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A forma fácil

    Ana Martins Marques, encobrindo a face: a recusa sistemática da altiloquência rege sua poesia, que extrai imensa significância de eventos triviais, pequenas falhas e supressões CREDITO: MAURO FIGA_2021

questões literárias

A forma fácil

Ana Martins Marques consolida sua épica do cotidiano

Antonio Marcos Pereira | Edição 181, Outubro 2021

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Faz um tempo planejei escrever uma série de textos, cada um sobre um trabalho literário que me interessava, todos partindo do mesmo título, Exame da Obra de Fulana de Tal. Minha motivação era um pouco outra que apenas parodiar Jorge Luis Borges, de quem tomei emprestada a moldura: mais que corrigir a recepção pregressa dessas poetas, como o narrador de Borges dizia querer fazer com a obra do finado e radical Herbert Quain, o que buscava era vindicar um setor da relação com a literatura. Por falta de nomeação melhor, pensava nesse universo como algo ligado ao nosso apego. Nos apegamos a certos autores, que frequentamos às vezes por muitos anos, de maneira sistemática, eventualmente colecionista; gravitamos projetos de escrita e cultivamos essa orientação da atenção como algo que nos define. Queria entender melhor isso, se não em termos gerais, pelo menos comigo.

Ao comentar literatura, por um lado fazemos um movimento pedagógico frequente – buscamos estabelecer relações de parentesco, vizinhança, familiaridade com o que a literatura já nos deu e, supomos, deu a quem escreveu também. Queremos angular uma proveniência, perguntamos ao texto de onde ele vem, e respondemos coisas do tipo “Fica ali perto de João Cabral”, “Está a uns três quarteirões de onde morou Ana Cristina Cesar”, “É vizinha de porta de Orides Fontela, mas apesar disso não se dão muito bem”. Situamos nossos objetos de interesse, assim, em relações de débito, influência, emulação, derivação, e encontramos um jeito de acomodar o que estamos conhecendo ao que já conhecemos.

Por outro lado, nos lançamos a uma microscopia meticulosa e consequente, na esperança de desvendar um sistema de funcionamento que nos revele algo que não seja trivial a respeito do texto, e que de alguma maneira o explique. É o que o crítico Davi Arrigucci Jr. define como a busca por “decifrar o segredo da forma lavrada”. A ideia de decifração, porém, mascara o que é um pouco de invenção também: sem um avanço especulativo de quem foi lá debulhar o milho dos textos, pouco de nutritivo sairia dessa colheita. O crítico desenha o contorno de uma nuvem, demarcando uma fronteira que foi também, em alguma medida, sonhada por ele (Arrigucci vai encontrar em Drummond uma mola mestra de conflito, e essa vai ser sua chave, para seu Drummond).

Os textos que eu queria escrever – os vários Exame da Obra de Fulana de Tal – almejavam, de forma ambiciosa ou ingênua, evadir certos maneirismos e cacoetes do ofício. Daí a palavra apego: queria ter um jeito de dizer, de proximidade aos textos, que não fosse “impressionista” nem naufragasse em ondas voluptuosas de adjetivação que me parecem antes mascaramento e clichê que exploração da experiência. O artifício da rede de adjetivos como esforço de caracterização: queria outra coisa.

Esse poema me impressiona, esse texto me representa, me identifico com isso aqui: o que está acontecendo quando, tendo lido, digo essas coisas, em meu solilóquio, que tende a ser manso e semi-articulado, mas onipresente, pontuando toda leitura? O que está acontecendo quando algo ocorre comigo e retorno a um verso, uma linha de um poema, como se ela legendasse aquele capítulo de minha experiência? Vivendo essas coisas, me atrapalhava para articular incidentes, textos, sentidos. Havia incompetência: um não saber fazer. Mas também havia o roteamento padrão do circuito da crítica, que me embaraçava, e do qual eu desejava sair.

 

Penso aqui em Ana Martins Marques, cujo livro mais recente, Risque Esta Palavra, me coloca diante de uma oportunidade exploratória dessa natureza. Estão aqui em minha mesa os volumes que ela foi produzindo nos últimos dez anos: desde A Vida Submarina, de 2009 (agora sendo reeditado pela Companhia das Letras), passando por Da Arte das Armadilhas (2011), O Livro das Semelhanças (2015) e O Livro dos Jardins (2019), até os trabalhos em parceria com Marcos Siscar – Duas Janelas (2016) – e Eduardo Jorge – Como Se Fosse a Casa (Uma Correspondência) (2017).

Meu primeiro impulso foi me aproximar do Risque Esta Palavra com uma atitude semelhante à do poeta norte-americano Joe LeSueur, autor de Digressions on Some Poems by Frank O’Hara: A Memoir (“Digressões sobre alguns poemas de Frank O’Hara: um livro de memórias”). LeSueur e O’Hara conviveram em Nova York nos anos 1950, tinham conhecidos e amigos em comum (se aproximaram em uma festinha no apartamento do poeta John Ashbery), foram companheiros, amantes e amigos por anos. Dessa vida partilhada, LeSueur fez um livro no qual os poemas estão o tempo todo apontando para fora, para incidentes, personagens, ocasiões. Comentando um poema escrito em 1957, LeSueur diz: “Acho esse modesto poema tão particular e reservado que sinto como se fosse minha propriedade, como se ele tivesse sido escrito para mim. Talvez por essa razão ele forneça uma vida oculta particularmente rica e abundante quando decodifico seus dezenove versos. Deixe que te mostre como isso funciona.” E por aí vai, narrando uma vida paralela aos poemas que se transforma também em pequenas biografias dos poemas. Nelas, LeSueur se permite ir e vir no tempo, dizendo do que viveu com O’Hara e, depois, com suas lembranças do poeta e da vida que partilharam incrustadas nos poemas aqui e ali. “Deixe que te mostre como isso funciona”: essa é a ambição maior que move o texto de LeSueur.

Gostaria de escrever algo assim, Digressões Sobre Alguns Poemas de Ana Martins Marques: fomos colegas na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), convivemos, conversamos, somos amigos, há alguma história partilhada, cada um sabe como o outro ri. Mas as voltas da intimidade de LeSueur com O’Hara, a intensidade da partilha, a abundância de detalhes de testemunho, a nada disso tenho acesso, nada disso aparece para mim quando leio os poemas dela. Que a partir de um poema recorde uma conversa que tivemos, ou que suponha saber quem é o “amigo antropólogo” referido em alguns momentos, me agrada, me faz rir, e diz que há um convívio subjacente que não desaparece quando saio da interação fraterna para frequentar a autoria. Mas o que fornece não basta para dizer o que os poemas propiciam.

Em particular, e talvez em contraste com O’Hara, o que é verificável nesses poemas – que uma dada viagem tenha ocorrido, que tal pessoa seja quem se pensa ser, que a poeta tenha estado “num guichê no meio de uma tarde qualquer” – não serve a um propósito de retratação, de fixação de um mundo, com suas moralidades, intempestividades, novidades. O que eles fazem seguidamente é capturar pequenas falhas, quedas particulares, supressões eventuais: essas coisas caem na rede da atenção de Marques, que as conduz – e nos conduz – a outro lugar. LeSueur menciona “uma vida oculta particularmente rica e abundante” que lê nos poemas de O’Hara, e a “vida submarina” dos poemas de Marques me parecia algo assim, os poemas me ofereciam acesso a isso.

É assim que funciona a máquina do tempo daquele que deve ser o poema mais usado, citado, mencionado dela, História:

 

Tenho 39 anos.

Meus dentes têm cerca de 7 anos
a menos.

Meus seios têm cerca de 12 anos
a menos.

Bem mais recentes são meus cabelos

e minhas unhas.

Pela manhã como um pão.

Ele tem uma história de 2 dias.

Ao sair do meu apartamento,

que tem cerca de 40 anos,

vestindo uma calça jeans de 4 anos

e uma camiseta de não mais que 3,

troco com meu vizinho

palavras de cerca de 800 anos

e piso sem querer numa poça

com 2 horas de história

desfazendo uma imagem

que viveu

alguns segundos.

 

A idade de uma coisa sai ricocheteando na outra, todas na improvável coabitação de um instante, um corpo, uma presença. Tudo funciona e parece fácil, e certamente é para quem lê, embora nada dilua o fato maior da impermanência. E esse fato – esse lembrete de que as coisas mudam, passam, declinam, desaparecem – não é algo exatamente de compreensão fácil entre nós. A metafísica que dá um ponto de fuga a essa constelação de coisas ordinárias – uma pessoa, seu aniversário, sua camiseta, o pão que comeu, a palavra que fala, a poça em que pisa – está aqui e em muitos outros poemas, tema comum, pequeno eterno retorno de um olhar que perambula e que tem nessa consciência particular do tempo e suas operações uma de suas modestas âncoras.

Mas essa perambulação do olhar não precisa ser sobre esse entorno imediato, à mão: muitas vezes é sobre o que se imagina, se supõe, se adivinha como potência do mundo no qual habito, mas que não verifico pelo testemunho. É o que aparece em Lembrete:

 

Lembrar que

enquanto andamos

por estas ruas banais

sob um céu inestrelado

templos brancos como ossos

repousam entre oliveiras

quase igualmente antigas

 

uma mulher desfaz

sobre a nudez noturna

sua trança pesada

 

um pequeno lama

cabeceia de sono

 

e há leões e laranjas

falcões e hangares

anêmonas e zinco

[…]

uma mulher vê

a cidade acender-se

à medida que anoitece

e para acalmar-se

conta as janelas

iluminadas

 

arrumam-se armários

roupas de pessoas mortas

envelhecem corpos jovens

[…]

alguém conhece

pela primeira vez

a enguia, o sexo, a escrita

 

pensar que devemos estar

à altura

disso

 

Casual (é um “lembrete”), o poema é como um Aleph benevolente: há um ponto metonímia de tudo, somos a flecha de Zenão que nunca chega ao alvo, o alvo é onde já estamos. Cenas de toda parte, de várias épocas, são convocadas a comparecer agora, e nesse momento o que temos é o encontro com uma multiplicidade que joga com as ilusões de onipotência. Como diz uma personagem num poema do português Manuel António Pina, “É a vida”, e nessa nota de estoicismo discreto ao final, o poema sai de cena, e ficamos nós, com o que o poema deixou.

Vejo esses poemas de Ana Martins Marques como fruto de um relacionamento aberto e feliz entre Drummond (pense em Vida Menor), Wisława Szymborska (considere Pode Ser Sem Título) e outros tantos, alguns nomeados e prováveis (em O Livro dos Jardins, há poemas dedicados a Szymborska, Alejandra Pizarnik, Sylvia Plath, Orides Fontela, Marina Tsvetáieva, Ingeborg Bachmann, Laura Riding; haveria lugar para Adília Lopes, certamente) e outros para mim mais surpreendentes (como Robert Bringhurst, e também Jorge de Sena, em duas aparições no último livro). Às vezes há matrimônios de improváveis: são, como os precursores de Kafka eram para Borges, dessemelhantes entre si, mas parecidos com Marques, com o que sua poesia faz. Conferem uma orientação à leitura, pois nos dão pistas, fazendo uso do que já conhecemos como um jeito de construir laços, de chegar mais perto do texto. Mas, simultaneamente, transtornam ou amplificam o que sabemos e percebemos a respeito dos outros autores, que aqui são incrementados e traduzidos em outros termos, todos capítulos do peculiar “livro das semelhanças” que Marques foi construindo livro a livro.

 

Pensando em resenhar Risque Esta Palavra, considerei o argumento, sedutor mas sofrível, do “desenvolvimento”, pois o livro me agradou, perturbou e convocou muito, e na circunstância em que o li pela primeira vez me pareceu fazer isso de maneira mais aguda que os livros anteriores. Fala-se que Pascal guardava na algibeira uma almofada cheia de alfinetes, e quando se sentia particularmente envaidecido numa circunstância social apertava essa almofada contra o corpo, se punindo: esse livro funcionou em alguns momentos como essa almofadinha de Pascal, que eu retirei da algibeira e contemplei como um objeto encantador e excepcional, ainda mais interessante por sua insuspeita potência para infligir sofrimento.

Mas para que serviria dizer que há desenvolvimento, evolução, aprimoramento? Não é o caso de supor que arte se aprende a fazer do mesmo jeito que a gente aprende a jogar sudoku, e não sei dizer quem mudou mais, se a poética de Marques ou meu jeito de encontrar essa poética. Ainda que soubesse, não é resolver uma equação o que está em jogo. Não se trata de evocar poderes novos, ou mesmo de revelar objetos novos: a forma oblíqua de capturar os incidentes que está aqui esteve antes também, do mesmo jeito que a mescla, que me impressiona desde A Vida Submarina, entre o complexo e o compreensível. Coisas muito complicadas são bastante inteligíveis, e até o que é mais rarefeito parece parte de uma conversa, uma fala recolhida, algo ouvido por acaso: tudo soa “natural”. Lembrei-me da crítica de modos vetustos de Rodrigo Naves e sua noção de “forma difícil”: desrespeitando o propósito original com o qual ela foi forjada, a aproveito aqui para inverter algo do seu sentido, pois penso que essa poesia me evoca a ideia de uma “forma fácil”. É um grande artifício, de formidável e consistente execução, em particular por nos levar a pensar que, se é fácil para nós, também foi fácil para Marques – e, sobre isso, vai saber (duvido que seja).

Em vez de sequer evocar desenvolvimento, talvez fosse melhor tentar dizer alguma coisa à la Lulu Santos, e que ecoa quase exatamente num dos versos, apontando na direção do prazer de ser o mesmo, mas mudar. Pois me sinto em ambiente doméstico na leitura, na qual se está fazendo algo banal e ligeiro e de repente adentra o mundo, imenso, simultaneamente alheio e íntimo da vida comezinha, do dia a dia. Alguma coisa parece ter se deslocado nesse livro, e embora eu não seja capaz de pôr a mão exatamente no quê, posso ainda tatear e apalpar.

A aparição de figuras mitológicas, por exemplo, é presente desde o início (poemas com centauro, sereias, Ícaro), mas aqui estamos diante de uma conversa, e embora seja feita de falamos pouco […], tomamos nosso café quase em silêncio, o poema dá a impressão de não querer acabar, de poder continuar bem mais: mas hoje estamos velhas/ela e eu/cansadas de refletir o tempo/como um escudo. Lembra um jeito que tinha o poeta polonês Zbigniew Herbert de chamar para o mesmo poema figuras díspares da mitologia, como Zenão e Isaac, e fazer de suas recordações a cola que mantém esses personagens, tão apartados, convivendo ali. Aqui, nesse livro, num poema sobre a Medusa, ninguém vira pedra, e talvez o maior tema seja essa forma particular da vida, o fluxo mercurial do desejo (é talvez o que há no desejo de mais cruel/quando nele há tanto de cruel:/que ele dure, continue/e às vezes seja só desejo/do desejo/e seja móvel e mesmo/como o mar).

Os afetos, o desejo e o sexo já se viam antes também, mas aqui há uma elevação da voltagem (já fui um ser de duas cabeças/e ancas/já tive quatro pernas duas bocas), das cicatrizes e perdas a elas associadas (o que foi feito desse ser/desajustado para o mundo; ou reconhecer enfim o divórcio/como um sacramento; ou a memória é agora o lugar/diário dos nossos/únicos encontros), bem como de algumas alegrias e enlevos (eu rodava em torno do seu corpo/como se roda num museu em torno da estatuária; ou só amamos de fato/o que serve para nada). Esses corpos vividos, olhados, aludidos, evocados, dispensados, saudosamente celebrados como algo distante em tempo e espaço: todos se encontram com o declínio, a morte, o fim. Esse livro está cheio de incidentes fatais, e nele até uma pedra morre. A morte já estava bem presente antes – recordo um poema num livro anterior no qual aparece um cadáver de gato – e nesse livro parece estar ainda mais: um cachorro se enforca com luz, e se diz também que de minha parte, matei uma criança, e ainda que Como um alfaiate a morte/toma-me as medidas. Tema constante – é a vida, em seu curso, dialogando com a morte e o morrer – que aqui se encontra agravado, em estado de emergência.

Se fosse resenhar o livro, teria de encontrar uma maneira de comentar as duas partes finais, conduzindo esse comentário a alguma forma de conclusão, pois essas partes parecem reclamar autonomia, livros saindo de dentro do livro. Em Noções de Linguística há uma apresentação do mundo, um inventário de questões de aquisição de língua materna, problemas de referência e tradução, línguas artificiais.

 

Uma primeira pessoa cheia de                                pequenos animais

e coisas esquecidas nos cantos

e folhas e filó

dirige-se a uma segunda pessoa

com um buraco no meio

onde se pode guardar o pão

ou esconder uma chave

enquanto uma terceira pessoa

da estatura ideal para se pendurar                         um anúncio

observa de longe

assoviando uma pequena canção

Pequenos animais, uma pequena canção: um atributo razoável para a poética de Marques talvez esteja aí, nessa convocação do pequeno, nesses pactos com o infraordinário, nessa recusa sistemática da altiloquência que permite que, esquivando-se da ênfase, apareça uma primeira pessoa cheia de pequenos animais.

Em Parar de Fumar o que se narra é um fim de caso, uma despedida que já prevê a dureza da saudade, no ocaso do vínculo com o cigarro e com a pessoa que se é, quando se fuma. Teria de escolher bem o que citar aqui: é difícil, pois seria como disciplinar os poemas em busca de evidências que beneficiem uma tese que não tenho, e há coisas que me inquietam convivendo com o que me agrada. Objeto incapaz de guardar memória/já que consome a si mesmo/no uso: é do cigarro que se fala, mas ouvi algo de mim. Deixo agora o cigarro/como um Ícaro/que aposentasse as próprias asas//como se com isso me pusesse/fora do círculo da queda: qual é a mola mestra desses poemas todos? Os encontros, a perda, o fim, a ação do tempo, a transitoriedade das coisas, os dois lados do círculo da queda? Poderia muito bem dizer “a vida”, o que seria, convenhamos, dizer bem pouco, tentar mercar com uma forma muito pouco comprometida de tudo.

Tendo frequentado a obra, não encontrei sua chave, e a coletânea de digressões que fiz talvez seja demasiado preliminar para fazer jus a uma ideia de crítica. Mas não há um jeito só de fazer as coisas, e há de ser possível também acolher um desejo de fazer o livro ressoar, com sua falta de veemência, suas precauções contra sua própria eloquência e seus ressaibos: que seja essa uma chave plausível também, do mesmo jeito que um prendedor de cabelo entortado tantas vezes funciona como chave improvável, mas eficiente, nos filmes. Já perto do final do livro, encontro uma descrição de mais um dos momentos de sua gradual separação do cigarro que parece descrever outra coisa. De um lado uma pequena chama e de outro um animal que respira: do que se está falando aqui? Cigarro, poesia, vida? Há muitos momentos assim, e é mesmo como se esse texto que pensei em escrever tivesse sido previsto no livro, sua possibilidade anunciada em um dado momento nas Noções de Linguística, quando Marques escreve que alguém leu um livro numa língua que conhecia pouco/e então um novo livro passou a existir no mundo/o livro das coisas que entendeu a pessoa/que leu um livro numa língua que conhecia pouco. Sou apegado a essa poesia porque nela estou sempre lendo esse livro numa língua que, embora acredite compreender perfeitamente, sei que conheço pouco, e que me deixa ligeiramente diferente a cada vez que me aproximo dela.