espólios de guerra

A Madona Sistina

Vi os seus olhos e os reconheci imediatamente. Quatro séculos antes, Rafael havia pintado a expressão de quem vai ao encontro do seu destino.

Vassíli Grossman
“Sua beleza é estreitamente ligada à vida terrena. Uma beleza democrática, inerente aos humanos – os de pele amarela, os corcundas de nariz pontiagudo, os negros de lábios grossos.”
“Sua beleza é estreitamente ligada à vida terrena. Uma beleza democrática, inerente aos humanos – os de pele amarela, os corcundas de nariz pontiagudo, os negros de lábios grossos.” ILUSTRAÇÃO: THE SISTINE MADONNA, 1513_RAFFAELLO SANZIO DA URBINO(1483-1520)_ © STAATLICHE KUNSTSAMMLUNGEN DRESDEN

Vassíli Grossman foi um homem de sorte. Era judeu ucraniano, escritor, jornalista, honesto e idealista. Viveu na União Soviética na primeira metade do século XX, um dos piores lugares do mundo para ser judeu, escritor, jornalista, honesto e, principalmente, idealista. É um milagre que tenha morrido de causas naturais aos 58 anos, em Moscou, no ano de 1964.

Grossman nasceu em 1905 em Berdichev, cidade que tinha uma das maiores populações judaicas da Europa Central. Formado em química em 1929, logo abandonou a profissão e passou a viver da literatura. Sua obra mais conhecida, Vida e Destino, é considerada por muitos o maior romance russo do século XX.

Os anos 30 foram anos de fome na Ucrânia. Mais de 7 milhões de pessoas morreram em consequência das políticas agrárias soviéticas. A filha e a primeira mulher de Grossman viviam em Kiev, sobrevivendo com 200 gramas de pão por dia. Ele as ajudava com refeições fornecidas pelo Sindicato dos Escritores, ao qual era filiado. Aqueles foram também os anos dos expurgos promovidos por Stálin. Grossman viu muitos de seus amigos e parentes serem presos, deportados ou executados. Sua segunda mulher, Olga, foi presa por associação com o ex-marido, Boris Guber, executado em 1937, o ano do Grande Terror. Grossman, num ato considerado insano por seus contemporâneos, escreveu a Nikolai Yezhov, o temido chefe da polícia secreta, pedindo a soltura de Olga. Durante a prisão de sua mulher, conseguira adotar os dois filhos dela com Guber, salvando-os assim do orfanato.

Em 1941, Hitler invadiu a União Soviética. Grossman, patriota acima de tudo, quis se alistar. Aos 36 anos, era gordinho, usava óculos e mancava de uma perna. O Exército, reconhecendo seus reais talentos, nomeou-o correspondente do jornal Estrela Vermelha. Ele surpreendeu a todos entrando em forma e tornando-se excelente atirador. Passou a guerra na frente de batalha, correndo riscos enormes. Isso lhe valeu a confiança das tropas e dos oficiais, dos quais conseguia entrevistas reveladoras. Em 1942 publicou seu primeiro romance sobre a guerra, O Povo Imortal.

Em 1941 e 1942, 2 milhões de judeus soviéticos foram mortos pelos alemães. Entre eles estava a mãe de Grossman, que havia ficado em Berdichev. Ele só soube de sua morte em 1944, quando chegou à cidade com o Exército Vermelho. Nunca se perdoou por não ter conseguido salvá-la.

No mesmo ano, chegou a Treblinka, na Polônia, onde haviam sido executados 900 mil judeus. Escreveu um dos primeiros relatos sobre o campo, “O Inferno de Treblinka”. O artigo foi usado como evidência no Tribunal de Nuremberg. Em 1945, entrou em Berlim com o Exército Vermelho. Sua honestidade, tão admirada quando os nazistas eram os inimigos, agora se voltava contra o Exército soviético, do qual registrou tanto atos de heroísmo como atos de barbárie.

Terminada a guerra, Grossman estava orgulhoso de seu país. Acreditava que a união de todos os povos soviéticos, necessária para vencer a guerra, traria tempos de paz e justiça, mas já em 1948 percebeu que não seria assim. O livro em que documentava a Shoah na União Soviética, o Livro Negro, foi proibido. Em 1952, Stálin acelerou a campanha contra os judeus, com tribunais secretos e execuções na calada da noite. Grossman fazia parte da lista de perseguidos. Salvou-se por um triz, com a morte de Stálin em 1953.

Em 1955, em Moscou, Grossman viu a Madona Sistina de Rafael. Em plena Guerra Fria, depois de Hitler, depois de Hiroshima e Nagasaki, depois de Stálin, ele consegue encontrar no quadro a beleza da experiência humana. Escreve com sinceridade comovente, sem cinismo e sem vergonha de suas emoções.

* 1 *

As forças soviéticas vitoriosas, depois de aniquilarem o Exército da Alemanha fascista, recolheram quadros do acervo do Museu de Arte de Dresden e os levaram para Moscou. Esses quadros permaneceram trancados por quase dez anos.

Na primavera de 1955, o governo soviético resolveu devolvê-los a Dresden. Antes, porém, eles seriam expostos em Moscou durante três meses.

E assim, na fria manhã do dia 30 de maio de 1955, depois de subir a Volk-honka por entre os cordões com os quais a polícia moscovita controlava a multidão que queria ver os Grandes Mestres, entrei no Museu Púchkin, subi ao 1º andar e me aproximei da Madona Sistina.

Desde o primeiro olhar, uma coisa se impõe imediatamente, uma acima de todas: ela é imortal.

Compreendi que até aquele momento eu havia sido leviano no emprego desta palavra assombrosa: imortal. Compreendi que confundira a imortalidade com a poderosa vitalidade de certas realizações humanas particularmente sublimes. E nesse momento, venerando Rembrandt, Beethoven e Tolstói, eu soube que, dentre todas as obras criadas por pincel, buril ou pena que haviam tomado meu coração e meu espírito, somente aquele quadro de Rafael permaneceria vivo enquanto não desaparecessem os homens. E que um dia, talvez, se acaso desaparecessem, outras criaturas que viessem a tomar o lugar deles – lobos, ratos, ursos ou andorinhas – também se precipitariam sobre as quatro patas ou bateriam as asas para ver a Madona…

Doze gerações viram este quadro – um quinto das gerações que povoaram a terra desde o princípio dos tempos históricos até os nossos dias.

Ele foi visto por mendigos e imperadores da Europa, por estudantes, por milionários que vieram de além-mar, por papas e príncipes russos. Foi visto por jovens virgens e por prostitutas, por coronéis de estado-maior, ladrões, gênios, tecelões, pilotos de bombardeiros e professores do primário. Foi visto por bons e maus.

Desde que este quadro existe, impérios europeus e coloniais ascenderam e ruíram, surgiu a nação americana, as fábricas de Pittsburgh e Detroit entraram em atividade, revoluções ocorreram e a estrutura social do mundo se transformou. Ao longo desses séculos, a humanidade deixou para trás as superstições dos alquimistas, o tear manual, os mosquetes e as alabardas, o barco a vela e a carruagem puxada a cavalo. A humanidade entrou na era dos geradores elétricos e das turbinas; na era dos reatores atômicos e das bombas de hidrogênio. Ao longo desses séculos, grandes cientistas configuraram um novo entendimento do universo: Galileu escreveu o seu Discurso, Newton os seus Principia, Einstein a Eletrodinâmica dos corpos em Movimento. Ao longo desses séculos, Rembrandt, Goethe, Beethoven, Dostoiévski e Tolstói enriqueceram nossa alma e tornaram a vida mais bela.

O que vi foi uma jovem mãe com uma criança nos braços.

Como será possível transmitir a graça de uma macieira esguia ao gerar a sua primeira maçã, pálida e pesada; a graça de um passarinho com seus filhotes recém-saídos da casca; a graça de uma jovem corça que acabou de parir… O desamparo – a maternidade recente – de uma mocinha, de uma menina, ainda quase uma criança…

Depois de ver a Madona Sistina, já não se pode dizer que essa graça seja inefável ou misteriosa.

Na sua Madona, Rafael revelou o mistério da maternidade e de sua beleza. Mas não é disso que depende a vitalidade inexaurível do quadro. O segredo dessa vitalidade está no fato de que o corpo e o rosto desta jovem mulher são, na verdade, a sua alma. Nessa representação visual de uma alma de mãe há algo de inacessível à consciência humana.

Sabemos que as reações termonucleares transformam a matéria em uma enorme quantidade de energia, mas ainda não concebemos o processo inverso, isto é, a transformação de energia em matéria. Aqui, no entanto, uma força espiritual – a maternidade – se cristalizou, transmutada numa doce e humilde Madona.

Sua beleza está estreitamente ligada à vida terrena. É uma beleza democrática, humana, inerente à massa dos seres humanos – aos de pele amarela, aos estrábicos, aos corcundas de nariz pálido e pontiagudo, aos negros de cabelos crespos e lábios grossos. É uma beleza universal. Esta Madona é a alma e o espelho do humano, e todos os que a veem enxergam nela a própria humanidade. Ela é a imagem da alma materna, e por isso sua beleza se entrelaça e se confunde para sempre com a beleza oculta, indestrutível e profunda de toda vida que é gerada – nos sótãos, nos celeiros, nos palácios ou nos porões.

Creio que esta Madona é a expressão mais ateísta possível da vida, do que é humano, sem participação divina.

Por uns instantes, pareceu-me que exprimia não só o humano, mas também qualquer coisa de inerente à vida terrena num sentido ainda mais amplo, a todo o mundo animal. Nos olhos escuros da égua, da vaca ou da cadela que alimenta sua cria, podemos ver, ou adivinhar, a sombra miraculosa da Madona.

E mais terrena ainda me parece a criança que ela tem nos braços. Seu rosto é mais adulto que o da mãe.

Seu olhar é triste e sério, voltado diretamente para o que está à frente e, ao mesmo tempo, para dentro de si. É um olhar capaz de conhecer, de ver o destino.

Ambos os rostos são calmos e tristes. Talvez vejam o Gólgota e a estrada poeirenta e pedregosa que os conduz morro acima, e a horrenda e pesada cruz de madeira tosca, apoiada neste ombro tão pequeno que por ora sente apenas o calor do peito materno.

Vem um aperto no coração, mas não de angústia nem de dor. É um sentimento novo, jamais experimentado. É um sentimento humano e no entanto novo, como se acabasse de emergir das salgadas e amargas profundezas do oceano, e tão insólito em sua novidade que faz o coração disparar.

Está aqui outra característica única deste quadro.

Ele suscita algo novo, como se às setes cores do espectro fosse acrescentada uma oitava cor, jamais vista.

Por que não há medo no rosto da mãe? Por que os seus dedos não se estreitam em torno do corpo do filho, com tal força que nem a morte seria capaz de descerrá-los? Por que ela não quer subtrair o filho ao seu destino?

Ela o estende para a frente e o oferece ao destino; não tenta escondê-lo.

E o menino não esconde o rosto no peito da mãe. De fato, está prestes a se desgarrar do abraço e ir ao encontro de seu destino com seus pezinhos descalços.

Como explicar, como compreender isso?

Os dois são um só, e são distintos. Eles veem, sentem e pensam juntos, estão fundidos um no outro, mas tudo indica que vão se separar, que não podem deixar de fazê-lo, que a essência de sua comunhão, de sua fusão, está em separar-se.

Ocorre que, em certos momentos difíceis, são as próprias crianças que assombram os adultos com seu bom-senso, sua serenidade e sua aceitação do destino. Filhos de camponeses deram prova dessa qualidade em anos de fome, assim como filhos de comerciantes e artesãos judeus durante o pogrom de Kishinev, como filhos de mineiros de carvão quando o gemido de uma sirene anuncia ao acampamento em pânico uma explosão nos subterrâneos da mina.

Aquilo que é humano no homem vai ao encontro do seu destino, e em cada época o destino é peculiar, é distinto do que foi para a época precedente. O que esses diversos destinos têm em comum é o fato de serem todos igualmente difíceis.

Mas o que é humano no homem continua a existir, mesmo quando o pregaram numa cruz ou o torturaram numa prisão.

Isso que é humano no homem continua a viver nos abrigos de pedra, no frio de 50 graus abaixo de zero, nos acampamentos de lenhadores na taiga, nas trincheiras alagadas de Przemysl e de Verdun. Continua a viver na existência monótona dos empregados de escritório, na miséria das lavadeiras e das mulheres da limpeza, na labuta sem alegria dos operários de fábrica, na luta vã contra a necessidade, até a exaustão.

A Madona com o filho nos braços é o que no homem existe de humano, e nisso reside a sua imortalidade.

Olhando a Madona Sistina, nossa época toma consciência do próprio destino. Cada época contempla esta mulher que carrega o filho nos braços, e entre os homens de diferentes gerações, de povos, raças e tempos diversos nasce uma fraternidade que é terna, comovente e dolorosa. O homem toma consciência de si, da cruz que deve carregar, e de súbito compreende o elo milagroso que une todas as épocas, a ligação entre o que vive agora e tudo o que jamais viveu e viverá.

 

* 2 *

Mais tarde, andando na rua, aturdido e desconcertado pela força daquelas impressões sem precedentes, não fiz nenhuma tentativa de me desembaraçar do que sentia e pensava.

Não podia equiparar aquelas emoções aos dias de lágrimas e felicidade que havia conhecido aos 15 anos, ao ler Guerra e Paz, nem ao que havia sentido ao ouvir Beethoven em momentos especialmente sombrios e difíceis da minha vida.

E então compreendi que a visão daquela jovem mãe com o filho no colo não me reconduzia nem a um livro nem à música, mas a Treblinka:

Esses pinheiros, essa areia, esses velhos troncos foram vistos por milhões de olhos humanos por entre as frestas dos vagões que lentamente se aproximaram da plataforma… Entramos no campo, nossos pés pisam o chão de Treblinka… O estalido das vagens de tremoço que se rompem ao mais leve sopro e o tilintar das sementes que pingam se unem numa melodia triste e tranquila. É como se até nós, subindo das profundezas da terra, chegasse um dobre de finados, badaladas quase inaudíveis, tristes, demoradas, em paz… E aqui estão elas, as camisas que pertenceram aos mortos, semidecompostas, os sapatos, engrenagens de relógio, canivetes, castiçais, um sapatinho de criança com pompons vermelhos, uma toalha de mão com bordado ucraniano, uma combinação rendada, jarros, potes, canecas de plástico de criança, cartas escritas a lápis com garranchos infantis, pequenos volumes de poesia…

Continuamos a avançar nesta terra sem fundo, terra de vertigem, a terra de Treblinka, e de repente paramos. Uma cabeleira loura e farta, um feixe de cobre ondulado, fios de cabelo de moça, delicados e graciosos, pisoteados, calcados na terra, e do lado outros cachos louros, e outros, e pesadas tranças negras sobre a areia clara, e depois mais, e mais…

As vagens de tremoço maduro continuam a estalar, os grãos tamborilam, e tudo de fato ressoa como se incontáveis sinetas tocassem um dobre fúnebre debaixo da terra.

O coração agora parece que vai parar, esmagado pela desolação, pela dor, por uma angústia que ser humano nenhum jamais suportará…

O que me veio à mente foi a lembrança de Treblinka, sem que a princípio eu me desse conta…

Era ela que calcava os pés descalços e leves no chão fremente de Treblinka, caminhando do lugar onde se descarregavam os vagões para a câmara de gás. Eu a reconheci pela expressão do rosto e dos olhos. Vi seu filho e o reconheci pela expressão estranha, sem nada de infantil. Era essa a expressão das mães e das crianças quando viam, contra o fundo verde-escuro dos pinheiros, a parede branca da câmara de gás de Treblinka, e assim eram suas almas.

Quantas vezes não olhei através das sombras a gente que descia dos vagões de carga, mas eu não via os rostos com clareza. Às vezes eles pareciam desfigurados por um horror sem nome e tudo se dissolvia num grito terrível. Às vezes o desespero e a exaustão, física e espiritual, velavam os rostos com uma indiferença obtusa e taciturna. Às vezes um sorriso de despreocupação insana cristalizava-se no rosto dos que desciam do trem e se encaminhavam para a câmara de gás.

E agora, enfim, eu podia ver a verdade daqueles rostos. Rafael os havia pintado quatro séculos antes: é assim que o homem vai ao encontro do seu destino.

A Capela Sistina… As câmaras de gás de Treblinka…

Uma jovem mãe põe um filho no mundo em nossos dias. É aterrador segurar uma criança junto do coração e, ao mesmo tempo, ouvir o clamor da multidão que saúda Adolf Hitler. A mãe fita o rosto de seu filho recém-nascido e ouve os estalidos, a estridência de vidros quebrados, o mugido das sirenes, o bando de lobos que canta o hino de Horst Wessel[1] pelas ruas de Berlim. Da prisão de Moabit[2] vem o rumor surdo de um machado.

A mãe amamenta seu filho enquanto milhares e milhares de homens constroem muros, estendem arame farpado, levantam galpões. Em escritórios silenciosos projetam-se as câmaras de gás, os veículos homicidas, os fornos crematórios.

É chegado um tempo de lobos, o tempo do fascismo. É um tempo em que os homens vivem como lobos e os lobos como gente.

Neste tempo, uma jovem mãe pôs seu filho no mundo e o criou. E um pintor de nome Adolf Hitler se detém diante dela no museu de Dresden para decidir sobre o destino que ela terá. Mas o soberano da Europa não consegue olhá-la nos olhos. Tampouco é capaz de sustentar o olhar do filho, porque ambos, mãe e filho, são humanos.

Sua força humana triunfa sobre a violência dele: a Madona caminha para a câmara de gás com os pés descalços e o passo leve. Carrega o filho sobre o chão vertiginoso de Treblinka.

O fascismo alemão foi aniquilado, a guerra levou dezenas de milhões de vítimas, cidades imensas transformaram-se em amontoados de ruínas.

Na primavera de 1945, a Madona viu o céu do norte. Ela veio até nós como hóspede (embora não a tenham convidado), mas não como estrangeira de passagem, pois foi acompanhada por soldados e motoristas ao longo de estradas esburacadas pela guerra; assim, passou a fazer parte da nossa vida, é nossa contemporânea.

Tudo entre nós lhe é familiar: a nossa neve, a lama fria do outono, a marmita amassada dos soldados, com sua papa escura, uma cebola murcha e uma crosta de pão preto.

Ela caminhou ao nosso lado; viajou um mês e meio num trem rangente, catou piolho no cabelo macio e sujo de seu filho.

Aqui está ela, descalça, subindo num vagão de carga com seu filho pequeno. Que longo caminho se estende à sua frente – de Oboyan, perto de Kursk, na região das terras negras de Voronezh, para a taiga, para as florestas pantanosas além dos Urais, rumo às areias do Cazaquistão?

E onde está seu pai, menino? Onde ele morreu? Em alguma cratera escavada pelas granadas? Em alguma companhia destacada para cortar madeira na taiga? Em alguma barraca para soldados com disenteria?

Vânia, meu pequeno Vânia, por que esse ar tão triste? Atrás de você e de sua mãe, o destino pregou uma cruz de madeira nas janelas da casa agora vazia em que você nasceu. Que longa viagem os espera? Irão até o fim? Ou chegarão ao fim de suas forças e morrerão extenuados em algum lugar na beira da estrada, numa estação de trem, na margem alagadiça de um riozinho do outro lado dos Urais?

Sim, era ela. Eu a vi em 1930, na estação de Konotop, na Ucrânia. Empalidecida pela fome e pela doença, ela se aproximava do trem e, erguendo para mim os olhos esplêndidos, disse com os lábios, sem voz: “Pão…”

Vi seu filho, que estava já com 30 anos. Calçava botas militares surradas, dessas que ninguém se dá ao trabalho de tirar dos pés de um morto, de tão imprestáveis, e vestia um casaco acolchoado com um buraco que deixava o ombro à mostra, branco como leite.

Seguia por uma trilha em terreno pantanoso. Uma nuvem de mosquitos pairava ao redor de sua cabeça, e ele não conseguia espantar aquela auréola palpitante de milhares de insetos porque precisava das duas mãos para firmar no ombro um tronco úmido e pesado. A certa altura, ele ergueu a cabeça, que mantinha abaixada, e eu vi a barba crespa e brilhante que engolia o seu rosto, os seus lábios semiabertos. Vi os seus olhos e os reconheci imediatamente. Eram aqueles olhos que me fitavam do quadro de Rafael.

Encontramos sua mãe mais de uma vez em 1937. Ali estava ela, no quarto, estreitando o filho nos braços pela última vez, despedindo-se dele, devorando o seu rosto com os olhos, para então descer pela escada deserta os muitos andares de um prédio emudecido. Um automóvel preto a esperava lá embaixo; um lacre de cera já fora colocado na porta do quarto. Como emudeceram aqueles edifícios, como era estranho e vigilante o silêncio do amanhecer cor de cinzas…

E, da penumbra que antecede a alvorada, emerge o seu novo presente: o comboio, a prisão de trânsito, as sentinelas no alto das torres de madeira, o arame farpado, o trabalho noturno nas oficinas, água fervida em lugar de chá e camas de tábua, camas de tábua, camas de tábua…

Com seus passos lentos e amplos, calçado com botas de salto baixo feitas de pele de cabrito, Stálin se aproximou do quadro e, afagando o bigode grisalho, olhou demoradamente o rosto da mãe e do filho.

Será que a reconheceu? Ele a encontrara ao ser deportado para a Sibéria Oriental, em Nóvaia Uda, em Turukhansk, em Kureisk. Ele a encontrara nos trens, nas prisões de trânsito, quando os deportados eram transferidos de um lugar para outro. Terá pensado nela mais tarde, nos seus anos de poderio?

Mas nós, homens, a reconhecemos, e reconhecemos seu filho. Ela somos nós; somos nós o destino deles; mãe e filho são o que é humano no homem. E, se tempos futuros levarem a Madona para a China ou para o Sudão, os homens a reconhecerão em toda parte, como nós a reconhecemos hoje.

Este quadro nos fala da alegria de estar vivo nesta terra, e também daí vem a sua força serena e miraculosa.

O mundo inteiro, toda a imensidão do universo, não passa de matéria inanimada, resignada à própria escravidão. Apenas a vida é o milagre da liberdade.

Este quadro nos diz o quanto a vida é preciosa e magnífica, e que não há força no mundo capaz de coagi-la a se transformar em outra coisa que, embora assemelhando-se exteriormente, já não seja a vida.

A força da vida, a força do que é humano no homem, é uma força imensa, e mesmo a violência mais extrema e mais absoluta não será capaz de escravizá-la; poderá apenas matá-la. Por isso é tão sereno o rosto da mãe e do filho: eles são invencíveis. Nestes tempos de ferro, a morte da vida não coincide com a sua derrota.

E nós, jovens e velhos, que vivemos na Rússia nos postamos diante dela. Nesta época de angústia… As feridas ainda não cicatrizaram, os restos de prédios incendiados ainda estão cobertos de lama cor de carvão, ainda não se ergueram monumentos aos que tombaram na vala comum de milhões de soldados, filhos e irmãos nossos. Mortos, calcinados, os álamos e as cerejeiras silvestres ainda montam guarda nos campos. O capim cresce tristonho sobre os corpos dos velhos, das mães e das crianças queimadas vivas nas aldeias que resistiram. A terra se revolve e treme ainda nas fossas onde repousam os corpos das crianças judias mortas com suas mães. À noite, em incontáveis choupanas russas, bielorrussas, ucranianas, ainda ressoa o soluço das viúvas. A Madona atravessou tudo isso junto conosco, porque ela somos nós e seu filho somos nós.

E sentimos medo, vergonha e dor. Por que a vida foi tão terrível? Não será culpa minha ou culpa nossa? Por que continuamos vivos? Que pergunta terrível, penosa, e os mortos são os únicos que podem fazê-la aos vivos. Mas os mortos se calam, não fazem perguntas.

De vez em quando o silêncio do pós-guerra é rompido por uma explosão e uma nuvem radioativa se espalha no céu.

A terra onde vivemos todos estremece: as armas termonucleares tomam o lugar da bomba atômica.

E dentro de pouco tempo nós nos despediremos da Madona.

Ela morou conosco, viveu a nossa vida. Julguem-nos então, julguem a todos nós – junto com a Madona e seu filho. Em breve partiremos, nossos cabelos já estão brancos. Mas ela, a jovem mãe que leva o filho nos braços, seguirá em frente, ao encontro de seu destino, e com uma nova geração de homens verá no céu uma luz poderosa e ofuscante: a primeira explosão de uma superpotente bomba de hidrogênio, que anunciará o início de uma nova guerra, total.

O que podemos dizer, nós, homens do tempo do fascismo, perante o tribunal do passado e do futuro? Não temos nenhuma justificativa.

E diremos: “Nunca houve tempo mais cruel do que o nosso; no entanto, não deixamos morrer aquilo que é humano no homem.”

Ao ver a Madona Sistina seguir seu caminho, conservamos a fé de que a vida e a liberdade são uma coisa só e de que nada está acima do que é humano no homem.

É isto que viverá para sempre, e triunfará.

 

[1] Horst Wessel foi um militante nazista morto em 1930. Compôs o hino do Partido Nacional-Socialista, adotado posteriormente como um dos hinos da nação alemã durante o regime de Hitler.

[2] Centro de detenção da Gestapo.

Vassíli Grossman

Vassíli Grossman (1905–64), escritor e jornalista soviético, é autor de Um Escritor na Guerra, publicado pela Objetiva.

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