diário

A insensata peregrinação da carne

Marlene Dietrich e John Kennedy na cama, na Casa Branca. Não existe nada mais lindo que os momentos felizes de homens infelizes. Miles Davis disse que gostava de chupar garotos branquelos. A experiência de tomar vodka pelo ânus. Só comida e sexo conseguem me tirar do torpor: hei de morrer me debatendo em apatia. E assim vamos em frente, as nádegas vergastadas, levados incessantemente de volta ao passado

Kenneth Tynan
Keneth Twain: “Para os freudianos não é apenas excêntrico, mas contra a natureza, que a pica endureça à vista de um espartilho ou ao cheiro de uma calcinha”
Keneth Twain: “Para os freudianos não é apenas excêntrico, mas contra a natureza, que a pica endureça à vista de um espartilho ou ao cheiro de uma calcinha” FOTO: MARY EVANS / ROGER MAINE_1964

No seu último ano de vida, Kenneth Tynan ligou um dia do hospital para Tracy, a sua filha mais velha, e lhe disse que queria conversar sobre um assunto importante. Nos anos anteriores, Tracy se tornara uma presença assídua à cabeceira do pai, enquanto Tynan lutava, no ar poluído de Los Angeles, com uma forma hereditária de enfisema, exacerbada pelos dois maços de cigarro que fumava diariamente. Na sua visita anterior, encorajada por alguns goles do champanhe barato favorito de Tynan, Chandon Blanc des Noirs, que ela levara clandestinamente para o hospital e que os dois beberam escondido em copos de papel, Tracy lhe dissera, de repente: “Sabe, papai, eu nunca lhe disse, mas eu… eu… te amo”.

As palavras vieram num arranco. “Ele estendeu o braço e segurou a minha mão por um tempo”, lembra Tracy, “e eu fiquei aliviada.” Tynan acabou de tomar a garrafa de champanhe e disse: “Agora vamos falar de outra coisa. Esta conversa está começando a parecer um desses horríveis filmes de hospital”. Tracy ficou, diz ela, “arrasada”. Logo inventou um encontro de negócios, e pouco depois já estava na claridade do dia de Santa Monica, sentada, aos prantos, no seu carrinho cinza.

Depois disso, passou mais ou menos um mês distante do pai, deixando que os cuidados com o doente ficassem por conta da dedicada mulher de Tynan, Kathleen. Uma hora depois do telefonema do pai, no entanto, estava de volta ao seu posto de combate habitual. Kathleen, disse-lhe Tynan, precisara sair, para uma viagem de negócios. Tynan anunciou então que “tinha decidido deixar os seus diários de herança para mim”, conta Tracy. “Fiquei surpresa. Ele me contou que os diários continham, entre outras coisas, um relato explícito do caso sadomasoquista que ele vinha tendo nos últimos dez anos. Estava preocupado com a possibilidade de que Kathleen pudesse encontrá-lo e destruí-lo. Na verdade, existiam sinais de que ela já havia tentado.” E acrescenta: “Eu sabia que Kathleen ficaria furiosa quando descobrisse o que o meu pai tinha feito: iria considerar aquilo um insulto, uma traição. De certa maneira, era mesmo”.

Quinze dias mais tarde, na visita seguinte que Tracy fez ao pai, Tynan perguntou se ela havia assinado o adendo final ao seu testamento. Ainda não. “Pois então é melhor você se apressar”, disse Tynan. “Kathleen voltou. Descobriu que eu resolvi te dar os diários, e ficou furiosa.”

“Mas como ela descobriu?”, perguntou Tracy. Tynan serviu-se de mais uma dose de champanhe. “Eu contei”, disse ele. Tracy foi para casa e assinou o anexo ao testamento. “Nunca mais voltei a tocar no assunto, nem com meu pai nem com Kathleen”, conta ela. Nunca, pelo menos, até a cerimônia em homenagem à memória de Tynan, realizada em Londres, em setembro de 1980, quando Tracy e Kathleen se viram a sós, no quarto bege do apartamento térreo de Kathleen, em Kensington, ao se arrumarem para a festa que viria em seguida.

Na lembrança que Tracy tem da conversa, Kathleen virou-se para ela e perguntou: “Você falou com alguém sobre os diários?” “Não”, menti. “Pois eles pertencem a mim”, disse Kathleen. “Como você foi capaz de uma coisa dessas?”, perguntou Tracy. “Acho que ele estava com medo de que acontecesse alguma coisa com eles”, respondeu Kathleen. “Fiquei com raiva. Arranquei algumas páginas, mas depois as pus de volta. Além disso, preciso deles para a biografia do seu pai que estou escrevendo.” Isso era novidade – bastante esquisita – para Tracy.

No fim de uma longa investigação judicial, Tracy descobriu que não podia reivindicar a sua herança: o anexo ao testamento havia sido datilografado e, nesse caso, a lei exigia que tivesse a assinatura de quatro testemunhas. E faltava uma. Ela não tinha nem o dinheiro e nem a disposição de continuar enfrentando Kathleen nos tribunais ingleses. Irritada e magoada, acabou desistindo. “A ruptura entre nós duas nunca cicatrizou”, diz ela. Tracy recebeu um bilhete conciliatório de Kathleen, oferecendo-se para dividir com ela os rendimentos provenientes dos diários, se e quando eles fossem vendidos. Além disso, a herança que Tracy recebeu do pai limitou-se a um relógio de ouro e uma caneta.

 

Kathleen morreu em 1995. Os dois filhos mais novos de Tynan, Roxana e Matthew, que herdaram os direitos das obras do pai, devolveram os diários a Tracy porque, diz ela, “sentiram que era a coisa certa a fazer”. A entrega ocorreu poucos meses depois, em Los Angeles, quando Roxana passou para as mãos de Tracy uma sacola de lona com os doze finos volumes dos diários que seu pai manteve entre 1970 e 1980. “Foi a primeira vez que eu os vi realmente, em carne e osso”, conta Tracy. “Eram tão pequenos. Mal tinham dez por quinze centímetros cada um, pequenos fichários de folhas soltas. Não muito elegantes nem práticos, mas inconfundivelmente dele: cheios de páginas cobertas com a sua letra elegante e quase ilegível.”

No leito de morte, Tynan murmurou: “Um pequeno talento para o brilhantismo”. Se falava de si mesmo, o julgamento foi severo demais. Seus diários são testemunhas do conselho que ele deu a si próprio: “Seja leve, ácido, insolente e melancólico”. Eles demonstram tanto o seu brilhantismo como a sua luta para encontrar um lugar no mundo no qual sua inteligência pudesse resplandecer. Sem essa intenção, no relato das incansáveis e obstinadas proezas sexuais de Tynan os diários rastreiam um tema humano maior, que Oh! Calcutá![1] tentou e não conseguiu capturar – aquele que um dos amigos famosos de Tynan, Tennessee Williams, chamou certa vez de “a peregrinação insensata da carne”. [John Lahr]

1971

11 DE JANEIRO

Afinidade com quartetos de cordas, pequenos conjuntos de jazz, jantares com não mais que seis pessoas – antipatia por sinfônicas, grandes orquestras, festas numerosas –, é nesse estado que me encontro: um fanático pela música de câmara, infeliz em qualquer multidão. E, por isso, um político de bastidores, jamais um ativista. Todo aplauso de que necessito me vem da vida particular. Aqueles a quem falta esse aplauso (ou aprovação) tendem a procurá-los em público, e se tornam políticos.

15 DE JANEIRO

Além do talento propriamente dito, o que permite o exercício do talento é a capacidade de se impor (s’imposer). Roman Polanski, Larry[1], Orson Welles, Marlon Brando e Pinter[2] são capazes de s’imposer. Definição de quem se impõe: a pessoa diante da qual todos se preocupam em saber se o seu comentário à nossa próxima frase será um sorriso ou um rosnado. Com as pessoas que se impõem, sempre corremos perigo, mesmo que não trabalhemos para elas (Hemingway, por exemplo).

24 DE JANEIRO

Primeira grande briga em torno de “prudência e propriedade” (nas palavras de William Blake). Será que devo pagar dezenove mil libras por um contrato de cinqüenta anos de aluguel da nossa casa – ou deixar que o dinheiro se acumule, e desistir da casa ao fim dos doze anos do atual contrato? Kathleen acha que eu devo pagar e adquirir segurança; eu acho que é melhor guardar o dinheiro e conservar a mobilidade. Impensadamente, cito as palavras de Samuel Butler: “O salteador nos pede a bolsa ou a vida; as mulheres nos pedem as duas”. K. insiste em se dizer minha sócia, com partes iguais. Respondo que ela é sustentada por mim, e que, portanto, não pode reivindicar a posição de sócia. Ela fica chocada e vai às lágrimas. Diz que nunca antes se percebera “mantida”, no sentido vitoriano. E eu não consigo acreditar que, partidária (como eu) do movimento de libertação feminina, ela possa ser tão ingênua. De qualquer maneira, ela não pode ser sustentada pelo marido e, ao mesmo tempo, querer decidir como vai ser aplicado o que ele ganha. Não consigo imaginar uma forma fácil de acordo. Ela quer raízes e propriedades sólidas; eu quero mobilidade e dinheiro líquido.

E assim vamos em frente, as nádegas vergastadas, levados incessantemente de volta ao passado.

3 DE FEVEREIRO

Trocadilho pensado ontem no banheiro: qual seria a manchete da Variety caso Rex Harrison[3] batesse num colecionador de autógrafos? Resposta: SHIT HITS FAN (merda bate no ventilador).

10 DE FEVEREIRO

Depois de ouvir o adágio de uma peça de câmara de Schubert: não existe nada mais lindo que os momentos felizes de homens infelizes. O que pode servir como definição para a arte.

12-15 DE FEVEREIRO

Um fim de semana perdido, em Hamburgo, com Kathleen, Joan e George Axelrod.[4] No Teatro Erótico Salambo, vejo uma trepada no palco pela primeira vez e, para a minha surpresa, fico encantado. Todos ficamos. Um grupo de jovens, de corpos bem desenhados e limpos, demonstrando grande afeição mútua, apresenta o espetáculo, que tem uma iluminação imaginativa e conta com efeitos sonoros evocativamente orgásticos. Paus são doce e diligentemente chupados, e o par principal (a moça é escocesa) trepa por dezoito minutos – quatro vezes por noite – numa variedade de posturas, e o pênis do rapaz nunca sai da boceta da moça. A apresentação retal plena, na qual a bunda da nossa querida escocesa aparece toda aberta, a ponto de arrebentar, enquanto o pistão rosa-pálido da pica escorrega para cima e para baixo, é algo que jamais haverei de esquecer.

16 DE FEVEREIRO

Discutimos qual estrela tem a bunda mais bonita. Digo Natalie Wood. Roman diz Jane Fonda. Respondo que Jane tem uma bunda de menino. “Por que não?”, pergunta Roman. “Na verdade, sou eu quem tem a bunda mais atraente de toda a indústria cinematográfica.” (E se levanta para mostrar.) Lembro Marilyn Monroe. E Roman diz: “Ah, se vamos falar de gente morta, a bunda de Sharon não era nada má”.[5] Nem parece lhe passar pela cabeça que a sua homenagem poderia ser formulada de maneira menos insensível.

25 DE FEVEREIRO

Depois do jantar, fomos ao apartamento de Peter Sellers, em Chelsea, onde converso com George Harrison, dos Beatles (cabelos com pelo menos 70 centímetros de comprimento), sobre o musical que quero escrever para o National Theatre a partir de Tyger, de William Blake. Espero que ele me dê alguma sugestão de compositor. Com muito custo, finalmente revela, ao cabo de uma longa conversa, que nunca “curtiu muito literatura inglesa” e que, na verdade, nunca ouviu falar de William Blake. O que é surpreendente e triste. É uma pena que ele possa se considerar poeta sem jamais ter tido a oportunidade de se comparar a um poeta como Blake.

8 DE MARÇO

Nenhum país comunista jamais bombardeou uma população civil. Repito, e lembre-se disso: Nenhum país comunista jamais bombardeou uma população civil. (Ontem, mil aviões bombardearam o Laos. Mil.)

“Nos filmes”, diz Larry, “não existe um desempenho definitivo do ator. Você filma um monte de ensaios, e depois escolhe o melhor.”

13 DE MARÇO

Virtualmente sem amigos, aos 43 anos. Afastei os amigos tradicionalistas com as minhas posições políticas de esquerda, e os amigos de esquerda com o meu amor ao prazer.

4 DE ABRIL

Preciso contar aqui uma história que Marlene Dietrich me contou anos atrás. Ela foi amiga, nos anos 30, de Joseph P. Kennedy, e a filha dela tomava banho de mar com os filhos dele na Riviera, antes da guerra. No outono de 1962, ela estava se apresentando num cabaré de Washington. Bobby e Teddy vieram assistir, mas o presidente, claro, não freqüenta boates; e ela ficou triste com isso, até receber um convite para ir tomar alguma coisa na Casa Branca, no sábado seguinte, às 6 da tarde. Aceitou, embora às 7 precisasse estar de volta ao Hotel Statler, onde os Judeus Veteranos de Guerra lhe ofereceriam um jantar, em homenagem aos esforços que ela fez durante a guerra para ajudar refugiados judeus.

Às 6 da tarde, ela chegou à Casa Branca, e um assessor de imprensa a levou até a área do gabinete presidencial. Havia uma garrafa de vinho alemão esfriando num balde de gelo. “O presidente lembrou que, da última vez que jantaram juntos, em Nova York, a senhora disse que era este o seu vinho favorito.” O assessor serviu-lhe uma taça de vinho e retirou-se. O relógio já marcava 6h15 quando JFK entrou, deu-lhe um beijo, serviu-se de um pouco de vinho, levou-a até a varanda e começou a falar sobre Lincoln. “Espero que você não esteja com pressa”, disse ele. Marlene explicou que, infelizmente, estava sendo esperada por 2 000 judeus, para receber uma placa, às 7 da noite, e já eram 6h30… “O que não nos deixa muito tempo, não é?”, perguntou JFK, olhando-a diretamente nos olhos. Marlene admite que gosta de homens poderosos, e que acha maravilhoso poder ostentar os seus escalpos na cintura. De maneira que devolveu o olhar e disse: “Não, Jack, acho que não”.

Em seguida, ele pegou o copo dela e seguiu na frente, enveredando por um corredor, depois dobrando uma curva e entrando – no quarto de dormir presidencial. E então, nas palavras de M.D.:

Lembrei-me do problema que ele tinha nas costas – o ferimento de guerra. Olhei, e ele já estava tirando a roupa. Desenrolava metros e metros de atadura da altura da base das costas – parecia Laocoonte e a serpente, sabe do que estou falando? Eu sou uma senhora de idade, e disse que aceitava dormir com o presidente, claro, mas que de maneira nenhuma ia ficar por cima!

Mas parece que tudo correu bem; JFK assumiu a posição superior, e tudo acabou da melhor maneira, e em pouquíssimo tempo.

Em seguida, ele adormeceu. Olhei para o relógio e vi que já eram 6h50. Eu me vesti e o sacudi – não conhecia os caminhos daquele lugar, e não podia simplesmente ligar para um táxi. E disse: “Jack – acorde! Tenho 2 000 judeus à minha espera! Pelo amor de Deus, me ajude a sair daqui!” Ele pegou uma toalha, enrolou na cintura e saiu comigo pelo corredor até um elevador. Disse ao ascensorista que me conseguisse um carro para o Statler, imediatamente – ali, de toalha, sem o menor embaraço, como se fosse a coisa mais rotineira do mundo – o que, na vida dele, devia ser mesmo. Quando eu estava quase entrando no elevador, ele disse: “Só uma coisa que eu queria saber”. “O que é, Jack?”, perguntei. “Você deu para o meu pai?”, perguntou ele. “Não, Jack”, respondi, sem mentir, “nunca dei para ele.” “Ótimo”, respondeu ele, “pelo menos dessa vez cheguei primeiro.” Depois a porta do elevador se fechou e nunca mais tornei a vê-lo.

12 DE ABRIL

A coisa mais inesperada que já ouvi dizerem, depois de um jantar, em meados dos anos 50. O dono da casa pediu aos convidados, despretensiosamente, que indicassem as três coisas de que mais gostavam no mundo. As respostas variaram entre o sério, o previsível (“os quartetos de Schubert”) e o previsivelmente leviano (“abotoaduras de ônix”), até Kitty Freud[6] sacudir os cabelos escuros e declarar, com uma franqueza trêmula: “Viajar, boa comida e ser espancada no traseiro com uma escova de cabelo”.

16 DE ABRIL

O maior acontecimento cultural da primeira parte da minha vida foi Cidadão Kane. Acreditando em tudo que eu lia (e que Welles dizia) sobre o filme, achava que fosse a obra de um homem só, concebido, produzido, escrito, dirigido e, predominantemente, estrelado por Orson. Essa idéia de uma obra de arte como um desempenho de solista afetou todas as minhas atitudes a respeito do teatro, do cinema e da minha própria carreira por muitos e muitos anos. Só fui encarar de frente a idéia da arte como colaboração muito tempo depois. Agora, os artigos de Pauline Kael sobre Cidadão Kane na New Yorker provam, sem dúvida, que Welles não escreveu qualquer das falas de Kane, e que a idéia e a sua execução (até o estágio de roteiro final, pronto para ser filmado) foram obra exclusiva de Herman J. Mankiewicz. Fiquei encantado, claro, com essa confirmação da minha convicção de que um filme é tanto (se não mais) obra do escritor quanto do diretor. Mas é um abalo profundo descobrir que uma parte tão importante da minha definição anterior de arte se baseava numa mentira.

19 DE ABRIL

Um jantar imenso na casa de Max Rayne[7] para comemorar o 21º aniversário do Festival Ballet. Chegamos atrasados, com Pam e David Harlech[8], e encontramos a maioria dos convidados (uns 300) já instalada à mesa, nesse palácio moderno de Hampstead. A princesa Margaret, convidada de honra, ainda não tinha ocupado o seu lugar; trocamos beijos, uma curta conversa, e ela sugere que entremos para jantar. Quando entramos, todos se levantam. A alegria é que entre os convidados, reverentemente de pé, encontram-se dúzias de pessoas que adorariam me ver na cadeia – industriais conservadores, deputados católicos, nobres e esnobes em geral. Enquanto passo por eles, a caminho da mesa principal, inclino a cabeça na sua direção com o que espero que lhes pareça um desdém radiante.

3 DE MAIO

Trecho tirado da autobiografia de um músico de jazz:

Uma noite, depois do último número, um sujeito baixinho apareceu no meio da fumaça do Biltmore Ballroom. Era um homem baixo e meio acabado, trazia uma caixa surrada e dentro dela um trompete surrado. Perguntou a Doe se podia sentar conosco e tocar junto, e Doe disse que tudo bem. Era assim naqueles lugares, nesses tempos inesquecíveis e muito acelerados de jazz cru e animado. Daí o sujeito tirou o trompete surrado da caixa e, por duas horas, tocou labirintos milagrosos de harmonia, que teriam feito os anjos chorar de emoção. Depois guardou o trompete surrado na caixa surrada e saiu no amanhecer azulado de Chicago. O nome dele era Bertolt Brecht.

13 DE MAIO

Antes que eu me esqueça: a história das calcinhas de Britt Ekland.[9] Mais ou menos um ano atrás, quando cheguei ao meu escritório no National Theatre, tirei um livro do bolso do meu sobretudo e com ele veio junto uma calcinha de Kathleen. Ela caiu no chão, bem diante dos olhos de Rozina, [secretária de Tynan]. Só por malícia, e pela vontade de testar a velocidade e a durabilidade de uma fofoca, decidi inventar uma história sobre a maneira como aquela calcinha tinha ido parar no meu bolso. (A verdade é que, para tornar uma viagem de táxi mais animada, eu tinha pedido a K. para tirá-la, em pagamento de uma aposta. Depois, esquecera que estava no meu bolso.) Contei a Rozina – o que era verdade – que, na noite anterior, eu tinha ido à festa de aniversário de casamento da princesa Margaret e Tony. A rainha, o príncipe Philip e a rainha-mãe também estavam presentes.

E então começava a mentira. Contei que tinha percebido que a rainha-mãe tomava copos e mais copos de um líquido claro, tirado de um frasco. “Gim, é claro”, observei para Britt. “Evidente que não”, respondeu ela. “Deve ser água.” “Pois aposto”, disse eu, “a sua calcinha contra dois lugares na primeira fila de Oh, Calcutá! que é gim.” “Está apostado”, disse ela. Então chamei um garçom de libré, dei-lhe uma gorjeta de dez shillings e fiz a pergunta. “Gim Gordon’s, senhor”, foi a resposta. Ao que Britt se retirou para o banheiro, voltou e me entregou a sua calcinha.

Três dias mais tarde, fui abordado por um colunista de mexericos num clube noturno. “É verdade a sua história com a calcinha de Britt Ekland?”, perguntou ele. “Melhor perguntar a ela”, respondi. No dia seguinte, a história toda apareceu, contada por ele, no Daily Mirror. No mesmo ano, Britt vendeu a história da sua vida à revista People, que dedicou quase um número inteiro a perpetuar o mito que eu criei.

9 DE JUNHO

Às 3 e meia da tarde, um filho – 3 quilos e 350 gramas – que se chamará Matthew (em homenagem ao pai de K.) Blake (em homenagem a William Blake e a James Blake, o escritor americano condenado à prisão) Tynan. Eu achava que só era capaz de produzir “filhas mulheres”, e estava preparado para uma terceira. Ela teria recebido o extravagante nome de Angelica Tiffany Tynan, e quando a enfermeira me disse que era um menino, em voz alta dei adeus a Angelica Tiffany, que emergira brevemente das sombras e agora a elas retornava. O que eu mais temia era um menino áspero e brigão: não gosto muito de competidores masculinos – na verdade não gosto muito dos homens per se –, de maneira que fiquei aliviado ao ver que Matthew é (na aparência) muito sensível, quase feminino, e lembra Roxana quando ela nasceu. Enquanto ele apresentar o meu lado feminino, será muito bem-vindo. Dentro de pouco tempo, vou lhe comprar alguns belos saiotes e matriculá-lo na escola de balé de Sadler Wells. K. está francamente radiante de tanta maternidade. Ela sempre quis um menino, e agora ele chegou. Não vou dizer que Roxana pode sentir-se ignorada, mas temo que eu sim – uma situação sobre a qual Freud não me fez a devida advertência.

Com preguiça crônica desde a minha volta da França, há duas semanas. Eu tomava Dexamyl para adquirir confiança e começar a trabalhar. Agora tomo o remédio para me dar confiança para não trabalhar.

Por que as mulheres têm bebês? Para serem amadas por bebês.

Mas você não se odeia por ter preguiça?

Ah, sim.

E por que não faz alguma coisa contra ela?

Porque detesto me odiar um pouco menos do que ter preguiça.

25 JULHO

Meus piores medos se confirmam: Tyger recebeu – dos críticos de meia-idade – as resenhas mais peçonhentas que jamais li na minha vida. Depois de uma noite de estréia mal apresentada nos números finais, a imprensa rachou ao meio, bem de acordo com a linha divisória entre as gerações: o problema, do nosso ponto de vista, é que a imensa maioria dos críticos teatrais tem mais de 40 anos, o que é insalubre para o teatro, pois significa que os padrões acabam ditados por homens que, na sua maioria, se conformaram com a segunda melhor opção de carreira que tinham, que concederam e adotaram os valores aceitáveis pelos seus editores e leitores. Nenhum dos críticos de jornal tem uma visão radical da vida e do teatro – e não digo radical apenas do ponto de vista político: uso a palavra no sentido bem mais geral, para falar de uma visão livre, aberta, desembaraçada, sem antolhos, exuberante, essencial das possibilidades humanas.

17 DE AGOSTO

Quando conheci Hemingway, ele bebia muito e o tempo todo, mas só fui perceber quais eram os seus padrões quando analisei o consumo de álcool do coronel Cantwell e da sua amada adolescente, Renata, durante a primeira noite em que se encontram em Do Outro Lado do Rio. Antes de se encontrar com Renata, o coronel toma três dry martínis duplos com o chefe dos garçons, além de um gim duplo com Campari, no seu quarto. No Harrry’s Bar, ele e a sua garota dividem oito Montgomerys duplos (dry martínis preparados numa proporção de quinze para um, a mesma proporção de superioridade de forças com que, segundo Hemingway, o marechal Montgomery gostava de travar suas batalhas). Depois, no jantar no Gritti, o casal toma uma garrafa de Capri Bianco, uma de Valpolicella e duas de Roederer Brut 42. Mais tarde, numa gôndola, ainda entornam uma garrafa de Perrier-Jouet. Total: sete martínis duplos e um gim duplo para o coronel, quatro martínis duplos para a moça, mais cinco garrafas de vinho divididas pelos dois. Finalmente, o coronel volta para o seu quarto e esvazia mais uma garrafa de Valpolicella.

23 DE AGOSTO

Germaine Greer[10] nos visita na Sardenha para conversar sobre a adaptação de Lisístrata, que encomendei para o National Theatre. Ela fala da ânsia com que as revistas têm publicado tudo que ela escreve: “Se eu mijasse numa folha de papel, elas publicariam a mancha”.

27 de agosto

Passamos alguns dias com Peter Saunders[11] e a mulher na Costa Smeralda. Saunders, um homem de negócios de origem alemã com a forma física excelente de um lutador, diz sobre os proprietários da villa ao lado: “Eles são basicamente um casal típico de judeus da indústria têxtil do norte, cheios de manias”.

Na hora do jantar, ontem à noite, sentei-me ao lado de uma mulher que achava que a nudez feminina na praia era “bestial”, uma das causas fundamentais da homossexualidade nos homens, e dizia que, caso a sua filha se casasse com um preto, ela se mataria. Os cinco dias que estamos passando nessa terra de clubes de campo para ricos endogâmicos me lembram uma temporada num país ocupado. A cada manhã, fico no quarto o mais que posso, com medo de que, ao emergir, possa ser preso, condenado em alguma corte marcial e fuzilado.

28 DE SETEMBRO

A ficha de T. E. Lawrence[12] na RAF, leiloada ontem, tem a seguinte anotação: “Marcas de identificação: cicatrizes nas duas nádegas”, o que confirma a história de um dos companheiros de serviço de Lawrence, de que lhe aplicava surras regulares. É estranho como a vida da classe alta britânica, entre as duas guerras, foi repleta de homens ousados e corajosos, de olhos faiscantes, que tomavam chá nas estufas ducais e depois se refugiavam em quartos de hotel para baixar as calças e serem vergastados. Conheci alguns deles em Oxford, depois da guerra, vindos na maioria da pequena nobreza, muitos deles um tanto sinistros, com planos de adquirir e gerir escolas particulares para rapazes (coisa fácil àquela altura, porque a inspeção dessas escolas era superficial e pouco freqüente), cuja principal função seria funcionar como laboratórios para experiências com a vara.

Larry (sobre o ator sugerido para um papel numa comédia): “Ele é tão engraçado quanto a sepultura aberta de um bebê”.

18 DE OUTUBRO

Conhecemos Muhammad Ali num jantar. Grande emoção: além de Mao e Chu En-lai, ele é uma das poucas celebridades que eu ainda ansiava por conhecer. Alguém na festa pergunta: “O que terá acontecido com Danny Cohn-Bendit?”[13] Na mesma hora, me vejo de volta a numa festa repleta de esquerdistas literários, em Londres, na primavera de 68. As barricadas estavam erguidas em Paris, e todos falavam sobre a “revolução instantânea”. Quando Cohn-Bendit participou de uma sessão de perguntas e respostas com os convidados, eu me tornei imediatamente impopular ao perguntar: “Qual é a sua estratégia? Qual é o próximo passo dos estudantes?” C. B. respondeu, impaciente: “O que define a nossa revolução é que não temos planos. É uma revolução espontânea e permanente. Nós improvisamos. É como o jazz”. Todos o aplaudiram e reprovaram a minha crítica implícita.

11 DE NOVEMBRO

Perda de uma velha amiga: a sempre levemente insuportável, mas adorável Vera Russell![14] Ela chega para almoçar e, no aperitivo, diz que vai visitar Auden.[15] Faço uma observação de passagem, dizendo que lamento ele ter decidido apagar a sua história passada – a saber, nos poemas políticos. Sem qualquer aviso, ela diz, com desprezo glacial: “Uma pessoa como você não está em posição de criticar ninguém. Você se destruiu – e se vendeu ao sensacionalismo. Fui ver aquela sua coisa (Oh! Calcutá!) outra noite, e achei a pior máquina de ganhar dinheiro que já vi na vida”. Naturalmente, não posso mais almoçar com ela depois disso, e vou embora covardemente, deixando-a com Kathleen. Mais tarde, escrevo-lhe uma carta devidamente corrosiva.

1972

21 DE MARÇO

Somos convidados para uma festa na Grosvenor House, organizada para comemorar o décimo aniversário da revista em cores do Sunday Times. O convite fala de uma década de realizações criativas e da oportunidade de estar com algumas das pessoas que a engrandeceram. Tudo muito pretensioso, mas fomos na expectativa de encontrar bons escritores e pessoas interessantes. Em vez disso, damos de cara com uns 2 000 executivos de terno azul. Há menos de vinte mulheres presentes (precisei fazer súplicas veementes para que o meu convite fosse estendido a Kathleen) porque isso de festejar em meio aos despojos – o que logo revela ser a finalidade daquele evento – é uma tradicional prerrogativa masculina. Lord Thomson[16] faz um discurso em que se refere ao aumento fenomenal da receita de publicidade que a revista conquistou. Não menciona o editor ou qualquer das pessoas que escreveram para a revista. O vice-presidente, J. Walter Thompson, responde ao brinde. Também faz elogios rasgados às oportunidades que a revista representa para a indústria da publicidade, e não menciona o nome de qualquer pessoa que tenha escrito nas suas páginas. Isso me deixa mais indignado do que devia. Tenho perfeita consciência de que a função do jornalista é atrair a atenção dos leitores para os anúncios, e que quando escrevo para a New Yorker (por exemplo) o meu dever fundamental é vender vodka. Mas o que mais me deixa horrorizado é esta nova moda conservadora de se gabar dessas coisas, supondo que não exista mais a menor necessidade de fingir que os escritores sejam mais do que meros adjuntos da indústria publicitária.

Quando os convidados começam a se dispersar, Peter Cook[17] sobe ao pódio (cujo microfone já fora desligado) e começa uma longa arenga alcoolizada, dizendo que a empresa de Thomson tinha demonstrado uma “puta estupidez e uma grosseria fodida” ao não permitir que os convidados trouxessem as suas mulheres ou amantes. Provoca pouco impacto: e de qualquer maneira, a questão é secundária.

22 DE MAIO

Contemplando de longe (muito de longe) o suicídio, lembro a ocasião, em torno de 1952, em que liguei para Derek Lindsay[18] a fim de convidá-lo para uma festa no sábado seguinte. Ele consultou a sua agenda e me disse: “Infelizmente, bem que eu gostaria de ir, mas vou me suicidar na sexta-feira”. Uma ironia típica, pensei. Mas quando chegou o sábado, a festa começou e ele não apareceu, não consegui deixar de telefonar para ele, para saber o que tinha acontecido, se é que tinha acontecido alguma coisa. Uma voz de mulher, tensa e ansiosa – sua tia, descobri mais tarde, em cuja casa ele morava –, atendeu. “Derek não está bem”, disse-me ela. Insisti para que contasse o que tinha havido, mas não consegui nada até de repente ouvir Derek; ele estava, obviamente, escutando na extensão. Tinha a voz débil e cansada. “Meu querido”, disse. “Os nossos médicos, além de serem incapazes de nos curar, também não sabem nos matar direito. Através de perguntas sutis e bem colocadas, obtive junto a vários médicos das minhas relações a estimativa do que constituiria uma dose mortífera de Seconal. E foi o que tomei ontem à noite. Imagine o meu desgosto, meu caro, quando uma hora atrás meus olhos se abriram para a luz cinzenta de mais uma tarde londrina.”

27 DE MAIO

Voando para Nova York, para fazer pesquisas para o meu artigo sobre Wilhelm Reich para a New Yorker, comprei e li o último volume dos diários de Cecil Beaton.[19] Como ele tem a sorte – neste único sentido – de ser veado e solteiro, é obrigado a usar o diário como receptáculo para a sua vida exterior e os seus pensamentos interiores. No casamento, os parceiros compartilham a vida exterior, que assim acaba sem registro, e extravasam a sua vida interior um para o outro, e para o provável esquecimento. Ainda assim (e escrevo isso em plena travessia do Atlântico), eu não trocaria Kathleen pela autoria de nenhuma obra-prima.

30 DE JUNHO

Duas grandes beldades em duas noites sucessivas: ontem, Louise Brooks na Caixa de Pandora, de Pabst, na televisão. De cabelos curtos, com uma franja caindo para frente na altura dos lóbulos das orelhas e um rosto repleto de insinuação sexual, sincera e maliciosa, cheia de encantos e magnetismo. Será a sua bissexualidade de pescoço grosso parte da atração? De qualquer maneira: Louise B. não tem armadura, no sentido reichiano da palavra. (Um sentido que, desde que li Reich, venho achando indispensável nas minhas conversas do dia-a-dia.) A segunda beldade: Natalia Makarova, a fugitiva que abandonou o Balé Kirov, hoje se apresentando pela primeira vez com o Royal Ballet, no Lago dos Cisnes. Se todos os balés fossem como esse espetáculo, eu acharia até defensável esse vulgar entretenimento vitoriano, criado para encher as horas depois do jantar. No papel de Odette (Electra proibida de trepar com o pai), ela realmente lembra uma ave trêmula e volátil. No segundo ato, ela brilha, infinitamente vulnerável, devido à sua capacidade de entrega. No papel de Odile, no terceiro ato, ela reluz: a ave se transforma em serpente, sinuosa no interior de sua armadura flexível. Da cintura para cima, é a maior bailarina que vi na vida. Os movimentos ondulantes dos braços, o arco do seu pescoço, são inesquecíveis. Toda vez que ela deixa o palco, ou que o corpo de baile aparece, você pensa: quem serão esses elefantes? Ela tem malares altos e dentes de predador, e sem dúvida há de manter viva essa pseudo-arte limitada e esbanjadora – sustentada apenas pela nostalgia de maus artistas e pelo arrivismo dos esnobes – por bem mais tempo do que ela merece.

9 DE OUTUBRO

A psicanálise, bem longe de dissolver a culpa associada aos fetiches sexuais, acabou na verdade por intensificá-la. Para os vitorianos, o gosto pelas surras era uma simples excentricidade; para os freudianos, um indício de fixação pré-genital, uma ofensa contra o ideal sacrossanto do Orgasmo Exclusivamente Genital. Freud estabeleceu a hipótese de um ato sexual ideal, do qual todos os desvios são heresias a expurgar, mediante a confissão, e a extirpar pela raiz, mediante o fogo purificador da análise. Para os vitorianos, só os desvios sodomíticos (nos homens e nas mulheres), o incesto e a bestialidade eram considerados antinaturais: para os freudianos não é apenas excêntrico, mas contra a natureza, que a pica endureça à vista de um espartilho ou ao cheiro de uma calcinha. Noutras palavras, para a nova ortodoxia existem muito mais anátemas do que para a antiga.

17 DE NOVEMBRO

Byron, Wilde e Shakespeare seriam os três escritores ingleses que eu mais gostaria de convidar para um jantar. É estranho como a literatura do século XIX é selada dos dois lados por escândalos anais – Wilde enfiado no rabo de Bosie, Byron no de Annabella.

30 DE NOVEMBRO

O maior obstáculo do casamento: queremos trepar com um corpo feminino disposto, cooperativo e favorável. E na verdade nos vemos obrigados a trepar com uma sócia contábil, uma parceira de negócios, uma consultora associada em matéria de pedagogia infantil, uma co-eleitora – e é bem possível que, numa dessas muitas capacidades, a mulher discorde energicamente do marido. Ainda assim, ela continua esperando uma trepada adequada. Eis o círculo vicioso do casamento entre autênticos parceiros: quanto mais o marido e a mulher compartilham todas as responsabilidades da vida, mais se vêem envolvidos em disputas em torno de questões não-sexuais, e são menos – como devia ser a condição básica dos amantes – simples pau e boceta. Quanto mais “moderno” o casamento, quanto mais abrangente o entendimento, menos provável será a união sexual. Ninguém sente uma inclinação irresistível de foder com o seu advogado, o seu gerente do banco ou o filósofo sempre disponível da vizinhança– especialmente quando, nessas três encarnações, a mulher tende a discordar das nossas atividades.

1973

9 DE JANEIRO

Jantar no Drones com (entre outros) Germaine Greer. Ela trouxe uma bela namoradinha australiana chamada Margaret. Parabenizo Germaine pela foto que tirou nua para a Suck, na qual ela aparece sentada de frente para a câmera, com as pernas bem afastadas, e dos lados da cabeça, como uma guirlanda. Comento com ela (sinceramente) que aquela foto me deixou muito mais excitado do que geralmente ocorre com outros nus frontais. Germaine fica satisfeita, e se envaidece, como uma senhorita do período eduardiano, diante dos meus elogios ao seu retrato pintado por Sargent. “Gostou da minha xota?”, pergunta ela. “Claro que sim”, respondo. “E que tal o meu cu?” “Nem reparei nele, querida.” “Ah – mas está lá – um pouco grande, infelizmente – não dá para deixar de ver.” “Oh, achei que era a sua boceta.” Durante a conversa, que é conduzida com grande sinceridade e afeto, vejo a namorada de Germaine com o canto do olho. Ela está com a boca aberta de espanto.

14 DE FEVEREIRO

História sobre Cary Grant entrevistando Kurt Frinys (será que o nome se escreve assim?), que queria muito ser o seu agente. Depois de perguntar-lhe quais eram as condições financeiras que ele propunha, Grant ainda pergunta: “Mais uma coisa. Você é judeu?” Frinys faz uma pausa, e depois responde: “Não necessariamente“.

18 DE FEREVEIRO

Um homem mais ou menos jovem me aborda na rua, no Soho, e pergunta: “Sr. Tynan – eu só queria lhe dizer o quanto eu sou a favor de tudo o que o senhor faz.” Eu agradeço. Houve uma pausa, depois da qual ele disse: “Bem, o quê… bem, o que o senhor tem feito?” Boa pergunta.

20 DE FEVEREIRO

Certa vez, numa festa chata, conheci a cantora popular Sandie Shaw, que usava um vestido bastante decotado. Eu tinha bebido (“para tornar as outras pessoas mais interessantes” – George Jean Nathan), e comecei a flertar com ela. Finalmente, decidi voltar para casa antes que o piso começasse a balançar muito, pedi o seu número de telefone e ela me deu. Com grande deliberação, puxei uma caneta esferográfica e anotei o número – no ombro esquerdo dela. Mais uma amizade que nunca floresceu.

Desde novembro passado, tenho visto (e surrado) outra viciada em apanhar, uma jovem chamada Nicole. A fantasia dela – adormecida até nos conhecermos – é ser deitada em cima dos joelhos de alguém, com as calcinhas abaixadas, e levar palmadas, pancadas de vara ou outra forma de castigo, de preferência com as nádegas bem afastadas, para expor o ânus. Ela também gosta de me expor e me surrar. Encontrando-nos só com finalidades sexuais intensas e exaustivas, faz meses que temos nos deliciado um ao outro. As nossas fantasias se encaixam com perfeição: enquanto sei bem que, ao contrário, Kathleen precisava de um esforço consciente para se adequar às minhas. Ao longo dos últimos meses, a minha vida sexual com K. vem se enfraquecendo, e ela fica cada vez mais preocupada. Dois dias atrás, forçado por uma angústia muito real da sua parte (dizendo que se sentia culpada pela minha falta de interesse físico), eu lhe falei de N. – explicando, um tanto desajeitadamente, que não havia nenhuma concorrência entre as duas, que N. representava o lado curry da minha vida, enquanto ela representava a cozinha francesa; e que eu precisava das duas, talvez até ao mesmo tempo (as situações de ménage à trois são especialmente atraentes para os sadomasoquistas, que gostam de uma platéia para assistir à sua humilhação), e que era apenas a culpa por esconder a existência de Nicole que vinha me impedindo de trepar com ela.

Observação de Nicole: “Amantes são capítulos, e amigos são para sempre”.

Experiências recentes voltaram a provar que a dor física não traz prazer nem mesmo ao masoquista. A apreensão, os preparativos, a ameaça, a exposição, a humilhação, essas coisas sim são excitantes, assim como o calor que se sente depois e a visão das marcas produzidas, mas o impacto da vara nas nádegas não tem a menor graça. (Existia, antigamente, uma pomada que amortecia as sensações da pele; era uma bênção para os masoquistas.) Assim, Reich tem razão quando declara que o masoquismo não é – ao contrário do que dizia Freud – uma forma de desejo de morte, uma vez que procura a dor, em vez do prazer. A dor não faz parte do prazer do masoquismo: é só o preço desagradável que precisa ser pago pelo prazer que o antecede e o sucede. Escrever sobre “o assunto” me faz pensar de novo como o sexo “sadomaso” é infinitamente mais variado, nas suas formas de excitação, do que o sexo comum. O casal sadomaso tem todos os prazeres das trepadas comuns, e mais os milhares de variações que o sadomasoquismo permite – as marcas que ficam na bunda por vários dias, trazendo a reminiscência da emoção a cada pontada de dor; a antecipação dos maus-tratos, que pode se estender por uma semana ou mais e servir de pretexto para uma dúzia de masturbações, antes das chibatadas propriamente ditas; a imensa quantidade de papéis que podem ser desempenhados: padre e noviça, professora e monitor de turma, empregada e patrão, médico e paciente (departamento de injeções) etc. etc. – cada um dos quais nos permite explorar diferentes nuanças da dominação ou submissão. (Um fato que merece estudo: nenhum sádico que eu conheça tem qualquer interesse por peitos. São completamente substituídos pelas bundas como fetiches sexuais.) E as brincadeiras possíveis! Na verdade, porém, não há a menor graça se for praticado só por esporte: não se trata de um simples relaxamento noturno, e sim de um verdadeiro modo de vida.

23 DE FEVEREIRO

Bebidas na Mostyn-Owens com Mary McCarthy, Stephen Spender, Robert Lowell et al. Spender e Lowell discutem o que significa a poesia no século XX – e Stephen inclui Joyce e Virginia Woolf entre os “poetas”. Eu o acuso de anexar escritores de prosa por ambição territorial e sugiro que a existência da palavra “poesia” não é motivo suficiente para postular a existência de poetas. Proponho que, em vez de dizer que os escritores são (ou não) poetas, devíamos simplesmente dizer que usam metáforas. O que ainda incluiria no rol os dramaturgos e os cineastas, além dos romancistas e poetas. Stephen concorda. Sobre Eliot, Lowell diz que devia estar paranóico quando escreveu os seus melhores poemas, até os Quartetos, inclusive. Seu casamento acabou com a paranóia, com a necessidade de escrever e com a capacidade de fazer poesia. Preferimos afinal (diz a pergunta que nunca se formula) o criador infeliz ou o não-criador satisfeito? Sei perfeitamente em quem eu votaria. Spender e Lowell falam sobre Auden, que acabou de voltar para a Inglaterra e de se instalar em Christ Church, em Oxford. Parece que ficou riquíssimo (graças a investimentos imobiliários no Greenwich Village), e avarento no mesmo grau. Aceita a caridade da faculdade e se recusa a comer fora do refeitório, embora a sua conversa megalomaníaca (“quando ele fala, parece um motorista atravessando sinais vermelhos”, diz Natasha Spender, “e não se incomoda de contar a mesma história doze vezes numa só noite”) tenha levado alguns dos professores a sugerir que ele talvez pudesse poupá-los da sua presença exuberante todas as noites. E também exibe uma propensão perturbadora a ser surpreendido por rapazes, que vão procurá-lo nos seus aposentos alegando a condição de parentes em dificuldades. Ela diz que não ficaria nem um pouco surpresa se ele acabasse sendo agredido (talvez fatalmente) por um desses intrusos de maus bofes.

10 DE MARÇO

O prazer profundo de escutar música “séria”: ela dignifica a nossa autopiedade.

14 DE MARÇO

Percorrendo a minha agenda de 1971, para fins de imposto de renda, encontro a seguinte conversa com Polanski, em Saint Tropez:

R.P.: – O que você acha dos pássaros?
K.T.: – Os pássaros são todos babacas. Todos.
R.P.: – Não existem exceções?
K.T.: – Não. São todos babacas.
R.P.: – Não há um pássaro menos babaca do que os outros?
K.T.: – Não.
R.P.: – E mais babaca?
K.T.: – Ah, isso sim!

(Que eu me lembre, o fumo era excelente.)

2 DE ABRIL

Meu aniversário. Noel Coward morreu, Muhammad Ali quebrou o queixo e eu tenho 46 anos. Caralho, escroto, puta que pariu.

A: – Não consigo trabalhar.
B: – Mas você ficaria tão feliz se trabalhasse.
A: – Não mereço ficar feliz.
B: – Por que não?
A: – Porque estou te fazendo sofrer.
B: – Quer dizer que se eu não estivesse sofrendo você conseguiria trabalhar?
A: – Sim.
B: – Noutras palavras, a culpa toda é minha.
A: – Não exatamente, mas…
B: – Se a culpa é minha, por que você não merece ser feliz?
A: – Porque não consigo trabalhar.

(Diálogo inteiramente imaginário, é claro.)

9 DE ABRIL

Incidente sem registro: no dia 3 de junho de 1967, casei-me com Kathleen, ao final de anos de problemas legais, de um divórcio duplo e de um obstáculo de última hora que ninguém tinha previsto. Planejáramos nos casar em Nova York, para evitar fotos e publicidade, pois K. estava grávida de seis meses, mas acabamos descobrindo que as partes culpadas em casos de divórcio não podem se casar pela segunda vez, no estado de Nova York, antes que tenha transcorrido um intervalo de pelo menos X anos. E assim partimos – numa manhã chuvosa, em pleno Columbus Day, a bordo de um Cadillac de aluguel, com Steve Vinaver (hoje morto, merda), Penelope Gilliatt[20] e Marlene Dietrich como testemunhas – para Englewood, Nova Jersey, onde um bem-educado juiz de paz judeu estava à nossa espera, com um ar petulante. (A fim de nos casar, tinha adiado a viagem que planejara para o feriado.) Num gabinete acanhado, repleto de troféus de golfe, ele nos recebeu – depois de anos de uma acirrada batalha legal até chegar àquele ponto tão desejado – com as seguintes palavras: “Têm certeza de que querem ir em frente? No fim das contas, é tudo uma bobajada.” Respondemos que tínhamos certeza. Ele perguntou o meu endereço. “Em Nova York ou em Londres?”, perguntei. “O que for mais rápido”, rebateu ele. Enquanto ele preenchia o formulário, sussurrou para mim: “Fiz um casamento uma hora atrás, e tenho mais um depois do almoço, lá se foi o meu fim de semana prolongado”. Ele fez questão de dar todos os sinais de que não se impressionava nem um pouco com a presença de Marlene, e fingiu que não sabia soletrar o nome dela. “Pronto”, disse ele. “Agora vamos até ali para perto da lareira, é um lugar mais digno.” Então nós nos enfileiramos diante de uma lareira, adornada por mais uma série de troféus de golfe, e ele recitou a cerimônia numa ressonante voz monocórdia. Enquanto isso, Marlene, para cortar o barulho das máquinas de escrever da sala ao lado, avançou devagarzinho, de costas, até uma porta de correr, que tentou fechar atrás de si. O juiz disse, sem fazer uma pausa ou mudar de tom: “Kenneth, você aceita Kathleen como sua legítima – eu não ficaria com a bunda virada para uma porta aberta nessa repartição, moça – esposa, na saúde e na doença…”

Em seguida, Penelope tirou fotos e voltamos a Nova York, para almoçar no Fórum dos Doze Césares, onde Bob Silvers[21] veio nos encontrar. Depois de um cochilo no Algonquin, fomos para o apartamento de Mike Nichols, que ele havia emprestado (estava na Califórnia) para a festa do casamento. Entre os convidados, estavam Mary McCarthy e Norman Mailer, que andam se atacando ultimamente pela imprensa, mas ninguém bateu em ninguém.

Mais tarde, Norman, que tinha tomado uma garrafa inteira de Bourbon, nos levou para jantar num restaurantezinho perto de Times Square chamado Frankie e Johnny’s – filés, cachorros-quentes e vinho tinto. Norman e eu ficamos muito bêbados e emotivos, e me lembro de ter passado o braço pelo ombro dele e declarar, com lágrimas nos olhos, que, no fundo, ele era um pacifista, incapaz de fazer mal a uma mosca, com o que Norman, profundamente comovido, concordou. Por um instante, ambos nos esquecemos de que, poucos anos antes, ele tinha encerrado uma discussão com a primeira mulher (“a pintora Adele Morales”, como ele a chamava), apunhalando-a no peito com um canivete. K. sentiu-se um pouco excluída enquanto Norman e eu executávamos o nosso número de irmãos de sangue, mas tudo acabou bem: foi um dia incrivelmente feliz.

22 DE MAIO

Quanto mais Kathleen fica convencida de que eu a amo, mais ela sofre quando vejo Nicole. Mas eu a amo, e não consigo deixar de me comportar de maneira apaixonada.

5 DE MAIO

Coisas que desejo:

CLASSE A:

O sol.
A companhia de pessoas pelas quais sou amado.
A companhia de pessoas que amo.
Boa comida e bom vinho.
A proximidade de uma bunda feminina que eu possa açoitar com toda a liberdade.

CLASSE B:

Admiração pelo meu trabalho.
A companhia de pessoas inteligentes pelas quais sou admirado.
A companhia de pessoas que admiro.
Carros velozes e silenciosos.
Uma villa ensolarada.

CLASSE C:

Dinheiro para poder pagar as classes A e B.

20 DE JUNHO

Nicole é, na verdade, uma reação violenta aos 25 anos que passei com vergonha das minhas preferências sexuais – sendo admoestado, ameaçado e chantageado com elas por Elaine, que (exceto em raros momentos de reconciliação alcoolizada) passou quinze anos me intimidando com a ameaça de contar aos meus amigos e ao meu patrão as histórias dos meus desejos sujos, a menos que eu fizesse tudo o que ela mandasse, e que chegou até a contar algumas delas para a minha filha, que na época tinha 4 anos, na madrugada de uma noite fantasmagórica. É terrível que Kathleen, que eu amo, precise sofrer pelo crime de Elaine.[22] Mas não posso me dar ao luxo de me odiar de novo – seja pelo motivo que for, mesmo por fazer K. sofrer.

25 DE JUNHO

Parte do nosso problema é que não temos praticamente vida alguma fora do nosso relacionamento. Nenhum de nós dois tem família na Inglaterra; Kathleen não tem um emprego que lhe forneça uma ligação com o mundo exterior, e a minha cabeça-de-ponte, o National Theatre, desaparecerá assim que eu deixar o meu escritório, em agosto. Em casa, vivemos em meio às crianças e aos criados; e ficamos os dois em casa a maior parte de quase todos os dias. É por isso que a nossa relação, em vez de a mais importante de nossas vidas, é virtualmente a única. E toda vez que alguma coisa dá errado nela é como se a nossa vida inteira ficasse incuravelmente envenenada. Precisamos lembrar que Nicole só ocupa cerca de 1,8% da minha semana. O resto é de Kathleen.

1º DE JULHO

Perda de interesse em sexo, ultimamente, devido à culpa induzida por K. Tentamos trepar hoje de manhã, mas não conseguimos avançar muito. Tive um sentimento de culpa ainda mais profundo depois. O nojo de mim que eu sinto por ser incapaz de trepar com K. me dá, mais do que nunca, nojo de mim mesmo. Será isso o que se chama de círculo vicioso? (Comparar e contrastar: círculo vicioso e teste duplo-cego.)

5 DE JULHO

Muito do que chamamos de amor é, na verdade, a preguiça consentida pelo outro. Julgamos que os olhos do outro, como objeto de contemplação, valem muito mais a pena que folhas de papel em branco enroladas em torno do cilindro de uma máquina de escrever.

10 DE AGOSTO

Venho desenvolvendo aos poucos o hábito da indiferença. Estou aprendendo a não ter sentimentos muito exacerbados em relação a nada. A esse recuo emocional corresponde uma queda na energia: só as necessidades básicas – comida e sexo – conseguem agora me tirar do torpor. Hei de morrer me debatendo em apatia.

18 DE AGOSTO

Fico acordado à noite, ansiando por consolo, conforto, socorro e perdão de K. Será que, na verdade, estou dizendo a ela “Por favor, me perdoe por magoá-la”. E será que depois posso magoá-la mais um pouco?

23 de agosto

Freud diz que precisamos abrir mão do prazer sensual em favor da produção cultural. Reich diz que a produção cultural não tem valor algum, a menos que traga prazer sensual. Seguindo Reich, recuso-me a trabalhar no meu livro sobre Reich por mais de quatro a cinco horas por dia, e dedico o resto ao prazer. O que prejudica, inevitavelmente, a minha produção. Resultado: para escrever um livro reichiano sobre Reich, preciso desistir de escrever um livro sobre Reich.

25 DE AGOSTO
Existe um aspecto importante sobre o qual não preciso me sentir culpado, em relação a K. Ela nunca teve o que, para a maioria das pessoas, é a experiência mais poderosa, selvagem, dilacerante e inesquecível das suas vidas – uma experiência que se repete constantemente, para o desespero delas. Falo da experiência da rejeição. E se deve ter em mente que, aquilo que ela vem sofrendo pela primeira (e provavelmente última) vez, é o que 90% da espécie humana esperam sofrer, toda vez que fazem uma proposta a algum membro do sexo oposto. É como se ela pertencesse a um clube exclusivo, mas tenha perdido – por alguma razão inexplicável – seu direito de estacionar em qualquer lugar, por qualquer tempo, ou de usar qualquer outro carro estacionado num raio de 1 quilômetro. Noventa por cento do resto de nós somos pedestres, e o temos sido desde a adolescência.

9 DE SETEMBRO

Almoço e jantar na aldeia particular de Tony Richardson[23], nas colinas atrás de St. Tropez. Ela consiste em oito ou nove chalés, que ele comprou sete anos atrás e reuniu numa única residência, que desce pela encosta de um vale até uma piscina. Um lugar extraordinário e ótimas pessoas, entre elas John Gielgud. Vejo que John está para ler The Joint, de James Blake. Ele me pergunta do que trata o livro.

K.T.: – É sobre um presidiário masoquista que vive dando um jeito de ser preso, porque adora ser chupado por assassinos negros e sádicos.
J.G.: – Bem, contra isso não há nada que se possa dizer.

Gielgud[24] não sabe nadar e explica que, como toda a sua família, sempre teve horror à água. “Antigamente, detestava até tomar banho”, observa ele. “Era um menino muito sujo.” Inconseqüentemente, ele revela que quando criança costumava comer borracha. “Os elásticos dos meus suspensórios, elásticos de prender papel, qualquer coisa que me caísse nas mãos.” Um homem profundamente excêntrico.

16 DE NOVEMBRO

Ataque maldoso e neurótico de John Osborne[25] contra Larry, o National Theatre e (especialmente) contra mim, num livro novo de entrevistas chamado Olivier. Ele me qualifica de “influência desastrosa” e de exemplo de “diletantismo intelectual” (uma frase típica do Osborne dos últimos tempos – vagamente venenoso, sem qualquer argumento em apoio ao que diz). Respondo no Evening Standard e numa carta ao Sunday Times; ele dá a tréplica à minha resposta no Standard. Na verdade, tudo que estamos fazendo é vender jornais e (é claro) o livro. Ninguém sai mais esclarecido, ninguém sai ganhando nada. Mas pelo menos tenho uma oportunidade de afirmar publicamente que o National Theatre teve uma proporção maior de sucessos, nos últimos dez anos, tanto de crítica quanto de bilheteria, do que qualquer outra companhia teatral na história da Inglaterra. É uma boa coisa deixar isso impresso com todas as letras. Larry liga para me agradecer, mas é claro que esse tipo de ataque não afeta a sua reputação. A minha, sim, pode sair prejudicada.

9 DE DEZEMBRO

Vida à beira do crepúsculo: Nicole me fala de uma moça chamada Sally Stomp, nascida no East End, mas casada com um homem rico, que vai aos restaurantes nua, debaixo da capa de chuva. De tempos em tempos, ela abre a capa e tenta torcer e curvar seus mamilos, com cuja conformação natural está insatisfeita. Nicole foi ao banheiro das mulheres no restaurante A.D. 8 e viu Sally e uma amiga sentadas, lado a lado, conversando sobre o preço da carne enquanto enfiavam cocaína nas narinas, com pazinhas de prata. O marido de Sally filmou o parto do filho, que quase morreu quando o cordão umbilical ficou preso em volta do pescoço. E agora eles exibem o filme de trás para frente aos amigos, depois do jantar. Mostra um médico maníaco que aparentemente estrangula um bebê e depois enfia o pequeno cadáver de volta no ventre da mãe. (Nota: um amigo de Sally, um rapaz que vive de michê chamado Vicki de Tal – não entendi o sobrenome -, resolveu, algumas semanas atrás, que precisava começar a vida de novo. Então trocou o nome para Louis de Rothschild. Os verdadeiros Rothschild ficaram lívidos, mas não podem fazer nada. Enquanto isso, o ex-Vicki está adorando.)

1974

11 DE JANEIRO

Escutando um antigo LP de Miles Davis, relembro um dos meus encontros com esse elfo satânico, esse caprichoso potentado do jazz. Em algum momento do final dos anos 50, fui a Birdland ouvi-lo tocar. Entre uma apresentação e outra, ele se sentou na nossa mesa, simpaticamente, para tomar alguma coisa e conversar um pouco, com a sua voz sussurrada e áspera. De repente, fomos abordados por um tímido adolescente branco, que trazia um álbum de autógrafos. Pediu que Miles o assinasse e, enquanto ele atendia o pedido, disse: “Sempre o admirei, senhor Davis. Eu toco trompete na banda da escola, e acho que o senhor tem uma embocadura impressionante. Como é que se consegue uma embocadura assim?” E Miles respondeu, num tom despreocupado: “Foi de tanto chupar as picas de branquelos como você.” O rapaz ficou paralisado. Todos nós ficamos. As palavras foram ditas sem qualquer exaltação, mas me ensinaram mais sobre a maneira como os pretos se sentem em relação aos brancos do que dezenas de eventos liberais para arrecadar fundos organizados por Sidney Poitier e Harry Belafonte.

5 DE MAIO

Li na autobiografia de Alan Watts, In My Own Way, que o álcool faz mais efeito se consumido por via retal do que pela boca. Como sei que é assim no caso dos soníferos (os supositórios fazem menos mal do que os compridos tomados por via oral), tomei a decisão insensata de experimentar. Nicole e eu voltamos, depois de um apimentado jantar indiano, para o apartamento onde estamos passando o fim de semana, com meia garrafa de vodka para usar na experiência. Nicole injeta um copo grande de vodka no meu ânus, por meio de um tubo de clister. Dez minutos depois, a agonia foi indescritível. Eu me contorcia como se tivessem irrigado o meu cólon com um jorro de ácido prússico. A vodka adstringente aperta a passagem retal e inflama as mucosas: e assim eu passo a noite sem dormir, seguida por um dia de tormentos, pontilhado de idas ao banheiro a cada dez minutos – a maioria delas em vão, porque a saída natural da diarréia é barrada pelo ânus apertado. Além da dor, sangro copiosamente pelo reto. E assim se faz uma certa justiça poética, em vista da minha fixação anal, que se traduz em farsa. Os efeitos levam 48 horas para passar. (Nota: três dias mais tarde ainda estou vertendo sangue.) Ah, os riscos do hedonismo!

8 DE JUNHO

A informação sobre a história, os comentários sobre a história e a análise da história podem influenciar os rumos da história. A reportagem pode criar a notícia. Uma greve de fome pode não ter o menor efeito sobre os fatos se ninguém souber que ela está ocorrendo: de maneira que o ato de noticiá-la pode afetar mais os fatos do que a greve propriamente dita. Ao prever o rumo da luta de classes, a única coisa que Marx deixou de levar em conta foi a influência da sua própria obra. O capitalismo, depois de digerir Marx, respondeu criando Keynes para se defender e se perpetuar.

30 DE JULHO

No meio do pesadelo de transferir a locação do filme para Paris (com um produtor novo que nem é muito a favor do projeto), irrompe a violência física. Ontem à noite eu estava bebendo com uns amigos no apartamento de Tom Curtiss[26], de baixo do Tour d’Argent. Otto Preminger está filmando cenas do seu novo filme, Rosebud, no apartamento: o filme trata de terrorismo e é estrelado por Peter O’Toole. Por falta do que fazer, conversamos sobre a possibilidade de pregar uma peça em O’Toole – talvez conseguindo um pato com Claude Terrail[27] (antes de o animal ser mandado para la presse), enfiando um despertador dentro do bicho e pondo tudo debaixo da cama onde iam filmar a cena no dia seguinte. Finalmente, compus – usando escrita espelhada – um bilhete endereçado ao “falso irlandês P. O’Toole”. Em linguagem hiperbólica, a nota o acusava de traição à grande causa do terrorismo por trabalhar naquele filme, e declarava que um terrível engenho explosivo tinha sido escondido no local. Deixei o bilhete na cama e fui embora, sem a menor dúvida de que, embora pudesse dar um susto momentâneo em Peter, ele logo perceberia que era uma brincadeira, diante da extravagância da linguagem.

Às 8 da manhã, porém, meu telefone tocou. Era Tom, em estado de pânico: o diretor de produção tinha encontrado o bilhete e acreditado nele, todos os membros da equipe (muitos deles irlandeses como O’Toole) tinham fugido e estavam bebendo no bar do outro lado da rua, a polícia tinha evacuado o prédio e estava revistando o apartamento. Pior, Tom afirmara que o bilhete era obra minha (muito compreensivelmente, pois de outro modo só poderia suspeitar de si mesmo). Às 10 da manhã, Preminger telefonou e me cobriu de impropérios: “Minha equipe se dispersou, perdi meio dia de filmagem, e vou processar você e obrigá-lo a me pagar 20 mil dólares”.

19 DE OUTUBRO

Ao cabo de dois anos de más notícias, uma perspectiva de que eu tinha certeza era o processo por calúnia que movi contra a Private Eye (por me ter acusado – falsamente – de expor a minha genitália em público na frente de várias pessoas, entre elas uma menina de 12 anos). Dessa vez, sem a menor dúvida, nem eu seria capaz de perder. Mas Nicole me liga e diz que alguém roubou do apartamento dela o álbum em que guardamos fotos e cartas relacionadas às nossas práticas de espancamento. Tanto as imagens quanto o texto são totalmente explícitos. Cuidadosas investigações revelam que ninguém que ela saiba que tenha estado no apartamento pode ter levado o álbum. A possibilidade óbvia é que a Private Eye tenha contratado um detetive particular (um private eye…) para encontrar sujeiras e meu respeito, e destruir a minha reputação nos tribunais (ou pela imprensa, antes mesmo do julgamento). Eles são tão rasteiros que nem precisariam se abaixar mais para fazer uma coisa dessas. O resultado será a morte dos pais de Nicole, ferir profundamente Kathleen e infligir danos psicológicos terríveis aos meus filhos, se e quando eles ouvirem falar dos fatos. Mas não há de ser isso a deter Private Eye. Deve ser com certeza a publicação mais revoltantemente niilista de todo o mundo ocidental. E uma coisa é sem dúvida exclusividade dela: de nenhuma outra revista se pode dizer que jamais tenha publicado uma palavra que seja para louvar alguém ou alguma coisa. (Inversamente, nunca publicou uma palavra sequer de ataque ao cristianismo ou à Igreja. Richard Ingrams, o editor, é um cristão devoto.)

15 DE DEZEMBRO

Nicole pelo menos admite que, ao contrário de alegações anteriores, teve vários casos de curta duração nas minhas ausências, ao longo dos últimos dois anos. Essa notícia, somada ao que já sei (e desconfio) quanto aos casos de Kathleen, leva a uma curiosa conclusão: embora acusado de infidelidade por todos os lados, sou o único dos protagonistas dessa situação que permaneceu sexualmente fiel do começo ao fim.

[1] O ator inglês Laurence Olivier (1907-89).

[2] Harold Pinter (1930-), dramaturgo inglês, Prêmio
Nobel de Literatura em 2006.

[3] Rex Harrison (1908-90), ator inglês.

[4] George Axelrod (1922-2003), dramaturgo, roteirista e diretor americano, autor da peça O Pecado Mora ao Lado, que foi adaptada para o cinema por Billy Wilder, em 1955.

[5] Sharon Tate (1943-1969), atriz americana casada com o diretor polonês Roman Polanski, foi assassinada na Califórnia por uma gangue de hippies liderada por Charles Mason.

[6]  Kitty Freud (1926-), primeira mulher e modelo do pintor Lucien Freud.

[7] Max Rayne (1918-2003), empresário e patrono das artes.

[8]  David Harlech (1918-1985), embaixador britânico em Washington durante o governo Kennedy e amigo de JFK. Pamela era a sua primeira mulher.

[9] Britt Ekland (1942-), atriz sueca radicada na Inglaterra, foi casada com Peter Sellers.

[10] ermaine Greer (1939-), escritora e feminista italiana, autora de A Mulher Eunuco.

[11]  Peter Saunders (1911-2003), empreário teatral inglês.

[12] Thomas Edward Lawrence (1888-1935), militar  e escritor inglês conhecido como Lawrence da  Arábia, autor de Os Sete Pilares da Sabedoria.

[13] Vera Russell (1911-1992), atriz, radialista e jornalista britânica.

[14] Vera Russell (1911-1992), atriz, radialista e jornalista britânica.

[15] W. H. Auden (1907-1973), poeta inglês.

[16] Kenneth R. Thomson (1923-2006), magnata da imprensa britânica, nascido no Canadá.

[17] Peter Cook (1937-1995), comediante inglês.

[18] Derek (Deacon) Lindsay (1926-), escritor inglês.

[19] Cecil Beaton (1904-1980), fotógrafo e figurinista inglês.

[20] Steve Vinaver (1937-68), compositor inglês; Penelope Gilliatt (1932-93), escritora, roteirista e crítica de cinema inglesa.

[21] Robert Silvers (1929-), fundador e editor do New York Review of Books.

[22] Elaine Dundy (1927-), escritora e atriz americana, primeira mulher de Tynan, declarou o seguinte, em outubro de 1994, à revista do Independent: “Não há motivo para meias-palavras: é necessário corrigir a falsa impressão, difundida por Ken, de que o seu sadismo sexual só envolvia surras de brincadeirinha, porque embora eles pudessem servir de aperitivo para excitá-lo, a vara do professor era na verdade o seu instrumento preferido. Açoitar uma mulher nas nádegas nuas era o que mais lhe dava satisfação. Embora detestasse profundamente a idéia, tanto na teoria quanto na prática, eu me submeti à sua mania de flagelação em cinco ocasiões, uma das quais durou uma semana, e no final quebrei quatro varas. Cada vez que aceitei, foi pelo motivo covarde de tentar fazê-lo ficar comigo”.

[23] Tony Richardson (1928-91), diretor de teatro e cinema inglês.

[24] John Gieguld (1904-2000), ator inglês.

[25] John Osborne (1929-94), dramaturgo que revolucionou o teatro inglês com Look Back in Anger (Geração em Revolta), de 1956.

[26] Tom Curtiss (1915-2000), escritor e crítico americano.

[27] Claude Terrail (1910-2006), restaurateur francês, dono do Tour d’Argent.

(Continua na próxima edição de piauí.)

Kenneth Tynan

Kenneth Tynan (1927–1980), crítico teatral e escritor inglês, autor de A Vida como Performance, da Companhia das Letras.

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