ficção

A mãe

Meu marido voltou a me visitar muitas vezes. Sei que o meu destino é lhe dar filhos, assim como sei o destino de cada filho que pus no mundo

André Cardoso
Esse filho também era grande e poderoso, e ninguém poderia derrotá-lo. Assim como o primeiro, ele logo foi embora e nunca mais o vi. Sei que vive na escuridão e é dele o fim de todos
Esse filho também era grande e poderoso, e ninguém poderia derrotá-lo. Assim como o primeiro, ele logo foi embora e nunca mais o vi. Sei que vive na escuridão e é dele o fim de todos ILUSTRAÇÃO: ANDRZEJ PAGOWSKI_1968_CARTAZ POLONÊS DO FILME O BEBÊ DE ROSEMARY

Na primeira vez em que ele veio, o céu estava cinza e frio, e o vento se arrastava entre as folhas secas no chão. A voz dele era calma como o vento, mas não me lembro do que disse. Pode ser que não tenha dito nada. Mas sei que a voz dele era como o vento, porque foi o vento que eu ouvi me chamando do fundo da floresta.

Eu fui, sem medo, porque a sua voz era doce, e era bom sentir a terra molhada debaixo dos meus pés e ouvir o sussurro das folhas, que também era a voz dele. Procurei muito tempo entre as árvores, seguindo o movimento das folhas que me mostravam o caminho. De repente ele estava na minha frente e eu soube que ele sempre estivera lá, me esperando. Ele era o vento, a terra e as folhas.

Ele me tocou, e as suas mãos eram a chuva quente que cai sobre a terra. Me lembro da sombra embaixo das folhas marrons, das folhas que me cobriam, e da fome dele que também era a minha. Ele ficou comigo muito tempo, até o céu ficar escuro e o dia acabar. Depois foi embora sem dizer nada, e as folhas eram só folhas e a terra era só terra. Não me lembro da cor dos seus olhos.

Muitos e muitos meses se passaram. Eu esperava. Não por ele, porque eu sabia que ele não ia voltar, mas por algo que crescia dentro de mim. Ainda não sabia o que era. Mas a terra estava vazia e sem forma, e aquilo que crescia dentro de mim mudaria todas as coisas.

Quando a hora chegou, me deitei, calada, para receber aquela nova visita. Veio a dor, e a dor era enorme, mas não gritei, porque sabia que tinha de ser assim. O céu ficou escuro, o dia acabou, e eu olhei para aquele que saíra de dentro de mim. O meu filho era grande e poderoso, uma grande serpente, longa como o horizonte e alta como as montanhas. Seus olhos eram de fogo, vermelhos como o meu sangue sobre suas escamas. Ele se sacudiu e sua voz também era como o vento, mas o vento que traz a tempestade, forte, raivoso e quente. Depois ergueu a cabeça e foi embora sem olhar para trás, para tomar o seu lugar no mundo, na beira do grande mar. Lá ele espera, no fim da terra, onde ninguém pode passar, até chegar o dia em que vai se levantar de novo para envenenar o coração do mundo e trazer ódio e destruição. Eu vi, era essa a sua missão. Dei as costas ao meu filho, olhando uma última vez para as suas escamas douradas no horizonte, e voltei para casa.

 

Na segunda vez, ele veio na forma de um grande pássaro de penas negras e prateadas. Veio do alto e pousou no galho de uma árvore perto de mim. Era um pássaro muito bonito, nobre e elegante. No início, não o reconheci, então deixei que se aproximasse e não fugi. Ele me tomou de repente, sem dizer nada. Não reagi. Quando entendi o que estava acontecendo, já era tarde. Me lembro de suas penas agitadas brilhando ao sol, da sua pressa, do gozo que veio de repente. Ele me tomou e depois foi embora outra vez.

Muitos e muitos meses se passaram, tantos que nem pude contar. Um dia, soube que estava na hora. Saí de casa e fui para o campo. O céu estava cinza, muito escuro, e me pesava tanto quanto o filho que eu carregava dentro de mim. Foi no meio da tempestade que ele nasceu. Desta vez eu gritei muito, muito, e até hoje, quando vem a tempestade, são os meus gritos que ela repete e que nunca esqueceu. Tentei ver o meu filho, mas ele era uma mancha, um negror de mil formas, de toque frio e úmido. Esse estaria sempre perto dos seres, mas nunca seria visto. Esse também seria grande e poderoso, e ninguém poderia derrotá-lo. Esse filho, assim como o primeiro, logo foi embora e nunca mais o vi. Ele vive na escuridão e é dele o fim de todos.

 

Um dia, quando eu estava procurando lenha na beira da estrada, ele estava lá me esperando de novo, logo depois da curva. Agora ele era um grande guerreiro, alto e forte, de olhar confiante. Eu o reconheci logo que o vi. Parei onde estava e ele me olhou cheio de desejo. Era a mesma fome da primeira vez, mas eu sabia da dor que ele iria trazer e fugi.

Corri pela estrada por onde tinha vindo, e ele veio correndo atrás de mim. Corri para além da estrada, corri pelo campo e pela mata. Fiquei cansada. Mas ele continuava correndo atrás de mim. Corri pelos morros e pelas montanhas. Mas ele sempre corria atrás de mim, a boca sorrindo e os olhos sérios, como o gavião quando mergulha para agarrar um rato escondido na grama. Corri pela terra seca e pela floresta, até chegar à beira do rio. Como alguém pode atravessar o grande rio?

Ali mesmo ele me agarrou e me tomou à força, sem dizer nada, a boca sorrindo e os braços fortes. Levou muito tempo, um dia e uma noite, e a dor foi muita. Eu chorei e hoje minhas lágrimas são os peixes de prata que nadam no rio. Quando acabou, ele foi embora e a voz do rio ainda pergunta para onde ele foi. Voltei para casa.

Muitos e muitos meses se passaram, e o peso que eu carregava dentro de mim era maior que a montanha, maior que a terra, maior que a noite. Quando chegou a hora, saí de casa. Achei meu caminho no escuro, pois a lua tinha ficado com medo e se escondido atrás do horizonte. Me deitei no chão e fiz força, mas eram muitas as minhas filhas, e demorou muito, muito para elas nascerem. Minhas filhas eram violentas e me rasgavam ao sair de dentro de mim. Eram mulheres cor de sangue e de olhos escuros, com asas de abutre e garras de bronze. Elas iriam perseguir os seres à noite, comendo suas carnes, arranhando com as garras os seus corações, e todos se dobrariam diante delas.

 

Quando ele voltou outra vez, era o jaguar, o senhor dos caminhos. Mas eu já o conhecia e logo percebi que era ele atrás dos olhos do jaguar. Me escondi atrás de uma pedra e ele me encontrou. Me escondi dentro do arbusto e ele me encontrou. Me escondi dentro da terra, mas ele rugiu e a terra se abriu. Ele me tomou, me mordeu e me arranhou.

O filho que me nasceu dessa vez era o mais silencioso de todos. Era o dragão da noite, o de mil olhos, e neles brilha o fogo do seu orgulho. Esse vai guardar o portão do céu para que ninguém entre na casa dos deuses, e vai cumprir a sua missão até o dia em que lutar com o seu irmão mais velho, a grande serpente, e o mundo acabar. É lindo esse meu filho, e até hoje vejo seus olhos brilhando no céu da noite.

 

Meu marido voltou a me visitar muitas e muitas vezes. Um dia era uma flor, no outro era um lobo ou então uma nuvem. Ele veio também como o fogo. Tentei me esconder, mas ele sempre me achou. Corri o mundo inteiro, mas o mundo inteiro não é grande o bastante para ele. Sei que o meu destino é lhe dar filhos, assim como sei o destino de cada filho que pus no mundo.

Ainda trago dentro de mim o último filho que ele me gerou. Mas dessa vez fui esperta, e pus mais de meu sangue nesse filho sem que ele percebesse. Esse vai ser o mais frágil de todos, por isso não vai poder ir embora tão cedo e vai depender de mim por muito tempo. Quando nascer, será muito pequeno, e terá braços tão finos que não vai conseguir agarrar nada além do meu dedo, ou do meu peito quando mamar. Suas pernas serão tão fracas que não vai conseguir ficar de pé. Sem a minha proteção, ele vai morrer de fome ou vai ser comido pelas feras. Sua voz será um grito sem palavras. Mas eu vou entendê-lo, eu sei do que precisa. Talvez depois de ele nascer, meu marido não volte a me procurar.

Esse é o filho que mais amo. Já posso ver nele o meu rosto, pois ele é o filho da minha alma. Ele será fraco no início, mas vai crescer e vai ser o mais poderoso de todos os meus filhos. Esse vai se espalhar pelo mundo e a terra vai obedecer à sua vontade. Dele serão os campos, os mares e as grandes cidades. Ele vai criar deuses à sua imagem e vai derrubar os deuses antigos. Esse meu filho vai apagar seus irmãos, e deles não vai ficar nem a lembrança. O mundo vai obedecer à sua lógica e quando um dia se acabar, seco e esgotado, isso também vai acontecer pelas suas mãos, porque ele vai usar o mundo para seguir seu engenho. Ele não conhecerá seus limites e, cruel e bondoso, fará suas próprias escolhas.

Sei que isso tudo vai acontecer. Eu sei o que ele pensa. Eu o conheço, porque ele é parte de mim. E eu nunca me surpreendo com os meus filhos.

André Cardoso

André Cardoso é escritor e professor de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal Fluminense.

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