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A outra face

    Jorge Baron Biza, em 1943, com pouco mais de 1 ano de idade, junto dos pais: a história trágica de sua família foi a inspiração para seu único romance CRÉDITO: ACERVO DA FAMÍLIA BARON BIZA_1943

questões literárias II

A outra face

Sua intenção era deixá-la cega, com a imagem dele gravada como última impressão

Jorge Baron Biza (1942-2001) | Edição 204, Setembro 2023

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A seguir um trecho do livro O Deserto e Sua Semente, que está sendo lançado no Brasil com tradução de Sérgio Molina. Neste link, leia a apresentação do escritor feita por Alejandro Chacoff.

 

Nos instantes que se seguiram à agressão, Eligia ainda estava rosada e simétrica, mas minuto a minuto se encresparam as linhas dos músculos do seu rosto, bem suaves até aquele dia, apesar dos seus 47 anos e de uma arrebitada cirurgia plástica juvenil que lhe encurtara o nariz. Aquele cortezinho voluntário que durante três décadas conferira à sua teimosia um impostado ar de audácia foi se tornando símbolo de resistência às grandes transformações que o ácido estava operando. Os lábios, as rugas dos olhos e o perfil das bochechas iam se transformando numa cadência antifuncional: uma curva aparecia num lugar que nunca tivera curvas e guardava correspondência com o desaparecimento de uma linha que até então havia existido como traço inconfundível da sua identidade.

O rosto ingenuamente sensual de Eligia começou a se despedir das suas formas e cores. Por baixo das feições originais gerava-se uma nova substância: não um rosto sem sexo, como Arón pretenderia, mas uma nova realidade, indiferente ao imperativo de se parecer com um rosto. Outra gênese começou a se operar, um sistema com leis de funcionamento desconhecido.

Aqueles que a viram todos os dias de agosto, setembro, outubro e novembro de 1964 ficaram com a impressão de que a matéria daquele rosto havia sido completamente liberada da vontade de sua dona e que podia se transmutar em qualquer forma nova, tingir-se dos matizes reservados aos crepúsculos mais intensos e dançar em todas as direções, enquanto, no centro, o vaidoso nariz resistia por ser o único elemento artificial do rosto anterior.

Foi uma época agitada e colorida da carne, tempo de licenças em que as cores, desligadas das formas, evocavam as manchas difusas que os cineastas usam para representar o inconsciente, no pior e mais cândido sentido da palavra. Essas cores foram deixando para trás toda cultura, zombavam de toda técnica médica que tentasse associá-las a algum princípio ordenador.

 

Enquanto a levávamos do apartamento de Arón para o hospital – no carro de um dos advogados que antes da reunião me garantiram que nada de mau aconteceria –, ela ia tirando as roupas ardentes, encharcadas. Os reflexos das luzes de neon do centro da cidade passavam fugazes pelo seu corpo. Ao irromper na rua dos cinemas, o sinal fechado nos deteve, enquanto uma multidão preguiçosa passeava indiferente às nossas buzinadas. Alguns seres erráticos espiavam o interior do automóvel, sem entender se se tratava de algo erótico ou funesto. As luzes cintilantes e escorregadias lançavam acordes frios sobre os cromados do carro e o corpo de Eligia. No cinema da esquina estava passando Irma La Douce e o enorme retrato de Shirley MacLaine brilhava orlado de tracinhos vermelhos e roxos que corriam um atrás do outro: Shirley usava uma saia bem curta – naquele tempo característica exclusiva das putas – e uma bolsinha muito esvoaçante.

Eligia não gritava; ela arrancava a roupa e gemia baixo. Eu preferia que tivesse berrado bem alto para que alguns pedestres parassem de sorrir, idiotas ou lascivos, e nos deixassem passar. Mas Eligia só gemia, com a boca fechada, e arrancava as roupas molhadas com ácido, queimando também a palma das mãos, uma das poucas partes do corpo que até então não tinham ardido com a umidade traiçoeira. Uma boa quantidade do ácido que Arón havia jogado em seus olhos – porque sua intenção era deixá-la cega e com a imagem dele gravada como última impressão – Eligia conseguira aparar com as costas das mãos, num rápido movimento de defesa que denunciou a inquietação alerta com que comparecera à reunião, mas de início as palmas se salvaram, só para acabarem se queimando assim, durante o striptease ardente no carro que a levava para o pronto-socorro.

 

Eu não a conhecia muito bem na época, mas sempre senti uma curiosa ternura por ela, tão aplicada, tão trabalhadora, com seus vestidos sóbrios, suas pedagogias. Ela sempre tinha usado o cabelo curto, como uma marca de mulher moderna e para deixar livre o perfil da mandíbula forte e a boca de lábios carnudos. Sempre se pintou com um fino contorno de ruge que disfarçava a sensualidade da boca. No seu rosto original as pálpebras caíam com um peso indolente, mas por baixo os olhos fitavam alertas, com vivacidade. Sempre se orgulhara da sua testa lançada para o alto, que ela procurava alargar ainda mais com o penteado.

Sua face sempre fora o lugar onde com mais evidência se manifestavam sua história, o sangue dos Presotto – pobres imigrantes italianos – e sua obstinada fé na razão e na vontade de saber. Mas os “sempres” do seu rosto estavam se dissolvendo. Nós dois éramos lacônicos. Durante minha infância, a preceptora polonesa se interpunha em nossa vida cotidiana. Eligia se movimentava à parte, com seus estudos e sua política. Mas na adolescência entendi que nem toda ausência podia ser atribuída à governanta. Já sem ela de permeio, quando nos exilamos em Montevidéu e entrei como interno num colégio alemão onde Eligia ia me visitar alguns fins de semana, as perguntas que eu lhe dirigia ficavam no ar. Ela me escutava, claro, e me sorria de leve ou me olhava inclinando a cabeça, mas não respondia ou só respondia o estritamente necessário, ou respondia com outra pergunta: “Por que você não gosta de humanidades? Você tem aulas de latim neste colégio?”, ou “Não sei”. Eu recebia essas respostas como figuras incompletas, como se algo inacabado ficasse entre nós dois.

Voltei de Montevidéu para meu país com 14 anos. Aos 18, quando Eligia e Arón voltaram a se separar, optei por ficar com Arón na capital. Ela, por sua vez, assumiu uma cátedra de história da educação na sua província natal, na serra, e daí em diante passamos a nos ver muito esporadicamente.

 

Ela estava no banco da frente de um carro, gemendo sem gritar, e não era por minha culpa: eu havia lhe avisado que Arón, nos últimos anos, quando viveu comigo, separado dela por mais tempo do que durante os divórcios anteriores, se transformara num ser perigoso.

Inclinei-me por cima do ombro dela que dava para o interior do carro, para enxugar com meu lenço algumas gotas de suor ou de ácido, e o tecido amarelou como se o algodão tivesse virado seda. As sombras da noite ocultavam aquela metade do seu rosto com um véu roxo onde reluzia o branco do seu olho, que fitava através do para-brisa, buscando uma meta para a penosa viagem. Quando me recostei no banco de trás, só pude ver da sua face, pelo espelhinho, o branco daquele olho, rodeado de sombras e fixo num ponto distante, com uma borla de intensa cor púrpura na pálpebra inferior, como naqueles desenhos animados em que se quer representar grotescamente um bichinho que não dormiu. O resto da parte sombreada do rosto de Eligia era um mistério que fervia na escuridão.

Depois de alguns momentos de nervosismo, voltei a me inclinar, dessa vez sobre o outro ombro, o que dava para a janela do carro. Então pude ver a outra metade do seu rosto – iluminada pela marquise do cinema –, que contrastava, pela mobilidade das luzes, com a metade em sombras. O olho exposto aos brilhos de neon estava tão fixo e obcecado numa meta distante como seu companheiro sombreado. Sussurrei ao seu ouvido “Já vamos chegar”, embora nem ela nem eu tivéssemos perguntado ao advogado que dirigia aonde estávamos indo. Notei um amarelo espesso na maçã do rosto; uma segunda mancha do mesmo tom entre as sobrancelhas, junto ao limiar das sombras, e que com toda probabilidade se propagaria para o outro lado, o da escuridão. O resto do meio rosto iluminado se compunha de tonalidades de púrpura muito diferenciadas entre si.

Desci para abrir caminho entre a multidão. Não consegui. Quando olhei para o interior do carro através do para-­brisa, tive a primeira visão completa das transformações em Eligia. As duas metades se encaixaram: o silencioso roxo, de um lado, e os estridentes púrpuras e amarelos, do outro. Vi também os dois olhos bem abertos, sublinhados pelas olheiras inflamadas. Mas o que eu não pudera apreciar nas minhas anteriores perspectivas parciais era a boca, que, tanto no lado de sombras como no de luz, se tingira de um tom magenta; nos lábios não vigia, por um efeito curioso, o limite entre a metade em luzes e a metade em sombras. O magenta da boca penetrava na zona roxa com a mesma intensidade com que se destacava na zona multicor, e os lábios pareciam dotados de brilho próprio. Lembrava, pela largura e pelo colorido, a boca dos palhaços, mas a de Eligia permanecia imóvel.

Na clínica lhe deram um sedativo e ela parou de gemer. Levaram-na à sala de pronto-socorro e me ofereceram um uísque na minúscula, asséptica cafeteria. Quando pedi o terceiro, me olharam feio, em vez de ficarem contentes com a chegada de um bom freguês; bebi os seguintes no bar da esquina. Perto dos grandes hospitais sempre há alguns bares que marcam o limite entre o desinfetante e a fuligem; fronteiras onde, aos horrores da vida que nos arrastaram até lá, contrapomos os horrores que nós mesmos cultivamos com empenho. Tudo isso eu soube depois.

Durante quatro meses voltei todos os dias àquele bar, várias vezes por dia, mas nunca consegui entabular uma conversa com ninguém. Não consegui – em 120 dias – abordar nenhuma das enfermeiras e arrumadeiras que lá se encontravam com seus amigos para fugir do ambiente da clínica. É difícil saber ao certo se ninguém queria falar comigo devido a alguma recente qualidade que obscurecia a minha pessoa, ou se era eu que rechaçava aquele lugar onde residentes e enfermeiras se beijavam depois de cobrir um rosto com um lençol.

 

Duas horas depois estava de volta à minha vigília. Eligia dormitava com uma expressão de perplexidade. De quando em quando, emitia um estertor profundo, involuntário, cansado de si mesmo. Perguntei-lhe se precisava de alguma coisa: “Nada. Cuide-se”, suspirou.

Sobre Arón, não fez nenhum comentário. As queimaduras foram escurecendo para um púrpura muito senhorial, grandes áreas centrais onde uma matéria grave se espessava. Para além do púrpura, pelas bordas das manchas circulava um amarelo tênue, ralo ante a imponência da cor central. A dor agitava sinais para conquistar sua autonomia no corpo de Eligia, assim como o prazer certamente também se emancipara em tempos melhores. Mas enquanto os prazeres de Eligia tinham agido no seu corpo com desenvoltura e clareza, a dor chegava desastrada, e não sabia ou não queria separar perfeitamente as partes sãs das partes queimadas: misturava o intacto com o ferido para melhor ostentar – por confusão – os danos que causava.

Na manhã seguinte, já instalados num quarto da clínica, um familiar me disse que a polícia tinha arrombado a porta do apartamento de Arón e o encontrado com uma bala na cabeça: “Melhor assim! Não tinha estofo para ficar preso”, comentou.

– Olha que ele esteve muitas vezes na cadeia.

Eu era o único que tinha vivido com Arón durante seus últimos anos e sabia que esse final era inevitável. Enquanto morava com ele, senti aversão por seus acessos de violência, cada dia mais fortes, e pelos seus livros, que eu considerava piegas – nem tentei ler o último, que ele escreveu pouco antes de se matar –, mas também sentia, de forma inevitável, certa admiração por sua coragem na luta, por sua disposição a arriscar tudo, até a vida, a qualquer momento. Todos falavam com respeito da sua proverbial temeridade, até quem tinha padecido suas fúrias. Quando me disseram que ele se suicidara, tive uma reação equivalente à reverência pelo guerreiro morto com honra, apesar de horrorizado por sua agressão. Também me invadiu a pergunta que nos assalta sempre que alguém que conhecemos bem se suicida: como e até que ponto fomos cúmplices desse gesto? Eu me forcei a logo abandonar essa inquietação; intuí a ameaça do exemplo, a ideia simples e equilibradora de uma correção com outra bala na cabeça. Não eu: quando fui morar com Arón, aprendi a conhecê-lo melhor do que nos anos anteriores, de constantes mudanças, reconciliações e novas separações do casal. Nos nossos últimos quatro anos, ele piorou dia após dia. Meu desprezo tornou-se mais intenso, mas se movia sempre sobre um fundo de espanto. Decidi me refazer por oposição, ser justamente o contrário: nada de violência, nada de ressentimento, nada de ira. Como não me sentia um santo, desde bem cedo pratiquei a apatia.

 

Depois da visita do familiar à clínica, chegou ao nosso quarto o médico-­chefe. Tinha uma falsa aparência enérgica. Ele se sentou numa cadeira e, em silêncio e muito longamente, contemplou Eligia, que lhe devolvia breves olhares esperançosos. O doutor exerceu primeiro uma contemplação passiva, envolto no seu jaleco engomado e com iniciais bordadas. Finalmente, seus olhos se carregaram de perguntas imperiosas, como se quisesse extrair um sentido daquela paisagem de dor e não conseguisse.

– Como está seu estômago? – perguntou, enquanto perscrutava a planilha presa a uma prancheta de madeira que uma enfermeira lhe estendia.

Por causa dos calmantes, Eligia respondeu com voz pastosa, mas firme.

– Bem.

– Isso é muito importante. Você deve cuidar muito bem dele. É ali que se formam as substâncias nutricionais que vão reparar os danos… Iogurte, muita vitamina batida com frutas e muitos suplementos – acrescentou, dirigindo-se à enfermeira.

– Eligia sempre teve saúde de ferro – comentei.

– Quero que a lave quatro vezes por dia com um preparado – disse depois de me lançar um olhar penetrante. – São águas minerais com enxofre, cobre, arsênico e outros elementos. É preciso deter essa desintegração – apontou com temor para uma gaze umedecida com as supurações. – Devemos ofertar, para que a Natureza possa restaurar. Essas lavagens vão colocá-la de novo em contato com os elementos originários. Além disso, de noite, abra a janela e a deixe se banhar também pela luz das estrelas e da Lua… Qual seu parentesco com a paciente?

– Doutor, não me parece que aqui chegue muita luz das estrelas. Se eu abrir a janela, só vai entrar fumaça e alguns lamentos dos outros quartos.

– Hein?… O senhor nunca vai entender.

– A luz das estrelas, não, é verdade – disse Eligia –, mas da Lua… Ontem acordei… e havia um pouco de luar.

– Eligia – eu disse a ela depois que o médico se retirou –, uma pessoa razoável como você! Não me desaponte. Começa-­se com a Lua e se acaba como o Arón.

– Uma pessoa razoável? – ela respondeu com uma voz que se debilitava. – Isso não tem sentido…

Sua voz engrolada e sonolenta pareceu afundar em si mesma.

– … só tinha sentido antes…

– Antes do quê?

Mas Eligia não respondeu.


Trecho do livro O Deserto e Sua Semente, a ser publicado neste mês pela Companhia das Letras.