dossiê urbano

A megacidade

Em Lagos, a capital da Nigéria, o presente e o futuro da vida urbana

George Packer

A Terceira Ponte Continental é uma faixa recurvada de concreto que liga a ilha de Lagos ao continente africano. Foi construída na década de 1970, como parte de uma vasta rede de pontes, trevos e vias expressas que visavam transformar a cidade nigeriana – então com 3 milhões de habitantes – em uma metrópole moderna e eficiente. A ponte serpenteia sobre pilares imersos na lagoa de Lagos e atravessa uma favela flutuante: milhares de casas de madeira empoleiradas sobre palafitas, apenas alguns metros acima dos seus próprios dejetos flutuantes, com tetos metálicos cor de ferrugem conectados pelo nevoeiro produzido por milhares de fornos a lenha. Pescadores remam suas canoas numa água negra e viscosa como uma poça de óleo.

A ponte atravessa em seguida o bairro das serrarias, onde toras de árvores tropicais – que vêm do litoral, a 50 quilômetros – formam uma massa que bóia junto aos pilares. Montanhas de serragem queimam lentamente, lançando um fumo branco que se mistura, sobre a ponte, com a fumaça dos motores a diesel dos carros. Além das serrarias, os antigos mercados do porto, os casebres dos pescadores, as fachadas enegrecidas dos conjuntos habitacionais e os arranha-céus semi-abandonados do centro da ilha de Lagos avultam sob um céu baixo e nublado. Em toda a cidade, depósitos de lixo borbulham com a combustão de gases naturais, e ferros-velhos brilham com a queima de restos de combustíveis. Toda Lagos parece estar em chamas.

A ponte desce na ilha de Lagos em meio a um pandemônio de barraquinhas atulhadas de autopeças, fechaduras, capacetes, correntes, parafusos, carvão, detergentes e DVDs. Numa tarde recente, as buzinas dos automóveis, os gritos e a música dos aparelhos de rádio se fundiam com a estridência dos motores das moto-táxis, engarrafadas no tráfego pesado, e o rugido do compressor de ar de uma borracharia. Dois meses antes, uma pesada tubulação de ferro fundido, suspensa sob a ponte, tinha se soltado de um dos suportes enferrujados e caído sobre um mercado de sucatas vazio, cortando a água potável de dezenas de milhares dos 15 milhões de pessoas que vivem em Lagos.

Na falta de água encanada, os moradores mais afortunados da favela na beira d’água na extremidade da ponte, chamada Isale Eko, contrataram empreiteiros para cavar poços artesianos com 18 metros de profundidade. Outros moradores fazem fila diante dos poços, dia e noite, e pagam 10 centavos de real para encher os seus baldes de plástico com água contaminada, que alguns acabam bebendo. Isale Eko é a mais antiga e densa área da ilha de Lagos. Cada metro quadrado é propriedade de alguém – para vender, se lavar e até dormir – e a privacidade é praticamente inexistente. Muitos moradores dormem ao ar livre. Um jovem sentado num dos becos apontou para algumas prateleiras de concreto um metro acima de uma vala. “São camas”, disse.

Nas favelas mais recentes na parte continental, como a de Mushin, onde casas retangulares feitas com blocos de concreto contêm quartos dispostos de um lado e outro de um estreito corredor, sete ou oito pessoas dormem, em beliches ou no chão, em cada cômodo infestado de mosquitos. Essa organização é conhecida como “olhe para mim que eu olho para você”. Cada casa pode abrigar oitenta pessoas. Em Mushin, os hausas, muçulmanos do norte da Nigéria, convivem desconfortavelmente com os iorubas, do sul, cristãos em sua maioria. Uma testemunha me contou que, numa noite de fevereiro de 2002, um jovem hausa viu um ioruba agachado sobre uma vala na rua e perguntou “Por que você está cagando aí?”. Numa cidade onde apenas 0,4% dos habitantes tem um banheiro ligado à rede de esgotos, foi mais uma provocação do que uma pergunta séria. O incidente daquela noite provocou uma briga. Quase imediatamente, as casas vizinhas se esvaziaram e as ruas se encheram de iorubas e hausas armados com facões e revólveres. A batalha durou quatro dias e só terminou com a ocupação militar de Mushin. Havia então mais de cem moradores mortos, milhares tinham abandonado o local e centenas de casas haviam sido incendiadas.

Os visitantes da cidade não são recebidos com as palavras “Bem-vindo a Lagos”, e sim com “Isto é Lagos”, uma sinistra constatação factual. Oliza Izeobi, que trabalha em uma das serrarias na beira da lagoa, me disse: “Nós entendemos isto como ‘Ninguém liga para você, e você vai ter que lutar para sobreviver'”. Essa é a realidade que espera pelas 600 mil pessoas que chegam a Lagos a cada ano, vindas da África Ocidental. Seus pulmões queimarão com fumaça, seus olhos vão arder, sua pele vai ficar cinza-escuro. E praticamente nenhuma delas conseguirá sair daqui.

Os imigrantes vêm para Lagos com algum apoio muito frágil, geralmente dependente de um parente ou contato local, cuja ajuda não dura mais do que 24 horas. Uma garota da região dos ibos, no sudeste, disse que uma mulher da sua cidade natal lhe havia contado que ela conseguiria trabalho em algum restaurante em Lagos. Ao chegar, descobriu que devia mais de 400 reais à mulher pelo transporte, e que o emprego em restaurante não existia. A garota, com seu cabelo penteado para trás e o olhar perdido em algum ponto distante, me disse que tinha 18 anos, mas parecia ter 15. Ela é agora uma prostituta num pequeno hotel chamado Felicidade. Trabalhando sete noites por semana, com cada cliente pagando 8 reais para ficar cinco minutos, ela tinha liquidado a sua dívida ao final de sete meses. Ela não tem amigos além das outras garotas do hotel. Em seu quarto, no terceiro andar, as palavras “Estou coberta com o sangue de Jesus. Amém” estão escritas três vezes, a giz, numa parede.

Uma mulher chamada Safrat Yinusa deixou para trás seu marido e dois de seus filhos em Ilorin, ao norte da cidade, e encontrou trabalho como carregadora em uma das enormes feiras de Lagos, onde transporta grandes quantidades de produtos sobre a cabeça. Ela estava amamentando um garotinho, que carregava consigo durante o trabalho. Pagava 50 centavos de real por noite, por um espaço para dormir no chão de um quarto dividido com outras quarenta carregadoras. Em dois meses, ela tinha economizado menos de 10 reais. Quando se sabe que o preço do arroz em Lagos é de 1,50 real o quilo, é difícil entender de que maneira pessoas como Yinusa conseguem sobreviver. Este paradoxo já foi chamado de “o enigma do salário”.

Quando Michael Chinedu, um ibo, chegou em Lagos, não conhecia ninguém. No seu primeiro dia, viu um homem fumando maconha e, como também é fumante, apresentou-se. A partir deste tênue contato, Chinedu perguntou ao homem se ele sabia de algum emprego. Foi levado a uma serraria, onde começou imediatamente, trabalhando longas jornadas em meio ao barulho da serra elétrica e à fumaça da serragem queimando. À noite, dormia ao ar livre, sobre uma pilha de tábuas. Ao final de três meses, tinha economizado o suficiente para alugar um quarto. “Se ficar parado, você morre de fome”, disse.

Os negócios nunca param em Lagos. As transações informais representam pelo menos 60% de toda a atividade econômica. Nos sinais de trânsito e nas avenidas, multidões de garotos com pouco mais de oito anos vendem de tudo, de telefones celulares a extintores de incêndio. Os pedintes são raros. Em muitas cidades africanas, existe uma atmosfera opressiva de pessoas deitadas em pleno dia, de ociosidade afundando no desespero. Em Lagos, todos são batalhadores. Vi certo dia uma mulher se esgueirando entre diversas faixas de tráfego com seu filho a reboque, e a expressão no seu rosto era o que classifiquei como tipicamente lagosiana: dura, fechada e séria, mas ao mesmo tempo rápida e esperta, percebendo tudo, pronta para evitar um obstáculo ou aproveitar alguma oportunidade.

Em 1950, menos de 300 mil pessoas viviam em Lagos. Na segunda metade do século XX, a cidade cresceu a uma taxa de mais de 6% ao ano. Ela é atualmente a sexta maior cidade do mundo, e continua a crescer mais rapidamente que qualquer uma das outras megacidades, a palavra que o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos usa para designar “aglomerações urbanas” com mais de 10 milhões de habitantes. Estima-se que em 2015 Lagos terá 23 milhões de habitantes e será a terceira megacidade, depois de Tóquio e Mumbai (antiga Bombaim).

Na primeira vez que estive em Lagos, em 1983, sua reputação já era assustadora tanto entre os ocidentais como entre os africanos. Muitos visitantes potenciais a evitavam só pela perspectiva de ter que passar pelo aeroporto, com suas extorsões oficiais e o assédio de uma multidão de camelôs. Quando você conseguia chegar à cidade, um bando de assaltantes armados, vigaristas, policiais corruptos e motoristas de ônibus homicidas o aguardava.

Recentemente, Lagos começou a adquirir uma nova imagem. Nos primeiros anos do século XXI, as megacidades do Terceiro Mundo tornaram-se o foco de um intenso interesse acadêmico, em livros como Planeta Favela, de Mike Davis (editora Boitempo, 2006), Maximum City, de Suketu Mehta, e Shadow Cities, de Robert Neuwirth. Neuwirth, que viveu dois anos em favelas do Rio de Janeiro, Nairobi e outras cidades, passou a ver os invasores urbanos do mundo todo como pioneiros e patriotas que criam sólidas comunidades sem aprovação oficial do Estado ou do mercado. “Hoje, os invasores de todos os países estão mostrando um novo caminho na luta pela criação de um mundo mais justo”, escreveu. Os invasores precisam, acima de tudo, Neuwirth argumentou, do direito de ficar onde estão. “Sem leis para apoiá-los, eles estão fazendo as suas comunidades inadequadas e ilegais crescer e prosperar.”

Stewart Brand, estrategista de negócios baseado em Mann, na Califórnia, vai ainda mais longe. “As cidades clandestinas são vibrantes“, ele escreve num artigo recente sobre as megacidades. “Cada rua estreita é um longo mercado fervilhante.” Ele enxerga no crescimento explosivo das “favelas aspiracionais” uma cura para a pobreza do Terceiro Mundo e uma extraordinária oportunidade para a realização de lucros. “Como tudo isso se relaciona com homens de negócios no mundo desenvolvido?”, pergunta Brand. “Um quarto da humanidade experimentando coisas novas em novas cidades representa muitos clientes, colaboradores e concorrentes potenciais.”

Visto sob a luz suja e acinzentada de Lagos, o retrato de construtores heróicos das cidades de amanhã pintado por Neuwirth parece um tanto romântico, e a visão de uma cidade global de empreendedores interconectados, de Brand, parece perversa. A vibração dos favelados em Lagos é a atividade furiosa de pessoas que vivem numa economia globalizada e não têm nem rede de proteção nem esperança de ascender socialmente.

Cerca de 1 bilhão de pessoas – quase metade da população urbana dos países em desenvolvimento – vive em favelas. O Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos declarou, num relatório de 2003 intitulado O Desafio das Favelas: “Os pobres urbanos estão presos num mundo ilegal e informal, em favelas que não aparecem nos mapas, onde o lixo não é recolhido, os impostos não são pagos e os serviços públicos não são fornecidos. Oficialmente, eles não existem”. Segundo o relatório, “nas próximas duas décadas a população urbana global vai duplicar, passando de 2,5 a 5 bilhões de pessoas. Quase todo esse crescimento vai se concentrar nos países em desenvolvimento”.

Em 2000, as Nações Unidas estabeleceram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Um deles é melhorar, até 2020, a vida de 100 milhões de moradores de favelas, em termos de moradia, água, esgoto, empregos e governança. Isso exigirá enormes investimentos em dinheiro e esforços, mas, mesmo que a meta seja alcançada, quase um quarto da população mundial – mais de 2 bilhões de pessoas – ainda continuará a viver em condições semelhantes às de Lagos.

Para alguns intelectuais ocidentais, Lagos se tornou o arquétipo da megacidade – talvez porque seu crescimento tenha sido tão explosivo, ou porque sua paisagem urbana tenha se tornado tão apocalíptica. A cidade vem chamando a atenção de escritores e artistas, que montaram exposições internacionais em Londres e Berlim. Todo esse interesse fez de Lagos uma espécie de ícone das últimas tendências globais, a megalópole do futuro intensamente pesquisada, como Londres e Paris no século XIX ou Nova York e Tóquio no século XX. O holandês Rem Koolhaas, arquiteto e teórico do urbanismo, vem trabalhando há anos com seus alunos da Faculdade de Desenho Industrial de Harvard num projeto para estudar o futuro das cidades. Ele fez quatro viagens a Lagos e produziu vários artigos e um livro sobre a cidade. Koolhaas descreveu-a para um entrevistador como um organismo multiforme, que desafia criativamente as idéias limitadas do Ocidente quanto à ordem urbana. “O que é fascinante é a maneira como, a partir de um certo nível de auto-organização, dá-se essa estranha combinação de subdesenvolvimento extremo e desenvolvimento”, ele disse. “O que me espanta é ver como as infra-estruturas de modernidade da cidade provocam todos os tipos de condições improvisadas e imprevisíveis, de forma que passa a existir uma espécie de dependência mútua que eu jamais vi em outros lugares.” Com seus imensos engarrafamentos de trânsito, que criam mercados instantâneos em ruas e avenidas, Lagos não representa “uma situação de atraso”, declarou Koolhaas, e sim “um prenúncio do futuro”.

Como um retrato do futuro urbano, Lagos só é fascinante se você tiver condições de deixá-la. Depois de passar alguns dias nas favelas da cidade, é difícil manter a excitação intelectual de Koolhaas. O que ele chama de “auto-organização” é uma adaptação coletiva a condições extremamente difíceis. Os nós no trânsito levam a “condições improvisadas” porque vender algo nas ruas é a única maneira da maioria dos habitantes de Lagos obter um mínimo para viver. Seria preferível encontrar outra opção além de comprar e vender, alguma separação entre os lados público e privado da vida. Seria preferível não ter cinco horas de engarrafamentos de trânsito que obrigam tantos trabalhadores a acordar muito antes do amanhecer. E também seria preferível não ter uma economia na qual milhões de pessoas precisam inventar formas marginais de trabalho porque existem tão poucos empregos.

Perguntei a Paul Okunlola, um dos editores do jornal nigeriano The Guardian, por que as pessoas continuam vindo para Lagos, quando parece haver tão poucas oportunidades de melhorar de vida. “Eles nunca acreditam que não existem oportunidades”, ele respondeu. Okunlola descreveu o maior mercado de Lagos, o Milha 12, onde produtos alimentícios que chegam à cidade são comprados e vendidos no atacado. É uma área lamacenta – boa parte de Lagos consiste de áreas pantanosas aterradas – onde trabalhadores com baldes d’água ganham 15 centavos de real lavando os pés das mulheres que trabalham no mercado. “Este é o tipo de empreendedorismo que mantém muita gente em Lagos”, disse Okunlola. “Se você levasse isso para a minha cidade natal, quem iria lavar pés e quem estaria disposto a pagar por isso?”

Adegoke Taylor, um mascate magro e solene de 32 anos e olhar ansioso, divide um quarto de 2,5 metros por 3 metros com três outros rapazes, num beco a algumas centenas de metros da Terceira Ponte Continental. Em 1999, Taylor chegou em Lagos vindo de Ile-Oluji, uma cidade ioruba a cerca de 200 quilômetros na direção nordeste. Tinha um diploma em mineração e o objetivo de fazer uma carreira profissional. Ao chegar na cidade, Taylor foi a uma boate onde tocavam juju – música pop misturada com ritmos ioruba – e lá ficou até 2 horas da manhã. “Essa experiência foi suficiente para mostrar que eu tinha encontrado uma nova vida”, disse ele em inglês, a língua oficial de Lagos. “Você vê gente em todos os lugares a qualquer hora. Isso me estimulou. Na aldeia, você não se sente livre, e fará amanhã as mesmas coisas que fez hoje.” Taylor logo percebeu que nenhum dos poucos empregos em mineração anunciados nos jornais de Lagos estava disponível para ele. “Se você não tem uma pessoa conhecida dizendo ‘esse é o meu garoto, arrume um emprego para ele’, fica muito difícil”, disse.

Taylor conseguiu alguns trabalhos eventuais: cambista, vendedor ambulante de material de escritório e tranças de cabelo, e arrumador de cargas pesadas num armazém, por uma remuneração diária de 6 reais. Trabalhou algumas vezes para negociantes da África Ocidental que vinham aos mercados perto do porto e precisavam de intermediários para encontrar mercadorias. No começo, ele ficou na casa da irmã de um amigo de infância em Mushin. Depois, dividiu um quarto, por 15 reais por mês, até que a casa virou cinzas num incêndio durante os conflitos étnicos. Ele perdeu tudo. Decidiu mudar-se para a ilha de Lagos, onde paga um aluguel mais alto, de 40 reais. Taylor tentou sair da África, mas seu visto foi negado pelas embaixadas americana e britânica. Às vezes, sonhava com a calma da sua cidade natal, mas nunca pensou em voltar para Ile-Oluji, com as suas noites que acabam cedo, seus dias monótonos e a perspectiva de uma vida inteira de trabalhos braçais. Seu futuro estava em Lagos e ele ficou tentando vários negócios, mas nenhum deles deu certo. Por uma razão simples. “Não existe capital para começar”, afirmou. A culpa, segundo ele, cabe ao governo nigeriano. “A maioria dos nossos líderes rouba o dinheiro público, em vez de usá-lo para criar indústrias”, ele disse. De fato, as receitas com a exportação de petróleo nigeriano foram superiores a 50 bilhões de dólares em 2005.

Stephen Omojoro, motorista de táxi de 52 anos e pai de quatro filhos, levou-me num velho Mercedes para uma volta em Lagos. Ele chegou à cidade com 17 anos, no início dos anos 70, quando a morte do seu pai o obrigou a abandonar a escola. Passou a primeira noite com um parente, que lhe deu dinheiro suficiente para pagar um jantar. Na manhã seguinte, tendo ouvido falar das serrarias, apresentou-se e foi empregado para carregar pranchas e toras. À noite, dormia ao ar livre. Em Lagos, muita gente dorme no local de trabalho – nos mercados sob os viadutos, em caminhões de frete estacionados, dentro de pequenas lojas, no guidão das suas moto-táxis. Na sua opinião, Lagos começou a se deteriorar pouco tempo após a sua chegada, em razão da falência moral provocada pelo surto de valorização do petróleo dos anos 70. O que era uma cidade de pais de família trabalhadores como ele está agora infestada de militares, políticos e policiais corruptos, com uma multidão de jovens dispostos a fazer qualquer coisa por dinheiro, exceto trabalho honesto. Ele acredita na ordem. Mostrou com desprezo os bairros residenciais planejados, que incharam com a presença de barraquinhas de ambulantes nas ruas, e os assentamentos “temporários” que sobrevivem há décadas. Omojoro condenou o estilo de direção negligente, e freqüentemente letal, de jovens que se intoxicam ao amanhecer com álcool ou maconha e vão ganhar a vida dirigindo os onipresentes miniônibus amarelos conhecidos como danfo. (As camionetes com carroceria de madeira que transportam legumes e hortaliças são chamadas de bole kaja, que significa “desça e vamos brigar”.)

O que está faltando no relato de decadência feito por Omojoro é o efeito de políticas econômicas nacionais e internacionais sobre a cidade. Já houve um plano de desenvolvimento de Lagos. Oyesanya Oyelola, diretor de planejamento regional do governo regional, me abriu um mapa desbotado sobre a sua mesa. O plano diretor, elaborado em conjunto, nos anos 70, pela firma Wilbur Smith e Associados, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o governo de Lagos, tinha como objetivo orientar o crescimento da cidade nas duas últimas décadas do século XX. Deveria haver 35 distritos auto-suficientes, cada um deles com zonas comerciais, industriais e residenciais, a fim de evitar o congestionamento da ilha de Lagos. Uma quarta ponte continental ligaria a península de Lekki, que se estende a leste da ilha Vitória ao longo da costa, às cidades que começavam a surgir no litoral norte da lagoa, o que dispersaria o tráfego com destino à cidade. Estava previsto um sistema combinando veículo leve sobre trilhos e barcos, para transportar os trabalhadores que freqüentam as principais zonas de escritórios no continente e os que vêm para a ilha de Lagos. A leste e a oeste da cidade, pântanos, florestas e terras agricultáveis eram preservados.

Na véspera do ano novo de 1983, um golpe pacífico derrubou o governo civil e, durante os dezesseis anos seguintes, uma série de ditadores militares originários do norte da Nigéria tratou Lagos, o centro da resistência democrática no país, como uma fonte de enriquecimento privado. Enquanto os dirigentes militares se envolviam nas atividades comerciais da cidade, o plano “foi abandonado”, nas palavras de Oyelola, assim como qualquer idéia de investir na infra-estrutura necessária para absorver milhões de novos habitantes. Desenrolando um novo mapa de Lagos, como ela é hoje, ele me mostrou o resultado: uma grande área amarela se espalha pelo continente. “A maior parte das áreas verdes foi devastada pelo fluxo de pessoas e virou zona residencial”, disse. No plano diretor, havia 42 áreas identificadas como “arruinadas” e marcadas para receber melhorias. Agora existem 54 dessas áreas.

Shina Loremikan, que dirige uma organização de combate à corrupção, mora em Ajegungle, a maior e mais perigosa favela de Lagos, junto a um canal, perto do porto. As valas de drenagem de Ajegungle ficam freqüentemente entupidas e, durante a época chuvosa, transbordam, inundando ruas e casas, que são invadidas por lama, colchões, restos de roupas e sacos plásticos. Algumas ruas da favela parecem inteiramente cobertas de lixo. Pedi a Loremikan para me mostrar as áreas de favela num mapa de Lagos. Com o dedo, ele desenhou uma linha imaginária que vai da extremidade sudeste até o noroeste. “Daqui até aqui, é tudo favela”, Loremikan declarou secamente. “O lixo está em toda parte, tanto na ilha Vitória ou em Ikoyi” – os bairros de Lagos relativamente mais afluentes – “como em Agege ou Mushin. A malária ataca em todas as áreas. É tudo favela.”

Outras megacidades do terceiro mundo – como Mumbai, Daca, Manilha e São Paulo – produziram cidades-satélites que abrigam os migrantes e os destituídos, cujo estilo de vida não tem nada a ver com o centro urbano para o qual foram originalmente atraídos. Lagos se expandiu de forma diferente: não existe uma área definida onde 1 milhão de pessoas se abrigam em frágeis barracos. A cidade toda sofre com os maus-tratos. As zonas residenciais planejadas – como Surulere, construída no continente para funcionários públicos – são gradualmente invadidas pelas atividades comerciais, que proliferam em todas as áreas, como fungos depois da chuva. Terrenos pantanosos aterrados se transformam em conglomerados econômicos cuja especialidade depende da localização. Por exemplo, Mushin se tornou um dos principais pólos de venda de autopeças quando a via expressa Apapa-Oshodi foi construída nos arredores, nos anos 70. “O mercado está em todos os lugares”, disse Stephen Omojoro enquanto circulávamos. “Não há nenhuma área tranqüila.” É difícil decidir se a feiúra extravagante da paisagem urbana é um sinal de vigor ou de doença – uma força vital ou um apocalipse iminente.

Embora novas construções surjam em todos os quadrantes, a maioria delas é cara demais para os pobres da cidade, ou muito longe de alguma possibilidade de emprego. Na prática, Lagos empilha um número crescente dos seus milhões de habitantes em conjuntos habitacionais feitos de blocos de concreto. Houve um surto de construção desses conjuntos públicos antes do golpe de 1983, mas hoje os grupos de prédios de oito ou dez pavimentos têm um aspecto leproso, como se uma doença maligna estivesse corroendo as suas fachadas.

Nos anos 80, sob a ditadura do general Ibrahim Babangida, a Nigéria se submeteu a medidas de austeridade recomendadas pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, a fim de reduzir a sua dívida de 30 bilhões de dólares. Em pouco tempo, o país fechou ou vendeu empresas estatais ineficientes, o que incluía companhias construtoras, instalações portuárias, refinarias de petróleo, e indústrias siderúrgicas e têxteis. Os serviços de eletricidade, água e telefone foram privatizados. Com esses ajustes estruturais, os empregos públicos, principal suporte da classe média de bairros como Surulere, desapareceram. Enquanto isso, as privatizações eram tocadas a preços de liquidação, e quem embolsava os lucros eram os políticos ou os militares e seus apaniguados. O dinheiro que sobrou foi devorado pela corrupção do regime militar. (Um relatório oficial, publicado depois da queda de Babangida, em 1994, registrou o desaparecimento de 12 bilhões de dólares.)

O efeito dessas políticas na Nigéria foi a concentração de enorme riqueza em poucas mãos, enquanto, a cada ano, deixava a maioria da população ainda mais pobre. Os raros empregos ainda disponíveis para os rapazes e moças que vêm para Lagos pagam menos do que há um quarto de século. Também não costumam ser assalariados, mas quase sempre subalternos e marginais. No mesmo período, os custos de aluguéis, alimentação e combustíveis se multiplicaram. Se existe algo semelhante ao capitalismo dos pioneiros americanos na economia informal e desregulamentada de Lagos, existem muito menos oportunidades de recompensa mediante trabalho duro. E se as favelas abarrotadas de Lagos lembram a “obscuridade, sujeira, pestilência, obscenidade, miséria e morte prematura” descritas por Dickens num ensaio sobre a Londres vitoriana, não existe uma base industrial que possa oferecer às massas empobrecidas ao menos a promessa de um emprego regular.

Certa manhã, na pista de acesso a uma estrada, um Peugeot na frente do carro de Omojoro freou em meio ao trânsito pesado. Um velho vigoroso surgiu entre os automóveis. Ele puxava um carrinho de duas rodas carregado com tantas peças enferrujadas que o velho não conseguia mantê-lo sob controle. É comum, em Lagos, ver trabalhadores realizando tarefas terrivelmente duras, remanescentes da era pré-industrial. Quando o velho tentou parar, a roda direita do carrinho entrou num buraco, o carrinho deu uma guinada e seu puxador de madeira quebrou uma lanterna traseira do Peugeot. O motorista deu uma olhada pelo espelho retrovisor e parecia querer sair do carro, mas, antes que conseguisse abrir a porta, dois adolescentes que estavam sentados nas imediações levantaram e fizeram sinal para ele seguir em frente. Depois, começaram a negociar com o velho, que já enfiava a mão no bolso da calça, humildemente resignado. O incidente foi tão rápido que Omojoro teve que me explicar mais tarde o que todos os participantes haviam entendido imediatamente: segundo a lógica peculiar da cidade, como o quarteirão estava sob controle dos adolescentes, o dinheiro que o velho devia ao motorista pela lanterna traseira teria que ser pago a eles.

O que parece em Lagos ser uma atividade anárquica é na verdade submetida a um conjunto de regras informais, porém rígidas. Embora a vasta maioria dos habitantes da cidade seja de empresários improvisados, ninguém trabalha para si mesmo. Cada indivíduo ocupa um lugar numa hierarquia econômica e deve lealdade, assim como dinheiro, à pessoa colocada acima – conhecida como oga, ou mestre – a qual, em troca, fornece ajuda e proteção. Qualquer grupo de trabalhadores – até no mercado de produtos roubados do bairro de Ijora – tem um sindicato que equivale a uma gangue de extorsão. O adolescente que vende óculos escuros nos cruzamentos recebe a mercadoria de um atacadista, a quem entrega 90% dos seus ganhos. O sistema de apadrinhamento ajuda a megacidade a absorver o fluxo contínuo de recém-chegados, para quem a economia formal é inútil. Trata-se de um sistema predatório de favores, garantido por ameaças veladas.

Um cartaz próximo à sede da companhia de petróleo Shell, na ilha Vitória, diz o seguinte: “Você foi à escola, ao colégio, à universidade, e ainda joga lixo pela janela do seu carro ou do ônibus? Despeja sacos de lixo nas calçadas ou nas sarjetas? Constrói a sua casa ou loja sobre os bueiros? Urina ou defeca em lugares públicos? Então para quê você perdeu seu tempo na escola? Pense nisso!” O cartaz é parte de uma campanha do governo para o embelezamento e a ordem em Lagos. Mas a megacidade não estimula a responsabilidade social e a ação coletiva voltadas para a melhoria da vida em sociedade. Sua própria escala favorece a pulverização. A ausência de serviços públicos na maioria dos bairros raramente provoca protestos. Em vez disso, ela obriga os moradores das favelas a se tornarem auto-suficientes por meio de atividades ilegais. Eles fazem ligações elétricas clandestinas, provocando apagões e incêndios. Pagam a gangues locais para prover segurança, o que significa que a justiça nas favelas é sumária. Em Mushin, alguns membros do Congresso do Povo Oodua, uma gangue ioruba, exibiram para mim um suspeito de roubo de motocicleta que eles haviam capturado na noite anterior, e mantinham preso num quartinho nos fundos da sua sede: ele estava acorrentado pelos pés e mãos e sua cabeça sangrava. Seus captores ainda não tinham decidido se iriam entregá-lo à polícia ou matá-lo. Na beira da via expressa Badagry, vi os restos carbonizados de um cadáver, que reconheci como humano apenas pelas nádegas e coxas que tinham sido queimadas e abandonadas apodrecendo. Nenhuma das pessoas a quem perguntei sabia o que ele estava fazendo ali. Ninguém parecia particularmente surpreso.

Em Lagos: a City at Work, um livro recente de fotografias e ensaios publicado por uma editora local, David Aradeon, professor de arquitetura na Universidade de Lagos, escreve: “As pessoas que usam os espaços públicos da cidade e aquelas teoricamente encarregadas de regular o seu uso colocam constantemente os seus interesses pessoais acima dos interesses comuns, e essa é a verdadeira marca da cidade. Essa é a história de Lagos. Como faremos para mudar isso?” Perguntei a Paul Okunlola, do Guardian, por que não existe organização ou partido político que represente os milhões de pobres de Lagos. Ele explicou que nunca houve na Nigéria o tipo de movimento de massas que floresceu em outros países africanos. Em Lagos, o individualismo aniquila a idéia de solidariedade. “Todos acreditam que a sua sorte pode e vai melhorar”, disse. “Na África do Sul, as pessoas dizem ‘sim, eu vivo numa favela’, acabam se juntando e lutam por melhorias. Na Nigéria, se você criar uma associação de moradores da favela, ninguém vai entrar.” O princípio vital entre os pobres é a inevitabilidade do oga: sem apadrinhamento, não há salvação.

A favela mais famosa de Lagos, chamada Maroko, cresceu em excelentes terrenos ao longo do litoral sul da ilha Vitória. Nos anos 80, o centro de negócios de Lagos começou a mudar da ilha de Lagos para a Vitória, e a área se valorizou. Em julho de 1990, o governo militar mandou tratores e soldados para Maroko. Em poucas horas, 50 mil pessoas ficaram sem casa. A alguns quilômetros dali, encontrei, num apartamento cujo teto estava desabando, dentro de um conjunto habitacional de concreto, Prince S. K. Aiyeyemi, funcionário aposentado dos correios de 68 anos, líder do Comitê dos Expulsos de Maroko. Ele pegou uma carta em sua escrivaninha, e pediu que eu a entregasse a Bola Tinubu, governador de Lagos. A carta pedia indenização pela perda das casas dos membros do Comitê, e o reassentamento em imóveis de valor equivalente. Ele era franzino e estava fragilizado por um derrame que havia paralisado metade do seu rosto. “Vamos continuar vivendo até obtermos justiça”, disse, com a voz enrolada. Quando perguntei se achava justo que dez pessoas vivessem num único cômodo, ele respondeu: “Não há nada que a gente possa fazer quanto a isso. Não achamos que isso seja injustiça social, mas sim limitações de ordem econômica. Mas quando o governo se mete com essas dez pessoas, jogando-as na rua – isso é injustiça social”.

Sob a implacável superfície comercial de Lagos, reside uma espécie de desconforto moral. Em muitas conversas, as mazelas físicas da cidade foram descritas em termos éticos, como uma falha de caráter generalizada, que tem origem nos líderes e se espalha por toda a população. “A ética do trabalho foi destruída pelos militares”, disse Folarin Gbadebo-Smith. “Ela foi substituída por uma mentalidade de loteria. Você se safava não graças ao seu trabalho duro, mas em função da sua boa sorte. Você conhecia alguém, ou seu bilhete era premiado.” Até o fervor pentecostal que varreu a África Ocidental toma a forma de uma batalha pessoal em Lagos. Armazéns e fábricas abandonados foram convertidos em imensas igrejas, com cartazes que prometem “O Senhor Há de Ajudar”. “Eles rezam para ficar ricos”, diz Omojora. “Estão pouco ligando se vão para o céu ou para o inferno. Porque a Nigéria já é um inferno.”

Os nigerianos ficaram conhecidos por seus golpes na internet, como os e-mails com ofertas falsas de transferência de fundos para um banco no exterior, que pedem o número da conta do destinatário em troca de altos lucros. O golpe, originário de Lagos, representa a perversão do talento e da iniciativa numa sociedade onde os caminhos normais de acesso às oportunidades só não estão bloqueados para os que têm bons contatos. A corrupção é essencial para se conseguir qualquer coisa na cidade: nos engarrafamentos de trânsito, Omojoro ligava freqüentemente para a sua filha de 24 anos, que tinha acabado de fazer o vestibular e estava tentando negociar um preço para obter as notas. (Ele afinal pagou 70 reais.) Até as morgues pedem dinheiro para liberar cadáveres. A abreviação para os crimes financeiros é “419”, o número do artigo correspondente no código penal nigeriano. As palavras “Esta Casa Não Está à Venda: Cuidado com o 419” estão pintadas nas fachadas de casas em ruínas por toda a cidade – uma advertência para os compradores potenciais não serem enganados por alguém que pretenda ser o proprietário.

O governo que chegou ao poder nas eleições democráticas de 1999 começou a reativar o velho plano diretor de Lagos. “Esperamos que, no novo plano, haja um programa de habitações populares para os mais pobres”, disse Oyesanya Oyelola, o secretário de planejamento. As condições em Lagos tiveram uma relativa melhora depois do restabelecimento do governo civil. Os engarrafamentos foram ligeiramente reduzidos graças à abertura de novas vias, e a coleta de lixo melhorou. Um sábado por mês, toda a cidade pára e os moradores e empresários limpam propriedades; os resultados são impressionantes, ao menos por algumas horas.

Encontrei Bola Tinubu, o governador de Lagos, em seu amplo e belo apartamento de New Cavendish Street, no centro de Londres. Com ar sonolento, descalço, usando jeans e uma camiseta listrada, afundado num sofá macio, Tinubu parecia estar convalescendo do seu trabalho. Entreguei a ele a carta do Comitê dos Expulsos de Maroko. Ele enumerou suas conquistas na geração de empregos e habitação, a partir do orçamento anual de 750 milhões de dólares, e acusou o governo federal, situado em Abuja, 500 quilômetros a nordeste de Lagos, e que há muito tempo mantém uma relação hostil com a cidade, da falta de apoio financeiro. “Preciso de dez vezes mais do que tenho hoje”, disse Tinubu. O governador, que já trabalhou em Chicago como auditor para a Deloitte & Touche e a Mobil Oil, mostrou o relatório de um consultor contratado para elaborar um novo plano diretor. Era quase igual ao plano antigo que foi abandonado. O mais importante, disse Tinubu, é “interromper o crescimento não-planejado em todas as direções, o polvo das construções não-planejadas e descontroladas”. O governador descreveu Lagos, com sua taxa de crescimento fenomenal, como uma vítima do seu próprio êxito.

O subprefeito Folarin Gbadebo-Smith estava menos animado. Seu bairro, na parte leste da ilha de Lagos, contém extremos de riqueza e pobreza. Alto, com uma voz sonora e autoconfiante, ele é filho de lagosianos de classe média e dentista de profissão. Passou anos trabalhando muito, e vivendo cada vez pior, à medida que o naira se desvalorizava e a cidade afundava na corrupção do governo militar. Finalmente, depois da restauração da democracia, decidiu que já era tempo de parar de reclamar e fazer alguma coisa. Concorreu às eleições de 2003, e agora administra um bairro com 70 mil habitantes, instalando banheiros públicos e abrigos em pontos de ônibus, reconstruindo escolas primárias, limpando as ruas, conciliando os interesses “diametralmente opostos” dos seus eleitores ricos e pobres e, como ele mesmo diz, “tentando manter algum sentido de ordem”. Ele comparou Lagos, desfavoravelmente, ao Rio de Janeiro, onde, segundo ele, “existe rigorosa aplicação da lei no centro da cidade. Aqui, o problema é que está tudo acontecendo em todos os lugares”.

O plano de Gbadebo-Smith é parte da Ação Contra a Indisciplina, um movimento amplo para racionalizar Lagos – por exemplo, eliminando as barraquinhas de ambulantes que ocupam praticamente todas as ruas, com cortes de justiça itinerantes aplicando multas. As serrarias, cuja fumaça asfixia o trânsito na Terceira Ponte do Continente, deverão ser removidas para um local na parte mais remota da lagoa; a favela flutuante junto à ponte será demolida e os pescadores ali residentes serão enviados para novas moradias no litoral norte; os ferros-velhos e as feiras de mercadorias roubadas de Ijora serão realocados. Os funcionários do governo falam em prover moradia e treinamento profissional para os desalojados, de modo a mantê-los em seus novos bairros. Achei difícil acreditar que Gbadebo-Smith conseguiria algum dia impor a ordem em seu bairro. Os ambulantes voltariam inevitavelmente aos locais de trânsito intenso, pela mesma razão que continua trazendo centenas de milhares de pessoas para Lagos ano após ano. A concentração humana gera trabalho, o que aumenta ainda mais a concentração. Quando falei sobre a Ação Contra a Indisciplina com o jornalista Paul Okunlola, ele disse: “Não vai funcionar nunca. Essa é a única forma pela qual as pessoas conseguem sobreviver. Onde houver um engarrafamento de trânsito, haverá vendedores. Eles são como mato. Você nunca conseguirá se livrar deles”.

A mercadoria mais amplamente disponível em Lagos é o lixo. Ele é um motor do crescimento no submundo da economia informal da cidade, um vasto setor com um volume de suprimento espantoso. Babatunde Ilufoye, um ibo de 40 e poucos anos, foi trazido para Lagos com 18 anos por um alemão de quem ele tinha consertado um pneu furado em sua aldeia, e que decidiu ensinar ao jovem o negócio de exportação e importação. Hoje, Ilufoye vive perto das serrarias, no bairro elegante e decadente de Ebute-Meta. Ele é um homem educado, bem vestido e trabalhador, cuja mulher possui uma loja de produtos alimentícios perto de casa. Em 2004, depois de visitar um amigo em Lagos que negociava com chifres e cascos de boi, ele foi a um cibercafé e digitou essas palavras no Google. Não apareceu nada interessante. Quando ele digitou “resíduos de plástico” surgiram milhares de links.

Ilufoye se dedica hoje integralmente à exportação de plásticos rígidos reciclados, vendendo os fragmentos moídos para empresas da Índia e África do Sul por, no mínimo, 100 dólares a tonelada. Ao se decidir pelos plásticos, Ilufoye encontrou um mercado em crescimento, mas a reputação internacional da Nigéria como a pátria dos golpistas na internet dificulta a sua procura por clientes. Ele não consegue fazer a produção girar na velocidade necessária para ter lucro. “Você acha que eu vou cometer um crime na minha idade e acabar na cadeia?”, ele escreveu num e-mail para um comprador paquistanês desconfiado.

O responsável pela moagem dos plásticos de Ilufoye é Andrew Okolie, um homem melancólico que opera duas máquinas num prédio de concreto, embaixo de uma via expressa. Os compartimentos estreitos estão cheios até o teto com talheres de plástico sujos, baldes, vasilhas de leite, tubos vazios de xampu, embalagens de detergentes e cosméticos, tudo saindo pelas portas abertas. Quando estive lá, faltava energia elétrica havia vários dias. Assim como Ilufoye, Okolie se sente frustrado por limitações estruturais: poderia operar ao ritmo de uma tonelada por dia, mas não tem como pagar um gerador para manter as suas máquinas funcionando durante os freqüentes apagões. A menos que você seja rico e bem relacionado, os bancos chegam a cobrar juros de 30% sobre os empréstimos. Okolie precisava que alguém investisse 20 mil dólares, que poderiam ser reembolsados, segundo ele, em dois anos. O negócio certamente decolaria, e Ilufoye e Okolie poderiam dar emprego a muitos jovens. Mas ninguém os ajudava a concretizar o seu plano.

No negócio de reciclagem, disse Okolie, os fornecedores são em sua maioria “marginais, pilantras” – rapazes que vasculham as sarjetas, ruas e lixões municipais, colocam a sua carga em sacos ou carrinhos e vendem para o seu oga, que tem uns vinte garotos trabalhando para ele, numa relação de dependência semelhante à de Fagin e seus batedores de carteira em Oliver Twist. O oga, por sua vez, vende os plásticos usados para Okolie, que vende os plásticos moídos para Ilufoye, o qual os exporta. Os rapazes, que são chamados de catadores, podem catar de 100 a 150 quilos de plásticos por semana, pelos quais recebem 30 centavos de real por quilo. A maior parte dos seus ganhos, segundo Okolie, é gasta em maconha ou cola, para cheirar.

Uns 10 quilômetros ao norte das instalações de moagem de plásticos de Okolie, junto da via expressa, encontra-se o maior depósito municipal de lixo de Lagos. Na primeira vez que estive lá, uma fila de caminhões se estendia do depósito até a estrada. Um caminhão de lixo com a carga mal equilibrada tinha virado na pista de entrada e arrastado um outro. O monte de lixo que se espalhou tornava difícil a passagem dos outros caminhões. Encontrei na entrada do lixão um jovem catador de plásticos chamado Ayo Adio, que tinha vindo pendurado na traseira de um caminhão. Ele trazia um grande saco de náilon no qual jogava os restos de plástico, apanhados na beira da estrada com um vergalhão de ferro dobrado em forma de gancho. A expressão de Adio era soturna, e ele tinha espalhado em seu rosto alguma loção esbranquiçada que o fazia parecer um palhaço triste. Percebi que outros catadores usavam máscaras de plástico ou de pano. Quando me aproximei do aterro sanitário, o cheiro de podridão queimando se tornou insuportável.

Num ensaio intitulado “Fragments of a Lecture on Lagos” (“Fragmentos de uma Conferência sobre Lagos”), Rem Koolhaas descreve como a sua equipe, em sua primeira visita à cidade, estava tão assustada que não saía do carro. O grupo acabou alugando o helicóptero do presidente da Nigéria, o que lhes permitiu ter uma visão mais tranqüilizadora. Visto de cima, o amontoado de lixo que aparentemente queimava se revelou, na verdade, uma aldeia, um fenômeno urbano com uma comunidade altamente organizada vivendo na sua superfície. O que tinha o aspecto, ao rés do chão, de uma acumulação de movimentos disfuncionais, parecia de cima um trabalho admirável, a prova de quão bem Lagos poderia se sair.

O ímpeto de olhar para um “amontoado de lixo que aparentemente queimava” e ver um “fenômeno urbano”, e assim fazer dele a matéria-prima para um conceito esteticamente elaborado, não é tão diferente do impulso mais comum: o de simplesmente desviar o olhar. E a reação é compreensível, uma vez que a miséria humana em Lagos não só aniquila os sentidos como parece irreversível.

As palavras de Koolhaas me lembraram de algo que Gbadebo-Smith havia me dito. “Os lagosianos às vezes falam dessa história de ‘megacidade’ como se fosse um troféu. Quanto a mim, acho que é um desastre iminente.” A visão de 23 milhões de pessoas espremidas, tentando sobreviver como cobaias de uma experiência fracassada de um demógrafo louco, enche Gbadebo-Smith de maus pressentimentos. “Temos um altíssimo crescimento populacional com uma economia estagnada ou em recessão”, ele disse. “Imagine esta cidade daqui a dez, vinte anos. Não se trata de pobres urbanos, e sim dos novos destituídos urbanos.”

Gbadebo-Smith se diz surpreso com a criminalidade e violência étnica e, mais ainda, da insurreição civil estarem relativamente sob controle. “Estamos sentados num barril de pólvora”, disse. “Se não cuidarmos do crescimento econômico, e com muito vigor, não tenho dúvida sobre o que vai acontecer aqui no futuro: a cidade ferverá e transbordará.” E acrescentou: “Sabe o que mais? Se tudo falhar, o mundo vai sentir o peso do fracasso de Lagos”.

Existe uma possibilidade ainda mais desanimadora: que o mundo não sinta o peso do fracasso de Lagos. O fato mais perturbador sobre os catadores e camelôs de Lagos é que a vida deles não tem praticamente nada a ver com a nossa. Eles vivem de restos. Eles são, na linguagem áspera da globalização, supérfluos.

George Packer

George Packer é jornalista da revista The New Yorker, autor de The Assassins’ Gate: America in Iraq.

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