questões democráticas

A direita negra

Onde os conservadores erram na questão racial

Flávio Francisco e Márcio Macedo
Marcha das mulheres negras, em São Paulo, 2019: a direita negra no Brasil está desconectada da população e tem visão limitada das mudanças sociais, impregnada de sectarismo religioso
Marcha das mulheres negras, em São Paulo, 2019: a direita negra no Brasil está desconectada da população e tem visão limitada das mudanças sociais, impregnada de sectarismo religioso CREDITO: RODRIGO ZAIM_2019

Salões de beleza e barbearias ocupam um lugar especial no universo da sociabilidade negra. São como “centros culturais”, já disseram alguns antropólogos, lugares onde se discute a respeito de tudo: conflitos pessoais, planos de futuro, relacionamentos amorosos, problemas econômicos, futebol, religião e política. É o que acontece numa barbearia da Galeria Presidente, no Centro de São Paulo, com nome curioso: Niggaz Place.

Dificilmente se encontrará algum estabelecimento com nome similar nos Estados Unidos, onde a palavra nigger e sua variação coloquial nigga têm conotação bastante injuriosa. Por mais que alguém se esforce, não consegue achar em português uma palavra com uma carga ofensiva equivalente. Em geral, a tentativa para no termo “crioulo”.

Os donos do Niggaz Place, que comandam as tesouras e as conversas, são dois simpáticos barbeiros, Almir da Silva Borges e Celso Barbosa. Negros e evangélicos, os dois votaram em Jair Bolsonaro no primeiro e no segundo turnos da eleição presidencial de 2018. Tomaram essa decisão impulsionados pela aversão que sentem pelo PT, partido que associam ao comunismo, embora já tenham ambos votado em Lula em outros pleitos. Borges e Barbosa se definem agora, assumidamente, como negros de direita.

A guinada para a direita de mais da metade dos eleitores brasileiros nas eleições de 2018 incluiu também os negros, cuja experiência atual – é bom lembrar – nem sempre entra em contradição com a agenda conservadora. Foi, aliás, a associação com a direita que viabilizou, nos últimos anos, a ascensão de personalidades negras como o vereador Fernando Holiday, do partido Patriota, o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, e o jornalista e influenciador digital Paulo Cruz. Todos os três veem a situação do negro e as relações raciais de uma perspectiva conservadora ou mesmo ultraconservadora.

 

Ao longo do século XX, as lideranças negras se movimentaram de forma variada no horizonte político brasileiro em busca de um espaço onde pudessem promover o debate racial. Com a redemocratização, consolidou-se o alinhamento de líderes dos movimentos com as agendas de partidos situados num amplo campo democrático: MDB, PT, PDT e PSDB. Por isso, não é possível falar, em termos de tradição política e de movimento social organizado, de uma direita negra no Brasil. O que não quer dizer que os negros tenham deixado de manifestar essa opção política nas urnas ou que políticos negros conservadores não tenham se destacado no cenário nacional. Um deles foi Celso Pitta, que em 1996 foi eleito prefeito de São Paulo pelo PPB (Partido Progressista Brasileiro), legenda que, a despeito do nome, era oriunda da Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de sustentação da ditadura militar.

A direita, incapaz de formular um discurso sólido que levasse em conta as demandas antirracistas e de inserção social, viu a representação negra em seus partidos se dar de maneira episódica ou meramente oportunística. Mas deve-se levar em conta também outros fatores, como a histórica baixa representatividade dos negros na política (o que agora está mudando) e a ideologia que predominou por décadas em relação à questão racial no país – que apregoava a miscigenação e a existência de uma democracia racial como atributos extraordinários da sociedade brasileira (o que também está mudando). Mesmo nos partidos de esquerda, depois do fim da ditadura, as lideranças levaram alguns anos para desconstruir a ideia de que o enfrentamento do racismo tinha menos importância que as outras lutas. Além disso, durante muito tempo a pauta dos movimentos negros pouco interessou aos governos, o que reduziu a capacidade desses movimentos de operar na órbita institucional.

A Fundação Cultural Palmares foi criada em 1988, mesmo ano da Constituinte e do centenário da Abolição. Mas as coisas começaram a se transformar de fato a partir do governo Fernando Henrique Cardoso e em particular dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não por iniciativa exclusiva dos poderes da República, mas porque a luta contra o racismo empreendida pelos movimentos negros e a necessidade de ações afirmativas haviam se tornado desafios incontornáveis a serem enfrentados pelo país.

Foi assim que se criou, em 1995, o Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra e, em 2003, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Seppir), com status de ministério. A Seppir foi uma conquista altamente significativa, pois deu suporte e articulação às relevantes iniciativas de inserção de alunos negros no ensino superior público, por meio dos programas de cotas em universidades federais e estaduais (os primeiros datam de 2001, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e na Universidade Estadual do Norte Fluminense) e do Programa Universidade para Todos (ProUni), voltado para o ensino superior privado. Houve ainda o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas focadas na saúde da população negra, da juventude negra e de comunidades quilombolas.

Tudo isso foi realizado a contragosto de muita gente, que vê com maus olhos qualquer conquista social obtida por negros, em especial a implantação das cotas na universidade, medida que julgam discriminatória e, portanto, inconstitucional. Vale lembrar que o Supremo Tribunal Federal votou pela constitucionalidade das cotas em 2012. Contudo, em parte da direita prevaleceram os opositores dessa medida, que agora, no governo Jair Bolsonaro, puderam se sentir inteiramente desinibidos para reagir às políticas de inclusão e antirracistas.

A ascensão de Bolsonaro também levou os negros inclinados à direita ou à extrema direita a tirarem o véu. Talvez ainda seja cedo para dizer, mas dois modelos de conservadorismo negro estão florescendo no país e disputam a proeminência. Um e outro podem ser enquadrados em dois “tipos ideais” de orientação ideológica, cuja origem valeria a pena investigar.

O primeiro encontra seu lastro histórico numa manifestação de fascismo negro nos anos 1930, protagonizada especialmente pelo intelectual e ativista Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978), fundador da Frente Negra Brasileira (FNB), movimento de extrema direita que adequou a questão racial à ideologia integralista.

O segundo estaria em interlocução com o antigo conservadorismo negro norte-americano, personificado primordialmente no ativista Booker T. Washington (1856-1915) e que afluiu na militância do jornalista e escritor George Schuyler (1895-1977) e na obra do economista Thomas Sowell (1930-). Partidários de uma orientação liberal da política e da economia, eles questionaram o papel do Estado no combate ao racismo, defendendo a ação individual e o empoderamento econômico dos negros como formas de superar as desigualdades raciais.

 

O candidato que personifica atualmente o primeiro modelo, o do fascismo negro, é o jornalista Sérgio Camargo, presidente da Fundação Cultural Palmares, para quem vigora no Brasil um “racismo Nutella” e a questão racial não passa de um aspecto do “vitimismo” dos negros, estimulada pelo politicamente correto. Por causa de declarações desse tipo, sua posse em fevereiro deste ano ocorreu a contragosto de vários setores da sociedade e, antes disso, Camargo chegou a ter sua nomeação suspensa pela Justiça. Mas, por fim, assumiu a presidência da fundação.

Desde então, na esteira do modus operandi do presidente Bolsonaro, sempre brinda seus seguidores no Twitter com afirmações sensacionalistas, mas calculadas, em evidente confronto com a pauta da diversidade e do combate à desigualdade racial desenvolvida pelos governos anteriores do PSDB e do PT em diálogo com os movimentos negros. Em outubro passado, por exemplo, Camargo decidiu anunciar a exclusão de cinco pessoas da lista de personalidades negras da Fundação Palmares, entre elas a ex-ministra Marina Silva e o ex-deputado Jean Wyllys. A maior pedra no sapato de Camargo, no entanto, é a figura de Zumbi.

Uma das conquistas recentes do movimento negro foi a legitimação de Zumbi dos Palmares como herói da luta contra a escravidão e a criação, em 2011, do Dia da Consciência Negra (em 20 de novembro, data presumida da morte de Zumbi). As iniciativas reduziram a importância que até então se dava ao papel da princesa Isabel na Abolição e à data oficial do fim da escravidão, o Treze de Maio.

Camargo luta para reverter essas mudanças, sonhando em recolocar a princesa no trono abolicionista, pois identifica Zumbi e o Dia da Consciência Negra com a esquerda. Em junho passado, durante uma reunião que foi gravada, ele qualificou Zumbi como um “filho da puta que escravizava negros” e chamou o movimento negro de “escória maldita”. O objetivo de Camargo, ao que parece, é restaurar uma narrativa sobre a Abolição muito influente na imaginação de lideranças negras das primeiras décadas do século XX, como o citado paulista Arlindo Veiga dos Santos, que era fascista, antissemita e monarquista.

De origem pobre e católico sectário, Santos fez faculdade de filosofia e letras em São Paulo, onde se destacou como escritor, professor e ativista político. Em 1928, fundou o Centro Monarquista de Cultura Social e Política Pátria-Nova, base para a criação, quatro anos depois, da Ação Imperial Patrianovista Brasileira, organização que propagandeava o privilégio do catolicismo como religião nacional e pregava a restauração da monarquia, sob o comando da casa de Orléans e Bragança.

Em um panfleto, Santos deixou claras suas posições reacionárias: “Somos Pátria-Nova, extrema direita radical e violenta, afirmadores de Deus e sua Igreja, afirmadores da Pátria Imperial e Católica, inimigos irreconciliáveis e intolerantes do burguesismo, plutocratismo e capitalismo materialista, ateu, gozador, explorador, internacionalista, judaizante e maçonizante; inimigos da República, dos partidos, do parlamentarismo, em suma do liberalismo religioso, político e econômico; enfim, tão inimigos também da anarquia bolchevista que com erros igualmente grandes pretende em vão ‘corrigir’ a tirania da burguesia liberal, como inimigos da ordem social mentirosa, instalada em quase todo o mundo.”

A organização montada por Santos não foi uma loucura qualquer. O historiador Petrônio Domingues afirma que “o patrianovismo foi talvez o movimento político de ultradireita mais expressivo no Brasil antes da fundação da Ação Integralista Brasileira (AIB), em 1932”. [1] A Ação Imperial – que, a pretexto de se defender dos comunistas, chegou a constituir um grupo paramilitar, a Guarda Imperial Patrianovista – estendeu-se por cerca de quinze estados e agregou milhares de seguidores, até ser colocada na ilegalidade, depois do Golpe de 1937.

Quando deixou o patrianovismo, Santos buscou reproduzir a ideologia desse movimento na Frente Negra Brasileira (FNB), que ele criou em 1931 para promover a inclusão dos negros na vida social, econômica e política. É curioso ver como Santos, apesar de simpatizante do nazifascismo, reage à ideologia racial de Hitler e atribui protagonismo aos negros na construção da nacionalidade brasileira: “Que nos importa que Hitler não queira, na sua terra, o sangue negro? Isso mostra unicamente que a Alemanha Nova se orgulha da sua raça. Nós também, nós Brasileiros, temos raça. Não queremos saber de ariano. queremos o brasileiro negro e mestiço que nunca traiu nem trairá a Nação. Nós somos contra a importação do sangue estrangeiro que vem somente atrapalhar a vida do Brasil, a unidade da nossa pátria, da nossa raça e da nossa língua. Hitler afirma a raça alemã. Nós afirmamos a Raça Brasileira, sobretudo no seu elemento mais forte: o negro brasileiro.”

O artigo, publicado em 1933, tem este extenso título: Resposta a um Boletim Lançado pela Canalha Anarquista-Comunista-Socialista, que Obedece aos Patrões Judeus e Estrangeiros. Frentenegrinos! Negros em Geral! A Postos Contra a Onda Estrangeira, que, Além de Vir Tomar o Nosso Trabalho, Ainda Quer Dominar, por um Regime Iníquo e Bandalho, o Brasil dos Nossos Avós. A “canalha” a que ele se refere são os trabalhadores imigrantes. Para Santos, o fim da monarquia fora urdido por escravistas inconformados com a Abolição e que, na República, recorreram aos imigrantes para marginalizar os negros e desvalorizar a “raça brasileira”, fruto da mestiçagem. Em diferentes circunstâncias, Santos manifesta uma forte xenofobia contra os recém-chegados ao Brasil, que passaram a gozar da preferência dos empregadores, em detrimento dos negros.

A FNB acabou se popularizando entre os negros graças a iniciativas sociais, como a criação de uma escola a eles destinada e o esforço feito para inseri-los no mercado de trabalho e na polícia. Chegou a ter entre 8 mil e 50 mil membros (não há consenso sobre o número exato) e não escondia o alinhamento com o integralismo, fazendo seu o lema deste movimento de extrema direita, com o acréscimo da palavra “raça”: “Deus, Pátria, Raça e Família.”

É grande a lista de nomes influentes que passaram pelas fileiras integralistas. Incluiu Hélder Câmara, futuro arcebispo emérito de Olinda e Recife, o jovem Vinícius de Moraes, o diplomata San Tiago Dantas e até o escritor Abdias do Nascimento, considerado um dos principais ativistas negros do país. Tendo sido uma organização nacionalista com forte inserção entre as camadas médias urbanas e os militares, o integralismo também conseguiu incorporar simbolicamente uma mensagem para os negros. Plínio Salgado e lideranças integralistas falavam da necessidade de uma “segunda Abolição”, uma vez que a de 1888 não resultara em políticas de integração e proteção dos recém-libertos.

O discurso de Santos, formulado poucas décadas após o fim da escravidão, é descaradamente fascista, mas não deixa de manifestar, no que concerne à questão racial, um esforço para conter a discriminação e firmar o negro na vida brasileira. Ele o faz, contudo, pelas vias as mais reativas, assumindo posições que são paradoxalmente as mesmas dos que discriminam os negros, como ressaltou o sociólogo e historiador Clóvis Moura: “Se horizontalmente ele tem uma mensagem étnica de protesto, ou de contestação à situação do negro no Brasil, verticalmente a sua vivência reproduz os padrões e valores da civilização, da cultura e dos postulados religiosos, políticos e ideológicos dos brancos. Em última instância, tem a personalidade dividida, porque, se de um lado protesta com ela, de outro é um dominado subliminarmente pela cultura do dominador.” [2] É o típico caso de “subalternidade consentida”, sobre a qual falaremos mais adiante.

O historiador Petrônio Domingues se pergunta por que houve tantos negros no início da República, como Santos, que se indispuseram contra o novo regime e idealizaram a volta da monarquia, idolatrando a princesa Isabel (imantados pelo “isabelismo”, misto de movimento e culto) e tomando como parâmetros de conduta política os abolicionistas negros José do Patrocínio (que chegou a criar uma guarda de negros para proteger a monarquia) e André Rebouças (que se exilou com a família real). Para Domingues, essa nostalgia da monarquia ocorreu devido à política de branqueamento adotada na Primeira República e à limpeza étnica por ela promovida nas cidades, com a perseguição de populações negras e de suas práticas culturais e religiosas, sem falar no privilégio dado aos imigrantes no mercado de trabalho.

Pouca coisa, ou quase nada, restou da memória do inflamado e influente líder negro que foi Arlindo Veiga dos Santos, esquecido tanto pelas direitas quanto pelo movimento negro, que tomou direção radicalmente oposta à dele. Seu nome não consta sequer da lista de personalidades da Fundação Palmares, onde Santos tem este discípulo fortuito: Sérgio Camargo. Movido por um autoritarismo similar, Camargo faz tábula rasa de toda a trajetória da militância negra ao longo do século XX para voltar ao ponto zero, ao isabelismo, exaltando os próceres abolicionistas negros, como André Rebouças, com cujo nome ele quer batizar o prédio da nova sede da Fundação Palmares. “Rebouças foi abolicionista, monarquista e brilhante engenheiro. Orgulho do Brasil!”, escreveu Camargo numa rede social.

 

Há algum tempo, o Movimento Brasil Livre (MBL) colocou à venda um dos suvenires do grupo – uma camiseta estampada com os rostos perfilados de Martin Luther King Jr., do economista norte-americano negro Thomas Sowell e do vereador Fernando Holiday. Logo abaixo se lê a seguinte mensagem: “Três Gerações. Um Sonho.” O sonho, ao menos da parte de Sowell e Holiday, é ver os seus países livres de políticas afirmativas e seguindo credos liberais que desconsiderem o racismo como fator de injustiça social.

Holiday, que veio de uma família modesta, militou no MBL, filiou-se ao DEM e, aos 20 anos, tornou-se o vereador mais jovem na história da cidade de São Paulo. Hoje, está nas fileiras do partido Patriota e foi reeleito no mês passado para o seu segundo mandato na Câmara. Sua pauta política é de inclinação ultraliberal e questiona a agenda dos movimentos negros contemporâneos, o que lhe possibilitou obter votação expressiva em distritos paulistanos em que o eleitorado é majoritariamente branco e das classes média e alta. É ele a personificação no Brasil do segundo modelo de direita negra, aquele que busca seu lastro no conservadorismo norte-americano.

O movimento pelos direitos civis, na década de 1960, centrado na liderança de Martin Luther King Jr., fixou-se como um momento-chave do ativismo negro nos Estados Unidos ao pregar a igualdade das raças perante a lei quando ainda vigoravam em vários estados norte-americanos códigos segregacionistas. Luther King foi um democrata radical, mas essa posição não o eximiu de se tornar com o tempo um crítico de ideias liberais e de um sistema econômico que produzia pobreza e desigualdade também por meio da raça. Outra corrente de ativismo, porém, mais antiga e de viés menos político e contestatório que a de Luther King, articulou a hipótese de que o enfrentamento da violência e da desigualdade deveria ser feito por outros meios, como o estímulo à educação e ao empreendedorismo dos negros.

Era o que pensava o educador e escritor Booker T. Washington, que, na segunda metade do século XIX, defendeu que os negros – então majoritariamente pobres e pouco alfabetizados – deveriam ter como prioridade não a participação política ou a luta pelos direitos, mas a educação, a profissionalização e a segurança econômica. A riqueza material e a força cultural seriam as qualidades que os fariam ser aceitos pouco a pouco pelos brancos e incorporados igualitariamente à sociedade.

Ao colocar em segundo plano a luta política pela integração racial, Washington chamou a atenção da elite conservadora do Sul, que se interessou por um projeto para os negros que não desafiava os métodos de segregação. Com apoio de filantropos empenhados em preservar as relações hierarquizadas e frear as agendas mais progressistas, o educador emergiu nacionalmente. Seus programas para a formação de trabalhadores e empreendedores negros difundiram-se pelo país, contestados fortemente por lideranças como a do importante sociólogo e ativista W. E. B. (William Edward Burghardt) Du Bois (1868-1963), que pensava o oposto de Washington: a única forma de obter conquistas sociais e fazer a integração do negro na vida norte-americana seria lutando para conquistar poder político, direitos e igualdade jurídica.

Em 1900, Washington criou a National Negro Business League (Liga Nacional Negra de Comércio), a primeira câmara de comércio de afrodescendentes nos Estados Unidos, reforçando a ideia de que o engajamento em atividades econômicas seria uma alternativa ao “esforço contraproducente”, como ele certa vez disse, das lutas por uma cidadania negra de primeira classe.

Com a morte do educador em 1915, o jamaicano Marcus Garvey (1887-1940), que migrou para os Estados Unidos estimulado pelo projeto de Washington, tornou-se o mais proeminente opositor da integração racial e um incentivador da ideia de uma economia forte como base para o empoderamento negro. Com esse objetivo, implantou a Negro Factories Corporation, que visava construir fábricas para trabalhadores negros nos Estados Unidos e em países da América Central e da África. Também fundou jornais e incentivou o empreendedorismo negro, com a criação de negócios como restaurantes, lojas e hotéis. Figura polêmica, Garvey era anticomunista e contra a miscigenação, o que o levou a ser um dos pioneiros do pan-africanismo, ao preconizar a mudança de negros para os países da África. Na sua concepção, as nações africanas deveriam se unir numa única e imensa república, governada por um líder com autoridade absoluta.

Na metade do século XX, o escritor e jornalista George Schuyler foi quem mais se aproximou das propostas de Booker T. Washington. Defendeu o caráter inclusivo da sociedade norte-americana e a força da economia dos Estados Unidos, que, na sua perspectiva, possibilitava o progresso dos negros sem a necessidade do engajamento político. Também negou com veemência que houvesse elementos culturais especificamente negros na cultura do país, rejeitando a ideia de uma literatura negra e afirmando que os afrodescendentes eram mais norte-americanos que muitos brancos recém-imigrados.

Em 1948, Schuyler publicou no jornal The Pittsburgh Courier os seus relatos de viagem pela América Latina, inclusive ao Brasil, onde participou de um debate com Abdias do Nascimento. Influenciado pelo ativista brasileiro, Schuyler afirmou em um de seus relatos que no Brasil não existia racismo baseado na raça, mas nas variantes de cor – os negros menos escuros tinham aqui algumas vantagens simbólicas que não eram conferidas aos de pele mais escura. Para Schuyler, os Estados Unidos, graças à sua pujança econômica e apesar de suas “castas raciais”, ofereciam um futuro mais promissor aos negros do que o Brasil e outras nações latino-americanas, onde eles viviam em enorme atraso socioeconômico.

Na década de 1950, Schuyler foi gradualmente se desgarrando do ativismo afro-americano e se aproximando mais da direita. Chegou a ser entusiasta do macarthismo, apoiando a perseguição a lideranças negras envolvidas com organizações de esquerda, como Du Bois e o ator e ativista Paul Robeson (1898-1976). No mesmo período em que a direita avançava sobre o Partido Republicano, redefinindo a identidade política da legenda, Schuyler atraiu o interesse de conservadores brancos que se impressionaram com sua contundência ao criticar o ativismo negro, principalmente o movimento pelos direitos civis.

Em palestras e escritos, Schuyler sempre manifestou o seu desconforto com agendas baseadas na ideia de raça, mesmo que reivindicassem a igualdade de direitos. Para ele, a única alternativa era o estímulo ao empreendedorismo entre os negros e a criação de canais de cooperação com brancos interessados em promover iniciativas junto às comunidades negras. Diferentemente de Booker T. Washington, Schuyler não construiu uma agenda capaz de mobilizar os afro-americanos. O jornalista teve o apoio dos conservadores para publicar em seus periódicos, mas a atuação dele não passou disso.

Nos Estados Unidos, uma possibilidade de maior participação política abriu-se para os negros conservadores com a ascensão de Ronald Reagan. Uma nova geração de intelectuais foi recrutada para ampliar a base do Partido Republicano e desafiar o legado do movimento pelos direitos civis. Nomes como o dos economistas Walter Williams e Thomas Sowell passaram a se destacar nos meios de comunicação e no mercado editorial, promovendo a “revolução” de Reagan. O principal objetivo era conquistar o público afro-americano – entre os quais 24% se autodeclaravam conservadores na época – para as ideias de laissez-faire econômico e de descolamento do Estado dos programas sociais.

Sowell desenvolveu a tese de que a raça já não tinha funcionalidade na construção das desigualdades sociais nos Estados Unidos, indicando haver no país, sobretudo, uma cultura da pobreza, compartilhada igualmente por negros e brancos, que impedia a assimilação dos valores norte-americanos. Um dos livros que popularizaram o economista foi Ação Afirmativa ao Redor do Mundo, de 2004, em que ele critica os programas de inclusão nas universidades. A sua pesquisa tem sido frequentemente citada pelos que se opõem à política de cotas no Brasil e permanece uma referência para a direita.

O vereador Fernando Holiday deixa explícito o ideário conservador e ultraliberal influenciado pela direita norte-americana, ao incluir entre suas bandeiras eleitorais, por exemplo, a luta contra o aborto e a redução do tamanho do Estado e do volume de impostos. No ano passado, chegou a propor à Câmara paulistana um projeto de lei revogando as cotas raciais, o que não vingou. Em setembro, comparou o movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter) com a Ku Klux Klan, que ele já havia qualificado, em 2018, de “movimento de esquerda”, para a estupefação geral.

A posição de Holiday não o impediu, contudo, de condenar declarações de Sérgio Camargo, a quem ele atacou em artigo na Folha de S.Paulo, em 3 de junho passado, sem meias palavras: “Criamos uma direita que nega o racismo. Um exemplo é o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que acredita que séculos de escravidão foram benéficos aos negros.” Em que pesem as divergências, Holiday compartilha com Camargo da ojeriza por Zumbi e pelo Dia da Consciência Negra.

O percurso histórico a respeito dessas correntes de pensamento explicita que nem o conservadorismo é um privilégio de brancos nem a direita negra forma um bloco coeso e unitário, podendo ter variantes e mesmo rivalidades. Debates antigos ganham formas novas, reatualizados num contexto em que o racismo e a inserção social do negro são questões ainda muito longe de serem solucionadas.

 

Ao receber o Prêmio Holberg em 2019, o sociólogo britânico Paul Gilroy chamou a atenção em seu discurso para o fato de a ascensão da extrema direita, tanto nos Estados Unidos como na Europa, ter claros contornos raciais. Essas forças políticas emergentes têm produzido uma crítica autoritária e antidemocrática ao multiculturalismo, que na visão delas estaria protegendo e privilegiando minorias, como os negros e imigrantes na Europa, em detrimento da maioria da população de seus países, predominantemente branca. Trata-se de uma reivindicação nostálgica de pureza racial, fundada na primazia dos brancos sobre o poder político e econômico. E implica na formulação de políticas anti-imigração e avessas à integração entre as raças, quando não em incentivo ao racismo, como o dos supremacistas norte-americanos, que nos protestos da extrema direita em Charlottesville, em 2017, gritavam palavras de ordem como: Jews will not replace us (Os judeus não vão nos substituir).

O lema da campanha de Trump em 2016 – Make America Great Again (Façamos a América grande outra vez) – já sinalizava às classes trabalhadoras e médias brancas norte-americanas o retorno a um passado idealizado. O slogan era também um apelo a manter a hegemonia dos brancos depois de oito anos de governo de Barack Obama, período que foi o ápice do que a filósofa Nancy Fraser chamou de “neoliberalismo progressista” sob os auspícios de um multiculturalismo de mercado.

No Brasil, os negros são convidados a figurar na órbita do governo Bolsonaro em geral para se oporem aos movimentos antirracistas ou para ocuparem papéis político-institucionais subalternos em que sua cor é utilizada estrategicamente para esvaziar ou negar a questão da desigualdade racial. A “subalternidade consentida” engendra da parte dessas personalidades negras uma adesão aos princípios da dominação, que varia da verborragia reacionária de Sérgio Camargo ao silêncio quanto à questão racial do deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), mais conhecido pelas alcunhas que adotou durante a campanha eleitoral: “Hélio Bolsonaro”, “Negão de Bolsonaro” ou “Hélio Negão”.

Subtenente do Exército na reserva remunerada, Lopes se elegeu em 2018 tomando carona na popularidade de Bolsonaro, de quem é amigo de longa data. Não tem uma posição no governo, mas seu capital simbólico como deputado federal mais bem votado no Rio de Janeiro é agenciado pelo presidente, que o leva a tiracolo para muitos eventos importantes e viagens oficiais. O deputado funciona, nesse quadro, como uma espécie de “coringa”, com o objetivo de fazer crer que a população negra está próxima do governo, mas também de livrar seus amigos brancos – como o presidente – de acusações de racismo.

Outra aposta feita pela direita no sentido de agenciar a questão racial como capital político foi a nomeação do economista Carlos Decotelli ao cargo de ministro da Educação. A decisão do governo foi vista com desconfiança por setores do movimento negro, mas com euforia por bolsonaristas, ansiosos em viabilizar a narrativa da meritocracia aplicada à questão da raça, pois Decotelli, militar reformado e evangélico, se configurava como uma figura respeitável, com vários títulos acadêmicos e honoríficos. Parecia ser um homem negro que venceu na vida sem ter que lançar mão da questão racial. Em questão de dias, contudo, Decotelli teve o seu currículo escrutinado e verificou-se, entre outras falsidades, que ele nunca havia recebido o título de doutor. O economista sequer chegou a tomar posse no ministério – e mais um negro voltou aos bastidores da direita.

 

Uma das principais lideranças negras contemporâneas, a pensadora Sueli Carneiro, iluminou de maneira contundente as contradições que afetam os negros de direita no Brasil. Em uma entrevista dada à revista de esquerda Caros Amigos, em fevereiro de 2000, ela afirmou, sobre o então prefeito de São Paulo: “Não me consta que o [Celso] Pitta não tenha consciência de sua condição de negro. Não se tem notícia dele como ativista. […] Somos seres humanos como os demais, com diversas visões políticas e ideológicas. Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta.”

A afirmação de Carneiro pode ser lida como um alerta ao ativismo negro, ao sugerir que a questão racial deva ser tratada sem colocar à frente uma posição ideológica tomada de antemão. Tanto mais que a defesa da pauta racial suscita dificuldades tanto à esquerda como à direita. Com relação à política, a população negra professa opções tão variadas quanto os demais grupos étnicos e raciais, o que exime os negros de direita de serem vistos como aberrações. Por isso mesmo, não deverá ser motivo de surpresa se, no futuro, um movimento negro de direita ganhar expressão no universo político brasileiro.

Esse movimento, porém, terá muito trabalho para se constituir, pois o que existe até agora, como vimos, são lideranças negras de direita que atribuem a si mesmas um papel subalterno, negam o caráter sistêmico do racismo e não oferecem propostas para a construção de subjetividades negras que sirvam de alternativa às da esquerda. Além disso, essas lideranças vivem desconectadas da população negra, estão pouco atentas às transformações sociais que ocorrem atualmente nas periferias do país e do mundo, e têm uma visão limitada das temáticas de gênero e sexualidade, impregnada muitas vezes de sectarismo religioso. Sua pregação liberal primária, ademais, é incapaz de pensar um empreendedorismo negro e periférico.

As eleições de novembro passado são prova disso. A renovação das lideranças políticas negras ocorreu principalmente na direção oposta, com a vitória nas cidades médias e grandes de um número expressivo de mulheres e transexuais negros de esquerda, boa parte deles oriunda de movimentos sociais.

Assim, parece que ainda levará tempo até que os aspirantes a formarem uma direita negra no Brasil concebam um programa liberal e antirracista, pragmático e inclusivo, com uma mensagem acolhedora, defendida por lideranças carismáticas. Até o momento, a direita negra que existe é apenas a de pessoas como os barbeiros do Niggaz Place.


[1] O “Messias” Negro? Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978), publicado na revista Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 22, n. 36, julho/dezembro 2006. Todas as frases de Santos aqui citadas provêm desse relevante ensaio.

[2] Em Dialética Radical do Brasil Negro (1994), citado por Petrônio Domingues em O “Messias” Negro? Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978).

 

Flávio Francisco

É professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC

Márcio Macedo

Sociólogo, professor na Escola de Administração de Empresas da FGV, doutorando na New School for Social Research em Nova York e membro do Afro-Cebrap

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