questões futebolísticas

A odisseia do Timon

As agruras de uma equipe do Nordeste para chegar à Copa São Paulo

Fábio Fujita
Estreante na Copinha, o Esporte Clube Timon levou 85 horas para chegar ao interior de SP. O ônibus que transportava os jogadores quebrou em Goiás, deixando-os na mão por quase dois dias. A descoberta de um riacho ajudou a driblar o tédio
Estreante na Copinha, o Esporte Clube Timon levou 85 horas para chegar ao interior de SP. O ônibus que transportava os jogadores quebrou em Goiás, deixando-os na mão por quase dois dias. A descoberta de um riacho ajudou a driblar o tédio FOTO: FÁBIO FUJITA_2017

Oembarque está marcado para as oito da noite. Cinco minutos antes, o ônibus que fará o trajeto entre Timon, na divisa do Maranhão com o Piauí, e Urupês, ao norte do estado de São Paulo, já está com o motor ligado. Mas nenhum atleta do Esporte Clube Timon aparece no horário. Sentado num banco da pracinha defronte à igreja, o presidente da agremiação, Raimundo Leal Silva Filho, aguarda irrequieto enquanto observa o ônibus à espera de passageiros. O Timon participará pela primeira vez da Copa São Paulo de Futebol Júnior, o maior torneio do país para atletas da categoria Sub-20, que têm ou terão no máximo 20 anos em 2018.

Leal está irritado com a falta de disciplina dos garotos. Gesticulando, diz que o clube precisa agendar seus compromissos para duas horas antes do horário oficial, porque os prazos nunca são cumpridos. Ele não viajaria com a delegação naquela noite de 27 de dezembro. Pegaria um avião para São Paulo no dia 2 de janeiro, véspera da partida de estreia contra o Clube Atlético Votuporanguense. Dono de uma churrascaria, hoje sua principal fonte de renda, Leal não pode deixar de trabalhar nos últimos dias do ano.

Aos poucos os jogadores começam a chegar, alguns acompanhados dos pais, de irmãos e namoradas. Trocam confidências, afagos, abraços, fazem selfies, aproveitam cada momento antes de enfrentar os 2 500 quilômetros de estrada que os separam do destino. A delegação é composta por 26 pessoas – dezenove jogadores, cinco membros da comissão técnica e dois dirigentes. O imponente ônibus de dois andares conta com dois motoristas.

Às 21h40, a delegação está enfim reunida na calçada. Leal faz uma última preleção aos jogadores. Fala que o fraco desempenho das equipes nordestinas na Copinha ocorre devido a um sentimento de inferioridade. “Nós vamos chegar lá já derrotados?”, pergunta. “Nunca um time do Piauí passou da primeira fase”, o presidente lembra, sugerindo como realizar a façanha inédita: “O segredo é vencer o primeiro jogo.” Acrescenta que o esforço de mandá-los a São Paulo é muito grande e, portanto, que ninguém esteja ali a passeio. Os jogadores formam um círculo junto com seus acompanhantes, dão as mãos e oram na via pública. Despedem-se pela última vez dos familiares e embarcam. Quando o ônibus se põe em movimento, o relógio marca 22h01.

Eu embarco junto com eles.

 

Organizadora da Copinha, que na edição deste ano contou com 128 clubes, a Federação Paulista de Futebol arca com as despesas de hospedagem e alimentação para uma delegação de até 25 pessoas (número máximo de jogadores por time), mas só a partir do início do torneio, ou seja, dia 2 de janeiro. Como a estreia do Timon seria no dia 3 e para evitar gastos Leal queria marcar a viagem praticamente para a véspera do evento. A comissão técnica, porém, insistiu na necessidade de chegar com alguma antecedência. O presidente se negou a bancar os custos adicionais e as partes ficaram estremecidas. O mal-estar se desfez quando alguém conseguiu uma pousada baratinha em Urupês, cidade próxima a Votuporanga, sede do grupo 2, no qual caiu o Timon. O vice-presidente do clube, Rudá Tupinambá, se propôs a pagar essa despesa do próprio bolso. O pessoal ficaria na pousada até que o hotel oferecido pelos organizadores estivesse disponível.

O pavimento superior do ônibus, com cinquenta lugares, abriga os atletas e a comissão técnica – cada passageiro tem direito a dois assentos. Vou no piso inferior, com dois dirigentes. Um deles é Tupinambá, empossado três meses antes. Auditor fiscal do estado do Piauí há dezesseis anos, ele nunca foi homem do futebol. Diz que aceitou o convite de seu amigo Leal por enxergar uma oportunidade de contribuir com o esporte nordestino. Seu companheiro de assento é Willdson Furtado, diretor de futebol do clube e ex-jogador de carreira consolidada no futebol piauiense, sobretudo com a camisa do Flamengo local, do qual foi capitão e ídolo por sete anos. Diz, com certo orgulho, ter sido um zagueiro vigoroso, que não aliviava. O estilo lhe rendeu o apelido de “Trem Descarrilhado”, ainda que no dia a dia Furtado – ou Wildinho, como todos o chamam – seja um sujeito doce, que dificilmente se altera.

A primeira etapa da viagem transcorre noite adentro sem sobressaltos. Às cinco e meia da manhã do dia 28 a delegação faz a primeira parada. Estamos em Eliseu Martins, ainda no Piauí. A fim de minimizar os efeitos das horas ociosas dentro do ônibus, o preparador físico Paulo Roberto Lima orienta os jogadores a fazer uma “ativação” – uma corrida leve em torno da praça da cidadezinha de 4 mil habitantes, por 35 minutos.
A movimentação dos forasteiros chama a atenção dos moradores. Um senhor com a camisa do Vasco da Gama se aproxima do grupo. Não conhece o Esporte Clube Timon, mas logo se interessa ao saber que é um time a caminho da Copinha. “Tenho o melhor jogador da cidade”, diz. Furtado lhe pergunta se o suposto craque é “2000” – referência ao ano de nascimento do jogador. Sim, o talento prometido é 2000, o que significa que tem 17 anos. Então interessa. Furtado anota seu telefone num papel e o entrega ao desconhecido. “Me liga. Mas me manda só os cabra bom”, diz, já se afastando.

Terminada a corrida, os jogadores tomam uma ducha no precário banheiro do posto de gasolina onde o ônibus estacionou, e dirigem-se ao restaurante do Neguim, ali ao lado, para o café da manhã. Furtado negocia um valor especial com o proprietário: 7 reais a refeição de cada jogador – duas delas de graça, cortesia da casa. O desjejum é composto de um pão francês, uma tapioca, uma colherada de cuscuz e um ovo, além de suco ou café. Embora o bufê ofereça carne assada, ela não entra no cardápio.
O preparador me explica que alimento de procedência desconhecida não é recomendável aos rapazes. Dirigentes e membros da comissão atacam a carne com gosto. São 6h45 da manhã.

 

Eu havia telefonado a Leal Filho cerca de um mês antes, para saber como o Timon viajaria para a Copinha. Não demorou e obtive seu aval para acompanhar a epopeia da equipe. Na noite de 26 de dezembro, desembarquei no aeroporto de Teresina, onde fui recepcionado pelo presidente do time.

Leal, casado e pai de dois filhos, é um homem de 57 anos, de baixa estatura, o cabelo levemente grisalho já rareando, tomado por algumas entradas. A aparência pacata mascara uma personalidade enérgica, muitas vezes irônica; sua fala acelera em assuntos que o desagradam, que incluem algumas escolhas da comissão técnica na escalação do time. Mas, nesse primeiro contato, sua fala ainda está mansa. Vamos jantar em sua churrascaria, a Rodeio, onde emprega 24 funcionários. Ele me pergunta se conheço a panelada, iguaria típica local. Digo que não. “É parecido com mocotó. Vai tripa, bucho e unha do boi. Sai mais do que feijoada.”

Teresina e Timon são cidades fronteiriças, separadas pelo rio Parnaíba. Apesar de Timon ficar no Maranhão, a equipe é vinculada à Federação Piauiense de Futebol. O município – que tem cerca de 160 mil habitantes, o quarto mais populoso do estado –, pertence à Grande Teresina, conforme um decreto federal de 2002. Além disso, existe em Timon um time homônimo que disputa a segunda divisão do Campeonato Maranhense. Ao vincular o seu Timon ao Piauí, Leal pretende reforçar os laços entre Teresina, onde mora, e o município maranhense, do qual já foi secretário de Cultura. Com ambições políticas, ele já concorreu a deputado estadual e, por duas vezes, à cadeira de vereador em Timon, sem êxito.

Em 1980, Leal tentou a sorte como lateral-direito, mas um ano depois, aos 21 anos, uma contusão no joelho abortou sua carreira. Enveredou pela moda, foi proprietário de uma casa noturna nos anos 90, a Doce Vida, e atuou como empresário artístico. Em 2000, criou em Timon o Zé Pereira, espécie de Carnaval de rua extemporâneo que existe até hoje, arrastando foliões de cidades vizinhas.

No caminho entre o aeroporto e o hotel, meu anfitrião discorre sem parar sobre as dificuldades de fazer futebol no Nordeste. Quando lhe pergunto quem seria a grande aposta do Timon na Copinha, ele não titubeia: “Thalyson Santos, o nosso meia-armador. Esse joga em qualquer time e faz de tudo para se tornar um jogador.” Thalyson, ele diz, foi inclusive profissionalizado no fim de 2016, aos 17 anos, para poder atuar por empréstimo num time boliviano, o Atlético Santa Cruz, depois que um empresário o viu jogando na segunda divisão do Campeonato Piauiense.

Na manhã do dia 27, acompanhei Leal à garagem da empresa do ônibus que irá transportar o time. Ele queria conferir os dois grandes adesivos com o nome do Esporte Clube Timon e o lema “União, humildade e compromisso” que mandara colar na lateral do veículo. Em seguida, fomos ao encontro de Thalyson, o craque do time. Entramos num bairro da periferia, com ruas de terra. No caminho, Leal reconhece um jovem que passa por nós a pé, sem camisa: “Esse aí é o zagueiro do nosso time.” O presidente tinha avisado Thalyson que iríamos visitá-lo, o que deixou o jovem apreensivo. Filho de um taxista e uma faxineira, ele não queria que eu visse onde moravam. Leal acabou dobrando o rapaz – “grandes jogadores também passaram por isso”, disse.

Thalyson nos recebeu no primeiro cômodo da casa, uma sala pequena com tevê e duas cadeiras. Pareceu intimidado quando liguei o gravador. Perguntei sobre a experiência de jogar no futebol boliviano (“Foi boa, mas aconteceram muitas coisas e tive que voltar”); se ele teve bom desempenho por lá (“Acho que joguei bem, mas eles, não”); se sonha em chegar a algum clube específico (“Não tenho preferência”). E, caso se destaque na Copinha e receba uma proposta para se transferir imediatamente, está pronto para ir? Ele hesita por uma fração de segundo e depois responde, assertivo: “Sim. Estou pronto.” Seu irmão de 13 anos, com a camisa do Barcelona, nos observa, admirado.

 

Depois do desjejum no restaurante do Neguim, o ônibus com Thalyson e seus colegas volta à estrada. Os jogadores que se lembraram de lavar e torcer o uniforme usado na corrida agora o estendem ou perto das janelas, ou num dos dois assentos que ocupam, em varais improvisados. Nem todos lavaram sua roupa, e um leve odor toma conta do ambiente.

No pavimento inferior, os dirigentes confabulam sobre como espionar o adversário da estreia na Copinha. Furtado e Tupinambá, sabendo que o Votuporanguense fará um amistoso no dia 30, querem que os jogadores do Timon assistam ao jogo. Mas Tupinambá, pouco familiarizado com os macetes do futebol, teme que o oponente interprete a presença dos atletas do Timon na arquibancada como provocação. Então sugere que o ônibus estacione a 300 metros do local do jogo, para não dar na cara. A seguir, se entusiasma ainda mais com outra ideia: que os jovens entrem no estádio à paisana, sem o uniforme do time. Nada disso acontecerá, pois o Timon não chegará a tempo de espionar seu adversário.

No início da noite já estamos na Bahia, e é na cidade de Barreiras que o ônibus faz uma parada para o jantar, às 18h05. Embora o serviço seja por peso, 50 reais o quilo, Furtado negocia um prato feito a um preço mais camarada e fecha em 17 reais cada. Sento com o goleiro Rafael França. Natural de Capinzal do Norte, interior maranhense, é a figura mais descontraída do grupo, um sujeito falante, sociável e animado, sempre sorrindo. Ele me conta que, a despeito da juventude, já tem certa estrada no futebol. Aos 12 anos conseguiu ser inscrito numa peneira para um grande clube do Rio de Janeiro. O teste, no entanto, seria feito em Brasília, e ele viajou sozinho. Tinha 60 reais no bolso, dinheiro que seus avós – a quem chama de pais – lhe deram para poder comer. Mas França sonhava com um par de luvas que custava exatamente esse valor. Resolveu economizar. O vizinho de poltrona percebeu que, nas paradas do ônibus, ele não se alimentava. Foi a solidariedade desse sujeito que não o deixou passar fome. “Ele ficou dividindo o lanche dele comigo”, diz França, sorrindo. Foi aprovado no teste, mas não ficou com a vaga, que teria sido vendida a um jovem de família abastada. “No futebol cada um tem uma história para contar.”

Faltam dez minutos para as três da madrugada do dia 29 de dezembro quando o motorista desacelera e entra no posto JK, no distrito homônimo, pertencente à cidade de Formosa, em Goiás. Seria só uma breve parada para um café. No exato instante em que o veículo embica em direção ao posto, o painel de controle acende uma luz vermelha: aquecimento no motor. Os dois motoristas descem para verificar o que houve. Um deles manuseia algumas peças e um jato de óleo quente esguicha. Por sorte, só algumas gotas o atingem. Os jogadores e a comissão ainda dormem. Eu acordo e, assim que desço, um jovem sujo e maltrapilho se aproxima e me pede um trocado para fumar maconha. “Prefiro falar a verdade”, ele diz.

Os motoristas perguntam se há algum mecânico por ali e os frentistas apontam para um senhor manco, que recolhe latinhas para reciclagem. Não tem a menor pinta de mecânico, mas na dúvida é abordado. Ele se aproxima do ônibus, dá uma conferida no motor e decreta: “É só trocar o óleo e seguir viagem.” Os motoristas riem, o diagnóstico lhes soa absurdo – tratam de despachar o homem. Ligam para a empresa e relatam o problema. Um mecânico autorizado irá se deslocar até o local assim que raiar o dia.

Alguns membros da comissão acordam e descem para ver o que está acontecendo. A constatação de que será preciso aguardar o amanhecer gera um mal-estar que os motoristas tentam contornar insistindo em mexer no motor. Mexem daqui, escarafuncham dali, se sujam mais de graxa. Enfim o dia amanhece. Um mendigo pede 1 real a Tupinambá para uma dose de cachaça. O dirigente do Timon, adepto de máximas de autoajuda e frases de efeito, só tem uma nota de 2 e a oferece, com a condição de que o sujeito devolva o troco. “Você me pediu 1 real”, diz. O técnico Péricles Veloso sorri e duvida – chance zero de reaver aquele real. Instantes depois, o mendigo retorna e entrega a moeda a Tupinambá. Ele então se volta para o técnico, vitorioso: “Seja positivo.”

Às seis horas, o preparador Paulo Roberto Lima dá instruções para mais uma “ativação”. Os garotos fazem uma série de alongamentos e depois partem para uma corrida leve, dando voltas num quarteirão ao lado do posto. Passados quarenta minutos, o sol já despontando, os atletas, visivelmente cansados, pedem para descansar. Veloso descontrai: “Assim que os motoristas consertarem o ônibus a gente termina.” Era brincadeira. Eles dirigem-se ao ponto de apoio para o banho e acomodam-se no restaurante anexo.

Cabe a Furtado negociar o valor do café da manhã, dessa vez junto à empresa de ônibus responsável pela viagem. Ele reivindica três pães com ovo para cada atleta. A empresa resiste, quer pagar um só, mas naquelas circunstâncias, com o ônibus quebrado na beira da estrada, a demanda do dirigente acaba por prevalecer.

Encerrada a refeição, todo mundo permanece no restaurante, na expectativa de que o problema logo estará resolvido. O mecânico já chegou e está com a mão na massa. Mas o tempo passa e nada acontece.

A comissão técnica aproveita a espera para repassar os erros do último amistoso, ocorrido na véspera do embarque, contra o Piauí, time da primeira divisão do Campeonato Piauiense. O Timon chegou a abrir 3 a 1, mas levou a virada no segundo tempo: 4 a 3. Concordam que a equipe teve boa atuação, mas faltou perna no final. Embora haja a percepção de que a derrota ocorreu por erros individuais, não se deve crucificar o companheiro. “Somos eu ou somos nós?”, pergunta Veloso, procurando enfatizar o sentido de coletividade.

A conversa então deriva para a arbitragem, já que, contra o Piauí, o Timon teve expulso um de seus atacantes, Isaías Igreja. Furtado invoca sua experiência de ex-jogador e ensina como reclamar com o árbitro. “Pode xingar de tudo quanto é nome, mas com a mãozinha aqui, ó”, ele diz, fazendo o gesto de respeito com as mãos para trás. “Brincadeira. Podem xingar, não.” Em outro momento, Furtado também passará aos garotos um macete infalível: quando forem ao chão em lances de choque com o adversário, gritem “ai, ai, ai”. Ele teatraliza como se agonizasse de dor. “Não é proibido gritar”, reforça. O juiz tende a ser vulnerável ao berro e acaba por apitar a falta, ele conclui.

Lá fora, o mecânico decreta que é preciso substituir uma peça. Ele terá de se deslocar até o centro urbano de Formosa, a 64 quilômetros dali – é um banho de água fria na expectativa da iminência da partida. A coisa ainda vai demorar.

 

Éhora do almoço. A chamativa placa “Restaurante do Ronan – Comida caseira/Self-service 11,99”, típico estabelecimento de beira de estrada, é o destino do grupo. O proprietário, Ronan Trindade, fareja o lucro que a clientela súbita poderá lhe proporcionar e mobiliza uma força-tarefa para dar conta da demanda. O menu é básico – salada, arroz, feijão, macarrão e almôndegas. O macarrão acaba rápido e os últimos da fila ficam sem. Mas é a refeição mais econômica para quem está a pé. Ninguém reclama.

São 14h30 e o sol fustiga. Os ataques de muriçocas e pernilongos são vorazes. Os jogadores estão prostrados. Alguns sucumbem à sonolência e cochilam debruçados sobre as mesas; outros ouvem música em seus fones. As poucas conversas silenciam, os assuntos morrem. O mecânico não voltou. O tédio é contagioso.

De repente alguns garotos levantam e vão na direção do posto de gasolina. Saem em pequenos grupos, de dois a três, lentamente, como se tivessem combinado. Nada dizem a Furtado nem a Tupinambá. Os chefes da delegação imaginam que eles estejam indo comprar alguma coisa na lojinha próxima ao posto, ou quem sabe tomar uma ducha. Mas eles logo somem de vista. Passam-se quinze minutos, meia hora, 45 minutos. Nada. De repente, o auxiliar técnico Valter da Silva pensa em voz alta: os meninos devem estar relaxando no riacho. “Riacho?!”, Furtado repete, sem ter certeza se ouviu direito. “É. Um rapaz no restaurante contou que tem um riacho descendo por ali”, o auxiliar aponta adiante.

Encafifado, Furtado decide tirar a história a limpo. Vou junto. “Esses filhos da puta nem pra avisar”, reclama. Passamos pelo posto de gasolina, dobramos uma rua lateral de terra e chegamos a uma minúscula vila com meia dúzia de casas precárias. Um Gol branco caindo aos pedaços anuncia, por um megafone ruidoso, a atração do dia seguinte: o circo Irmãos Mota. Seguimos por mais uns 50 metros. Então, de cima de uma ponte estreita de madeira, avistamos os jogadores: a maioria só de cueca, brincam uns com os outros, se refestelam na água. Eles acenam, pulam, gritam em nossa direção. Furtado os observa sem acreditar no que vê. “Se alguém perder o tampo do dedão, adeus Copinha”, ele grita da ponte, apontando para as pedras nas margens. Ele mal enuncia a bronca e o atacante Jassiel Jeyson, já fora da água, tenta minimizar o pequeno sangramento que escorre de seu pé. Furtado dá meia-volta. Continuo ali com os atletas, que não parecem incomodados com as palavras do diretor. Um deles não ignora o figurino de banho do preparador de goleiros: “Você não troca de cueca desde o embarque!”

Alguns retardatários se juntam aos banhistas. O massagista dá uma dica: “Tomem banho de calção mesmo. Seca rapidinho no corpo.” Thalyson, de meia e tênis, não parece disposto a se molhar. O goleiro Rafael França dá uma cutucada: “Esse aí só toma banho de domingo, quando chove.” Alguns resolvem voltar, com medo de que a escapada configure indisciplina. Vou junto. Quando reencontramos os dirigentes, damos de cara com Furtado de calção, chinelo e toalha, a caminho do riacho.

 

OTimon mantém apenas suas fileiras de base de forma permanente, hoje constituída de sessenta jovens. O time profissional só é montado em época de competição. Nas duas temporadas que o time jogou, os profissionais disputaram a segunda divisão do Campeonato Piauiense. Na primeira, em 2015, da qual participaram seis equipes, terminaram em quarto lugar; no ano seguinte, das quatro participantes, ficaram em terceiro. Empolgado com a criação do time em 2015, o presidente Leal Filho diz ter feito naquele ano um investimento alto: a folha salarial chegou a 70 mil reais por mês – o campeonato dura dois meses. A decepção de não ter conseguido alcançar a primeira divisão (só campeão e vice sobem) recomendou mais cautela no segundo ano, e ele reduziu a folha para cerca de 30 mil reais. Em 2017, o Piauiense da segunda divisão acabou cancelado por falta de clubes habilitados. Tudo levava a crer que em 2017 as atividades do clube seriam minguadas. Então, três personagens entraram em cena: Willdson Furtado, Valter da Silva e Péricles Veloso.

Furtado criou o projeto social Dirceu Futebol Clube, que oferece treinamento de futebol para crianças e adolescentes de Dirceu, bairro com alta taxa de criminalidade na capital piauiense. Silva fundou o Teresina Futebol Clube, time amador que Veloso também ajudava a
coordenar depois de passagens como técnico em outros clubes da região. Com perfis complementares, decidiram unir forças para compor uma única equipe para disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mas para conseguir uma vaga era preciso ser campeão ou vice do Campeonato Piauiense Sub-19. O Teresina F.C. não poderia ser inscrito, pois não era federado. Em março, os três se reuniram com Leal Filho e propuseram que o Timon materializasse a ambição de todos. Leal topou.

A trinca assumiu a parte de campo, o presidente entrou com a estrutura e algum respaldo financeiro. Veloso passou a ser o treinador; Furtado, formado em gestão esportiva, assumiu como diretor de futebol; Valter da Silva, como auxiliar técnico. Nenhum deles remunerado. O dinheiro que ganham vem de outras atividades: Veloso administra um comércio de roupas com a mulher; Furtado é instrutor numa autoescola e consultor de gestão esportiva; Silva trabalha de atendente na Secretaria de Estado da Saúde do Piauí.

Os jogadores que formam o grupo da Copinha tampouco recebem salário. Além de Thalyson, outros três atletas do elenco também já são profissionais – e o clube só arca com as contribuições de previdência social. Todos os jogadores do grupo são da região de Timon-Teresina, ou das redondezas. Silva levou de seu Teresina F.C. cerca de 70% deles. O Timon foi vice no Piauiense Sub-19 e ganhou o direito de ir à Copinha. O presidente havia prometido que se o time fosse campeão desfilaria em carro de bombeiro.

Para sobreviver, o clube se vira como pode. Furtado diz que há um pool de “patrocinadores”, como se refere a parceiros, geralmente amigos dos dirigentes, que ajudam com valores entre 50 e 100 reais, de forma esporádica. A contribuição paga o lanche que é servido nos treinamentos e outros gastos básicos do dia a dia.
Às vezes os dirigentes promovem rifas; uma delas, em 2017, tinha como prêmio um curso de habilitação em autoescola e chegou a angariar 6 mil reais. Os logos inscritos na camisa que o time vestirá na Copinha incluem apoiadores de ocasião: a prefeitura, que forneceu o ônibus para a viagem; um banco onde Leal Filho mantém uma conta, e do qual conseguiu algum aporte; um centro de fisiologia, que atende sem custos os jogadores; e um açougue, que deu 3 mil reais, em produtos, à churrascaria do dirigente.

 

Omecânico chega com a peça a ser trocada e providencia a substituição. Mas o motor não responde como o esperado. Os jogadores, já de volta do riacho, se espalham pelas mesas do Ronan. Alguns caminham observando as parcas lojinhas do comércio local. Vestidos com o uniforme de passeio, nas cores preto e amarelo, despertam a curiosidade. Um garotinho não resiste e aborda o volante Caique de Sousa: pede um autógrafo. Seria o primeiro autógrafo que o jogador daria na vida, tivesse uma caneta no bolso. Mesmo assim, ele relata o episódio com evidente orgulho. Num camelô, o preparador Lima compra DVDs piratas dos filmes A Múmia Piratas do Caribe, para animar o resto da viagem.

O banho de rio parece ter surtido um efeito positivo sobre o grupo, que aparenta estar menos entediado. Um forró reverbera no rádio de um carro próximo e um dos jogadores simula um gingado com uma dançarina imaginária. Numa das mesas do Ronan formam-se duplas para jogar dominó; em outras, os rapazes fazem uma brincadeira em que os perdedores são punidos com petelecos na orelha. Jantam o mesmo do almoço, com o acréscimo de espetinhos – um por cabeça –, assados numa churrasqueira na calçada.

Mas o conserto se arrasta e a impaciência começa a contaminar o grupo. Alguns se aproximam do mecânico e dos dois motoristas, que mexem sem parar no motor. Sem perceber, alinham-se num semicírculo ao redor da parte traseira do veículo, como se a força do pensamento positivo pudesse operar milagres. Há quem feche os olhos e reze.

As horas avançam e nada. O vice-presidente Rudá Tupinambá decide telefonar para a empresa de ônibus e pede que enviem um novo carro. Ouve como resposta o genérico e impreciso “estamos tentando”. O lugar, que durante o dia é até movimentado, à noite assume ares de um cenário de faroeste. Os poucos ruídos vêm de uma boate a uns 200 metros do lugar em que o ônibus quebrou. É sexta-feira, dia de balada. Alguns frequentadores saem de lá e cruzam com os jogadores no caminho. Uma trinca de garotas passa. Uma vez. Voltam, passam de novo. Os rapazes ligam o radar. Um deles não resiste e aborda as meninas, que aparentemente o repelem. “Estão se fazendo de difíceis”, ele diz aos colegas. Instantes depois, ele e mais dois companheiros fazem nova investida. Os seis se distanciam do grupo e somem na escuridão.

Já passa de uma da manhã do dia 30 de dezembro. Há horas o mecânico fala em fazer “um último teste”, e é isso que adia a definição sobre procurar ou não um local para a turma dormir. Ronan fecha as portas, a delegação não tem mais nem as cadeiras de plástico onde sentar. Todos se espalham pelas calçadas, onde Péricles Veloso, o treinador, já dorme estirado em sono profundo.

Onde achar um lugar para o pernoite? Furtado já havia visto na rua oposta ao posto uma casa decaída, mal pintada de verde, em cuja fachada se lê “Dormitório” escrito à mão. Vai avaliar e volta em menos de dez minutos: “Não tem condições.” Não há pousadas nem hotéis por perto. Ronan sugere que procurem em Vila Boa, uma cidade a 24 quilômetros de onde estão. “Tá tudo fodido mesmo”, ele os consola. Passa o contato de um rapaz que tem uma van e talvez aceite levá-los.

A van chega e uma primeira turma parte com Furtado. São 2h08 da madrugada. O carro, com capacidade para dez pessoas, leva catorze, de tal modo que duas viagens já darão conta do recado. Passados 25 minutos estamos em Vila Boa. O carro estaciona diante de um hotel de beira de estrada – parece honesto, na fachada se lê “Suítes com ar-condicionado”. Furtado desce e toca a campainha. Um senhor grisalho, óculos de armação grossa, porte físico robusto, aparece à porta, revólver calibre 38 na cintura. “O que deseja?”, ele pergunta com desconfiança. Furtado vacila por um segundo, mas logo se recompõe e explica a situação. Precisa de estadia para um grupo grande cujo ônibus enguiçou etc. “Não tem vaga”, o homem responde.

Afável e bom de lábia, Furtado acaba por dobrar o sujeito – um militar aposentado, conforme descobrirá mais tarde. Ele aceita hospedá-los, mas ressalta que não há camas individuais para todos. Alguns jogadores dormem em colchões improvisados no chão, outros dividem uma cama de casal. Furtado volta ao posto para buscar a outra leva e vai logo avisando: “Não é quatro estrelas, não.”

Eu divido o quarto com o preparador de goleiros e o massagista. Está abafado. Ligamos o ventilador.

 

Às 10 horas a delegação está de pé. Como a casa não tem a menor infraestrutura para oferecer café da manhã, o jeito é ir a uma padaria. Os dois dirigentes mais dois integrantes da comissão técnica resolvem voltar ao posto para se inteirar da situação do ônibus. Orientam os atletas a ficar descansando na pousada. Se tudo der certo e o conserto enfim for concluído, o ônibus logo os buscará.

Mas agora o busílis é como chegar ao posto. Eles se informam e descobrem que o melhor seria pegar algum ônibus na estrada. Ficam no acostamento e fazem sinal para o primeiro que passa. O motorista não para e, com o polegar voltado para baixo, indica que o carro está cheio. Nenhum outro ônibus no horizonte. Então eles começam a gesticular com o polegar na horizontal, o clássico pedido de carona. Um caminhão passa devagar, mas os ignora. “Eu nem queria mesmo”, Furtado desdenha. Um homem enfim estaciona. O grupo lhe explica a situação, e o sujeito aceita levá-los por “um trocado” no final, sem especificar quanto. Veloso, mais gordo, vai no banco da frente. Como estou com eles, para que quatro caibam atrás, um vai sentado no colo de Furtado. Meia hora depois estamos no posto. Tupinambá pergunta se 20 reais pagam a viagem. O homem fica quieto por alguns segundos e barganha: “Trinta.”

O mecânico segue trabalhando. Diz que em breve eles vão retornar à estrada. A mesma arenga que ouvem há mais de 24 horas. Tupinambá liga para a empresa. A atendente diz que a dificuldade é de agenda: é sábado, 30 de dezembro, muitos profissionais estão de recesso. Garante que já conseguiu um ônibus substituto, mas falta o motorista. Pede paciência. É o que Tupinambá tem de sobra: mesmo diante desse quadro desalentador, ele não perde a linha. Pouco depois, às 11h30, novo telefonema: conseguiram o motorista na cidade vizinha de Planaltina, ele deve chegar ao local dentro de uma hora. Tupinambá compartilha a boa-nova com a comissão técnica. Mas às 12h30 não há sinal do novo carro. Resolvem providenciar o almoço dos jogadores e encomendam quentinhas a Ronan. Um colega do marmiteiro entregará tudo na pousada em Vila Boa. Furtado vai junto.

Às 13h30, nada de ônibus novo. Começam a desconfiar que não virá nenhum ônibus, foi tudo um blefe da empresa: apostando que o mecânico resolveria o problema, inventaram a história do carro substituto para apaziguar os ânimos. Nesse momento, Péricles Veloso aponta para a estrada: “Olha lá o ônibus!” Todos giram o pescoço. É apenas um intermunicipal da região. “Eu falei que era um ônibus, não falei que era o nosso.” Tupinambá se admira com o humor resiliente do colega e comenta: “A zombaria é a prova de solidez do sério.”

Em Vila Boa, a preocupação é com o check-out dos jogadores. Furtado negocia com o proprietário e marcam a saída para as três da tarde. Mas passa das três e o ônibus substituto não chegou. Os jogadores desocupam os quartos e se acomodam como podem na área externa da pousada.

Às 16h30, quatro horas depois do horário prometido pela empresa, o ônibus substituto estaciona ao lado do ônibus em manutenção. É um carro de um só andar, velho, a lataria bastante desgastada. Num canto do para-brisa, um adesivo em vias de se tornar ilegível diz “Uso exclusivo da Faculdade”. Não parece adequado para uma viagem longa, mas é o que temos para hoje.

Tupinambá não quer mais perder tempo, fala com o motorista recém-chegado e eles logo partem para Vila Boa. Dado o adiantado da hora, ele decide com Furtado que o melhor é todos jantarem no Ronan, assim não precisam parar na estrada. O ônibus velho para na pousada às 17h15. Depois de mais de duas horas de espera, os atletas não ligam para a precariedade do veículo – a perspectiva de seguir viagem lhes é muito mais importante. Sobem no ônibus e o dono da pousada acena para eles como um avô se despedindo dos netos. “Boa sorte! Boa viagem!” Os jogadores se acomodam nos assentos numa animação contagiante. “O bom é que aqui o ar-condicionado é natural”, diz o goleiro Rafael França, abrindo a janela. No trajeto até o posto, eles se comportam como numa excursão escolar. Alguém joga água pela janela, que atinge o carro de trás. O motorista lhes dá uma bronca coletiva.

Com a delegação novamente reagrupada em JK, o jantar é servido. De repente, numa coincidência àquela altura irônica, recebem a informação de que o ônibus original está consertado, pronto para seguir viagem. Todos os testes foram feitos, o motor não esquenta mais. Logo alguém levanta a dúvida: e se ele voltar a enguiçar na estrada? Surge então a ideia de que o time se acomode no ônibus consertado e o substituto viaje atrás, por garantia. Alternativa que desagrada ao motorista do ônibus substituto, evidentemente. Ele argumenta que abdicou da festa de Ano-Novo para socorrê-los, e agora não quer conduzir um ônibus vazio até o interior de São Paulo, só por precaução.

Tupinambá pondera e decide pelo ônibus “da faculdade”. Veloso argumenta que o carro não tem condições, o time deve viajar no carro consertado. Tupinambá se incomoda de ser contestado diante do grupo. “Eu e Furtado somos os chefes da delegação, então nós é que decidimos”, ele grita. O auxiliar técnico Valter da Silva passa por eles e diz, como se cada um tivesse a opção de escolha: “Eu vou neste aqui”, apontando para o veículo consertado.

O impasse deixa Tupinambá atônito. É o primeiro grande conflito que precisa administrar. Os jogadores também o pressionam, querem viajar no carro original, muito mais espaçoso e confortável. O vice-presidente pede minha opinião. Digo que ele deve pensar no que é melhor para o grupo. Ele chama Veloso num canto para uma conversa particular. Aparam as arestas. Tupinambá se aproxima do motorista do ônibus substituto, que propõe um meio-termo: a delegação vai no ônibus consertado, e o outro os acompanha só até Brasília, um trecho de 150 quilômetros. Ainda assim o dirigente não está de todo convencido. Teme que o primeiro veículo sofra nova pane no trajeto pós-Brasília. O motorista evoca a fé para o interlocutor se convencer de que essa é uma preocupação vã: “Deus vai levar vocês até São Paulo. Tenha certeza disso.” Tupinambá cede. São 19h10 do dia 30 de dezembro. Depois de quarenta horas perdidas naquele cafundó no meio de Goiás, a delegação volta à estrada no ônibus original.

 

Aos primeiros raios de luz do dia 31, o ônibus já cruzou a fronteira do estado de São Paulo. Tudo correu bem desde a saída na noite anterior.

O medo de que o carro pudesse voltar a enguiçar no trecho de serra logo à saída do distrito JK felizmente não se justificou. Como combinado, o segundo ônibus os respaldou até Brasília e, de lá, retornou a Planaltina. Às 8h05, paramos num posto em Onda Verde. A ideia é tomar o café da manhã. Furtado desce e tenta fazer a negociação de praxe, mas não é bem-sucedido. Só o pão com ovo sai a 6 reais; somado a um café, 9 reais por cabeça.
É um valor impraticável para o borderô da viagem, de 4 mil reais, e a delegação parte sem a refeição matinal. Estamos no Sudeste, os preços são outros. É um choque de realidade para eles.

Às 10 horas, o capitão da equipe, o zagueiro Arthur Valdivino, desce ao andar inferior e pergunta a Tupinambá a que horas será o desjejum. O vice-presidente tergiversa, pede que o rapaz fale com Furtado, que está no compartimento dianteiro junto aos motoristas. Como Urupês está perto, os dirigentes querem economizar uma refeição. Faltando 10 quilômetros para chegar ao destino final, o motorista é forçado a fazer um pit stop, próximo de um matagal. Quatro atletas não se sentem bem. Assim que o ônibus para, eles se lançam às pressas para o meio do mato. Urgências de número dois.

Às onze em ponto a delegação desembarca na Pousada Beira Rio, em Urupês, cidadezinha com pouco menos de 15 mil habitantes. Um rapaz sorridente de 24 anos que intermediou a hospedagem mais em conta e possibilitou que partissem do Maranhão com antecedência já está lá para recebê-los. Seu nome é Renan Rivelo. A comissão técnica e os dirigentes avaliam as instalações, de uma simplicidade honesta, e definem a logística de distribuição dos quartos. Cansados e com fome, os jogadores carregam suas malas. Serão dois em cada quarto.

Na cozinha, a mãe de Rivelo prepara o almoço; como não sairá tão rápido, um desjejum tardio é improvisado com bolachas, café, leite, iogurte. O que não dá nem para o começo: os motoristas sentem uma fome acachapante. A senhora improvisa duas tigelas de arroz com ovo, que são devoradas em grandes colheradas.

Alguns jogadores procuram o tanque para lavar uniformes, cuecas, meias. Seguem para seus quartos, para descansar, ouvir música, relaxar um pouco. Rafael, o goleiro, aproveita para cortar o cabelo de alguns companheiros. Até o dia seguinte, dez cabeças passarão por suas tesouradas.

 

De tarde, a equipe enfim vai treinar. Já são cinco dias sem tocar na bola, desde o amistoso no dia 26 contra o Piauí. Mas ainda é preciso achar um local para o treino. A cidade de Urupês tem um estádio, mas estamos em pleno dia 31 de dezembro, e o staff do time não fez uma solicitação prévia para poder utilizá-lo. Optam por um campinho público próximo à pousada, próprio para crianças. Trocam de roupa junto aos bancos dispostos ao lado da sarjeta enlameada pela chuva. O terreno é bastante irregular, com buracos e trechos de terra. Mas, ali, parecem felizes. Até Wildinho Furtado, que se aposentou do futebol em 2015 e agora apresenta uma ligeira protuberância na região abdominal, põe calção e chuteiras e se junta a eles. Metade do grupo faz uma espécie de minicoletivo utilizando traves reduzidas, a outra faz um treino de dois toques. O joguinho do primeiro grupo é acirrado, competitivo. Discutem entre si, esbravejam. Num dado momento, Furtado escapa pela esquerda e faz a assistência para o lateral Ricardo Bezerra fechar pelo meio e fazer o gol. Ele festeja mandando coraçãozinho para uma torcida imaginária. Mas o saldo de atuar num piso como aquele é preocupante: terminado o treino, as chuteiras de três jogadores apresentam rasgos. Um dos garotos só tem o par danificado para jogar a Copinha. É domingo, último dia do ano, final de tarde, e mesmo assim Tupinambá resolve ir ao Centro da cidade procurar um sapateiro. É um sujeito otimista.

Nada de muito especial pôde ser preparado como ceia de Réveillon, apenas algumas carnes e linguiças que configuram um quase churrasco. Mas, para os jogadores, o menu mais generoso do que o padrão não passa despercebido. Depois do jantar, eles são liberados para passear em volta da praça principal de Urupês, onde a prefeitura instalou um palco com apresentações musicais para celebrar a passagem do ano. Os jogadores estão à paisana, pela primeira vez na viagem não vestem uniformes do Timon, mas roupas próprias. Nem todos querem ir, e os que querem demoram a sair da pousada. Tanto que, quando enfim se decidem, já passou da meia-noite. Talvez pela ausência de fogos de artifício, ninguém se lembra de trocar cumprimentos pela entrada de 2018.

Em meio aos locais, os forasteiros parecem de fato forasteiros. Andam em bloco, mal disfarçam o deslumbramento ao cruzar com garotas vestidas de branco. Mas a música é insossa, o apresentador no palco não tem carisma, e a verdade é que a festa, para ser chata, precisava melhorar um pouco. Alguns membros da comissão técnica sentam num bar e tomam cerveja. Nenhum jogador se arrisca a pôr um gole de álcool na boca. Ali mesmo, no bar, um casal aborda a comissão técnica e diz que o secretário de Esportes está ciente da presença do Timon na cidade, pois os atletas foram vistos treinando no campinho à tarde. Se quiserem aproveitar o estádio municipal no dia seguinte, é só aparecer que ele estará liberado. Às duas da manhã todos retornam ao hotel.

Antes que os garotos acordem na primeira manhã do ano, Tupinambá já está na rua. Na véspera, encontrou um improvável sapateiro disposto a costurar as chuteiras. Combinaram que estariam prontas às 9 horas. Mas o sujeito, apesar de ter levantado às cinco da manhã, em pleno dia da confraternização universal, ainda não finalizou o serviço. Falta um par. Quando ele termina, Tupinambá repara que uma das chuteiras, da marca Puma, está sem palmilhas, e pergunta ao sapateiro se ele consegue substituí-las. O homem procura e localiza, abandonado em meio a pilhas de sapatos, um velho par da marca Finta; arranca as providenciais palmilhas desta e as cola na Puma. Prontinho. O serviço sai por 120 reais, 40 cada par. Os atletas ficam genuinamente felizes quando recebem as chuteiras de volta.

Na pousada, o auxiliar técnico Valter da Silva descasca uma quantidade enorme de alho, a ser utilizado no preparo do almoço e também para um chá que a comissão técnica acha por bem oferecer aos atletas, já que alguns mostram sinais de resfriado. Pergunto se Silva gosta de trabalhar na cozinha, ele nega. “Mas se estamos na guerra, vamos guerrear. Não vim aqui de enfeite”, decreta, sério. Ele é mais que um mero auxiliar. Em Teresina, hospeda em sua casa dois jogadores do Timon, o volante José Domingos e o atacante Sidney Ademi. Silva os levou para casa após aprová-los numa peneira promovida na cidade deles, Campo Grande do Piauí. Cada um lhe paga 50 reais por semana para cobrir as despesas de condução até o treino. O anfitrião não cobra hospedagem nem alimentação, e os rapazes ajudam nas tarefas de casa: José limpa os cômodos, Sidney aprendeu a cozinhar.

Quando pode, a família dos garotos paga alguma coisa a Silva, sem compromisso. “Na última vez que o pai de Sidney veio, ele me trouxe 2 quilos de farinha de puba e umas galinhas”, ele conta, agradecido. “Os pais de José são muito humildes.” José, aliás, não os vê há dez meses, mas não reclama: afinal, não é qualquer um que tem a oportunidade de jogar pelo Timon. “Não dá nem pra acreditar. Outro dia eu estava vendo a Copinha pela tevê”, o garoto conta, realizado só por ter sido convocado para a viagem – o roommate Sidney não teve a mesma sorte e acabou cortado. José ainda luta por um lugar entre os titulares. Os companheiros brincam que, para sua posição, José “é muito mole”. “Mas é que acompanho muito a Liga dos Campeões e não vejo nenhum volante batendo”, ele justifica.

 

Acomissão técnica pergunta a Rivelo, o rapaz da pousada, se ele é capaz de arranjar um time na cidade para um jogo-treino à tarde. É dia 1º de janeiro, o pedido parece impraticável, mas ele diz que vai tentar. Rivelo é árbitro de futsal e atua na Comissão de Esportes de Urupês, que faz as vezes de secretaria, e criou seu próprio time
de futsal na cidade. São 10h20 e ele aciona seus contatos por WhatsApp, enquanto os timonenses fazem um treino leve na própria pousada, no pátio gramado. Em pouco tempo avisa que o Timon terá um adversário para enfrentar de tarde. Não é exatamente um time – são jovens que integram sua equipe de futsal, amigos, amigos de amigos, enfim, um “catadão” de rapazes dispostos a queimar os excessos do Réveillon numa pelada. Todos eles na faixa entre 15 e 20 anos de idade.

O jogo-treino é no estádio municipal de Urupês, que não vinha sendo utilizado nas últimas semanas. Por isso, a grama chega à altura dos joelhos nas laterais do campo. Os vestiários estão fechados, então todos trocam de roupa nos bancos de reserva. O catadão inicia o jogo sem camisa; só depois alguém aparece com um jogo de coletes para que possam vestir. Nos primeiros minutos, os passes não funcionam, a bola morre na grama alta. Até que sai o primeiro gol, um pombo sem asa de Thalyson, de muito longe, no ângulo. A partir daí, o jogo flui melhor e o Timon atropela o adversário: 6 a 0.

É a última noite que passarão na pousada em Urupês. Na manhã seguinte, a delegação embarcará para a cidade do jogo, Votuporanga, onde ficará hospedada num hotel quatro estrelas, o Ville Gramadão. Depois do jantar, os timonenses recebem a visita de um pastor evangélico, disposto a passar aos jovens boleiros uma palavra motivacional. “Não olhe de onde você veio, mas aonde quer chegar. E ponha na mão de Deus”, ele diz. Ao final, todos unem as mãos e oram.

A seguir é a vez do anfitrião, Renan Rivelo, falar. Ele usa de sua experiência para dar dicas sobre idiossincrasias da arbitragem no Sudeste. “Aqui costumamos chamar o árbitro de professor”, “cuidado com a forma de gesticular ao reclamar com ele”, “árbitros da Copinha são estagiários, também para eles a competição é uma vitrine” etc. Mas é só ao final de sua fala que vamos entender o porquê de sua disposição em ajudar uma equipe como o Timon, de quem se aproximara via Facebook.

Rivelo conta que vivia uma carreira ascendente na área da arbitragem quando se envolveu com drogas. Primeiro como consumidor, depois como traficante. Acabou preso, ficou na cadeia três anos, e foi libertado em 2016. Em seu relato, ele fala da vergonha de ter decepcionado pessoas que sempre o apoiaram em tudo, sua mãe, sua avó, apontando para elas, que assistem à palestra. Diz aos jovens timonenses à sua frente que é muito fácil enveredar por caminhos errados. Mas que o esporte pode salvá-los. Ao final, os jogadores o aplaudem efusivamente.

 

Às 12h30 do dia 2 de janeiro, depois de ter deixado a pousada em Urupês, a delegação chega a Votuporanga. Houve um pequeno atraso na partida em função de um susto provocado pelo atacante Samuel Pinheiro: depois de um bocejo, seu maxilar travou e ele não conseguia fechar a boca. Foi preciso recorrer a auxílio médico em Ibirá, cidade vizinha, para que o problema fosse resolvido e o ônibus seguisse.

Ao adentrarem o lobby do Ville Hotel Gramadão, os timonenses parecem tentar disfarçar o assombro diante do que veem – piscina interna e externa, banheiros impecáveis, quartos com ar-condicionado, tevê plana, frigobar e internet gratuita. Na véspera, Furtado havia prevenido os garotos sobre possíveis gafes – e contou um episódio de um ex-companheiro jogador que tentou comer aquela toalhinha para limpar os dedos supondo que fosse tapioca. “Não sabem o que é, perguntem.”

Diante da máquina de café expresso da recepção, de consumo livre, alguns atletas parecem desorientados. Explico a eles que o manuseio é simples, basta apertar um botão. “Na garrafa é bem mais fácil”, um deles comenta. Ainda no lobby, cruzam com os jogadores do Atlético Paranaense, adversários da segunda rodada. Ignoram-se.

Nem o almoço nem o jantar são feitos no hotel, e sim no restaurante Cupim Grill, de propriedade de Marcelo Stringari, que vem a ser, curiosamente, o presidente do Clube Atlético Votuporanguense, o time da casa e rival da estreia. A escolha do restaurante se deu por licitação promovida pela prefeitura, conforme as regras da organização do torneio.

Stringari recepciona os forasteiros com muita hospitalidade. O menu não traz nada de muito diferente daquilo que os jogadores já estão habituados, mas o esquema de bufê lhes permite, pela primeira vez ao longo da viagem, comer sem restrição. Na sobremesa, podem optar por picolés de limão ou de chocolate. No trajeto de volta, Tupinambá manifesta sua preocupação pelo fato inusitado de o estabelecimento ser propriedade do dono do time adversário. “E se a comida tiver sido batizada?”

De tarde, a delegação se dirige à Arena Plínio Marin, para fazer o reconhecimento do gramado onde vai jogar.
É um estádio para 8 mil espectadores, pequeno mas charmoso, inaugurado nos anos 70 e reformado em 2015. Os timonenses ficam eufóricos ao pisar no gramado. “Um tapete”, repetem entre si. Parecem se dar conta de que estão realizando o primeiro ato de um sonho tão acalentado: chegaram lá. O orgulho na expressão de cada rosto é evidente. O centroavante Ian Cavalcante pede que façam uma foto sua, e posa erguendo as mãos para o céu. Isaías Igreja finge que meteu um gol e sai em disparada, gritando feito alucinado. Os outros riem. Estão felizes. Reúnem-se por fim junto à placa com o logo oficial da Copa SP para uma foto que guardarão para sempre. Faltam menos de 24 horas para a estreia.

Durante o jantar, a ansiedade já está nas alturas. Os jogadores especulam o que poderá acontecer com eles num futuro próximo. Thalyson conversa com Jassiel Jeyson. Pergunta se o companheiro toparia se transferir imediatamente, caso ao fim da Copinha ele recebesse uma proposta de um clube paulista. “Todos os seus companheiros embarcando de volta no ônibus e só você tendo que ficar. Você fica?”, Thalyson reitera. Ele está replicando ao parceiro a mesma pergunta que lhe fiz quando nos conhecemos em sua casa, e que aparentemente mexeu com seu imaginário. Jassiel titubeia: “Não sei. Teria que pensar.” “Se precisa pensar, você não pode estar aqui”, devolve Thalyson.

 

Aagenda de 3 de janeiro é apertada. Como o Timon e o Votuporanguense se enfrentam às 14 horas, o almoço, marcado para as 10h30, acaba encavalado com o desjejum. Nem todos almoçam – e depois, no intervalo do jogo, haverá quem sinta fome.

Os presidentes Marcelo Stringari e Leal Filho – que se juntou à delegação na madrugada – conversam num canto. O primeiro conta ao segundo que seu Votuporanguense mantém uma parceria com uma equipe da série A do Campeonato Brasileiro, que lhe paga cerca de 30 mil reais mensais. Em contrapartida, o parceiro pode ficar com 50% dos direitos de qualquer atleta do time paulista. Os olhos de Leal brilham: é de um sócio assim que ele precisa. “Com 30 mil por mês eu transformaria o Timon numa máquina de revelar jogadores”, diz, pensando alto.

A delegação timonense chega ao estádio com certo atraso, às 13h08. Os jogadores se apressam em trocar de roupa para o aquecimento, que será realizado dentro do campo – não há espaço no vestiário para isso. Enquanto se trocam, o olheiro do Grêmio, de Porto Alegre, aparece e se apresenta aos dirigentes do Timon. Pede a lista dos jogadores relacionados para a partida. Quando a recebe, percebe que ela não traz o ano de nascimento deles. Furtado anota a data ao lado de cada nome.

O limite de relacionados para uma partida da competição é de dezoito atletas. Como o Timon trouxe dezenove, um tem de ser cortado. Sobra para o volante José Domingos. Tudo bem, ele me garante. Após um aquecimento rápido, que o preparador físico julga inadequado (“Era pra chegar quarenta minutos antes”), os jogadores voltam ao vestiário, tomam uma bebida energética e formam uma roda só deles, sem a comissão técnica. Trocam as últimas palavras de incentivo mútuo e oram, fechando com “Um, dois, três, Jesus!”. No túnel de acesso ao campo, perfilam alinhados em paralelo aos jogadores adversários, a clássica imagem pré-jogo. Vai começar.

Não sem atraso. Às 14 horas, o horário previsto da partida, a ambulância obrigatória já se encontra numa das extremidades do campo, mas o médico não. Supostamente está a caminho. Nesse meio-tempo, na arquibancada, o olheiro do Internacional, de Porto Alegre, também aborda o presidente do Timon. Diz que assistirá à partida e entrega seu cartão – qualquer coisa, voltará a procurá-lo.

 

Ojuiz apita o início do jogo às 14h16. Já no primeiro minuto, os donos da casa quase abrem o placar, após chegar com facilidade ao ataque. Leal se altera diante dos passes errados do time e xinga seus atletas. Tupinambá pede que o presidente os apoie. “Aqui eu sou torcedor”, ele rebate. Aos seis minutos, Jassiel toma um carrinho e berra: “Ai, ai, ai!” Assim que o juiz apita a falta, ele já se põe em pé, plenamente recuperado. Aos poucos o jogo começa a fluir. O Timon passa a ficar mais com a bola e as ações se equilibram. O Votuporanguense percebe e tenta apelar. Seu lateral-direito cola no atacante timonense Jeanderson Silva, vulgo “Mamadeira”, 1,58 metro e 50 quilos de muita valentia. Fora do raio de visão do árbitro, o jogador diz no ouvido de Mamadeira que vai lhe quebrar a perna. O miúdo desdenha a falta de originalidade do rival. “Pode vir”, desafia.

No meio-campo, Thalyson chama a atenção como articulador. Joga de cabeça erguida, com elegância, cadencia à espera de algum companheiro para lhe dar o passe. Aos catorze minutos, o sonho timonense toma contornos reais. Após uma cobrança bem fechada de escanteio, o goleiro adversário rebate a bola para a frente. O lateral Wanderson Costa ganha dos zagueiros no alto e cabeceia. A bola entra. Gol do Timon! Nem os jogadores acreditam que aquilo está acontecendo. Não sabem como comemorar, cada um corre para um lado, mais perplexos que felizes. Wanderson se ajoelha e aponta para o céu. Mas falta malandragem à equipe para administrar a vantagem, que só dura seis minutos, até que o time da casa empata da mesma forma, com um gol de cabeça. A primeira etapa se encerra com o 1 a 1 no placar.

Autor do gol, Wanderson entra no vestiário com problemas num dos pés da chuteira. O solado cedeu, diz que não consegue jogar. O volante Vitor Veloso lhe empresta outro par. Thalyson, por sua vez, passa mal e vomita mais de uma vez. Como o Timon não dispõe de médico em sua comissão técnica, ninguém identifica a causa do problema. Tupinambá tem uma suspeita: os garotos nem tocaram na rapadura comprada na beira da estrada em JK, exatamente para que a consumissem antes do jogo. O massagista Edílson de Sousa diz que os rapazes tomaram o energético fornecido pela organização, que teria o mesmo efeito. Mas, se o organismo dos atletas está habituado à rapadura e não à bebida, melhor teria sido a rapadura, concluem todos.

 

Apesar da indisposição, Thalyson retorna para o segundo tempo. Mas as coisas vão mal para o Timon. Logo aos três minutos, o Votuporanguense faz outro gol de cabeça. Apesar de ainda haver muito tempo, a equipe não reage. Alguns jogadores começam a sentir cãibras. O massagista Edílson, um mulato de careca reluzente, é requisitado ao campo com frequência. Numa de suas entradas, um torcedor rival tenta desestabilizá-lo: “Ô, cabeça de pica!” Edílson devolve na lata: “É dessa mesma que tua irmã gosta.”

O Votuporanguense chega ao terceiro gol aos 24 minutos. O Timon está entregue. A derrota por 3 a 1 incomoda o presidente. Ele manifesta seu descontentamento com o desempenho de alguns jogadores. Acha que um deles refugou nas divididas. “Tem que enfiar o pé. Se quebrar, depois conserta.” Longe do grupo de jogadores e da comissão, ele me diz em particular: “Vou meter o dedo na escalação já no próximo jogo.”

Depois da partida, a delegação do Timon permanece no estádio, nas arquibancadas. Querem ver o duelo que ocorre na sequência, entre o Atlético Paranaense e o Rio Preto, os outros adversários da chave. Enquanto assistem ao jogo, Leal volta a ser abordado pelo olheiro do Internacional a respeito de Thalyson. Eles aprofundam a conversa.

No dia 6 de janeiro, o Timon é derrotado pelo Atlético Paranaense por 1 a 0, resultado que sepulta suas chances de passar da primeira fase. Três dias depois, a equipe cumpre tabela contra o Rio Preto, e consegue fechar sua participação vencendo por 1 a 0. Na mesma noite do jogo, a delegação embarca de volta. O ônibus, desta vez, não quebra e eles chegam ao Maranhão na noite de 11 de janeiro.

No momento em que fecho este texto, o Timon negocia a transferência de Thalyson para o Internacional.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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