despedida

A queda

Os últimos dias da candidatura de Marina Silva

Fernando de Barros e Silva
ILUSTRAÇÃO: ESTÚDIO ONZE_2014

“Cadê a Marina? Ela desistiu?” João Paulo Capobianco olhou o relógio e com um sorriso aflito lançou a pergunta no ar, para que todos a ouvissem. Ali mesmo, em pé no saguão do hotel, o ambientalista, um dos assessores mais próximos de Marina Silva, havia acabado de virar uma dose de uísque. Eram mais de oito e vinte da noite, e o debate na Rede Globo, o último do primeiro turno da eleição presidencial, estava marcado para as dez. A caravana em direção ao Projac deveria ter partido às sete e meia da Barra da Tijuca, onde estavam hospedados. Duas dezenas de assessores andavam de lá para cá, espiavam os celulares, conversavam em rodinhas que se formavam e se desfaziam a todo instante, como um termômetro da ansiedade.

O Datafolha tinha acabado de divulgar uma nova pesquisa. Faltavam três dias para a votação, e a distância entre Marina e Aécio Neves não parava de encurtar: 24% a 21% a favor dela. Recostado numa poltrona, com o paletó aberto e a gravata sobre a barriga saliente, o presidente do PPS, Roberto Freire, observou: “A curva atenuou, deu uma estabilizada.” Em pé, à sua frente, um dos coordenadores do programa de governo do PSB, o deputado pernambucano Maurício Rands, também não parecia acreditar em virada tucana e projetava os próximos passos da campanha: “Marina tem que ligar para o Alckmin no domingo. Tem que ligar para o Alckmin e o Fernando Henrique, fazer um gesto. Vocês não acham?” “Esse aí deixa comigo, está conosco”, respondeu um tranquilo Freire, referindo-se ao ex-presidente. “Ela precisa fazer vários gestos”, emendou Walter Feldman, acentuando o váááários ao entrar na conversa. A ênfase do antigo deputado tucano não deixava dúvidas: a articulação política da candidatura era um problema.

A imprensa não sabia onde Marina estava hospedada. Depois de semanas de negociações, ela havia concordado que a piauí a acompanhasse durante um eventual segundo turno. A revista teria acesso aos bastidores da campanha, sob o compromisso de só publicar a reportagem depois da eleição. Nosso primeiro contato nesses termos foi antecipado para 2 de outubro, a data do debate. “Você vai ver, eu sou uma índia velha e desconfiada”, me diria ela no dia seguinte, quando enfim conversamos pela primeira vez.

Marina passou a tarde daquela quinta-feira no quarto do hotel. Recebeu a visita de uma fonoaudióloga para tratar da voz. Sua fragilidade física era a principal preocupação dos assessores em relação ao encontro na Globo. Foi instruída a descansar – o mais importante era parecer disposta, animada, segura.

No subsolo do hotel, os integrantes da campanha se reuniram após o almoço numa sala para definir a equipe de comunicação e propaganda do segundo turno. O marqueteiro argentino Diego Brandy, mantido por Marina após a morte de Eduardo Campos, coordenaria as peças de rádio e tevê. Mas com ele trabalhariam outros profissionais: um exclusivamente encarregado das inserções curtas, nas quais a campanha poderia rebater os ataques do PT; outro que se ocuparia da região Nordeste, onde o lulismo é muito forte; e um terceiro, incumbido da tarefa específica de modular o discurso para a classe C, considerada decisiva na disputa.

A agenda da reta final do primeiro turno teve que ser incluída às pressas na pauta da reunião. Estava prevista para o dia seguinte, sexta-feira, uma visita a São José do Rio Preto, cidade do interior paulista governada pelo PSB. A campanha apostava que a estrutura local do partido permitiria arrebanhar um bom público em torno de Marina a fim de produzir imagens de força para os telejornais da noite. E o estado de São Paulo, onde ela chegou a ter 40% das intenções de voto, era o grande responsável pela manutenção da vantagem sobre Aécio até a última semana – apesar da desidratação contínua da candidatura. Na véspera, porém, o comitê avaliou que o evento de Rio Preto tinha de ser cancelado. A organização havia falhado, a cidade não estava preparada para receber a presidenciável, Marina corria o risco de passar por constrangimentos depois de um esforço inútil de deslocamento, justo ela, que tem pânico de avião. Decidiu-se ali, na tarde de quinta, que trocariam o interior paulista por um passeio em carro aberto pela Tijuca, na capital fluminense.

 

Passava de oito e meia da noite quando Marina surgiu na porta do elevador. Trazia sobre a blusa amarela um xale verde, que acabou não usando no debate. O figurino estilizado da bandeira brasileira havia sido produzido pela filha mais velha, Shalon, que a acompanhava. Com um sorriso largo no rosto, Marina caminhou em passos lentos na direção da entrada do hotel. Deu um longo abraço em Capobianco, entrelaçando as mãos em suas costas. Fez o mesmo com a amiga Neca Setubal, responsável, ao lado de Rands, pela coordenação do programa de governo. Distribuiu mais abraços pouco protocolares, sem pressa. Alguém então sugeriu uma foto do grupo. Marina mandou chamar dois ou três integrantes que já estavam dentro da van. Queria todos na imagem. Fizeram ali o último registro da cúpula da campanha reunida. No dia seguinte, nem o presidente do PSB, Roberto Amaral, nem lideranças da Rede, como Alfredo Sirkis, nem Roberto Freire, tampouco um Romário já ausente da foto, seguiriam junto à candidata em seu passeio pela Tijuca.

Na van, sentada na janela atrás do motorista, Marina empunhava uma lanterninha para consultar uns papéis durante o percurso. O ambiente à sua volta lembrava um pouco a balbúrdia de uma perua de escola. Um celular com piadas sobre os presidenciáveis passava de mão em mão. Logo circulou outro, com um vídeo de mensagens gravadas em apoio à candidata. Marina disse que gostou. De vez em quando ela interagia com o grupo, e voltava a submergir em suas anotações.

A certa altura, o deputado gaúcho Beto Albuquerque, vice na chapa, atraiu a atenção de todos ao relembrar um episódio ocorrido naquela semana, em Pernambuco. Depois do comício de Marina no Recife, com a participação da família Campos, Severino Cavalcanti quis cumprimentar a candidata. Hoje sem mandato, o notório ex-presidente da Câmara teve barrada sua candidatura à reeleição para prefeito de João Alfredo, sua cidade natal, com base na Lei da Ficha Limpa. Marina não o queria por perto. Ao vê-lo se aproximar, e sabendo da aversão da candidata, Beto Albuquerque se colocou abruptamente no caminho, abraçando Cavalcanti com entusiasmo. Em pé, equilibrando-se entre o banco e a porta da van, o vice recordava a cena de maneira teatral: “Ele punha a cabecinha por cima do meu ombro, eu girava o corpo; ele tentava do outro lado, eu virava junto. Ele levantava o bracinho, eu puxava. Dançamos um forró assim, ele e eu abraçadinhos, e Marina escapou pelos fundos”, narrava o vice, remexendo o corpo, para uma plateia às gargalhadas.

Quase na entrada do Projac, quando o carro parou, um pequeno grupo com bandeiras do PSB reconheceu Marina. Uma mulher se aproximou e esticou o braço pela janela: “Estamos orando por você.” “Amém”, respondeu a candidata, levantando-se para tocar a mão da militante.

 

“Fala pra mãe ir pra cima.” No auditório da Globo, Shalon recebia pelo celular mensagens da irmã mais nova, Mayara, que assistia ao debate pela tevê. “Diz pra ela ir pra cima”, insistia a caçula. Não adiantou. Marina estava apagada, sem iniciativa, parecia anestesiada, acabou engolida. Eram esses os comentários, sintetizados na frase de um assessor, assim que o encontro terminou: “Deu tudo errado.” Aécio Neves e Dilma Rousseff haviam polarizado a cena. O tucano, especialmente seguro e incisivo, saíra da noite como o grande vencedor. Marina teve uma atuação de figurante.

Alguns dias antes a candidata tinha ido pra cima. Ao discursar em Paraisópolis, a maior favela de São Paulo, reagira de forma contundente aos boatos de que iria acabar com o Bolsa Família. Mencionou a infância no Acre, e sua voz embargou ao lembrar que os pais haviam se privado de comida para alimentar os oito filhos. Sabia na carne o que era passar fome: “Quem viveu essa experiência jamais vai acabar com o Bolsa Família.”

A fala foi tão impactante que os marqueteiros resolveram usá-la no encerramento da propaganda de tevê. Era essa mesma performance, de uma indignação genuína, que as filhas e demais marinistas esperavam ver no debate. Não foi assim. Um membro da equipe de Marina comentou comigo: “Se você reparar bem, ela já está com a cara cansada naquele discurso de Paraisópolis. Não tinha como sustentar por muito tempo aquele tom.”

Mesmo quando tratou do Bolsa Família, a candidata não foi tão feliz no debate. A certa altura, assumiu pela primeira vez o compromisso de pagar o décimo terceiro salário aos beneficiários do programa. A proposta, conforme me diria depois um assessor, tinha sido um sucesso entre os eleitores do Nordeste. Pesquisas qualitativas realizadas ao vivo mostraram isso. Tanto assim que Marina repetiria a ideia no dia seguinte, na entrevista que concedeu no Rio. Outro assessor, no entanto, me disse que a história do décimo terceiro havia sido “desastrosa”. O eleitorado de São Paulo reagiu muito mal. O público que assistia ao debate àquela hora da noite não era o do Bolsa Família. Marina deveria ter feito uma proposta de apoio às famílias endividadas que recebem entre dois e cinco salários mínimos. Isso, sim, defendeu o assessor, poderia produzir um impacto positivo.

O debate da Globo, com uma audiência média de 21 pontos, teve o efeito de acelerar a tendência de queda, mas não foi preponderante para a exclusão de Marina do segundo turno – sobre isso havia um consenso. Àquela altura, o destino da candidatura estava selado. Um marinista próximo da presidenciável usou a metáfora do desastre aéreo – traumática, por todas as razões – para explicar a derrocada: “É como um acidente de avião: você não tem uma causa única, mas entre elas está sempre alguma culpa por parte do piloto.” As pesquisas do partido apontavam que, ao longo de setembro, Marina fora perdendo progressivamente a confiança do eleitorado em três atributos: firmeza, experiência e capacidade de gestão.

Tanto o consultor de pesquisas da candidatura, o sociólogo e ex-diretor do Datafolha Gustavo Venturi, como o marqueteiro Diego Brandy tinham consciência de que travavam uma corrida contra o tempo. O desafio era administrar a velocidade da queda, tida como inevitável.

 

O primeiro baque na fugaz euforia do marinismo surgiu antes mesmo da artilharia petista, na decolagem da candidatura, com a trapalhada na divulgação do programa de governo. O recuo em relação ao reconhecimento do casamento gay teve impacto negativo em especial entre os jovens, o público que havia identificado em Marina um canal de renovação da política durante as revoltas de 2013. Foi esse o primeiro segmento em que refluiu a vantagem dela sobre Aécio. Justamente o mais atuante nas redes sociais, mídia em que a campanha apostava muito para compensar seu esquálido tempo de tevê. Parte significativa desse voto jovem acabou clicando o número 13 depois de flanar à procura de um nome. O episódio criou a deixa para colar em Marina o estigma da candidata ziguezagueante, que diz uma coisa e seu contrário.

Logo na sequência, a socióloga Neca Setubal concedeu uma entrevista à Folha, na qual dizia que Marina iria manter os compromissos de Eduardo Campos, inclusive a proposta de autonomia do Banco Central. Não fosse ela, além de uma respeitada educadora, acionista e filha do fundador do Banco Itaú, o comentário talvez passasse em branco. Foi também por esse flanco que o PT entrou cuspindo bala: a publicidade criativa de João Santana associou Marina a vilões do mercado financeiro que tirariam o prato de comida da mesa do pobre caso a candidata chegasse ao poder.

Nos dois minutos de tevê de que a campanha dispunha duas vezes ao dia, três vezes por semana, era preciso apresentar a candidata, fazer propostas e se defender dos ataques. Os problemas se acumulavam: o PSB estava rachado, a articulação política da candidatura nos estados era frágil, Marina se ressentia da pouca estrutura partidária pelo país. Um quadro ligado à deputada Luiza Erundina, coordenadora da campanha, disse que a agenda da candidatura socialista havia virado “coisa de iniciáticos”, que as discussões eram “impressionistas”, que precisavam lidar a todo instante com a “administração de idiossincrasias”. O cuidado principal na definição da agenda era proteger Marina do empurra-empurra nas ruas. As escolhas dos eventos seriam “reveladoras do conteúdo político da candidatura”. Além disso, após a morte de Campos, a campanha ficou uma semana sem receber doações, até que conseguisse pôr em operação uma nova conta bancária. Apenas do comitê central de São Paulo, na Vila Mariana, foram descartadas 34 toneladas de material impresso, levados para trituração em duas imensas carretas. Depois disso, só houve condições para produzir 8 toneladas de panfletos com a nova chapa.

 

Marina chegou ao restaurante do hotel às 13h30. “Estou com peso na consciência, sem fazer nada até agora”, disse, ao consultar o relógio. Havia menos gente para cumprimentar do que na noite anterior. Estavam ausentes caciques do PSB e dos partidos aliados. Restavam os marineiros.

Beto Albuquerque se aproximou e exibiu à candidata uma imagem de seu celular. Era a foto que havia recebido do filho caçula, segurando um cartaz onde se lia “Faltam três dias”. No domingo, o vice estaria no Rio Grande do Sul para votar. Marina sorriu e disse palavras afetuosas. Em seguida, pegou um exemplar do jornal O Globo que estava sobre a mesa. “Adversário de Dilma no 2º turno está indefinido”, dizia a manchete. Logo abaixo, uma foto em que ela aparecia enfileirada ao lado dos demais candidatos, sob o título “Escândalos dominam último debate”. Recolocou o jornal na mesa sem abri-lo. Saiu sem fazer nenhum comentário.

Ao deixar a Barra em direção à Tijuca, na Zona Norte, Marina preferiu ir num dos carros da comitiva. “A Neca vai comigo”, disse. A van foi atrás. No posto de gasolina combinado como ponto de concentração, algumas dezenas de pessoas – não mais do que isso – esperavam a candidata. Ela saiu do carro e subiu num jipe. Tinha a companhia de um único vereador (e do PSOL), além do vice e dos fiéis escudeiros da Rede. Cinco veículos, mais um caminhãozinho de som, seguiram seu carro por um quilômetro. No caminho, a presidenciável dava a impressão de caçar com os olhos pessoas a quem pudesse acenar nas janelas dos prédios. “Isso está parecendo campanha de vereador”, comentou um assessor. A imprensa registrou o fiasco.

Ao final do trajeto, o coordenador da Rede no Rio, Carlos Painel, acionado na véspera, às pressas, para viabilizar a atividade, não escondia a satisfação. Gorducho, de barba e rabo de cavalo, evocando o estereótipo romântico da causa verde, ele comentava que tudo tinha sido feito na base do voluntarismo: “Já era mais de meia-noite quando consegui alugar esse carro de som no morro da Mangueira. Não foi fácil. Mas foi bom, não foi?”

A caminho do Aeroporto Santos Dumont, Marina me convidou a sentar a seu lado na van. “Não estou otimista nem pessimista, estou tranquila”, respondeu, quando perguntei sobre as expectativas para o domingo. Da eventual ida ao segundo turno, a conversa enveredou para os ataques que lhe foram dirigidos pela campanha de Dilma. Era sobre isso – a relação e os ressentimentos entre ela e o PT – que Marina parecia querer falar, ou estava condenada a fazê-lo. Referiu-se a sua candidatura como uma “canoa” alvejada por “ogivas do submarino nuclear” petista. Mencionou os boatos de que acabaria com o Bolsa Família e perguntou: “Como é que podem falar tudo o que falam?” Ela mesma respondeu: “Isso faz parte do sistema de valores deles, não do meu.” A seguir, com o mesmo tom de voz sereno, disse: “Eu sei quem eu sou. Eu sei. A Dilma pode fazer o que quiser. Eu vou continuar sendo quem eu sou.”

 

Em meados de setembro, Marina havia chorado ao falar de Lula durante uma conversa com a repórter Marina Dias, da Folha. “Eu não posso controlar o que Lula pode fazer contra mim, mas posso controlar que não quero fazer nada contra ele”, disse para a jornalista. Comparou sua situação com a do próprio Lula em 1989, quando a campanha de Fernando Collor espalhava que as pessoas teriam suas casas invadidas se o PT ganhasse. Tal como o Lula de então, ela agora se via como “injustiçada”, mas pelo próprio partido em que construíra sua vida política.

A resposta do ex-presidente veio em tom sarcástico: tratando-a duas vezes por “dona Marina”, Lula disse que ela não precisava “contar inverdades” a seu respeito para chorar. “Nunca falei mal da dona Marina e vou morrer sem falar.” Com o “dona”, emulava Paulo Maluf. Era assim que o atual aliado do PT se referia a Marta Suplicy quando disputavam a prefeitura paulistana em 2000.

O episódio ficou atravessado na garganta de Marina. Ela contaria algumas vezes aos mais próximos a mesma história: ao folhear o álbum de fotografias da família, uma de suas filhas tinha o hábito de reparar numa roupinha vermelha, no sapatinho vermelho, numa estrelinha ou em alguma outra peça que a vinculava ao PT. A campanha do partido contra Marina teve efeito devastador sobre essa memória afetiva. Em entrevista ao Bom Dia Brasil, da Globo, a candidata repetiu: “A minha filha perguntou: ‘Mãe, o que foi feito com a gente? A gente tinha tanto orgulho do nosso álbum.’” Foi esse o contexto, explicou Marina, que a levara ao choro dias antes, quando se referiu a Lula.

A van chegou ao aeroporto. Marina distribuiu alguns autógrafos, posou para celulares e embarcou rumo a São Paulo. Participaria no sábado de um ato público na Zona Leste e então viajaria até o Acre, onde iria votar. Voltaria a São Paulo no próprio domingo.

 

O empresário Guilherme Leal, candidato a vice do Partido Verde quando Marina disputou pela primeira vez a Presidência, em 2010, chegou ao hotel George V, no Alto de Pinheiros, às seis e meia da tarde do domingo. Dirigiu-se diretamente ao 1º andar, onde a candidata já estava em companhia da família, alguns assessores e lideranças políticas que a apoiavam. O Tribunal Superior Eleitoral tornaria públicos os primeiros resultados a partir das sete da noite, assim que se encerrasse a votação no Acre. Desde a véspera as pesquisas apontavam Aécio Neves no segundo turno. A boca de urna do Ibope, divulgada havia pouco, confirmava a tendência com folga.

Leal, ainda assim, entrou no hotel carregando o rascunho de um discurso de vitória. O presidente do PSB, Roberto Amaral, chegou quinze minutos depois. E Neca Setubal aportou às sete e meia, quando a derrota já estava consumada.

Assim que ouviu o primeiro boletim do TSE, com a apuração avançada, Marina se retirou com a família para um cômodo à parte. Só ela, o marido, Fábio, e os quatro filhos – Shalon, Danilo, Moara e Mayara, os dois mais velhos do primeiro casamento. Recolheram-se por meia hora, talvez um pouco menos. Ela falou e eles rezaram.

Quando voltou à sala, a candidata disse aos presentes que o resultado das urnas indicava uma demanda por mudança. Deixou claro que não apoiaria Dilma no segundo turno. Redigiram, então, um discurso, a ser pronunciado logo depois, no Espaço do Bosque, na Lapa, onde a imprensa a aguardava. Alguém alertou que era preciso correr, caso contrário a militância reunida no local poderia se dispersar. Marina desceu para o saguão do hotel acompanhada pelos filhos. Parecia imperturbável. Perguntei como se sentia. “Estou muito bem.”

A poucos metros dela, Beto Albuquerque não conseguia conter a contrariedade. Gesticulando muito, recorreu ao resultado da eleição gaúcha para explicar o que lhes acontecera. No Sul, José Ivo Sartori, o candidato do PMDB que ele e Marina apoiavam, havia arrancado de forma fulminante no final da campanha, excluindo a senadora Ana Amélia, do PP, da disputa no segundo turno contra Tarso Genro: “Ela fraquejou no debate. E o eleitor gaúcho não tolera isso. Olhou para o Sartori e apontou: é aquele ali que vai derrotar o PT.” Ele mesmo tratou de explicitar o paralelo óbvio: “Talvez tenha faltado essa contundência à Marina”, disse, enquanto fazia o gesto de um esgrimista espetando com vontade a barriga do adversário.

Não eram ainda nove da noite quando a comitiva tomou o rumo da Marginal Pinheiros em direção à Lapa, numa cidade àquela altura estranhamente calma e deserta.

 

Ao sinalizar naquela noite que apoiaria Aécio Neves no segundo turno, Marina voltou a criticar os métodos do PT e disse que era melhor “perder ganhando”, como ela própria. A meu lado, um membro da campanha comentou: “Do jeito que foi, ela perdeu perdendo. Precisamos nos reunir para entender o que aconteceu.”

Não há consenso sobre isso. Alguns insistem no desgaste inegável de imagem e na frustração das expectativas depositadas em Marina para sustentar que ela saiu da eleição menor do que entrou. Outros lembram que, em apenas quarenta dias de campanha, para a qual foi convocada em circunstâncias traumáticas, e depois de ter sido massacrada pelo PT dispondo de pouquíssimo espaço na tevê para se defender, ela conseguiu, ainda assim, ter mais votos do que obtivera em 2010. “Erra quem confunde a derrota eleitoral com a derrota da agenda política empunhada por Marina”, disse o coordenador de comunicação da campanha, Nilson Oliveira.

Na eleição anterior, ela se retirou de cena depois do primeiro turno. Agora, mesmo derrotada duas vezes pelo PT, Marina decidiu permanecer na vitrine. Não esperou a vitória de Dilma completar três dias para divulgar um vídeo em que se colocou na linha de frente da oposição. Repisou a tecla do “marketing selvagem baseado na mentira” e cobrou da presidente reeleita mudanças na economia, na política e na atitude, depois de constatar que “o Brasil está dividido”. Marina é que talvez não esteja mais: na véspera de gravar seu depoimento, confidenciou a um amigo que a eleição, se produziu sobre ela algum efeito, foi o de tê-la emancipado de Lula emocionalmente. Entre nós dois – ela falou – não existem mais vínculos.

Fernando de Barros e Silva

Fernando de Barros e Silva é diretor de redação da piauí desde janeiro de 2012 e autor de Chico Buarque (2004), da PubliFolha

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