minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

    FOTO: STEVE MCCURRY_MAGNUN PHOTOS

vir e ir

A cidade das coisas perdidas

A rodoviária do Tietê é um lugar onde mocinhas sobem as escadas do desembarque sem olhar para trás, homens ultrapassam a linha amarela para abraçar parentes, onde se podem comprar cisnes dourados ou recolher latinhas de alumínio, e é normal carregar carne-seca com vermes brancos

Vanessa Barbara | Edição 22, Julho 2008

A+ A- A

A rodoviária do Tietê, em São Paulo, é uma cidade de coisas perdidas. “O caça-níqueis está aqui há dois anos”, informou a funcionária, mostrando uma lista que enumerava o esquecimento de espingardas (duas), motocicletas (duas), um banco de kombi, uma máquina de serrar azulejos, camas, muletas, motores de moto, pneus, dentaduras e uma mão mecânica.

“Às vezes vem gente procurando amigos desaparecidos: mostram a foto e perguntam se já encontraram”, contou Andréia, que trabalha no setor de Achados e Perdidos. De fato, muitos pernambucanos, baianos, peruanos ou mineiros perderam-se há algum tempo em São Paulo e continuam deslocados, reprimindo a cada dia o desejo de voltar para casa (depois, talvez, quando os guris crescerem e sair a aposentado-ria). Têm nomes como Rosa, Hugo, Rosângela, Ivonete, José Fernando, Cláudio, Edilene. Vagam pela cidade junto aos guarda-chuvas esquecidos, aos botões que se desprenderam, às dentaduras e todas essas coisas que não se sabe mais onde estão.

A rodoviária é uma cidade de pessoas que andam com um enor-me fiapo preso aos pés, de gente que derruba café no chão e joga o papel higiênico fora do lixo. De moças que exigem cartões telefônicos e praguejam do alto de seus óculos escuros. É uma cidade de homens que preenchem o formulário de sugestões apenas para reclamar, que acendem velas dentro do guarda-volumes e resmungam que todos ali são incompetentes. De gente que sugere a instalação de um ar-condicionado com urgência, porque na Europa…

Uma cidade onde é necessário pedir autorização para conversar com os funcionários; onde é proibido fotografar os ônibus, e os seguranças cumprem ordens do diretor-assistente administrativo, detentor de um escritório espaçoso e um farto bigode. Na rodoviária, milhares de pessoas acotovelam-se numa fila para comprar bilhetes, outras andam de um lado para outro ou arrumam encrenca, alguns empurram os funcionários na plataforma de desembarque ou ameaçam agredi-los a socos — mas as sugestões, meu senhor, devem ser preenchidas com letra de forma neste formulário específico, numerado e identificado, para que possamos…

É uma cidade onde os passageiros de Holambra ficam agradecidos e oferecem estadia e flores aos funcionários; onde a atendente ganha um pão de queijo e um aceno da moça que não sabia ir a Santo Amaro. É uma praça pública onde a senhora da limpeza conversa com uma avó de três crianças, e como isso aqui é grande, hein?, eu demoro duas horas para voltar para casa (e eu, 37), mas só saio daqui às dez.

Nos corredores do terminal, 100 mil cafezinhos e 12 toneladas de pão de queijo são consumidos por mês, 300 quilos de chiclete desgrudam-se do chão a cada grande faxina e 60 mil passageiros vão e vêm, a cada dia. Todo mês, 1,4 milhão de créditos telefônicos são consumidos nos orelhões, o que equivale a 46 mil horas de conversa ou 84 milhões de “alôs” repetidos à exaustão. São 63 lojas e onze quiosques, 650 quilowatts de energia por hora, 9 milhões de litros de água e 1 mil quilômetro de papel higiênico (dentro ou fora dos cestos de lixo). Ao todo, 1 806 funcionários trabalham em três turnos: 445 na administração, 346 nas lojas, quatro mocinhas no balcão de informações e a filosófica atendente Rosângela, que odeia quando não olham para ela e lhe cospem ordens, números ou interrogações sem sentido.

Para muitos, a rodoviária é um grande shopping center visto com os olhos de um contador: massas numéricas e estatísticas de porcelana. Mas talvez seja um lugar onde mocinhas sobem as escadas do desembarque sem olhar para trás, homens ultrapassam a linha amarela para abraçar parentes e um velhinho cochila em silêncio, em cima de sua bengala. No terminal, o usuário pode polir sapatos em máquinas elétricas (sala VIP) ou derrapar em salgadinhos Chipola (plataforma 82). Pode comprar cisnes dourados na tabacaria ou recolher latinhas de alumínio dos cestos de lixo.

Na rodoviária do Tietê, é normal colocar tigres de pelúcia na cabeça, dançar em trenzinhos de conga, cumprimentar os lojistas todos os dias às 7 horas em ponto, carregar carne-seca com vermes brancos ou sentar-se em um dos 1 200 bancos de espera para tirar os sapatos (aliviado). Pode-se dançar com uma bolacha de maisena na mão ou mostrar a fralda para os transeuntes. Pode-se ir para Piracanjuba ou para Morro do Chapéu, pode-se voltar de Buenos Aires e depois tomar um banho, após deixar 10 reais para garantir a toalha.

Também é possível pesar os volumes na Viação São Geraldo, pedir ajuda aos carregadores de amarelo — e, se você for freira e isso for mesmo necessário, embarcar sua prancha de surfe sem problemas. Nos corredores do Tietê, alguns aceleram o passo mesmo sem ter motivo e perguntam aos gritos onde fica o guichê da Cometa, mas também é permitido parar em algum canto e ficar ali, de bobeira, conversando com o Papai Noel ou com uma senhora de blusa de lã que diz (de repente) que a Marinha britânica está vindo buscá-la.

A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas.

 

Dez horas da noite.

Dona Rosa continua sentada, no meio do terminal: mãos juntas sobre o colo, olhar calado, blusa de lã.

Sapatos brancos, ou quase brancos.

Setenta anos — oitenta, talvez.

São Paulo tem muita violência, né?, muita morte.

“A gente vê nos jornais.”

Saia azul-marinho comprida para o corpo miúdo e encurvado. Coque impecável, bem no topo da cabeça.

Dona Rosa diz que a Marinha britânica vem buscá-la.

O nome dela não é Rosa. Nunca foi. Deve ser algo como Natasja Nicholaievna, espiã austro-húngara. Especialista em criptografia. Mas ela se recusa a dizer como se chama. Também não conta de onde está vindo. “De outro estado”, afirma, incomodada. Ela repete a toda hora que não tem nada a dizer. Não tem o que falar. Mexe-se na cadeira, encarando tudo com os olhos negros e agitados. Às vezes, diz que mora na Consolação. Depois, revoga tudo o que disse e também todas as disposições em contrário.

O problema é que a Marinha britânica só vem amanhã, ela deixa escapar de repente.

— Amanhã? E você vai ficar aqui sozinha?

— Não, não. — Ela olha para os lados, apreensiva, e sussurra: — Eles estão aqui.

Silêncio. Momentos de suspense. Chego mais perto. Com os olhos arregalados e o tom de segredo, pergunto, meio sem jeito:

— “Eles” quem?

— Eles!

Dona Rosa fica impaciente e responde mais alto, bem brava, como se eu fosse maluca:

— Você não está vendo? Está cheio de gente aqui!

— Bem-vindo a Le Postiche!

O vendedor usa um grande button no qual está escrito: HUGO.

— Hmm, você está com cara de quem vai viajar.

“Boa, a piada”: foi o olhar de resposta.

— Olha, eu tenho uma mala ótima.

E começa a mostrar um enorme monolito vermelho, uma mala medonha de 1 metro de altura, para esconder bebês e dar pequenas festas infantis, usar como bote in?ável, sei lá. “Eu cresço 30 centímetros”, é o que está escrito nela, “basta abrir o zíper”. Hugo continua a discorrer sobre as qualidades do produto, abrindo e fechando a mercadoria, mostrando os compartimentos e falando da durabilidade do material. Ao preço de 224 reais, é a mais cara da loja. Por dentro, parece um caixão. Você compra uma mala para a vida toda e ela também lhe serve na hora da morte.

— Não precisa mostrar, não. Eu não vou comprar.

— Mas não tem problema! Tenho o maior prazer em atendê-la! Veja só que linda frasqueira.

— Não, eu não vim comprar nada, eu…

— Ahh! Você veio se esconder de alguém! Deve ser de um mala como eu.

Ele ri, sozinho, orgulhoso de seu trocadilho. Hugo trabalha na Le Postiche da rodoviária e sabe tudo sobre malas. E também sobre frasqueiras, mochilas, bolsas, cintos, carteiras, guarda-chuvas, porta-moedas. Facilidades que você nem supõe que existam (porta-dólares, porta-gravatas, porta-ternos). Veja só esta linda nécessaire — parece um produto comum, senhora, mas quando você abre, ela v…

Em meio à loja lotada, Hugo atende os clientes e vai derrubando coisas pelo espaço estreito. Dentro das malas há enchimentos de plástico, sacolas e jornal amassado. Hugo tira de dentro e vai jogando num cesto quando vende algo — mas nunca consegue fazer o serviço até o final, pois derruba várias pelotas de coisas no caminho. Preocupado em atender um casal, deixa cair um monte de sacos plásticos no chão. Hugo se abaixa para apanhar. Esbarra numa enorme sacola de papel, que tomba perto dele. Derruba uma bolsa. Põe no lugar. Deixa cair cartões, recibos, caixas de papelão e mochilas. Teria que contratar um gandula para segui-lo. A partir de um momento, desiste de recolher os despojos, que vai deixando pelo chão, tendo apenas o cuidado de não pisar em cima de algo importante. Por onde passa, deixa um verdadeiro rastro.

Por pouco, Hugo não cai também.

*

— Hoje é uma moça que vai te acompanhar até a plataforma, seu Cláudio.

— Oba! — responde o velhinho cego, que iria embarcar com a esposa, também deficiente visual, dali a pouco.

A funcionária Rosângela, do balcão de informações, se aproxima dos dois e pergunta qual deles gostaria de segurar seu braço, para que ela possa guiá-los.

— Eu! Escolhe eu! — pede Cláudio, com um sorriso.

A esposa apenas resmunga:

— Ô, velho assanhado! Melhor a moça ficar no meio.

E foram andando, um velhinho de cada lado. Ele, contente à beça; a mulher, meio emburrada. Mas a birra não durou muito: logo estavam se dobrando de rir quando, a certa altura, Rosângela perguntou se o casal tinha filhos.

— Não, moça — disse Cláudio. — Sabe o que é? É que a gente já casou com a validade vencida…

 

A pergunta é feita a um vendedor de milho cozido, em frente à rodoviária: “Tem água, tio?” Com uma expressão das mais sérias, ele tira a tampa da enorme panela onde as espigas cozinham em água fervente, e diz:

— Ôpa. Claro que tem. Só que está um pouco quente.

*

— Ninguém nunca conseguiu provar nada contra ele. Falam, falam, mas ainda não provaram que ele rouba.

Estava sentado num dos bancos do lotação Jardim Pery Alto-Tietê.

— Por isso eu vou votar no Maluf. Sempre apoiei ele, desde 1982.

Conversava com outro senhor grisalho; sua careca se movia como se estivesse discursando no parlamento romano. Não estava. Apertou os olhos e mostrou um porta-documentos de plástico.

— Vou votar nestes aqui: delegada Rose e Nelo Rodolfo. Grandes pessoas. E simpáticos.

O companheiro fez menção de dizer algo, mas ele continuou:

— Este documento aqui é da minha namorada. Fui ver a mulher ontem. Ela mora no Imirim, uma delas; a outra é de Cidade Tiradentes. Paula, o nome dela, moça muito bonita: tem olhos azuis.

Não faço idéia a qual das duas ele se refere.

— Porque é paulistana da gema, por isso é que é boazinha, se bem que a outra é de Belém do Pará. Pelo menos não é baiana, nunca mais caso com baiana.

O homem já falava alto. O topo de sua cabeça se voltava para todos os pontos cardeais quando ele se exaltava. O senhor sentado na poltrona ao lado limitava-se a assentir.

— Eu casei com uma baiana terrível — o monólogo continua. — O nome dela era Felizarda. Ela controlava a minha vida, a mulher só queria o meu dinheiro. E olha: era feia…

Riu, obviamente sozinho. Àquela altura, a lotação inteira escutava ou fingia não escutar, com o olhar parado em algum dos poucos fios de cabelo que lhe restavam.

— A minha irmã se chama Dirce — prossegue, com o indicador suspenso no ar, como se estivesse dando uma lição de moral. — A Dirce dizia para eu largar a Felizarda. E eu não largava. “Nilso”, ela dizia, a minha irmã, não a Felizarda, “ninguém pode ficar mandando na sua vidinha, não.” Mulher é uma peste, mulher nenhuma presta. Não é verdade? Todas elas.

Um dia ele tomou coragem e largou a Felizarda, no ano da graça de 1995, como pudemos atestar, e desde então se ocupava das coisas de sempre.

— Mais tarde eu vou para casa, tomo meu banho, coloco bermuda e escuto música. A Dirce, que é a minha irmã, também gosta de sertanejo. Eu já fui no Raul Gil cantar a música do Daniel, Meu reino encantado. E amanhã eu vou ao bingo.

Fazia tempo que ele não ia ao bingo, segundo o que eu e as duas senhoras sentadas à frente do homem pudemos apurar. Não tinha sabonete nem pasta de dente para levar de prenda, só que desta vez lhe disseram que não precisaria.

— Foi a Rosinha que me disse, Rosinha é companheira minha, eu encontrei ela na estação do metrô. De vez em quando eu vou catar latinha de alumínio no Tietê, ontem consegui dois reais e comprei um bife.

Só então percebeu que o homem ao lado estava de pé, indicando que queria passar. “Já vai descer?”, perguntou, recebendo uma resposta afirmativa, murmurante e de olhos baixos. Recomendou lembranças aos parentes e, enfim, deixou o outro escapar.

*

O movimento de saída dos paulistanos que pretendem deixar a cidade neste feriado de □ Carnaval □ Páscoa □ Natal já é intenso nas principais rodovias. De acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o trânsito é lento nos principais corredores da cidade, entre eles as Marginais Pinheiros e Tietê, pistas expressa e local, em ambos os sentidos e em praticamente toda a extensão. Nesta manhã/tarde, foram registrados ____ quilômetros de lentidão. A previsão é de que ____ carros deixem a cidade até amanhã.

A Polícia Rodoviária Federal informa que o movimento já é intenso na rodovia ____, para quem deixa a capital. A Ecovias, empresa que administra as rodovias Anchieta e Imigrantes, informou que ____carros utilizaram o sistema até as ____ horas, em média de ____ por minuto, quase ____ por segundo. A Ecovias prevê um total de ____ veículos até o término do feriado, dependendo das condições do tempo na capital.

Já a rodovia ____ apresenta lentidão por conta de um acidente envolvendo um ____ e um elefante, por volta das ____ horas de hoje. O motorista deve evitar o trecho interditado, que vai de ____ a ____. As informações são de que a pista deve ser liberada a partir das ____ horas, horário de Brasília.

Os três terminais rodoviários da cidade apresentaram movimento tranqüilo. De sexta até quarta-feira, ____ mil passageiros devem embarcar e desembarcar nos terminais do Tietê, Barra Funda e Jabaquara. Só no terminal do Tietê, foram ____ mil pessoas, ____ crianças e ____ animais peçonhentos. Estima-se que ____ mil pessoas sairão da capital entre sexta e sábado, embarcando nos três terminais. Esse movimento é ____% maior que o do ano passado.

O rodízio de veículos da capital está suspenso hoje e na segunda-feira.

 

A industrialização e o desenvolvimento urbano aceleraram as migrações no Brasil a partir da década de 50. Foi quando milhões de pessoas saíram de sua terra em busca de um emprego em São Paulo, para tentar “botar filho no colégio, dar picolé na merenda, viver bem civilizado, pagar imposto de renda” — nas palavras de Tom Zé —, “ser eleitor registrado, ter geladeira e tevê, carteira do ministério, ter CIC, ter RG”. Durante muito tempo, elas continuaram vindo e por aqui ficaram. Hoje, tentam voltar para casa, nem que seja apenas para passar o Natal.

Há vinte anos Ivonete não vê a filha mais velha, que deixou na cidade de Entre Rios, na Bahia. Apenas no final de 2002 é que ela conseguiu o dinheiro necessário para a passagem. “Eu pensava: será que vou morrer, será que nunca mais vou ver a menina? Mas graças a Deus ainda estou aqui”, disse, sentada no chão junto aos dois filhos e ao marido. “Tenho medo de que a minha filha não me reconheça.”

Ivonete e José Fernando vieram para São Paulo em 1982, com um bebê de 6 meses. Deixaram na Bahia a filha mais velha. José exerceu a profissão de pedreiro enquanto ainda era moço. Hoje, aos 55 anos, trabalha “por conta” e lamenta não encontrar serviço desde 1995. “Ninguém me dá trabalho porque sou velho”, diz. Após uns instantes de silêncio, ele ergue os olhos em direção à esposa e confessa, meio sem jeito: “Sessenta e cinco latinhas é 1 quilo. Mas até para catar latinha tem concorrência.”

Ivonete, elegante em sua saia comprida, sandália e cabelos presos num coque, dedos do pé pintados de cor-de-rosa, interrompe a melancolia e diz que finalmente vai rever o pai, de 82 anos, e a mãe, de 73. Rindo pela primeira vez, ela conta a história dos dois: “São uma comédia. Ele faz uma coisa e ela vai e desmancha. Ou então ele liga para mim dizendo: ‘Sua mãe arrumou outro namorado. Ela está estranha.’ Daí, logo em seguida, a velhinha entra na sala e começa a tirar o pó das coisas. O marido olha para ela e, sem reconhecê-la, resmunga: ‘Ainda bem que agora tenho outra mulher.'”

Ivonete gostaria de poder visitar mais parentes (uma irmã em Aracaju e um irmão no Rio), mas não tem dinheiro suficiente. Dessa vez, vai apenas a Entre Rios e leva parte da família — dois filhos. José vai passar o Natal em São Paulo com a outra menina do casal.

O caçula, de 6 anos, ouve a conversa sentado em cima de uma mala. Ivonete comenta que ele está triste e cansado. São quinze para as oito da noite e o ônibus sairá às 22 horas. A ansiedade é tamanha que todos concordaram em sair de casa bem cedo, apenas para dar impressão que partiriam mais rápido. Nenhum deles gosta de São Paulo: o sonho é poder vender tudo e voltar para Entre Rios.

“Aqui é um lugar ruim”, explica José. “Minha filha Ivanilda foi fazer um trabalho pra escola e teve que entrevistar uma mulher do bairro. Tocou a campainha da casa, e a velha soltou os cachorros.”

Todos riem, e ele acrescenta: “Ô! É sério.” Diz que nem para passar informação as pessoas olham nos olhos. E, quando o fazem, ainda dão as indicações erradas. De propósito.

Ivonete terá pela frente 34 horas dentro de um ônibus, num calor de cortar em fatias, carregando um menino pequeno. Disse que era a última chance de levar o Felipe, porque criança de até 6 anos viaja de graça. Não paga, mas não tem cadeira: vai no colo da mãe, o caminho inteiro.

Assim como ele, outros tantos nenês, caixas, crianças, mães e sacos de batata espalham-se pelas plataformas de embarque: 640 mil pessoas, só naquela semana de feriado. Os destinos são em geral cidades distantes, quase inexistentes, esquecidas pelo resto do mundo. “Ninguém sabe o que significa Natal enquanto não o passamos em alguma terra estranha”, disse Hemingway. E ele nem conhecia São Paulo.

 

Aos 26 anos, Edilene abandonou a família em Boa Vista do Tupim, na Bahia, para se casar com o namorado e morar em São Paulo. Desde então, só voltou à cidade uma vez, há cinco anos, para rever os parentes.

No Natal de 2002, levou toda a família para casa: marido, cunhado e três filhos, de idades entre 7 e 10 anos (Elisiana, Eli Renan e Elenilsa, todos falando ao mesmo tempo). Cada passagem custou 130 reais, só ida. Tempo para fazer as contas. No total, a barulhenta família da letra “E” gastou (ida e volta) 1 560 reais.

Sorridente, sentada num canto da plataforma, Edilene protege todos os quilos de comida, roupas e presentes espremidos nas malas. Ainda faltam duas horas para o embarque. Depois, é só esperar mais 31 horas dentro do ônibus, esvaziando progressivamente as sacolas de lanche para, enfim, às cinco da manhã do dia 25 de dezembro, desembarcar em Boa Vista do Tupim.

Como a família de Edilene, todos os passageiros do lotado corredor de embarque Norte e Nordeste passarão o Natal dentro de um ônibus. Mas vale a pena — é o que todos dizem. “A gente chega lá e o prefeito faz festa, leva conjunto e sempre tem baile”, explica Edilene. Apesar da carência de chuva e de recursos na região, a família adora Boa Vista do Tupim e planeja voltar a morar lá, um dia.

Enquanto não conseguem dinheiro suficiente para deixar São Paulo de vez, gostariam apenas de poder voltar todo ano. “Demora tanto que dói”, diz Edilene.

 

Um rapaz tímido, de camisa social e sapato engraxado, todo arrumadinho, encolhe-se numa das cadeiras das plataformas de embarque. Seu nome é Émerson, ele é mineiro e estuda engenharia civil em Jundiaí. No começo, limita-se a responder às perguntas e então se cala. Tem as mãos juntas e a fala mansa. De repente, sem precisar de incentivo, desanda a contar sobre a paixão por Ipatinga, cidade onde nasceu, e pela família – que não vê há quanto tempo? — “Dois-meses-e-seis-dias”, retruca, prontamente.

Conforme ele vai falando sobre a terra natal, o sotaque fica mais forte. A cada três frases, dá um jeito de incluir na conversa a saudade que tem da mãe e do frango com quiabo que ela prepara. Émerson é o primeiro da família a cursar uma faculdade. Embora tenha um bom emprego de estagiário numa construtora, gostaria de poder largar tudo e voltar imediatamente a morar em sua cidade. Por enquanto, a caminho de lá, não quer pensar nisso e apenas continua descrevendo o frango com quiabo, o espetinho de queijo e o leitão à pururuca que estarão esperando por ele.

Desde as cinco e meia da tarde o garoto está ali, sentado, na maior expectativa. O ônibus só sai às 19h50. Émerson expressa a ansiedade com os dedos, que destroem a fita adesiva marrom de uma caixa e alisam febrilmente suas abas fechadas. “Cesta de Natal para a minha mãe”, explica. “Grudei fita adesiva em volta da caixa inteira, para ficar bem difícil de abrir durante a viagem. Do jeito que eu sou voraz…”

A viagem inteira, de Jundiaí até Ipatinga, dura dezessete horas. Ou melhor: nem sempre, porque a ida é mais comprida. Como assim, mais comprida? “Demora um montão, uai, é psicológico”, ele diz. Depois torna a ficar calado, esperando em silêncio a hora de partir.