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A verdade sobre os pandas

Biólogas brasileiras querem livrar o urso da fama de não gostar de sexo

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

A cena está no YouTube. Um urso panda morde a nuca da parceira enquanto tenta copular com ela. Mais adiante, um plano aberto revela que o casal está dentro de uma jaula, e que seu embate amoroso está sendo monitorado por uma equipe de cientistas chineses sorridentes que cronometram o coito e registram detalhes relevantes numa ficha. Quando o macho olha para o alto e emite um guincho de êxtase, os pesquisadores comemoram ruidosamente.

Não era para menos: o desempenho sexual do panda-gigante é objeto de grande preocupação dos cientistas. É notória a dificuldade desses bichos de se reproduzir em cativeiro. Postos frente a frente, machos e fêmeas criados em zoológico podem reagir à presença do outro com a mais solene indiferença. Que o diga Zhuang Zhuang, panda que residia na Reserva Natural Wolong, na China – o primeiro animal a tomar Viagra, num experimento malfadado para estimular seu apetite. À BBC, um pesquisador declarou que ele era um caso perdido: “Demos a Zhuang Zhuang muitas chances nos últimos anos, mas ele simplesmente não consegue.”

Outras tentativas de despertar a libido dos bichos foram mais bem-sucedidas. Alguns ficam estimulados ao ver vídeos e ouvir gravações de outros pandas em conjunção carnal. A pornografia ajudou a melhorar as taxas de reprodução em cativeiro na China e na Tailândia, mas fez pouco para livrar o panda do estigma de não ser muito dado à libertinagem.

No que depender das biólogas Neuza Rejane Wille Lima e Juliana Pipoli da Fonseca, a incômoda fama pode estar com os dias contados, ao menos no Brasil. Dispostas a esclarecer o que há de verdade por trás do mito, elas lançaram o livro Desinteresse Sexual do Panda-Gigante: Lenda ou Fato?

A ideia de reabilitar o panda surgiu numa aula de Rejane na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Numa disciplina que oferece regularmente sobre a evolução do sexo, a professora pede um trabalho final sobre um aspecto da sexualidade animal, à escolha dos alunos. Já recebeu monografias sobre a variabilidade do pênis nos mamíferos e sobre um composto presente no veneno de uma espécie chilena de viúva-negra capaz de provocar ereções de até três dias.

Quando cursou a disciplina, a então estudante de biologia Juliana Pipoli da Fonseca não teve dúvida: faria seu trabalho final sobre a sexualidade dos pandas, bicho pelo qual tinha grande simpatia. “Eu achava o panda fofo, mas depois que entrei na faculdade passei a me interessar mais por sua fisiologia, seu hábitat e outros aspectos. Fazer o trabalho foi uma boa oportunidade de conseguir mais informações sobre a espécie”, contou ela, falando de Paris, onde foi fazer pós-graduação em imunologia.

 
Os pandas passam o dia comendo raízes e brotos de bambu. Ingerem até 40 quilos por dia. Com o avanço da agricultura e da extração de madeira, as florestas montanhosas asiáticas onde eles viviam foram sendo postas abaixo. Na natureza, a espécie só é encontrada em reservas florestais no sudoeste da China, a mais de 16 mil quilômetros do campus da UFF. As estimativas mais otimistas calculam que restem no máximo 3 mil indivíduos vivendo em liberdade, sem contar os mantidos em cativeiro em vários países – o mais próximo de Niterói mora no zoológico da Cidade do México.

O demorado ciclo reprodutivo da espécie não ajuda a afastar a ameaça de extinção que ronda os pandas. Conforme ensina o livro de Juliana e Rejane, as fêmeas ovulam apenas uma vez por ano, durante a primavera, e seu período fértil dura de um a três dias. Para complicar, a espécie tem um ritual de acasalamento cheio de preliminares, que Rejane comparou a um flerte de antanho. “É como aqueles namoros antigos em que a fêmea só cedia depois de cortejada com serenata e flores”, disse a bióloga durante uma conversa no campus da UFF.

As fêmeas sinalizam aos machos que o momento mais aguardado do ano chegou com a emissão de sons que aumentam de frequência durante o período fértil. A seleção dos parceiros é feita também com odores que os pandas, machos e fêmeas, usam para se comunicar. Eles têm uma glândula abaixo da cauda que produz uma secreção de cheiro forte. Para os humanos, parece apenas uma gosma escura e pegajosa, mas para esses ursos revela pistas sobre o sexo, a idade e a condição reprodutiva do animal que a deixou.

Roçando o traseiro no solo, em pedras e troncos, os pandas vão deixando rastros dessa secreção pela floresta que funcionam como recados para seus semelhantes. Como num Kama Sutra zoológico, pesquisadores catalogaram as quatro posições mais comuns adotadas por eles nessa espécie de correio amoroso: sentados, de quatro, com uma perna levantada e plantando bananeira. “Alguns machos fazem isso para deixar a secreção no galho mais alto da árvore e ter certeza de atrair as fêmeas”, explicou Rejane.

É a dificuldade de reproduzir em cativeiro esse sofisticado jogo de sedução e reconhecimento que está por trás da proverbial apatia dos pandas de zoológico. “Se você colocar um macho na frente de uma fêmea, eles vão olhar um para o outro como se fossem espécies diferentes”, contou a bióloga. “Eles não se reconhecem, porque faltou todo o ritual de odores e de vocalização.” É injusto, portanto, afirmar que o panda não tem interesse por sexo. “Ele só é romântico.”

Rejane riu muito quando soube que, no Rio de Janeiro, um motel adota um panda como mascote. Numa propaganda veiculada em ônibus da cidade no mês de março, o bicho contempla com volúpia uma moça sinuosa em trajes sumários. A escolha não poderia ter sido menos adequada, a julgar pela reação da bióloga. “Ele é exigente e não vai com qualquer uma”, disse ela. “Panda não é coelho!”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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