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A crítica sobre as críticas de piauí

TROPA DE ELITE 2

Não fosse por causa de um TOC, o transtorno obsessivo-compulsivo que me compele a ler cada palavra de cada edição da piauí trazida pelo carteiro, eu já teria abandonado as questões cinematográficas. Eu que já engrossei o coro de críticas à paspalhice dos quadrinhos de Gotlib, hoje confesso que os prefiro a esta seção da revista.

O que me faz romper o silêncio e manifestar meu descontentamento é a recente crítica ao filme Tropa de Elite 2 (piauí_50 novembro 2010). E não é questão de defender um filme que eu porventura tenha gostado; fiquei é muito espantado com uma aparente inocência do Escorel. Claro que isso pode ser fruto do muito criticar. Parece que temos aí uma fórmula para a crítica cinematográfica análoga ao que aprendíamos lá pela 8ª série sobre dissertação – introdução, tese, antítese, conclusão, cada um em um parágrafo, em uma folha de caderno; funciona bem no vestibular (no Enem já não sei). Estamos aí a fabricar defeitos para completar os requisitos do terceiro parágrafo?

Escorel afirma que a legenda de abertura – “Apesar das possíveis coincidências, o filme é uma obra de ficção” – faz “esvair-se o caráter crítico do filme” e dá a entender que as instituições murchamente criticadas não deram a mínima porque estão protegidas por essa frase mágica de “hipocrisia implícita”. Ora, ele mesmo diz que a legenda é uma ironia deliberada e sarcástica. Fiquei um pouco confuso porque a ironia sempre me pareceu uma maneira bastante eficaz de se fazer crítica (vide Chico Buarque). Não consigo entender como ele não pode ver que essa “hipocrisia implícita” é justamente aquilo que potencializa a ironia e transforma qualquer reação ao filme por parte das criticadas instituições em uma armadilha terrível: quanto mais elas se calam, mais serve a carapuça e, se por acaso resolvam se manifestar, é quase certo que se tornarão ridículas.

Por fim, será que foi mesmo por mero acaso que o filme só foi lançado depois do primeiro turno?

GUSTAVO LAET GOMES _BELO HORIZONTE/MG

NOTA DA REDAÇÃO: Gustavo, se você continuar a nos ameaçar, publicaremos críticas cinematográficas desenhadas por Gotlib.

JABOR X ESCOREL

Assisti A Suprema Felicidade. É de uma poesia imensa. É muito bonito. Saí do cinema sem saber o que é a suprema felicidade, porque o Jabor não deu a receita, mas a trajetória de vida do avô, boêmio e tocador de trombone, pelo Rio do pós-Segunda Guerra, é de uma intensidade contagiante. A Lapa, o mangue, o Carnaval de rua antes das escolas de samba e do sambódromo, a espontaneidade, a malandragem defendida a navalhadas, e a dificuldade e a dor em se tornar adulto e viver sem culpas o amor.

Está tudo lá. O Jabor abandonou a raiva e a descrença na nossa velha, viciada e corrupta política, para fazer um filme de amor. À vida. Ao Rio. Melhor dizendo a um Rio que se foi e ao mesmo tempo ainda é.

Nestes tempos do desencanto de Tropa de Elite 2 (que também é excelente), A Suprema Felicidade é um bálsamo. Devolve a crença nos seres humanos e mostra o quanto é importante, embora às vezes doloroso, amar.

O avô é o Nanini. E o Nanini… Bem, o Nanini é.

 HELENA MARIA DE SOUZA_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Quem leu a coluna de Arnaldo Jabor (O Globo e O Estado de S. Paulo, 09 de novembro de 2010) verá que por mais que se tente esconder, um dia o caráter aparece. É muito simples, não precisa de conotações políticas nem nada. É só um senhor de idade com uma vaidade arquetípica, que agride de forma deselegante e abusiva o gentleman Eduardo Escorel, que além de tudo é um dos maiores conhecedores de cinema deste país (“Extravagância desconexa”, piauí_49, outubro 2010). Não entro nem no mérito do filme, pois muitos gostam, outros detestaram e na sessão em que eu fui muita gente saiu no meio. Seriam ignorantes nordestinos? Asseclas? Não sei. Só sei que é muito feio mesmo, com mais de 60 anos se comportar como menino de 4.

LUCIA LUIZ PINTO_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Magnífica e corajosa a crítica sobre o novo filme do Jabor, feita por Eduardo Escorel. Tive a mesma percepção em relação ao filme, assim como a maioria que assistiu decepcionada à estreia, no Festival do Rio. Acho que Jabor foi extremamente infeliz, apesar de estar cercado de alguns talentos e contar com recursos suficientes para uma produção de qualidade. Faltou o essencial: ter uma boa história e saber como contá-la. Também acho que os anos longe do cinema o fizeram esquecer a verdadeira magia que está por trás das câmeras. Ou, quem sabe, ele nunca tivesse sido, de fato, tocado por ela. Pena pouca gente do meio ter a coragem de dizer o que realmente pensa. Talvez ajudasse Jabor.

ANA PAULA NOGUEIRA_RIO DE JANEIRO/RJ

 

LEITORA IMBATÍVEL

Abro a revista e vejo reportagem sobre a peruca de 50 mil reais do Eike Batista (“Rumo ao topo”, piauí_50, novembro 2010). Me senti lendo Capricho, Caras, e por aí vai. Não fosse o humor e a clareza do texto seria uma matéria idiota e sem nenhum tipo de propósito para uma publicação do porte de piauí. Mas não vou me deixar abater, afinal me custou 12 reais e espero encontrar coisas mais interessantes nas outras páginas.

POMY YARA ROMANCINI MEIRELLES_RIO DAS OSTRAS/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: Mas, Yara, e os calvos? É preciso pensar neles também, até porque representam uma parte considerável (17,23%) dos nossos leitores.

 

O FUTURO DO LULISMO

Acho que o artigo do André Singer (“O lulismo e seu futuro”, piauí_49, outubro 2010) não merecia passar pelo crivo da revista. Singer continua porta-voz de Lula e seu texto apenas espelha isso. Não se transformem em veículo de partidos, por favor!

THIAGO MOURA ALVES_MACEIÓ/AL

 

CONCURSO LITERÁRIO

Depois de ver que a revista assumiu ter premiado erroneamente um conto de sete palavras (“Errata vexaminosa”, piauí_50, novembro 2010), pensei que a correção do erro poderia ser assim, com seis palavras:

Sem dedos, pinguim não sabe contar.

DÁBIO DUARTE_CURITIBA/PR

 

BNDES

Consuelo Dieguez se revela exímia num novo tipo de perfil que junta pessoas físicas a entidades, corporações privadas e estatais. O perfil sobre Luciano Coutinho/BNDES (“O desenvolvimentista”, piauí_49, outubro 2010) esteve quase perfeito. Li com prazer e proveito, mas, ao final, fiquei insatisfeito. As críticas à enxurrada de dinheiro do Tesouro Nacional ao BNDES foram acompanhadas, em contracanto, pela exaltação ao banco, que já é maior do que o Banco Mundial, algo “nunca antes sequer imaginado”. Não cabia fazer uma correlação? Acho que também caberia um quadro com os principais financiamentos concedidos pelo banco desde a crise de 2008, as taxas de juros, amortização, valor etc. Podia aprofundar as principais operações realizadas pelo banco, mostrando a estrutura das empresas beneficiadas, seus donos, operações etc. (e ficamos sem saber o valor do empréstimo da JBS/Friboi). Não cabia ainda analisar o balanço do banco para ver como repercutem suas operações em suas contas? E quem são os principais clientes do LCA Consultores, portfólio de 30 bilhões de dólares?

LÚCIO FLÁVIO PINTO_BELÉM/PA

 

NUZMAN

Faltou apurar com Carlos Arthur Nuzman (“No Olimpo”, piauí_50, novembro 2010) sua “fuga” da CPI que avaliava os superfaturamentos do Pan 2007, bem como a criação de uma empresa – a CO-Rio – chefiada por ele mesmo, para tocar o evento, beneficiando compadrios. Nuzman foi o primeiro brasileiro da história a se retirar de uma CPI deixando de responder perguntas, o que foi amplamente relatado. Também faltou explicar por que ele se reelegeu presidente do Comitê Olímpico, alterando o horário da votação, boicotando confederações de oposição, como a de badminton. E tal qual Ricardo Teixeira com a Copa 2014, como Nuzman virou “o cara” dos Jogos 2016, ele passa ao largo de qualquer fiscalização do Ministério do Esporte na aplicação de recursos públicos – já utilizados na preparação para a candidatura.

MARCOS ANDRÉ LESSA_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Li o perfil e ao chegar no ponto final me ficou a forte sensação de ter lido uma “reportagem biográfica” – a de uma pessoa sem alma, sem amigos, sem alguém que “pulasse no precipício por ela”. Não há lágrimas, laços humanos, sofrimentos, perdas afetivas (a não ser a trágica morte da mãe) manifestadas pelo “biografado”. Ele não tem casa, não tem amigos, não tem filhos, não tem vizinhos, não tem uma cicatriz no joelho e uma história de infância que a explique… ele não tem nada, a não ser muito dinheiro e muito poder. Parabéns.

RICARDO GOUVEIA_RIO DE JANEIRO/RJ

 

PSICANÁLISE E RELIGIÃO

Parafraseando Freud em sua carta ao pastor Pfister (“A cura pela Palavra”, piauí_50, novembro 2010), que a piauí sempre se oponha à religião e associe crença com ignorância e alienação é o que a torna desinteressante. Ceticismo à parte, profecias, às vezes, se cumprem. No fim, “a religião triunfará”, previu Lacan. A piauí sobreviverá? Gostaria que sim, ou não.

ELICELI BONAN _CHAPECÓ/SC

NOTA DA REDAÇÃO: Nós gostaríamos que sim e temos fé nos dons proféticos de quem assim proclama.

 

GILMAR MENDES

Que feliz coincidência essa da revista em publicar, na mesma edição, o comentário do espalhafatoso ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes (“Comentário do ministro Gilmar Mendes”, piauí_50, novembro 2010) e uma ótima matéria sobre a nobre arte de ser um juiz de futebol (“A solidão do juiz”, piauí_50, novembro 2010).

No caso do ministro, podemos encaixá-lo em alguns dos tipos citados no artigo de Jonathan Crowe: o vacilante, porque pediu vistas após um suposto telefonema de José Serra sobre a necessidade de mais de um documento na hora da votação; o afetado, porque todos se lembram da nobre discussão entre o citado e o ministro Joaquim Barbosa. E por fim, e exposto nessa edição da revista, o carteiro, aquele que distribui bravatas sem sentido ao outro, quando se julga ameaçado.

GUILHERME DE PAULA PIRES_CURITIBA/PR

 

FRACTAIS

Passados mais de vinte anos, desde aquele curso de verão no departamento de Matemática Pura da Universidade Federal de Pernambuco, durante o meu colegial, nunca mais me esqueci de Mandelbrot e seus hipnóticos fractais. Sempre os usurpei para tentar justificar que a realidade está bem além da estrutura e da superestrutura. E talvez porque os fractais eram ínfimos e secundários naquele árido cursinho, tenha desistido das exatas pelas humanas. Por rever tesouro tão querido (“Intuição fractal”, piauí_50, novembro 2010) – como deve ser o esperanto para Gotardi ou a miss teen manauara de Summerlee – abriu-se em mim prazida lembrança demasiadamente (como diria Riobaldo Taturana).

LUIZ HERRISSON_SÃO PAULO/SP

 

ESPERANTO

Como esperantista há seis anos, fiquei feliz ao me deparar com a Esquina “Ne estas malmulte!”(piauí_50, novembro 2010) que relata a experiência de Roger Gotardi, o samideano que hoje lidera o movimento jovem. Apesar do tom meio irônico do texto, em geral gostei da informação que foi dada ao leitor. Gostaria, contudo, de destacar um erro muito frequente cometido por todo jornalista incauto (pelo menos assim quero crer). Trata-se do conceito de universalismo, que não se aplica de modo algum ao esperanto, pois seu objetivo não é o de suplantar qualquer outro idioma, mas, pelo contrário, uma de suas qualidades é a de preservar todas as línguas, inclusive, e principalmente, as minoritárias. Pois que o objetivo primordial do esperanto é se tornar uma segunda (ou terceira) língua para cada povo, como instrumento auxiliar de comunicação global. Ou seja, trata-se de um idioma alternativo. Pode perguntar diretamente a qualquer esperantista minimamente informado e ele confirmará isso com bastante precisão.

FELIPE EMMANUEL FERREIRA DE CASTRO_CAMPINAS/SP

 

PRESIDENTE NEGRO

Algum tempo atrás, li um texto de Roberto Pompeu de Toledo na revista Veja sobre o livro O Presidente Negro, de Monteiro Lobato. Fã que sou desse grande escritor, achei difícil acreditar que ele pudesse ter defendido, a sério, como o colunista afirmava, a extinção de todos os negros americanos! “Como pode, pensei eu, o autor do conto ‘Negrinha’ um dos textos mais humanos e emocionantes que já li (e que me leva às lágrimas toda vez que o releio) ser o racista genocida que o articulista sugeria nas entrelinhas?” Na ocasião, pensei em escrever-lhe, mas não tive tempo de ler o romance e acabei esquecendo o assunto.

Entretanto, a recente polêmica acerca do suposto racismo de Lobato contido no livro infantil Caçadas de Pedrinho (levantada pela massa de meias-luzes que ascendeu a posições de mando no governo Lula e que quer apagar as luzes do Brasil – e sobre isso há um ótimo texto aqui: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI185788-15230,00.html) reacendeu minha curiosidade sobre O Presidente Negro. Finalmente, li o livro esta semana. Como já suspeitava, minha interpretação foi bem diferente da do colunista. Veio-me à lembrança o famoso panfleto satírico do polêmico Jonathan Swift, “Uma Proposta Modesta: para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los proveitosos ao interesse público.” No texto, de 1729, o autor, conhecido por suas críticas sociais satíricas, defende uma “solução final” simples e eficiente para acabar com as crianças pobres da Irlanda: engordá-las bastante até o primeiro ano de vida e depois vendê-las aos ricos, para que comam sua carne. Ninguém, em sã consciência, diria que Jonathan Swift defendia, a sério, a ideia de comer criancinhas para acabar com a pobreza na Irlanda! Assim como não dá para acreditar que pessoas letradas e iluminadas possam conceber que Monteiro Lobato defendesse o genocídio dos negros como solução para o problema do ódio racial americano!

Monteiro Lobato não só conhecia a obra de Swift como adaptou As Viagens de Gulliver para o português. Quem leu os contos adultos de Lobato sabe que ele era irreverente, irônico, satírico, por vezes sarcástico. Aliás, essas características existem não só em sua literatura adulta, mas na infantil também. Basta ler a História do Mundo para Crianças e comprovar. As similaridades entre “Uma Proposta Modesta” e O Presidente Negro são, a meu ver, óbvias.

Resolvi buscar na internet alguma opinião que corroborasse minha interpretação, e eis que deparo com outro artigo de Roberto Pompeu de Toledo sobre o assunto, desta vez publicado pela revista piauí (“Visionário espiroqueta”, piauí_25, outubro 2008). Quem sabe Roberto Pompeu de Toledo mudou de ideia sobre o livro?, pensei. Para minha decepção (já que sempre admirei seus textos), “Visionário” reiterava a posição expressa em Veja pelo articulista.

Para mim, não resta dúvida de que O Presidente Negro teve inspiração swifitiana: a “modesta proposta” de eliminar o negro dos Estados Unidos é, na verdade, uma crítica mordaz ao racismo americano. No romance existe, sim, um prenúncio de Hitler, mas não no autor, não como validação das ideias genocidas do nazista, e sim como alerta contra as consequências nefastas de sobrepor a questão da “raça” a um projeto de nação. O Presidente Negro não é uma proposta “séria” de eliminar os negros – santo Deus, não! –, mas justamente o contrário: é um libelo contra o ódio racial (irracional) americano!

SUSANA ALEXANDRIA_OSASCO/SP

 

RESPOSTA DE ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: A leitora faz uma interpretação caridosa de O Presidente Negro. O livro transmite, em forma ficcional, a visão eugenista de Lobato, já expressa nos artigos reunidos no livro Questão Vital. Claro que ele era racista, como muitos outros intelectuais brasileiros de seu tempo.



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