vozes do rio

A vizinha

Ela surgiu de repente à minha porta com uma história perturbadora

Armando Antenore
“Meus agressores não moravam na favela. Viviam em Olaria, bairro de classe mais ou menos. Por causa disso, a polícia não prendeu ninguém. Ficou a minha palavra de favelada contra a dos bacaninhas. ‘Ela pediu. Estava doidona.’ Doidona?! Não acharam uma gota de álcool no meu sangue!”
“Meus agressores não moravam na favela. Viviam em Olaria, bairro de classe mais ou menos. Por causa disso, a polícia não prendeu ninguém. Ficou a minha palavra de favelada contra a dos bacaninhas. ‘Ela pediu. Estava doidona.’ Doidona?! Não acharam uma gota de álcool no meu sangue!” FOTO_LEO MARTINS_2018

Eram dois, mas pareciam um – e cochilavam na porta de minha casa. Dividiam um edredom muito limpo, que estenderam próximo de uma árvore, sobre a calçada de pedras portuguesas. Cobertos com um lençol, se abraçavam tão umbilicalmente que, de longe, julguei se tratar de uma única pessoa. Ou melhor: de um rapaz. Eu o avistei mal saí do pequeno hall que abriga os elevadores do prédio onde moro há nove meses. Apenas os cabelos dele – encaracolados, curtíssimos – e parte do rosto estavam à mostra. O restante se escondia sob o lençol branco, salpicado de estampas florais. Passava um pouco das 14 horas. A profusão de nuvens carregadas não combinava com aquele Primeiro de Maio. Por decreto, os feriados no Rio de Janeiro deveriam ter sempre sol, brisa e céu azul. Mesmo sob a promessa de chuva, decidi passear de bicicleta. “Estranho… Os sem-teto do bairro costumam dormir mais para lá”, pensei, enquanto empurrava a bike até o portão de grades marrons que me separava da rua. Somente quando o abri é que notei alguém junto do moço – uma companhia miúda, inteiramente oculta pelo lençol. “Uma criança? Seu filho?”, aventei. Perto da dupla, repousava uma gigantesca mala de viagem, relativamente nova, com rodinhas e inúmeros zíperes.

Pedalei duas quadras, em direção à praia de Copacabana, e segui pela ciclovia que beira o mar. Nas proximidades do Leme, me lembrei de um comunicado que a síndica do meu prédio distribuíra em março. O aviso de 21 linhas me despertou a atenção por expressar um conceito francamente higienista de cidade. Dizia que usuários de crack tinham se instalado nas redondezas e que “a ocupação irregular” dos “nossos quarteirões” exigia providências urgentes. Recomendava, então, que os condôminos baixassem um aplicativo da IplanRio – a empresa municipal de informática – e o acionassem sempre que se deparassem com os forasteiros. Bastaria denunciar os invasores à prefeitura, e as autoridades dariam um jeito de removê-los. Para onde? A circular não se preocupava em esclarecer. Embora reconhecesse que “vivemos uma fase difícil” e que dependentes químicos precisam de tratamento adequado, o informe enfatizava que adictos costumam sujar as calçadas, além de ameaçar, assaltar e agredir os transeuntes. “Vamos agir juntos para que saiam daqui”, conclamava.

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Armando Antenore

Armando Antenore, jornalista, é editor da piauí

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