esquina

A virada de Maycon

Não queira desafiar a voz das ruas

Luiza Miguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Maycon Freitas observava a manifestação. “Olha, muita gente veio aqui apenas para incitar conflito”, comentou, blasé. Recostado numa mureta, ele se mantinha afastado alguns metros do grupo modesto que, na tarde de 22 de março, um sábado, comemorava no Rio de Janeiro os cinquenta anos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, a série de manifestações de apoio ao golpe que depôs João Goulart. “Sempre fugi de confusão, não vale a pena”, afirmou, moderado. “Minha luta é pelo Brasil e o bem de todos.”

Com o cabelo e a barba bem aparados, porte atlético, Maycon vestia camisa polo e tênis Adidas, destoando do visual despojado dos manifestantes que foram às ruas desde junho de 2013. Mascando chiclete com gosto, palestrava para uma roda de amigos sobre suas opiniões políticas. Ele é um neoengajado de direita. Até o início do ano passado, não se interessava pelas grandes questões do país. Em julho, porém, foi pinçado pela Veja como “a voz que emergiu das ruas”. A revista publicou uma entrevista com ele e o apontou como responsável por reunir 4 mil pessoas num protesto em frente à igreja da Candelária.

Pouco tempo antes das manifestações de junho, o carioca de 31 anos esteve nos Estados Unidos. Encantou-se com o modelo americano, que, segundo disse, o fez atentar para o potencial de crescimento que o Brasil desperdiçava. Quando voltou ao Rio, criou no Facebook a página União Contra a Corrupção, em que posta mensagens sobre o mensalão e contra o PT. Na imagem de capa, lê-se: “De cara limpa e sem violência para mudar o Brasil!”

“Quando vieram os protestos em junho, fui às ruas emprestar meu intelecto para mudar o país”, recordou Maycon. “Foi quando a Veja me descobriu.” Ele diz ter sido perseguido nas manifestações depois da entrevista. “Falei as verdades que ninguém dizia, e nos protestos seguintes tinha gente querendo rasgar minhas faixas.” Na bandeira que levou à manifestação na final da Copa das Confederações, riscou o nome de todos os partidos e escreveu “Nenhum deles nos representa”. “Aí vieram dizer que era antidemocrático.”



Desde o ano passado, Maycon acompanha a maior parte das manifestações na cidade. A que celebrava a Marcha da Família – em frente ao Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, no Centro do Rio – lhe era especialmente cara. Ele acredita que somente as Forças Armadas podem “salvar o país da tentativa do PT de implantar um regime comunista no Brasil”. Naquele sábado de março, pediu o fim da “pregação de doutrinas marxistas” no ensino médio e superior e uma intervenção militar provisória para botar ordem no país. Nada muito radical – “Assim de uns três, seis meses no máximo”, calculou.

 

Espremidos entre cerca de 100 policiais militares que acompanhavam o evento, aproximadamente 150 pessoas clamavam pela derrubada do governo Dilma. Maycon ainda não tinha se juntado à aglomeração quando avistou bandeiras vermelhas do PSTU ao longe.

“Ó, ó! Vai começar a palhaçada”, disse, interrompendo a conversa com os colegas.

O dia estava nublado e já passava das três da tarde, mas Maycon ainda não havia tirado os óculos escuros. Na noite anterior, numa noitada na Lapa, confraternizara com amigos – e com adversários políticos. “Ontem fiquei com uma comunista, gente boníssima”, contou. Maycon conhecia a militante do PT das manifestações e gastou um tempo tentando convencê-la do intercâmbio. “Eu dizia: ‘Você me odeia? Eu não te odeio. Você está solteira, eu também.’” A moça acabou por ceder, segundo revelou em tom romântico. “Foi legal, sem agressão.”

Maycon reconhece que chegou atrasado ao debate político. Disse que tenta compensar a lacuna com leituras. Recentemente devorou Assassinato de Reputações: Um Crime de Estado, de Romeu Tuma Junior, ex-secretário nacional de Justiça que volta suas baterias contra o ex-presidente Lula, e Esquerda Caviar, do blogueiro Rodrigo Constantino. “Leio muita coisa de direita, mas no fundo não tenho conchavo com ninguém”, disse. “Pesquiso de tudo para bater com fundamento no erro deles.”

Ao menos cinco vezes por dia Maycon publica na página da União Contra a Corrupção montagens que ele mesmo faz ou que recebe de colaboradores. Aos 31 anos, está estudando segurança do trabalho numa universidade particular carioca. Faixa-preta de jiu-jítsu, já trabalhou como dublê na TV Globo. Agora está sem emprego, segundo diz, por “pensar diferente”.

Com o fim da tarde se aproximando, mais bandeiras vermelhas brotaram nas imediações da marcha. Maycon e seus amigos se entreolharam com uma expressão de desafio. “Ninguém aqui vai apanhar calado, não”, decidiu-se, surpreendendo o grupo ao caminhar vigorosamente na direção da contramanifestação. Foi o primeiro a alcançar os militantes do PSTU. “Esse aí é um bunda-mole ferrado!”, vituperou, emendando com impropérios menos publicáveis.

Uma senhora que participava da reedição da Marcha da Família tentou em vão contê-lo. Já sem o chiclete na boca, cuspido sem querer entre os berros, Maycon parecia alheio aos policiais incrédulos que testemunhavam sua explosão. Dedo em riste, ele lançou o corpanzil de quase 2 metros contra os militantes de esquerda. “Piranha!”, gritou para uma das manifestantes.

A Polícia Militar quase não precisou intervir para conter a agitação. A fúria de Maycon e de seus colegas afugentou praticamente todo o grupo sob a bandeira do PSTU – umas cinquenta pessoas. Tão rápida quando apareceu, a expressão de ódio no rosto de Maycon se desfez, e ele recobrou o ar de cordialidade anterior. “A gente se fala melhor depois, vou ficar com meus amigos agora”, despediu-se a voz que emergiu das ruas. “Superlegal te conhecer, viu?”

Luiza Miguez

Luiza Miguez é redatora do programa Greg News. Foi repórter e checadora de apuração da piauí entre 2011 e 2019.​

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