despedida

13 mil volts

Um gari eletrocutado enquanto colhia manga no pé

Mônica Manir
ILUSTRAÇÃO: BETO NEJME_2020

O português José Andrade Nunes subia a rua em direção a seu bar quando ouviu um pedido de socorro que partia do alto de uma mangueira. Ao pé da árvore, dois garis gritavam: “Se joga, se joga!” Nunes não ligou muito para o fuzuê porque uma porção de gente escalava aquela mangueira atrás dos frutos carnudos, não raro com certo estardalhaço. Pouco depois de o comerciante erguer a porta do boteco, porém, um freguês lhe contou, assustado: “O cara foi pegar manga e esbarrou no fio.” O dono do estabelecimento largou o pano com que já limpava o balcão e correu até a esquina. “Só vi o fogaréu…”, relembra.

O pernambucano Mário Galdino Pereira, de 52 anos, morreu no primeiro domingo de janeiro. Trabalhava como varredor de feira livre para a Ecoss Ambiental, concessionária que presta serviços de limpeza pública em cinco subprefeituras de São Paulo. Naquela manhã, ele passou pela empresa, saiu com o uniforme laranja fluorescente e se pôs a percorrer o bairro da Lapa. Ao chegar à Rua Domingos Rodrigues, decidiu galgar a mangueira de 8 metros de altura. Logo atingiu o topo, de onde começou a jogar os frutos para os dois colegas que o observavam da calçada. A árvore estava molhada pelas chuvas de verão. Provavelmente, o varredor escorregou num dos galhos. Para não cair, agarrou o fio de alta tensão que atravessava a copa da mangueira. Tomou um choque de 13 mil volts, e seu corpo se incendiou em segundos.

“Não entendo o que deu nele para subir lá em cima. Meu marido detestava altura”, diz a orientadora socioeducativa Rosália Pires Araújo. Ela recorda que, tempos atrás, Pereira se demitiu de uma empresa por não querer ficar pendurado para limpar vidraças. “É mesmo difícil entender por que o gari cismou de pegar fruta na mangueira”, concorda o dono do bar. “Às quintas, tem feira no bairro. Nenhum dos varredores precisava trepar na árvore, já que eles sempre ganhavam dos feirantes as mangas que sobravam.”

No domingo trágico, o pernambucano levou o café da manhã para a mãe – que morava perto dele, na Comunidade do Cingapura Água Branca –, pediu à mulher que preparasse costela para o almoço e foi trabalhar. Por volta das duas da tarde, a família soube do acidente. Ainda inconformada, a mulher de Pereira lamenta que tenham deixado a mangueira encobrir o fio. “Árvore é como filho. Você bota no mundo, cria, mas precisa podar.”



No dia seguinte, um morador de Taguatinga, no Distrito Federal, também foi eletrocutado quando tentava apanhar mangas. José Assis Filho, de 66 anos, subiu no pé com um colhedor de fruta improvisado na ponta de uma vara metálica. O artefato resvalou num dos três fios que perpassavam a copa. Assis Filho despencou de 4 metros, já sem vida por causa do choque.

 

No ano retrasado, ao menos oito pessoas morreram eletrocutadas no país enquanto colhiam frutas ou sementes de árvores altas, segundo a Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade. A Abracopel levantou os dados em notícias divulgadas pela internet. “Estima-se que o número real de acidentes seja, no mínimo, cinco vezes maior”, afirma o engenheiro eletricista Edson Martinho, um dos diretores da associação. A idade de quase todos os mortos variava de 21 a 40 anos. Como o varredor da Lapa, a maioria era do sexo masculino.

No Brasil, a eletrificação das cidades – que se iniciou no século XIX – ainda prioriza os fios aéreos. Não bastasse, um emaranhado de cabos de telefone, internet e tevê por assinatura somou-se mais recentemente à fiação elétrica. “Creio ser impossível compatibilizar os fios com as árvores. Elas sempre perderão, pois acabam sofrendo podas mutiladoras, que cedo ou tarde irão fazê-las cair”, avalia o paisagista Ricardo Cardim, mestre em botânica pela USP e consultor em biodiversidade nativa.

Uma lei paulistana de julho de 2005, regulamentada em 2006, obrigava empresas estatais e prestadores de serviços que usam cabos aéreos a enterrar até 250 km de fiação por ano. No entanto, em 2015, a Justiça suspendeu essa obrigatoriedade, acatando a tese sustentada pelo Sindicato da Indústria da Energia no Estado de São Paulo de que o enterramento de fios é competência federal e de que os municípios não podem legislar sobre o assunto. Assim, dos quase 74 mil km de cabos que percorriam a capital no primeiro semestre de 2019, apenas 17% conheciam os seus subterrâneos.

O que se viu, em contrapartida, foram cartilhas de concessionárias de eletricidade incentivando a população a plantar árvores de pequeno porte para evitar o contato com os fios. A iniciativa gerou um excesso de “arborização anã”, nas palavras de Cardim. “Diferentemente das árvores grandes, os arbustos não trazem muitas vantagens ambientais à população. Ou melhor, não oferecem sombra nem diminuem a temperatura do entorno”, explica o paisagista.

Assim que o corpo do varredor foi retirado dos galhos, a Enel – distribuidora de energia elétrica no estado de São Paulo – finalmente tratou de podar a mangueira. Deixou-a tão sem folhagens que a árvore agora mais parece um gigantesco estilingue. Secando a testa com um lenço azul, Araldo Darcy Villar, de 84 anos, olhava tristonho para o resultado do corte radical. Foi ele quem, três décadas atrás, plantou uma mudinha da mangueira em frente à própria casa. De lá para cá, viu levas de aventureiros encarapitados no tronco robusto, à caça das frutas.

 

Oito dias depois da tragédia com o gari, o prefeito Bruno Covas sancionou uma lei que autoriza os paulistanos a contratar empresas privadas para a poda de árvores em casa ou nas calçadas dos imóveis onde moram. O trabalho deve ser avalizado pelo parecer de algum técnico – um agrônomo, um biólogo ou um engenheiro florestal, devidamente inscrito em seu respectivo órgão de classe. A prefeitura alega que só dessa maneira conseguirá desafogar a fila com 14 mil pedidos de corte ainda não atendidos.

Contrário à medida, Ricardo Cardim teme que “uma indústria de laudos duvidosos” se imponha e que haja uma proliferação de podas desnecessárias. “Afinal, muita gente não gosta de árvore por motivos que me parecem supérfluos, como a sujeira trazida pela queda de folhas.” Ao terceirizar não apenas o corte, mas também vistorias que exigem neutralidade e desinteresse econômico, o governo pode deixar de proteger justamente o elo mais fraco da corrente.

Mônica Manir

Jornalista com mestrado e doutorado em bioética

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