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A última palavra em matéria de pintura rupestre

Em túneis remotos como o fundo de cavernas, os grafites deixados no concreto de Itaipu pelos operários provam que vão longe os anos 70  

Alexandre Marchetti
No fundo da represa, sob o reservatório, em túneis de concreto onde não vivem nem insetos, os bichos grafitados por operários se empoleiram até nos tubos da fiação
No fundo da represa, sob o reservatório, em túneis de concreto onde não vivem nem insetos, os bichos grafitados por operários se empoleiram até nos tubos da fiação FOTO: ALEXANDRE MARCHETTI

Os construtores da usina de Itaipu percorriam diariamente galerias de serviço com milhares de quilômetros dentro da obra. E eles eram quase 50 mil pessoas. Grande parte dessa multidão anônima se revezava em turnos de doze horas, no interior da barragem, até as profundezas da casa de máquinas. Os paredões de concreto eram a única paisagem que os trabalhadores tinham pela frente durante o expediente. E grafitá-los era um jeito de transformar o labirinto inóspito num lugar vivo, ou pelo menos habitado para sempre pelas mãos que os rabiscaram de passagem.

Como fotógrafo de Itaipu, encarregado de documentar o cotidiano da hidrelétrica, esses jacarés, teiús, bois, burros, peixes, caricaturas, mulheres nuas e cenas pornográficas me ajudaram a reencontrar a escala humana numa construção que ultrapassa as medidas da realidade. Na primeira vez em que desci a ladeira para a represa, foi como se o carro me levasse em direção a uma miragem de rocha, ferro e cimento. À minha frente, os dutos que levam a água da barragem à boca das turbinas não paravam de crescer. Eu estava ao pé da maior estrutura que já tinha visto. E era o tamanho daqueles tubos brancos que me confundia e impressionava.

Pudera. São vinte condutos ao todo. Bastam dois para levar represa abaixo o mesmo volume de água que cai, por segundo, nas cataratas do Iguaçu. Eu estava diante de dez cataratas do Iguaçu encanadas. E elas encobriam pinturas rupestres e textos em português, espanhol e guarani em caligrafia meio hieroglífica. A represa e os grafites pareciam feitos ao mesmo tempo em eras muito diferentes. Nunca parei de fotografá-los, cada vez que entrava na usina.

E não é só nos túneis e subterrâneos que eles se espalham. De 1977 a 1983, o paraguaio Rusmildo Pedrozo Alvarez – hoje com 55 anos e pintor de cenários de óperas – usou as horas de folga para decorar as paredes dos dormitórios que habitava com desenhos a lápis, povoando de belas mulheres um espaço reservado a beliches de homens confinados.

Sobrou pouco dessas paredes, salvas na última hora da demolição, quando as picaretas se detiveram diante dos grafites de Alvarez. E, como a decoração das casas de Pompeia, elas agora parecem devassar a intimidade de existências que estiveram ali faz muito tempo.

No fundo da represa, sob o reservatório, em túneis de concreto onde não vivem nem insetos, os bichos grafitados por operários se empoleiram até nos tubos da fiação
No fundo da represa, sob o reservatório, em túneis de concreto onde não vivem nem insetos, os bichos grafitados por operários se empoleiram até nos tubos da fiação
Perto dos telefones de emergência e extintores de incêndio, onde há mais luz e movimento, os traços originais vão sendo retocados por novas mãos, como as que reavivaram a velha tanga com a tinta luminescente das tubulações
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Nas paredes do dormitório coletivo, salvas da demolição por sua causa, o paraguaio Rusmildo Alvarez rascunhou a história em quadrinhos do que passava pela cabeça dos operários aquartelados
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Em equipe a caráter, dois operários assinaram na parede a maior obra civil dos governos militares
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Debaixo da repressão política, o concreto aceitava tudo - da charge à pornografia
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As mulheres só puderam andar no labirinto de Itaipu há poucos anos, como funcionárias. Mas estavam lá desde o início
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Como nas pinturas rupestres, o tempo coloriu de fungos a base dos desenhos. Mas o verde foi com a tinta da empresa
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Alexandre Marchetti

Alexandre Marchetti é fotógrafo brasileiro radicado em Foz do Iguaçu.

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