esquina

A vovó fashion

Uma influencer e seus looks ousados

Maurício Frighetto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

A garçonete serve um café para Izaura Demari e comenta: “Que lindo seu chapéu!” O acessório, de abas largas, é vermelho, como os brincos, o colar, a pulseira e os anéis, tudo combinando com as cores da calça e da estampa de um kaftan. Ao ouvir o elogio, a senhora de 78 anos, olhos azuis e cabelos brancos, sorri satisfeita. Deixa a cafeteria no Beiramar Shopping, em Florianópolis, de braços dados com o filho e passeia pelo local, namorando as vitrines, naquele sábado de junho. Por causa de seu estilo ousado, ela não passa despercebida por ninguém.

Vovó Izaura – como é conhecida – também faz sucesso nas redes sociais, onde seu número de seguidores só aumenta: 20 200 no Instagram, 15 200 no Facebook e 14 200 no Twitter. “Maravilhosa! Amei os looks, os chapéus e mais ainda o sorriso!”, exaltou-se @lirio_araujo, no Instagram. “Mds [Meu Deus], eu quero ser essa vovó”, exclamou @Bia_Emoji, no Twitter. “Mulher maravilha… inspiração para todas nós mulheres”, entusiasmou-se Gigi Quennehen, no Facebook.

Embora não saiba ler nem escrever, Demari tornou-se uma influenciadora digital. “Nunca estudei. Só sei mal e mal assinar o nome”, contou, ressaltando que aprendeu a assinar apenas porque detestava sujar os dedos de tinta ao imprimir a digital nos documentos. As suas postagens e interações nas redes sociais são feitas pelo filho, Márcio Demari, 50 anos, que trabalha com marketing digital e começa a ser conhecido como o “empresário da Vovó Izaura”.

Mãe e filho moram em um apartamento de três quartos em um prédio sem luxos na área central de São José, na Grande Florianópolis. Um dos quartos serve exclusivamente para guardar as roupas e acessórios – tudo perfeitamente organizado. Em vez de camas, há duas araras com blusas e casacos pendurados. Chapéus estão dispostos em dois cabideiros. Uma cômoda com 24 gavetas armazena pulseiras, brincos e anéis. Em cima dele, há quinze óculos grandes e coloridos. Um armário acomoda dezenas de outras peças. Ainda há mais chapéus nos outros quartos do imóvel.

 

Izaura Demari é a sétima filha de uma família de nove irmãos. Nasceu e cresceu em um sítio na zona rural de Londrina, no Paraná, onde tratava dos porcos, catava lenha e cozinhava. Aos 17 anos, mudou-se com os pais para a cidade. Casou-se. Teve três filhos, cinco netos e três bisnetos. Assim ela descreve seu casamento: “Vivi 42 anos numa cadeia. Meu marido era tão ciumento que não me deixava nem ir até o portão de casa.”

Depois que o marido morreu, ela se libertou. Começou a viajar com os filhos, a fazer compras, a se produzir. No início, Márcio quis evitar que a mãe exagerasse, mas acabou se deixando seduzir pelas fantasias dela, à medida que os elogios das pessoas aumentavam. Ele passou, então, a compartilhar as fotos de Demari e seus looks fantásticos nas redes sociais. Na primeira imagem postada no Instagram, em dezembro de 2017, no perfil @voizaurademari, ela apareceu de calça rosa, segurando uma bolsa azul que combinava com a estampa da blusa. Os brincos e o colar eram discretos. E já exibia o largo sorriso que quase não tira do rosto.

Aos poucos, as imagens se tornaram mais e mais ousadas, como a de um look de abril deste ano: Demari veste maiô amarelo, meias vermelhas com bolinhas pretas, um volumoso chapéu laranja e rosa, brincos e colar laranja, anéis em tons de vermelho, marrom e laranja. Os óculos redondos escondem quase a metade do rosto.

A escolha das roupas não é inspirada em revistas de moda, mas no que ela vê na televisão e nas vitrines das lojas. Sua principal referência de estilo é a apresentadora Hebe Camargo, que morreu em 2012, aos 83 anos. “Que linda aquela Hebe!”, exaltou-se. “Pena que morreu tão nova.”

Demari não tem uma cor preferida. “Só não gosto de cor de velha”, disse, referindo-se a tons “sem vida, opacos”, como bege e cinza. Adora roupas estampadas. Os acessórios precisam ser grandes. “E calçado só com salto alto. Porque eu sou baixa, né? Não chego bem a 1 metro e meio.” Por este mesmo motivo não usa saias e vestidos, pois acha que, com eles, vai aparentar estatura pequena.

A verba para as compras vem da pensão do marido e também de contribuições dos filhos e netos. Certa vez, durante uma viagem a Gramado, Demari gastou 15 mil reais em roupas e acessórios. Márcio estima que a mãe desembolse quase 2 mil reais por mês em compras. Mas a despesa já vem dando retorno. Ela ganhou cerca de 20 mil reais nos últimos meses promovendo produtos e serviços nas redes sociais, segundo o filho. No fim de setembro, ela foi contratada pelo grupo Amo Minha Idade para participar do evento Longevidade Expo + Fórum 2019, em São Paulo, com remuneração de 7 mil reais (além de passagens e hospedagem). Seu trabalho consistirá em posar para fotos, dar autógrafos e desfilar.

 

Mãe e filho se mudaram para Santa Catarina em dezembro passado. Em Londrina, disse Márcio, os dois não tinham muitas opções de passeio. “Agora, é como se estivéssemos sempre de férias”, afirmou. A sua irmã Izaura Aparecida, de 55 anos, uma apicultora que mora em Londrina, notou que, depois da mudança, a mãe passou a caprichar ainda mais no estilo. “Ela sempre gostou de se arrumar bem. Mas tenho notado que está se achando uma jovem senhora.”

Em São José, a fim de se exercitar, Demari caminha duas horas por dia, acompanhada de Márcio. Tem uma alimentação regrada e pratica o jejum intermitente, que passou a fazer com regularidade desde que, há quinze anos, teve um câncer de pele. Foi nessa mesma época que começou a usar chapéus, para se proteger do sol. O acessório acabou se tornando o principal emblema de sua busca de glamour.

Demari contou que, após uma cirurgia nos lábios, deitou-se na cama e chorou muito. “Pensei: vou ficar defeituosa.” Mas o tempo ruim foi ficando para trás. “É um prazer me vestir bem e me acharem tão bonita na internet”, disse. “Não gosto de gastar dinheiro em doença, mas pra luxo não me importo.” Hoje ela tem uma coleção de quatrocentos chapéus.

Maurício Frighetto

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