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    MR. GRIMALDI COMO PALHAÇO_ESCOLA INGLESA, SÉC. XIX_MUSEU VICTORIA & ALBERT, LONDRES_THE BRIDGENAN ART LIBRARY

ficção

A coisa me escapa entre os dedos

Tenho pretensões artísticas, ainda que uma profunda insegurança dificulte uma adesão irrestrita a essa atividade. Penso que haja nisso mais que razões psicológicas. Me concentro, procuro encontrar instrumentos que me clareiem a mente. Em vão.

Rodrigo Naves | Edição 18, Março 2008

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PALHAÇO

E quando aperto as axilas o pau se me desenrola como uma língua-de-sogra. Na sua ponta o nariz vermelho, preso aos quadris com elástico. Sou engraçado. Faço da mecânica dos fluidos o escorregador de minh’alma. Aperto aqui, estica acolá. E se me entopem os dutos, não pensem que enfarto. Incho a bochecha. Uma só. E todos morrem de rir. Eu contenho o riso, pois que se não me escapa o sopro que me anima. Para compensar, faço verter água a flor que trago na botoeira. Não são lágrimas metafóricas que rolo! Renovo apenas o líquido em que me apóio. Às vezes me pegam murcho. E morrem de pena de mim.

NUCA

Se as pego por trás não é porque me atraia a bunda. Sou um homem cansado de volumes. Quero-lhes a nuca. Ali reside seu equilíbrio. Entre corpo e mente, dúbia, longa de preferência, pois que maior a zona híbrida. Não me refiro a pescoço ou garganta. São coisas frontais e internas. De frente, por dentro, tudo se rearmoniza. Falo de nuca. Falo do que existe apenas no seu esquecimento, daquilo que elas não vêem, ainda que as ponha de pé. Vem dela o admirável orgulho das mulheres – tudo depositar numa parte do corpo que jamais verão. Aos espíritos lógicos, restaria explicar por que ponho de lado os homens. Homens são seres inteiriços. Inútil desejá-los. Aquelas que trazem os cabelos curtos, batidos, não se faz necessário sequer tocá-las. Basta aprender a reequilibrá-las de longe. Só de olhar. Já às que os trazem longos e soltos, convém aplicar um pouco de violência. Até que aprendam corretamente o sentido da expressão “rabo-de-cavalo”.

DANÇA

Se eu soubesse dançar, se me deixasse levar por um ritmo ou movimento, seria certamente mais feliz. Porque ao menos por um breve tempo me associaria a um fluxo superior a mim, uma linha extensa que me tornasse parte do seu curso e me fizesse experimentar uma continuidade que quase desconheço. Em geral fico sentado à mesa, à volta da pista, e observo os casais dançar. Nos bailes de Carnaval, criança, sentava no palco da orquestra, vendo os músicos animar o salão. Um dia, talvez por pena, me convidaram a tocar um surdo. Foi uma alegria indescritível. Por algumas horas fui também a origem daquelas pulsações que tanto me encantam. E não errei uma só vez. Marcar o tempo forte é coisa que sei: PUM, pum, PUM, pum, PUM, pum.

Há quem dance sozinho, como se a música o atravessasse como uma corrente elétrica. Há quem forme com seu par uma unidade tão poderosa que parece não ficar nada de fora e por isso fecham os olhos, para que pouco reste do mundo. Eu que não sei dançar mantenho os olhos bem abertos. Sou tímido e tenho pouco controle do corpo. Considero ridícula a falta de naturalidade nos movimentos e tremo só de imaginar os gestos angulosos e desajeitados que faria.

Existe no entanto algum encanto em ficar de fora. E não acredito haver nisso algo condenável, apenas. Me refiro a uma alegria relacionada ao fato de não fazermos parte de um todo, ainda que ele nos fascine. Sinto-me assim diante do mar, de elevações que deixam ver o horizonte e, por vezes, sob o céu azul. Nessas situações dá-se o contrário do que se experimenta na dança: uma espécie de isolamento amistoso, a consciência precisa de nossos limites mais o contato com o que está além de nós.

Talvez seja isso a dança para as pessoas pouco tímidas: estar junto e distante ao mesmo tempo. Nunca saberei ao certo. Sou tímido. Mas talvez haja na dança mais que a fusão que faria a alegria de um sujeito encabulado como eu. O corpo com que o nosso se confunde é também o lugar em que a música nos separa. Há na paixão dos que dançam alguma coisa da solidão de um homem num descampado. Na verdade, torço para que isso seja verdade: que experimentar a vastidão seja uma forma de estar acompanhado.

AQUÁRIO

Não fossem as guelras e o movimento ansioso da boca, seria difícil imaginar harmonia superior. Conquistar leveza e mobilidade em um meio que lhes opõe resistência e deslocar-se como as figuras de um móbile: os peixes pequenos agrupados em pequenos cardumes, os grandões flutuando solitários. E então obter da água cristalina o que desesperados e suicidas pedem ao escuro da noite: um espaço que os dissolva, uma atmosfera que lhes alivie o peso e a identidade.

Por isso aquários devem ter bolhas, estejam elas na própria forma do vidro que os desenha, venham do oxigênio que se injeta na água ou das preguiçosas massas de ar que se desprendem do fundo e estouram na superfície. São elas, as bolhas, que dão dos peixes uma imagem mais verdadeira – um espaço que se forma em meio à água, transparente como ela e no entanto outra coisa. Sentir ao mesmo tempo a pressão e o contato daquilo que nos circunda e torná-lo condição de mobilidade. Porque não se indiferenciam água e peixes, o que toda gente sabe. Trocam entre si propriedades, o que a rigidez do peixe fora d’água confirma e o vítreo das águas paradas reforça.

Basta pensar na vida nas metrópoles para se ter uma idéia da superioridade dos aquários. Em meio à multidão podemos ver aumentar nossas energias e experimentar o sentimento de que a vida fervilha em todos cantos, autorizando grandes expectativas. São porém tão rudes os contatos, tão egoístas os interesses, que custa a crer que desse ambiente áspero possa surgir uma forma superior de convivência.

Kant dizia – combatendo a ilusão de se conhecerem as coisas em si, supra-sensíveis – que a pomba que rompe com as asas a resistência do ar poderia imaginar ser mais livre no vácuo. Essa ilusão não deve ocorrer aos peixes. Eles de fato parecem fornecer um exemplo formidável do que poderíamos vir a ser, uma forma de coexistência em que nossas relações nos afirmassem, em lugar de tolher.

No entanto, resta um problema. Espinhoso. Somos nós, de fora, que admiramos essa harmonia ou são os próprios peixes que se deliciam com seu meio? Vistos de fora, eles parecem dentro. Vistos de dentro, jamais saberemos. Donde talvez a conveniência de nos entregarmos às multidões e, como os peixes do aquário, procurarmos tirar força daquilo que nos tolhe, sem o movimento ansioso da boca, já que de guelras não necessitamos.

A CALMA DOS DIAS

A imagem é conhecida e os mímicos iniciantes raramente escaparam dela: com as mãos espalmadas o ator produz diante de nossos olhos a ilusão de uma parede de vidro, na qual procura encontrar uma saída.

Gostaria de poder utilizar procedimentos semelhantes. Tenho uma dificuldade crescente de sentir o mundo, e a experiência daqueles limites sem dúvida seria um começo promissor. Vejo o contorno das pessoas, percebo as cores e a densidade das coisas e meu sentido de espaço permanece acurado. Não é disso que padeço. Falta o vidro dos mímicos. Quero dizer que me falta sentir a pressão das coisas e dos corpos, a dinâmica que os perpassa e os torna forma e significado. Noto que não me expresso a contento, o que talvez também decorra desse mal sentir.

Houve um tempo em que a sucessão dos dias guardava em suas dobras acontecimentos que não podíamos prever e que aguardávamos com ansiedade. O mundo era mais do que podíamos imaginar e por isso superior a nós. Sabíamos que nele se processava uma tormenta rumorosa e estávamos certos de que seríamos surpreendidos a qualquer instante. E nos preparávamos para isso, sem pesar as conseqüências.

Forças poderosas opunham-se sem cessar e subitamente um desequilíbrio momentâneo faria surgir os sinais de uma realidade nova e promissora. E por isso falo em pressão, porque muitos de nós só sentíamos o mundo porque não podíamos antever seu curso, e o peso de sua opacidade agia como uma força que nos premia e nos impulsionava. Algum acontecimento grandioso, épico, se anunciava.

Há algum tempo porém noto que aquele rumor foi se tornando inaudível e a sucessão dos dias tornou-se apenas a calma dos dias. Talvez hoje já me faltem as forças para me animar com o inesperado. Temo no entanto que a calma dos dias exceda em muito minhas fraquezas. Por vezes chego mesmo a pensar que já vêem o mundo por dentro, cristalino como o pior destino que poderia caber a um homem.

FORMA E CONTEÚDO

Numa obra de arte, considero a forma mais relevante que o tema. Em um quadro ou romance, não são as figuras ou as histórias que mais contam. Caso contrário seria impossível apreciar a música. Enquanto apenas dispomos o mundo e distribuímos José, Pedro e Maria sobre uma campina ou pelas ruas de uma cidade, ainda não fazemos arte. Apenas exercemos um poder que pouco difere da arrumação dos móveis numa casa ou de objetos num armário. Coisas e animais têm sua vida e contêm trajetórias mais ou menos interessantes. Sofás, mesas, peixes ou camisas tornam-se por vezes arte. Precisam porém deixar de estar à mão, como algo de que nos servimos assim sem mais.

Van Gogh pintou cadeiras. Chardin, pratos de estanho. Em suas telas, cadeiras e pratos não se caracterizam por uma função. Não há segredo nisso. Uma cadeira de Van Gogh guarda a fadiga de todos que descansaram nela. E um prato de Chardin contém a luz que pode aproximar todos os seres. Na maneira de pintar de Van Gogh o trabalho árduo encontra redenção e grandeza. E para Chardin interessa fazer do reflexo da luz num rude prato de estanho o momento em que a solidez das coisas é suspensa e todos os arranjos se tornam possíveis.

Devo estar sendo menos preciso e econômico do que gostaria. O assunto porém é espinhoso e me falta a forma que julgo reconhecer em outros. O que convém acentuar é que a cadeira de Van Gogh não pode ser levada de lá para cá justamente porque estabeleceu vínculos que a fizeram dependente de uma trama de relações infinitamente superior à vontade que a moveria de um canto para outro. Creio que não haveria necessidade de arte se nos satisfizéssemos com os nexos que experimentamos corriqueiramente. E portanto considero que a forma artística reside na construção desse outro complexo de relações que remete ao mundo que conhecemos, ainda que lhe voltemos as costas.

Não penso que essa outra estrutura decorra da imaginação ou de fabulações misteriosas. Raramente se requer maior contato com o mundo. A forma artística tira sua força de momentos que experimentamos de maneira falha na realidade e aos quais procuramos restituir sua inteireza. Por isso a arte nos faz sentir melhores do que somos e por isso consideramos a atividade artística uma forma superior de trabalho.

Se a grandeza da arte reside de fato nessa renúncia à manipulação das coisas – o que é corrente -, deve ela ter origem num tipo de percepção que também renuncie ao controle e à dominação. Não me parece acaso que tradicionalmente se associe a intuição à criação artística. Por ela acedemos incontroladamente a um ritmo difuso que aos poucos reivindica um desdobramento mais acabado.

Há pessoas que encontram essa expressão na própria maneira de viver. São homens e mulheres que tiram proveito da vida como um lutador de judô se vale dos movimentos de seu oponente. Confesso que os invejo. Em geral dá-se a esse comportamento o nome de sabedoria. No entanto é mais freqüente que a busca por uma nova forma de articulação se revele por obras que são, simultaneamente, parte do mundo e sua recusa.

Tenho pretensões artísticas, ainda que uma profunda insegurança dificulte uma adesão irrestrita a essa atividade. Por vezes, no entanto, penso que haja nisso mais que razões psicológicas. Sinto aqui e ali o contato furtivo com movimentos intensos, sinais que prenunciam uma realidade mais soberana que as que conheço. Me concentro, procuro encontrar instrumentos que me clareiem a mente e dêem curso àquilo que se manifesta apenas timidamente. Em vão. A coisa me escapa entre os dedos. Pode ser falta de talento. Mas temo também ser hoje quase inaudível o rumor que moveu tantos engenhos.