélicos, Haddad caiu de 60% para 48% dos eleitores que afirmam que “não votariam nele de jeito nenhum”. Ao mesmo tempo, Jair Bolsonaro também caiu 12 pontos, mas entre quem afirma que “votaria nele com certeza” – passando de 55% para 43%, como indicam os gráficos a seguir:

Opinião sobre Fernando Haddad entre evangélicos:

(Pergunta original: P.07A) Para cada um dos candidatos a Presidente da República citados, gostaria que o(a) sr(a) dissesse qual destas frases melhor descreve a sua opinião sobre ele: Fernando Haddad.)

Fonte: Ibope, 15/out e 23/out.

Opinião sobre Jair Bolsonaro entre evangélicos:

(Pergunta original: P.07A) Para cada um dos candidatos a Presidente da República citados, gostaria que o(a) sr(a) dissesse qual destas frases melhor descreve a sua opinião sobre ele: Jair Bolsonaro.)

Fonte: Ibope, 15/out e 23/out.

A variável “com certeza votaria nele” para Jair Bolsonaro caiu mais acentuadamente entre evangélicos do que entre católicos e a população em geral.

Fonte: Ibope, 15/out e 23/out.

A que se devem essas mudanças? Ainda é cedo pra dizer. Algumas hipóteses passam pela orientação da campanha de Fernando Haddad em levar propostas concretas para o diálogo com a diversidade desse segmento e pelo investimento em desmentir notícias falsas, principalmente relacionadas ao campo moral.

Com apenas duas pesquisas feitas por um mesmo instituto no segundo turno, não podemos indicar que existe uma tendência consolidada de reversão, mas sim que existe uma movimentação no eleitorado evangélico. É mais um elemento a mostrar que não se trata de um eleitorado que segue orientação automática de suas lideranças religiosas.

Ana Carolina Evangelista (siga @caroevangelista no Twitter)

Cientista política, é jornalista no programa GregNews, da HBO, e pesquisadora do ISER

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