religião & literatura

À sombra dos ectoplasmas em flor

Luigi Pirandello morreu em 1936, mas continua escrevendo, e em português, numa saleta na periferia paulistana. Ele faz parte do boom da produção d'além-túmulo

Chico Mattoso
FOTO: KAMIL VOLNAR_PHOTONICA_GETTY IMAGES

“Quanto espaço temos?” Quem pergunta é Zibia Gasparetto, 80 anos, empresária e escritora, também conhecida como a mais bem-sucedida médium brasileira. Bem posta numa poltrona de couro, em seu escritório no bairro do Ipiranga, em São Paulo, antes mesmo de começar a entrevista ela quer saber que destaque terá nesta reportagem. Ouve que é um pouco difícil prever isso, solta um suspiro, resolve deixar para lá. Seu escritório tem o pé-direito alto e paredes branquíssimas. Sobre a mesa de tampo de vidro, nenhum papel, dois telefones, um enorme monitor de cristal líquido, uma orquídea branca. Difícil imaginar esse ambiente neutro, mais parecido com uma sala de espera de dentista caro, visitado por entidades como Lucius, autor espiritual de boa parte dos livros de Zibia. Não deveria haver uma vela acesa em algum lugar? Incenso? Um altar, talvez?

Zibia Gasparetto veste uma blusa laranja, usa maquiagem discreta, tem estampado no rosto um sorriso permanente, que lhe confere o ar sereno de uma tia-avó de Walt Disney. Sua bonomia contrasta com os maus bofes de Jorge Rizzini, médium como ela, mas nem um pouco afeito a contatos de ordem jornalística. Aos 81 anos, ele ameaça desligar o telefone, alega que está muito velho, diz que prefere que o deixem em paz. Rizzini é autor da Antologia do mais-além, reunião – hoje esgotada – da poesia de 44 autores espirituais, entre os quais figuram sumidades do além-túmulo como Olavo Bilac, Mário de Andrade e Luís de Camões. Juntas, as obras de Zibia, Rizzini e seus colegas de mediunidade formam um gênero que ocupa uma fatia considerável do mercado editorial: aquela que, supostamente, é escrita por autores que partiram desta para outra, que abotoaram o paletó de madeira, que comem margaridas pela raiz, que bateram as botas.

Não há nada de etéreo nos números da produção espírita no Brasil. O último levantamento da Câmara Brasileira do Livro, de 2003, aponta cerca de 6 milhões de exemplares publicados no ano, um aumento de 150% em relação a 2001. O Brasil já conta com cerca de 200 editoras espíritas, e nos últimos anos a vendagem foi impulsionada por estratégias comerciais como a que permitiu à Avon incluir livros psicografados em seu catálogo de loções e desodorantes. Chico Xavier, o rei do gênero, publicou mais de 400 títulos, chegando à marca colossal de 25 milhões de exemplares vendidos. Zibia Gasparetto, sua sucessora no quesito sucesso editorial, mantém-se há cerca de quinze anos nas listas de mais vendidos – e conseguiu a façanha de emplacar até quatro livros simultâneos entre os dez mais.

Tal grandiosidade dá margem a pelo menos uma conclusão: nunca, na história da humanidade, os autores defuntos trabalharam tanto. Vive-se um boom criativo no além-túmulo. Só em 2003, foram 900 obras publicadas, média de 75 por mês. A produção póstuma se espalha em romances, contos, crônicas, poemas, ensaios e narrativas infantis. O que é igualmente impressionante: a grande maioria desses títulos é psicografada por médiuns nacionais.

A ampla presença desencarnada nas prateleiras brasileiras tem uma explicação histórica. Embora nascido na França, no século XIX, pelas mãos de Allan Kardec, o espiritismo ganhou força e extensão no Brasil, que em algumas décadas se tornou a maior nação espírita do planeta. Talvez esse mercado pujante explique por que desencarnados célebres como Balzac, Pirandello, Eça de Queiroz e Tolstoi, ao invés de procurar seus conterrâneos, prefiram aportar por aqui e ditar suas mensagens para médiuns brasileiros – que também psicografam entidades como Patrícia, André Luiz, Charles e Emmanuel, best-sellers cuja fama literária só veio depois da passagem para o chamado, como dizem os crentes, “mundo invisível”.

O tamanho do público não é suficiente para explicar o espantoso volume da produção literária espírita. Como nota Antônio Flávio Pierucci, professor da Universidade de São Paulo e especialista em sociologia da religião, o espiritismo kardecista se caracteriza pela ausência de hierarquia sacerdotal. Não há, como em outras religiões, uma ortodoxia que regulamente a conduta dos fiéis e delimite, com clareza, o que é espírita e o que não é. O resultado é uma certa fluidez doutrinária, que permite a qualquer pessoa escrever um livro espírita. Não é preciso nenhum tipo de comprovação religiosa ou permissão superior. A análise da seriedade e relevância do “trabalho mediúnico”, assim, acaba ficando a cargo das editoras.

Flávio Machado, da Petit, uma das maiores editoras espíritas do país, lamenta a frouxidão no controle da produção. “Tem editora que publica qualquer coisa”, diz ele, deixando escapar um suspiro indignado. Machado tem no catálogo best-sellers como Vera Lúcia Marinzek, cujo Violetas na janela, ditado pelo espírito Patrícia, vendeu quase 1,5 milhão de exemplares. O cuidado da Petit com a seleção de originais está exposto no Manual do Autor Espírita, à disposição no site da editora. Lá, o médium iniciante encontra sugestões sobre como escrever um livro e responde a um questionário que serve de base para que o Decaed (Departamento de Conselho de Análise Editorial e Doutrinária) avalie o original. O manual tem dicas como “hoje as editoras estão fugindo do livro muito grosso”, “se for um romance, não ficar filosofando muito” e “o melhor programa de computador para escrever um livro é o Word”.

Responsável por 40% do mercado, a Federação Espírita Brasileira se vangloria da rigidez com que avalia os originais. Ali, a seleção é supostamente mais séria, porque se baseia nos preceitos de Allan Kardec. O francês, de fato, escreveu algumas linhas sobre o assunto, aconselhando “não se aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto” e alertando para a existência de “espíritos mistificadores” que induzem ao erro o médium inexperiente – mas não foi muito além disso. O mais perto que Kardec chega de uma orientação objetiva é quando recomenda que se publiquem somente livros repletos de “bom senso”, “lógica” e “racionalidade”, o que, é de se supor, não deve ajudar muito o avaliador de originais.

Do outro lado da linha, Jorge Rizzini segue com suas ameaças de bater o telefone. Entre as intimidações, felizmente, ele tagarela – e é com certa indignação que reage a uma pergunta sobre a autenticidade de seus amigos espirituais. “Sou um intelectual!”, exclama, afastando a possibilidade de se deixar enganar por um impostor do outro mundo. A partir daí, ele permite que a conversa flua, e passa a fazer uma interminável listagem de suas colaborações espirituais, que incluem desencarnados como José de Anchieta, Cego Aderaldo, Florbela Espanca e Duke Ellington.

Sim, além dos poemas, Rizzini psicografa canções inéditas de compositores do além. Em seu repertório, figuram obras de músicos tão distintos quanto Noel Rosa, Carlos Gardel e Giacomo Puccini. O médium admite não ter conhecimento musical. Quando a inspiração espiritual chega, ele cantarola num gravador as canções recebidas, e então pede que alguém mais afeito ao métier as transforme em notas e acordes. O envolvimento com o assunto é tão intenso que Rizzini já organizou oito edições do Festival de Música Mediúnica, o último deles transformado em DVD ao vivo.

Jorge Rizzini se define como um “médium consciente”, ou seja, não é do tipo que fica em transe durante o processo psicográfico. Ele apenas escuta – e às vezes enxerga – os espíritos, registrando suas mensagens. Também é possível conversar com as entidades, o que, segundo ele, já deu margem a alguns desentendimentos. “Já aconteceu de espírito vir ditar sonetos inadequados, com imagens sensuais. Mandei refazer.” Rizzini não tolera esse tipo de liberdade espiritual. Ele é um filtro, um editor: só aceita textos que, como diz, “passem uma mensagem”.

Um dos poemas de que o médium mais se orgulha de ter psicografado é “Meu testemunho”, do espírito Edgar Allan Poe. “É do mesmo nível de ‘O corvo'”, afirma, cheio de entusiasmo, para então começar a declamar, com voz empostada:

Numa fluídica mansão erguida em outra dimensão
Procurava eu esclarecer velhas questões filosofais…

E por aí vai. O poema, ele ressalta, não precisou de tradução, já que chegou diretamente em português. “Para os espíritos a linguagem é o pensamento”, explica. “Às vezes aparece alguém falando alemão ou italiano, mas a maioria das mensagens chega traduzida.”

Outro poeta presente na Antologia do mais-além é Manuel Bandeira, que contribui com dois poemas, e parece perfeitamente adaptado às questões da espiritualidade. Em “Tarefa”, ele discorre acerca da “canoa ectoplásmica” que o levou ao mundo da morte. Em “Louvação”, longo poema escrito em ritmo de cordel – e depois musicado pelos espíritos Ataulfo Alves e Vicente Paiva -, o poeta agradece ao Criador por sua trajetória de luz:

Louvo o Pai, louvo o Senhor
E louvo a reencarnação;
Sem meus oitenta e dois anos
No mundo da expiação,
Não teria aqui no Além
Alguma iluminação!

O envolvimento com a realidade do mundo invisível não é exclusividade do poeta do Recife. Que o diga Luigi Pirandello. Desde que desencarnou, o prêmio Nobel de 1934 produziu uma série de títulos, todos psicografados pelo médium Elifas Alves. Entre suas obras espirituais estão Vida de artista, Pensamentos sobre a humanidade e, numa releitura, uma de suas peças mais conhecidas, Seis autores em busca de um personagem. Essa última narra as desventuras de um grupo de intelectuais que, após a pré-estréia de uma peça, trocam impressões sobre o que acabaram de assistir. “O grande problema da verdade está na mentira”, proclama o protagonista, momentos antes de ser tomado por um “espírito obsessor” que lhe distorce os pensamentos e o leva a acreditar em valores negativos como o egoísmo e a dissolução da família. O livro guarda uma característica peculiar: a capa, que também é fruto da mediunidade de Elifas Alves, é de autoria do espírito Pablo Picasso.

Confrontado com um exemplar da obra, Maurício Santana Dias, professor de literatura italiana da Universidade de São Paulo, atesta: “A única semelhança entre Seis autores em busca de um personagem e o teatro de Luigi Pirandello está no pastiche do título”. Para ele, “não há nenhum vestígio da linguagem pirandelliana, nem do humorismo, muito menos da ‘farsa trágica’, que foi a sua marca”. O professor acredita que, se o livro for do espírito de Pirandello, o autor italiano deve ter desaprendido a escrever, ou então pregou uma peça no médium. Dias ainda considera duas alternativas: “Ou algum espírito burlesco (digamos, Stanislaw Ponte Preta) se fez passar pelo espírito do escritor siciliano, ou nenhum espírito se manifestou em absoluto – hipótese mais provável”.

Elifas Alves, de 48 anos, encara as críticas com tranqüilidade. Sentado numa pequena sala do Grupo de Estudos Espíritas A Caminho da Luz, em Ribeirão Pires, região metropolitana de São Paulo, o médium alisa o bigode e, fitando as paredes de tijolo aparente, diz que prefere se ater aos fatos. Exemplo: em 1991, sua peça mediúnica foi montada em São Paulo no mesmo momento em que, em outro ponto da cidade, Paulo Autran encenava o original de Pirandello. “Isso não pode ter sido coincidência”, afirma, certo de que o acontecimento tem explicação espiritual. “Ainda mais em meio ao Plano Collor!” O médium, que às quintas-feiras ministra no Grupo de Estudos o curso “A transformação do homem pela reforma íntima”, diz que as críticas costumam vir de pessoas pouco afeitas ao mundo da espiritualidade, e que caberia a elas estudar um pouco mais sobre o assunto antes de emitir opiniões.

Alves também é autor – em parceria com o espírito Eurícledes Formiga – de A vida no planeta feliz, retrato da vida de J. S. Bach numa colônia espiritual… em Júpiter. Mas ele admite: seu maior parceiro espiritual é mesmo Pirandello. Já são cinco obras em conjunto, e uma inédita está a caminho. “Falta só o título”, diz Alves, que aguarda com ansiedade por um novo contato do italiano. Prudente, o médium diz que nem sempre gosta dos nomes de seus livros – acha que alguns são “pouco comerciais” –, mas jamais se arrisca a descumprir as ordens do além.

O contraste entre os escritórios de Zibia Gasparetto e Elifas Alves é total. Em Ribeirão Pires, a sala apertada comporta uma estante de madeira, arquivos de papelão, um ventilador dos anos 80 e uma pequena mesa de reuniões, sobre a qual descansa uma jarra de água e alguns copos de plástico. A única semelhança com o reluzente escritório do Ipiranga é a quantidade de quadros na parede. Na sala de Elifas Alves, vemos um retrato amarelado de Jesus Cristo. Na de Zibia Gasparetto, uma grande tela pintada a óleo, onde se destaca a imagem de um homem de bigode, sentado numa poltrona e segurando um cachimbo. Zibia explica: é um retrato de Silveira Sampaio, dramaturgo e apresentador de televisão dos anos 60, hoje um de seus colaboradores espirituais. É preciso algum esforço para identificar, no canto do quadro, a assinatura de Modigliani. A pintura faz parte do acervo mediúnico de Luiz Gasparetto, filho de Zibia, especializado em incorporar pintores do além. É apenas uma entre as dezenas de psicografias espalhadas pela Editora e Gráfica Vida & Consciência, quartel-general dos negócios da família.

O dia-a-dia da mediunidade, para Zibia Gasparetto, não tem grandes mistérios. “Eu fico aqui, me concentro, eles vêm até mim”, diz ela. O trabalho é realizado de segunda a quinta, no período da tarde. As secretárias são treinadas para não interrompê-la nesses momentos, quando puxa o teclado de baixo da mesa e deixa-se levar pelas palavras de seus colaboradores espirituais, que lhe balbuciam sucessos como Nada é por acaso, Ninguém é de ninguém e O amanhã a Deus pertence. No início da carreira, Zibia não tinha controle sobre as visitas do além: podia ser despertada no meio da madrugada por um espírito disposto a tagarelar. Com o tempo, conseguiu disciplinar os horários, o que aumentou sua produtividade. No mês passado, enquanto seu último lançamento evaporava das livrarias, ela escrevia, simultaneamente, quatro novos livros.

Zibia Gasparetto se ajeita na poltrona para narrar sua história. Ela tem orgulho da sua trajetória, que teve o primeiro grande momento quando, aos 20 anos, largou o emprego num banco para casar-se com Aldo, o dono de um curtume. Certa noite, Zibia teve a primeira incorporação espiritual: pulou da cama, começou a caminhar pelo quarto e, com voz grossa, soltou algumas frases em alemão. O episódio marcou o início do envolvimento do casal com a doutrina. Em 1969, os dois abriram o centro espírita Caminheiros, no Ipiranga. Em 1980, Aldo morreu. Transformada numa das principais figuras do espiritismo brasileiro, Zibia viu-se cansada da militância religiosa – e começou a ouvir mensagens dos “amigos espirituais”, que diziam que ela devia abrir uma gráfica.

Não demorou e o negócio engrenou. Ainda sob orientação do além, Zibia abandonou o centro espírita e, com a ajuda dos filhos, dedicou-se exclusivamente ao trabalho na gráfica, que se somou às atividades da Editora Vida & Consciência, fundada pela família alguns anos antes. Com o novo negócio, Zibia Gasparetto começou a lucrar com seu dom mediúnico – e também descobriu em si um insuspeitado talento empresarial.

Foi o suficiente para que algumas correntes do espiritismo passassem a considerá-la uma traidora. Para os espíritas tradicionais, o médium não deve enriquecer às custas dos espíritos. Ele é, como o próprio nome indica, um “meio”: o material que põe no papel não lhe pertence. Chico Xavier, a despeito da fortuna arrecadada com a vendagem de seus livros, morreu com a aposentadoria que recebia como escriturário do Ministério da Agricultura. Divaldo Pereira Franco, outro dos principais médiuns do país, doaria tudo o que ganha para entidades assistenciais.

A opção de Zibia deu origem a contestações de todo tipo. Rivais sugerem que ela perdeu a capacidade mediúnica. Outros dizem que espíritos de ordem elevada jamais “ordenariam” a um médium que abrisse algo tão prosaico como uma gráfica. Há até quem questione a autenticidade de Lucius, seu principal colaborador espiritual, alegando que o estilo de seus textos varia. Antes mesmo de ser perguntada sobre o assunto, Zibia trata de se defender. Diz que tem consciência da variação de estilos e que não pode garantir que todas as histórias sejam de Lucius – só sabe que é ele quem as dita.

As polêmicas, tão presentes em qualquer meio literário, não podiam passar ao largo da produção espírita. O próprio Chico Xavier foi alvo de desconfianças, acusações e de um grande processo. O caso, célebre na época, envolvia um conhecido intelectual do início do século XX: o maranhense Humberto de Campos, cronista, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras.

Em 1932, o primeiro livro psicografado por Chico Xavier chegou às livrarias. Parnaso de além-túmulo reunia poemas ditados por autores defuntos, como Augusto dos Anjos, Castro Alves e Antero de Quental. O lançamento chamou a atenção de Humberto de Campos. Em artigo publicado no Diário Carioca, o escritor ironiza. “O primeiro pensamento que assalta o leitor”, escreveu, “é a idéia de que, nem no outro mundo, estará livre dos poetas. A poesia é uma predestinação de tal modo fatal, irremediável, que a vítima não se livra dessa maldição nem mesmo depois da morte.” Admitindo que os poetas do livro “apresentam as mesmas características de inspiração e de expressão que os identificavam nesse planeta”, o acadêmico se abstinha de concluir se os poemas eram fruto de trabalho mediúnico, ou se não passavam de um pastiche competente. E finalizava com uma provocação jocosa e materialista, invocando que cada espírito viesse “fazer a concorrência aqui em cima da terra, com o feijão e o arroz pela hora da vida”.

Pouco mais de dois anos depois de escrever o artigo, Humberto de Campos morreu. Então veio o impensável: Chico Xavier passou a incorporar seu espírito e, sem titubear, resolveu convidá-lo para escrever o prefácio à segunda edição de Parnaso de além-túmulo. Ironias da imortalidade. Humberto de Campos, que tinha suas dúvidas quanto à existência dos espíritos, agora era um deles – e, como tal, aceitava prontamente o convite. No prefácio, intitulado “De pé, os mortos!”, o defunto autor baixava a guarda e, com notável humildade, admitia: “Nas minhas atuais condições de vida, tenho que destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne”. O texto deu início a uma parceria mediúnica que rendeu doze títulos, entre os quais Crônicas do além-túmulo, Lázaro redivivo e o sucesso Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho. A dobradinha entre o médium mineiro e o cronista do outro mundo, era inevitável, provocou a eclosão de uma ribombante polêmica.

Em 1944, a viúva de Humberto de Campos entrou na Justiça contra Chico Xavier e a Federação Espírita Brasileira, que editava seus livros. O objetivo de Catarina Vergolino de Campos era obter uma confirmação oficial da autenticidade das obras atribuídas ao espírito de seu marido. Se aquelas páginas fossem realmente da lavra do falecido, dona Catarina queria ver a cor do dinheiro. O caso ganhou as páginas dos jornais, gerando discussões inflamadas nos meios espíritas e intelectuais. A própria mãe de Humberto de Campos se manifestou, discordando publicamente da nora. Para ela, o espírito escritor era mesmo de seu filho. E disparou: “Se os juízes decidirem que a obra não é dele, mas de Chico, acho que os intelectuais patriotas fariam ato de justiça se aceitassem Francisco Xavier na Academia Brasileira de Letras”.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. O juiz encarregado do caso concluiu: a propriedade intelectual se encerra com a morte do autor. Não cabia à Justiça analisar os direitos de um escritor defunto. Por via das dúvidas, Chico Xavier resolveu omitir o nome de Humberto de Campos de suas futuras parcerias espirituais – a partir de então, o espírito do maranhense ganharia o pseudônimo de “Irmão x”.

Apesar das controvérsias, Zibia Gasparetto jamais teve que enfrentar um grande processo – o máximo que recebe são contestações de ordem religiosa. Hoje ela nem se considera mais uma espírita: diz que prefere ser chamada de “espiritualista”. Para Zibia, a religião afasta as pessoas do que realmente importa. “Você tem que saber que você pode”, afirma, sem constrangimento com o fato de seus livros poderem ser lidos como guias motivacionais, ou de auto-ajuda. “Espiritualidade e auto-ajuda trabalham juntas”, observa, salientando que os espíritos estão sempre olhando pelo nosso sucesso material – é só “abrir o coração” para eles.

A empresa da família Gasparetto abriga hoje 170 funcionários. A gráfica tem produção mensal de 500 mil exemplares, e aluga suas máquinas para editoras como Globo, Ática, Moderna e Scipione. Responsável pela área financeira da Vida & Consciência, Zibia não revela seu faturamento. O lucro obtido, segundo ela, não vai para seu bolso, mas para a empresa. “Resolvemos ajudar quem trabalha”, afirma, e pela primeira vez se nota um tom ressentido em sua voz. “O brasileiro tem muito preconceito com dinheiro”, diz, enquanto sopra um bolinho de poeira da blusa. “Por isso o país é tão pobre.”

Quanto ao futuro da literatura espírita, Zibia não tem dúvidas: o mercado tende a crescer ainda mais. “Tanta miséria e violência… Nunca o mundo precisou tanto de consolo espiritual.” Jorge Rizzini, após quase duas horas de conversa, acha o mesmo, e manifesta a esperança de que sua Antologia do mais-além volte a ser editada. O editor Flávio Machado é ainda mais otimista: “Ainda não atingimos nem 10% do nosso potencial”. Não há como saber até que ponto os prognósticos estão corretos. Por via das dúvidas, é melhor que os espíritos se preparem: o trabalho parece estar só começando.

Chico Mattoso

Chico Mattoso é escritor, co-autor de Parati Para mim (Ática) e editor da revista Ácaro.

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