esquina

A vara e a lira

Há preconceito contra vates-meritíssimos

Autor Anônimo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

A editora Martins vem de publicar um livro de 136 páginas intitulado Página órfã. É um volume de poemas, escritos entre 2004 e o ano passado por Régis Bonvicino. A revista Veja dedicou-lhe uma nota curta e entusiasmada. Ela situa o autor na tradição de Augusto dos Anjos. Sustenta que Bonvicino é “um dos mais destacados poetas contemporâneos do Brasil”. E diz que um dos versos mais contundentes do livro é: “Há cacos de vidro na comida todos os dias”.

Além de poeta, Bonvicino é juiz de direito, e exerce o ofício na 1ª Vara Cível do Fórum de Pinheiros, em São Paulo. Na condição de árbitro, o autor de Página órfã tomou duas decisões que envolvem a revista que veio a considerá-lo um dos mais destacados poetas do Brasil. Em ambas, concedeu direito de resposta a quem se sentiu prejudicado por Veja. Um dos casos, envolvendo a rede Bandeirantes e a revista, ainda está pendente de julgamento.

É tranqüilo acumular as funções de vate e magistrado? Quando uma publicação enaltece a obra poética do meritíssimo, algo muda no seu juízo?

Foi para conversar sobre esse e outros assuntos que se marcou um encontro com Bonvicino, no mês passado, num café na praça Vilaboim, em São Paulo. O poeta-juiz, que tem 52 anos, estava loquaz. Disse que não conhece nenhum poeta brasileiro talentoso com menos de 35 anos, e reconheceu que não se dá com nenhum com mais de 35. Em compensação, repetiu umas quatro vezes que é amigo do grafiteiro chamado Nunca, que teria uns vinte e poucos anos. A loquacidade terminou quando lhe foi posta uma pergunta envolvendo a nota elogiosa de Veja e as relações entre estrofes e alíneas.

Ele passou a fumar cada vez mais. Pediu outro café. Lembrou que alguns bardos, como o baiano Gregório de Mattos e o luso Camilo Pessanha, foram juízes.

Na mesma noite, Bonvicino enviou uma mensagem. Nela, se disse perplexo diante da questão sobre os laços entre toga e lira, e classificou de “notúncula” a nota de Veja favorável ao seu livro. “Hoje sou o único poeta brasileiro com três livros [grifo dele] publicados nos EUA, um na Espanha, um em Portugal e um no México”, escreveu. “Gullar não tem isso. Augusto de Campos não tem isso.”

Ao dizer que não mistura versos e leis, Bonvicino se permitiu um trocadilho com a Folha de S. Paulo: “Como diz aquele slogan gasto da FALHA: não tenho o rabo preso com ninguém: sou independente”.

No final da mensagem, defendeu que há preconceito contra os poetas que exercem o cargo de juiz de direito: “Ser poeta e jornalista pode; ser poeta e medíocre professor da USP pode; ser poeta e médico, como o [Moacyr] Scliar, pode; ser sabujo e fâmulo da Globo por décadas, como o Gullar, pode; juiz não. Por quê?”.

Que conclusão tirar da mensagem? Nenhuma. Ou então que Gullar, Augusto de Campos, Scliar, a Folha e piauí devem manter prudente distância da Vara de Bonvicino.

Autor Anônimo

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