poesia

A sereia e o centauro

Ana Martins Marques
ILUSTRAÇÃO: CENTAURUS CONSTELLATION_1603_SPL/LATINSTOCK

Podemos atear fogo
à memória da casa
desaprender um idioma
palavra por palavra
podemos esquecer uma cidade
suas ruas pontes armarinhos
armazéns guindastes teleféricos
e se ela tiver um rio
podemos esquecer o rio
mesmo contra a correnteza
mas não podemos proteger com o corpo
um outro corpo do envelhecimento
lançando-nos sobre a lembrança dele

*

É bom lembrar lembranças dos outros
como quem se oferece para carregar as compras de supermercado
de outra pessoa
é bom usar palavras que nunca usamos
palavras que só conhecemos dos livros
de botânica dos anúncios de cruzeiros dos contratos de locação
é bom portanto usar palavras emprestadas
nem que seja para lembrar
que só temos palavras de segunda mão
é bom ficar de vez em quando para dormir na casa de um amigo
usar uma velha camiseta dele habitar alguns de seus hábitos
usar à noite se possível um de seus sonhos recorrentes
é bom encontrar uma vez ou outra pessoas que conhecemos na infância
é bom nos esforçarmos por um tempo
para parecer com a lembrança delas
é bom topar de repente com um tanto de areia
no bolso de uma calça jeans que há tempos não usamos
seguir as instruções do horóscopo de um signo
que rege um dia em que não nascemos
vestir-nos de acordo com a previsão do tempo
de uma cidade que nunca pensamos visitar
é bom ao menos uma vez na vida fazer uma viagem
em companhia de um parente morto
é bom escrever de vez em quando poemas
com viagens por dentro
com cidades e memórias de paisagens por dentro
que pareçam escritos
por outra pessoa

*

As casas pertencem aos vizinhos
os países, aos estrangeiros
os filhos são das mulheres
que não quiseram filhos
as viagens são daqueles
que nunca deixaram sua aldeia
como as fotografias por direito pertencem
aos que não saíram na fotografia
– é dos solitários o amor

 

SEREIA

Sereia
centauro
com sal

melhor é tua metade
animal

a parte humana sendo humana
sempre mente

só mesmo um peixe pode ser
contente

de nada te serviriam
joelhos ou pés

o que és é também
o que não és

nada
é o que fazes bem

metade do que sou
não sou também

 

CENTAURO

E morreu relativamente jovem — porque a parte
animal mostrou-se menos capaz de durar que a sua humanidade
Joseph Brodsky, “Epitáfio para um centauro”

Como um velho centauro
cuja parte humana
sobrevivesse à parte animal
temos próteses, extensões
enfeites, móveis
que nos sobrevivem
levamos conosco
palavras que não usamos
planos que já não temos
mulheres que não amamos
pai morto
cachorro morto
amigos mortos

Como um velho centauro
que levasse a passeio
seu rabo
morto
de cão
seus olhos
mortos
de pássaro

Ana Martins Marques

É poeta e autora de O Livro das Semelhanças, da Companhia das Letras

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