esquina

A Índia é aqui

Quanto mais quente melhor

Carol Pires
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Na contramão dos paulistanos que faziam fila nos clubes em busca de sombra e água fria, numa manhã de sábado, em janeiro, um grupo de 39 pessoas se espremia num sobrado da Vila Madalena, para que todos pudessem colocar seus tapetinhos no chão de uma sala aquecida a 40 graus centígrados.

Às 10 horas em ponto (a temperatura externa era de 32 graus e logo alcançaria os 37), Andrea Wellbaum, 39 anos, corpo mignon, traços alemães e sorriso sempre entusiasmado, fechou a porta da sala e, pelos noventa minutos seguintes, fez todos, literalmente, suarem a camisa.

O primeiro exercício era simples: o pranayama, explicou Andrea, aquece o corpo e foca a mente na respiração. Os dedos das mãos devem estar cruzados sob o queixo, e os cotovelos levantados na altura das orelhas. Inspira-se. Em seguida, os cotovelos abaixam até encostarem um no outro na altura da barriga, alavancando as mãos num movimento de empurrar o queixo para trás. Expira-se. Com os cabelos loiros presos num coque, roupa de ginástica e descalça, a professora dava as instruções equilibrada no alto de uma escada de três degraus.

Pranayama é o exercício de respiração que abre a série, seguindo com 39 posturas de yoga. A aula tem o nome de classic fierce grace, uma variação da hot yoga original, chamada bikram yoga. Antes de alterar seu corpo, “você tem que aquecê-lo, porque um corpo quente é um corpo flexível”, lê-se na página oficial do guru Bikram Choudhury. Em noventa minutos é possível queimar até mil calorias. O guitarrista dos Beatles, George Harrison, e o ex-presidente americano Richard Nixon foram adeptos da prática, ainda hoje sucesso entre famosos como Lady Gaga e George Clooney.

Bikram Choudhury é um indiano de 69 anos que criou a série para se curar de uma lesão no joelho. Ele emigrou para os Estados Unidos nos anos 70 e fundou as primeiras academias na Califórnia e no Havaí. O calor da sala visa emular a temperatura da Índia. Duas vezes por ano, o iogue, um dos mais ricos e famosos do mundo, oferece um curso de formação de instrutores de hot yoga. Em 2010, a brasileira Andrea Wellbaum se formou com ele em San Diego, na Califórnia. Hoje, para fazer o curso, um interessado teria que ir à Tailândia e desembolsar 12 500 dólares pela matrícula.

 

Andrea chegou à bikram yoga por acaso. “Eu fazia yoga, mas em casa, vendo um DVD”, contou numa segunda-feira abafada, numa lanchonete de produtos orgânicos. Trabalhando como correspondente da BBC Brasil em Londres, viu um anúncio à procura de voluntários que topassem fazer uma aula de hot yoga e depois escrevessem sobre a experiência. A história ela não escreveu, mas a prática foi decisiva para a sua vida. Resolveu dar um tempo na carreira de jornalista e se formar instrutora.

Durante as nove semanas de curso em San Diego, Bikram, com uma tanga preta, dava aula sobre um palco espelhado. Uma saída de ar-condicionado ficava estrategicamente posicionada acima de sua cabeça. Os alunos deviam praticar diariamente, de domingo a domingo, duas sessões de uma hora e meia cada.

“O Bikram inventou um método maravilhoso, mas não é meu líder espiritual”, ponderou Andrea. A reputação do iogue de tanga preta anda meio em baixa: nos últimos anos, cinco alunas o acusaram de assédio sexual. Desde então, muitas das academias e franquias que de algum modo traziam a chancela do guru vêm trocando o nome ou a metodologia.

Em setembro de 2013, Andrea inaugurou o primeiro estúdio de hot yoga de São Paulo. A maioria das aulas usa o método fierce grace, uma evolução da hot yoga. Ela recomenda que os alunos pratiquem pelo menos três vezes por semana, senão “cada aula será tão difícil como se fosse a primeira”. Aos novatos, aconselha um jejum de duas horas e a ingestão de um litro e meio de água antes de cada aula.

 

Naquele sábado, o grupo parecia completar as séries com relativa facilidade, até que, já na terceira posição, a utkatasana – agachamentos com os dois braços em riste e os calcanhares levantados –, a maioria começou a suar em bicas.

Na posição dandayamana-dhanurasana, uma senhora levantou e pediu, meio em português, meio em inglês – apesar de ser brasileira –, para se retirar. Naquele momento, cada um se equilibrava no chão com o apoio de um dos pés, o tronco paralelo ao chão, formando um T com o corpo, enquanto uma das mãos segura o tornozelo por trás da cabeça. A instrutora lhe disse para esperar até o final do exercício, caso contrário poderia derrubar todos os presentes, num efeito dominó. À saída, a desistente desabafou: “Isso não é para mim. Gosto mesmo é de ar-condicionado.”

Andrea identificava cada uma das posições, mencionando o nome em sânscrito e o correspondente em português. A maioria delas faz referência a um animal: postura do gafanhoto, do coelho, meia tartaruga. Durante a posição número 22, chamada ustrasana ou posição do camelo (joelhos no chão e coluna curvada para trás como se a testa quisesse encostar nos calcanhares), Andrea perguntou aos alunos: “Ficaram tontos, com vontade de desmaiar? Parabéns! É porque acertaram o movimento!”

Tontura e vontade de desmaiar são sintomas frequentes e não devem ser encarados como um sinal vermelho. Deve-se tomar um gole de água, sentar e tentar outra vez. Alguns praticantes até choram ao fazer o camelo, Andrea comentou depois. A posição, de peito aberto, fragiliza algumas pessoas “que têm medo de se abrir para o mundo”.

A filosofia de Andrea para lidar com o calor é como soro antiofídico, que se produz a partir do veneno da cobra: para resfriar o corpo, em vez de água gelada, ela toma chá quente. Durante a aula, ela nos dizia para não brigar contra o suor – uma batalha que, de qualquer forma, seria perdida. O chão da sala estava encharcado. “Não limpem, esse é o nosso ar-condicionado particular.” Desde que começou a praticar hot yoga, disse suar mais, embora sinta menos calor.

Ao final da sessão, Andrea começou a resfriar a sala – que o criador do método chama de “câmara de tortura”. Ligou exaustor e ventiladores, entreabriu a porta e as janelas até que a temperatura atingisse os 38 graus. Os alunos que saíram do estúdio sonhando com uma brisa fresca deram com os burros n’água. Naquele dia, a temperatura em São Paulo foi a maior desde o início do verão.

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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