questões fundamentais

A queda do sistema

Tempos atrás, lutava-se contra o sistema. Agora a torcida é para que ele jamais caia

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: REINALDO FIGUEIREDO_2012

Pior do que ditadura militar, estado de sítio ou a descida do Anticristo na Terra, pior, enfim, que comprimido entalado na garganta, unha encravada e música do Ivan Lins no repeat, pior do que tudo na vida é o súbito anúncio: “Caiu o sistema.”

Ainda que alimentemos a ilusão de ter algum controle sobre as circunstâncias da vida, não se pode evitar a queda do sistema. Ela é como a morte. Não há nada que a contenha, ninguém que lhe escape. A queda do sistema pode ocorrer numa fila de banco, numa sala de espera, no aconchego do lar, num hospital de ponta ou num delivery de comida mexicana. É tão inesperada quanto uma chuva de sapos e tão inexplicável quanto um besouro voando. Reza a lenda que os atendentes da lotérica já têm um cartaz de prontidão na fila exclusiva para carregar o Bilhete Único – ele anuncia, feito sentença: “Sem sistema.”

A pane no sistema da SPTrans deve ser a segunda maior causa de moléstias depressivas na região metropolitana, perdendo apenas para a própria SPTrans, imbatível em sua vocação para tirar dos eixos o mais pacato dos munícipes.

Até um desejo prosaico como pedir pizza pelo telefone pode ser totalmente frustrado pela queda do sistema. E não venha argumentar que é só burlar o esquema anotando o pedido num bloquinho, ou mesmo gritar à cozinha e fazer as contas de cabeça, vai um, sobe dois, porque isso seria uma hipótese tão absurda que chega a ser indecente. Isso simplesmente vai contra o sistema. O sistema, seja ele qual for – uma tela de computador esverdeada, um pop-up de JavaScript –, é a autoridade suprema, e não há vida fora dele.

É nessas horas que se testa a integridade de um indivíduo. O homem perante a queda do sistema – eis o derradeiro teste de caráter. Há os que reagem ao imprevisto com fúria, urrando, socando as paredes, como quem acaba de encontrar uma imensa verruga peluda no nariz – sinal inequívoco do final dos tempos, de que não há motivos para continuar existindo.

Mas também há gente ponderada na Terra, gente sábia que entendeu que não somos nada nesta implacável engrenagem cósmica e que, portanto, com ou sem verruga peluda no nariz, nenhum surto de fúria irá reverter a triste verdade: o sistema parou de funcionar – e viva-se com isso.

Não vai dar para autenticar os documentos, marcar uma endoscopia, efetuar a transferência monetária que salvaria a vida de sua tia na Holanda, curtir o vídeo daquela lépida tartaruga no Facebook. Impossível colocar créditos no celular, encomendar maçãs carameladas, retirar os remédios gratuitos para hipertensão que você teria que tomar hoje, do contrário morrerá amanhã. (A morte iminente é um dos efeitos colaterais da total subserviência ao sistema.) Sinto muito, senhor. É o sistema – e não há previsão.

Nas repartições públicas, a queda fatal do sistema pode antecipar o recesso de fim de semana e trazer muitas alegrias ao homem simples, devotado à máquina estatal. Em horário de expediente, a derrocada da rede – também chamada de “pau no servidor” – é uma ótima desculpa para ceder àquela necessidade imperiosa de lixar as unhas, ler o catálogo da Avon e papear ao telefone, enquanto a fila vai se multiplicando. A prática é tão difundida que existe um protocolo específico para anunciar ao público o apagão da rede. O funcionário deve executá-lo com certo ar enlutado, convocando todos à resignação, como convém a um legítimo barnabé – afinal, é o sistema.

Na iniciativa privada, a coisa não muda muito: se não há rede, não há com o que trabalhar, e o senhor não queira sequer insinuar que devemos desencavar uns formulários pautados do almoxarifado e preencher planilhas com caneta preta e papel-carbono, pois muitos de nós têm as falanges atrofiadas e o Meirelles da contabilidade nem sabe o que é escrever à mão.

A queda do sistema está para os burocratas assim como o “mau humor do mercado” está para os economistas e a virose para os médicos: ela justifica tudo sem nada explicar. A queda do sistema é a filosofia insuperável da nossa época.

À guisa de desculpa, se alguém ainda perguntar, pode-se alegar que “o menino do TI” já foi acionado e está a caminho. Às vezes, nem isso: a funcionária do guichê bota a plaquinha no vidro e solta um suspiro entediado quando alguém pede detalhes sobre a normalização dos serviços. É preciso aguardar a volta do sistema, e uma hora ele há de voltar. Oremos.

Outros funcionários ensaiam uma desculpa absolutamente aleatória: “É o horário”, “a chuva”, “a manutenção nos servidores”, “o efeito estufa”, “a conjunção astral”, “os campos magnéticos”. Reiniciar as máquinas ou dar um chute na mesa também pode restabelecer o respeito geral – no mínimo, dá a impressão de que algo está sendo feito pelo sistema.

Curioso é que, tempos atrás, lutava-se contra o sistema, e agora a torcida é para que ele jamais caia.

Poucos sabem que ele é pensado para sofrer tilts com certa regularidade, em maior ou menor escala, e para ruir por completo sem razões plausíveis – do contrário não seria tão respeitado. Nem tampouco sistêmico. Karl Marx já explicou, em seu Manifesto Comunista, que o sistema contém em si o germe da destruição do próprio sistema; em algum lugar, em meio a uma porção de códigos binários e comandos incompreensíveis em linguagem php, há sempre uma determinada linha que põe tudo a perder.

<?php if( random ):?>{ CRASH

Não se brinca com o sistema.



Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times