despedida

A marretadas

O clássico Barriga Preta contra o Leão da Vila nunca mais será o mesmo

Fernando Serapião
FOTO: CORTESIA DO DEPARTAMENTO DE FILATELIA E PRODUTOS DOS CORREIOS

Faltava pouco para ele completar 40 anos. Depois de ser desenganado por meses, o derradeiro martírio levou semanas e com ele a morte brutal, cruel e violenta: a marretadas. O fim do sacrifício estava previsto para agosto. “Vivaldão jamais será esquecido”, proclamou em seu artigo o jornalista esportivo Isaac Júnior, um dos poucos a se comover.

A vítima era manauense e seu nome completo, Estádio Vivaldo Lima. Ele foi apresentado ao mundo em clima de festa. Pelé, Gerson, Tostão e Rivelino estavam lá, mas a tarde de domingo, 5 de abril de 1970, foi mesmo de Dadá Maravilha que, com quatro gols, deixou os espectadores boquiabertos. O baile de 4 a 1 da Seleção sobre um combinado do Amazonas anteciparia a conquista do tri, ocorrida onze semanas depois.

Durante sua existência, foi no Vivaldão que aconteceu o maior dérbi do futebol amazonense, o Rio-Nal, que opunha o Atlético Rio Negro Clube ao Nacional Futebol Clube. Infelizmente, a atual desdita do Vivaldão atesta o drama de uma era. Os dois grandalhões da selva também não têm nada a comemorar: o Barriga Preta e o Leão da Vila Municipal, como são conhecidos, hoje nem sequer fazem parte da série C do Brasileirão.

O Vivaldão foi ao chão para dar lugar à Arena da Amazônia, uma das sedes da Copa de 2014. A justificativa oficial é de que o velho estádio está assentado num endereço privilegiado e a cidade não comporta duas construções públicas do gênero. A oposição tentou impedir o desmonte entrando com uma ação popular junto ao Ministério Público Federal.

“Demonstramos, tecnicamente, que o estádio poderia ser aproveitado, o que economizaria 230 milhões de reais, mas com a demolição a ação perde o sentido”, diz Luiz Castro, deputado estadual pelo PPS e um dos autores da ação.

A nova edificação custará 580 milhões de reais ao erário. Ela foi desenhada pelo escritório de arquitetura alemão GMP, que, após fazerem três estádios para a Copa da Alemanha – entre os quais, a fabulosa adaptação do Estádio Olímpico de Berlim –, se especializaram em arenas esportivas. Emplacaram três projetos na Copa africana (Durban, Cidade do Cabo e Port Elizabeth – os mais bonitos e também os que mais estouraram o orçamento) e, em 2014, serão responsáveis por outra trinca. Além de Manaus, participam das reformas do Mineirão, em Belo Horizonte, e do Estádio Nacional de Brasília, atual Mané Garrincha.

Se a execução seguir os desenhos, a Arena da Amazônia tem tudo para ser uma das mais belas da Copa. Ela lembra o desenho do Ninho de Pássaro, em Pequim, mas segundo conta Ralf Amann, arquiteto alemão da GMP radicado no Rio de Janeiro, a inspiração veio das cestas de vime amazonenses.

 

Apesar do currículo dos projetistas alemães, o universo arquitetônico tem motivo para o luto. O desenho do Vivaldão conseguia ser ao mesmo tempo marcante e delicado. Severiano Porto, autor do projeto, aproveitou uma cratera que existia no local – consequência da retirada de terra para aterros – e assentou o prédio no chão com suavidade, razão pela qual tinha pouco impacto externo. O Vivaldão evitava um dos grandes pecados de estádios com má arquitetura: suas arquibancadas não davam as costas para a cidade. Eram encaixadas na topografia, como o Pacaembu. Tratava-se de uma presença tão discreta quanto elegante. O desenho gracioso da meia cobertura que protegia um dos hemisférios do estádio lembrava uma lua crescente.

Mineiro de família pernambucana, Severiano Porto cresceu no Rio de Janeiro. Seus pais eram educadores, e a família morava nos fundos do terreno da escola de que eram proprietários no Humaitá. Amante do desenho, Porto sempre soube que seria arquiteto. Iniciou a carreira trabalhando em construtoras: o dia a dia em canteiros de obra lhe deu conhecimento técnico invejável. Aos 35 anos foi convocado para reformar o escritório de representação do governo do Amazonas no Rio de Janeiro. Entregue a obra, o arquiteto assinou contratos mais ambiciosos: a reforma do palácio do governo e o projeto da Assembleia Legislativa. Nada saiu do papel, o que não o impediu de deitar raízes no estado do Amazonas. Ficava uma semana em Manaus e outra no Rio, onde mantinha escritório. Na capital amazonense, a prancheta na qual trabalhava no quarto do hotel ia para o porão na semana seguinte.

Porto redigiu um caderno de encargos tão completo que incluía até a parte jurídica. Foi adotado oficialmente nas construções governamentais. Tornou-se uma espécie de arquiteto oficial do governo – o Niemeyer da selva, por assim dizer – o que fez com que se mudasse para Manaus. “Construímos nossa casa sobre palafitas no meio de um igarapé”, conta Gilda Porto, mulher do arquiteto.

O estádio foi um dos primeiros trabalhos a ser levado adiante. Nele já se podia identificar as qualidades de Porto, um desconhecido do grande público que muitos críticos incluem na lista dos mais importantes arquitetos brasileiros do século XX. Ele encarava cada projeto de maneira particular, sem fórmulas preestabelecidas. Soube aproveitar as características dos materiais locais e desenhava para o clima da região: é um precursor da arquitetura sustentável. Também se apropriou de elementos regionais, como atestam os grafismos originais que adornavam o Vivaldão, a lembrar criações indígenas.

O reconhecimento internacional chegou apenas na década de 80. Pela Pousada da Ilha de Silves, Porto ganhou o prêmio máximo da Bienal de Buenos Aires, cujo júri incluía o grande arquiteto francês Jean Nouvel. Dois anos mais tarde, foi escolhido como o personagem do ano pela revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui.

Desde 2001, Severiano Porto mora em Niterói. Aos 80 anos, sofre lapsos de memória devido a um princípio de Alzheimer, e é tema de dezenas de teses. “Eu disse a ele que era melhor irmos embora: Manaus não quer mais uma arquitetura como a dele”, diz Gilda. “Querem construir a Miami dos trópicos. Dele, já demoliram o restaurante e a nossa casa”, conta. “Agora, o estádio. Não falo por ele, mas um estado tão carente deve demolir uma obra desse tamanho?” Quando a demolição foi cogitada, há dois anos, ele foi informado pelo repórter de um jornal local. “Para que demolir? O estádio foi projetado para crescer”, declarou na época.

As áreas internas do Vivaldão eram pequenas: a nova arena, obedecendo às resoluções da Fifa, resultará em 325 mil metros quadrados construídos, o que dá quase cinco vezes o paulistano Pavilhão do Anhembi, por exemplo. Oferecerá, entre outras coisas, salas VIPs (e very VIPs), praça de alimentação e, principalmente, estacionamento. Quanto à capacidade, entretanto, nada mudará: no portentoso estádio germânico caberão 43 mil almas, o mesmo que comportava o defunto quando imberbe.

Fernando Serapião

Fernando Serapião, arquiteto, é editor-executivo da revista Projeto Design

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