poesia

A espera e o cão

Mônica de Aquino
ILUSTRAÇÃO: THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. IMAGE SOURCE: ART RESOURCE, NY

PENÉLOPE SECRETA *

Um homem chegou no dia
em que não havia espera.

Na porta, somente o cão
guardava o tempo.

E o tempo era correr
atrás do rabo.



O homem tomou o castelo,
a cama, o arco.

Agora, dorme ao meu lado
descansa da travessia.

Não sabe seu gosto de mar

não sabe que traz, na pele, a alma
do mar.

Preciso partir para esse lugar
de onde o homem voltou

(o amor, agora, é o mar).

Comecei a tecer uma rede
de pesca.

Comecei a tramar
certo corpo de barco.

Agora, tranço os cabelos
e olho pela janela.

É quando ele desperta
desfaz a cama, desfia os planos

desata a trança, pisa na rede

e sinto, de novo, o mar.

De repente, partir é igual
a ficar.

 

PENÉLOPE MENTIROSA

De noite desfaz, obediente
a fera que a carne abriga
e regressa à partida: a espera indefinida.

De dia, é outro o desejo
tece a mortalha com o silêncio
de ter de casar-se outra vez

(presa entre duas promessas)

mas Penélope mente: o que quer é a solidão.

A fidelidade é um cão.

 

PENÉLOPE INDECISA

Como escolher entre
cem pretendentes
sem saber quem se aproxima?

Posso estar a apenas um ponto
de conhecer quem não deixa dúvida.

Não poderia escolher o primeiro
não confio em quem chega tão rápido.

Por outro lado, qualquer um
que não chegue agora
parecerá sempre atrasado

feito para a demora.

Espero o tempo de Ulisses
ou um homem que desvende
minha trama

aprendendo, para mim
um amor que não existe

enquanto espero.

Como escolher alguém
que fique?

—-

O hoje é um cão
com fome
que esconde o osso.

O hoje é a mão
que o cão lambe.

O hoje é o dono do cão

é a fala do cão
com o rabo

o faro de Argos.

O hoje é um cão
pura língua
e dentes

preso à corrente
do cão-passado

preso ao alarde
do amanhã:

cão-labirinto
às vezes fera

que ladra e morde.

O tempo é um cão
de três cabeças

(há dias em que é besta
Cérbero em círculo).

O tempo é a pata
que cava a espera

à procura do osso
que enterra.

* Por um erro da Redação, o poema “Penélope Secreta” foi publicado na versão impressa da piauí deste mês com dois versos a menos. A versão acima, com a segunda estrofe incluída (“Na porta, somente o cão/ guardava o tempo”), é a correta.

Mônica de Aquino

Mônica de Aquino é poeta e autora de Sístole, da editora Bem-Te-Vi.

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