despedida

Acabou a palhaçada

O circo mais tradicional dos Estados Unidos baixa a lona

Ricardo Calil
Há anos os elefantes são objeto de disputa entre o Ringling Bros. e os defensores de animais
Há anos os elefantes são objeto de disputa entre o Ringling Bros. e os defensores de animais ILUSTRAÇÃO: NIDAY PICTURE LIBRARY_ALAMY STOCK PHOTO

Paulo dos Santos sempre acreditou ter o maior emprego da Terra. O paulistano de Sapopemba trabalha numa célebre e mais que centenária instituição norte-americana, criada em 1871 – quando não havia Coca-Cola e o fora da lei Jesse James ainda assaltava bancos. Em sete anos, Santos assumiu funções de crescente destaque na empresa. O salário, de mil dólares por semana (cerca de 13 mil reais por mês), pode não ser espetacular, mas os benefícios – como berçário e escola gratuitos para os três filhos – compensam. Ele aprecia inclusive certas características do seu metiê que nem todos suportariam: as longas viagens e o risco cotidiano de morrer em ação.

Com 1,35 metro de altura e 63 quilos de muito músculo, Santos é o que hoje, nos Estados Unidos, costuma-se chamar de little person; imigrado do país da Xuxa, ele se classifica como “baixinho”. A corporação em que está empregado, o Ringling Bros. and Barnum & Bailey, proclama-se o mais tradicional circo dos Estados Unidos e diz oferecer “o maior espetáculo da Terra”. Quando está trabalhando, o paulistano costuma se arriscar no Globo da Morte, montado numa pequenina motocicleta. Por vezes é também o principal parceiro em cena do mestre de cerimônias Johnathan Lee Iverson.

No dia 15 de janeiro, porém, o “baixinho”, o apresentador e outros 600 funcionários diretos e indiretos da companhia aparentemente sólida descobriram que logo estariam no olho da rua, ao lado de cinquenta animais, entre leões, tigres, cavalos e cachorros. Na ocasião, Kenneth Feld – presidente da Feld Entertainment, dona do Ringling Bros. – anunciou que o circo iria baixar suas lonas definitivamente no dia 21 de maio, depois de um espetáculo de despedida em Uniondale, subúrbio de Nova York. O fim decorre da aposentadoria compulsória de atrações que podem alcançar o dobro da altura e mais de oitenta vezes o peso de Santos. Em 2016, devido a sucessivos protestos contra maus-tratos aos animais, Feld se viu obrigado a dispensar do batente os últimos onze elefantes asiáticos do circo, transferidos para um centro de conservação mantido pela empresa na Flórida. A decisão acabou selando o destino do Ringling Bros.

 

Como convém ao capitalismo norte-americano, o Ringling Bros. and Barnum & Bailey resulta de uma série de fusões e aquisições. Em abril de 1871, o empresário do showbiz (e notório picareta) P. T. Barnum inaugurou em Nova York um empreendimento portentoso, que batizou de Grande Museu, Zoológico, Caravana e Hipódromo Itinerante. Dez anos depois, uniu-se a James Anthony Bailey, seu principal concorrente, no Barnum & Bailey Circus. Em 1907, com os dois já mortos, o circo acabou comprado pelos Ringling Bros., uma trupe criada por cinco irmãos de Wisconsin. Finalmente, seis décadas mais tarde, passou para as mãos dos atuais donos, ao ser adquirido por Irvin Feld, pai de Kenneth.



Já nos primórdios, o Ringling Bros. converteu os elefantes em seu principal símbolo. Não à toa, virou alvo fácil de protestos, num país onde não há lei federal proibindo animais circenses, embora haja jurisdições em 27 estados vetando total ou parcialmente sua participação em espetáculos. “Escolhemos os elefantes como foco de nossa luta porque sabemos muito sobre o quanto cada um deles sofreu”, afirma Kathie Arth, porta-voz do People for the Ethical Treatment of Animals, o Peta, que define as apresentações do Ringling Bros. como “o mais cruel espetáculo da Terra”. Para provar, a ativista conta a história de Shirley e Riccardo. “Ela nasceu em cativeiro há 22 anos e se tornou uma máquina de reprodução. Quando pariu Riccardo, seu primeiro bebê, estava acorrentada. Ao se debater, chutou o filho sem querer. Os tratadores não apenas o afastaram imediatamente dela como lhe negaram qualquer chance de criar laços com a mãe. Oito meses depois, o filhote caiu de um pedestal durante o treinamento, quebrou as pernas e foi sacrificado.”

Nos últimos tempos, além dos tradicionais piquetes na entrada do circo, o Peta e outras organizações se valeram de uma arma bem mais abrangente: vídeos publicados na internet que exibem agressões a diversos animais. Alguns deles mostram elefantes do Ringling acorrentados pelas pernas ou apanhando dos treinadores com cabos de metal.

Apesar das evidências reunidas, duas organizações perderam seus processos contra o circo depois de quase quinze anos de batalhas judiciais. Em 2014, fizeram um acordo e pagaram 25 milhões de dólares à Feld Entertainment. Só que a guerra de imagem teve outro vencedor. Ao anunciar a aposentadoria dos elefantes, Kenneth Feld resumiu a questão: “Ganhamos no tribunal, mas no tribunal da opinião pública nós não prevalecemos.”

Por que não? Fiz a pergunta a Stephen Payne, vice-presidente de Comunicação Corporativa da Feld Entertainment. “É difícil combater uma narrativa que não precisa ser factualmente correta e que pretende apenas pintar um retrato negativo. Sem ter nenhuma experiência real de cuidado com animais, os grupos de protesto fazem acusações infundadas e, com base nelas, levantam fundos. Já nossa equipe, eu garanto, sempre se dedicou aos bichos com muito amor.” O executivo explicou que a corporação já esperava vender menos ingressos após a aposentadoria dos paquidermes. “Mas a queda se revelou muito maior do que imaginávamos.”

Segundo Ernest Albrecht, editor da revista eletrônica Spectacle, “o politicamente correto ajudou a matar o Ringling Bros., porque o elefante sempre foi crucial para o circo americano”. Com a experiência de quem já viu mais de 100 espetáculos do Ringling em 71 dos seus 79 anos de vida, o jornalista acrescentou outro item às razões que motivaram o fechamento: a dificuldade para atrair jovens espectadores, mais acostumados a emoções virtuais. “Na última vez que visitei o circo, me deparei com crianças que não levantavam os olhos de seus celulares. Foi uma cena triste.”

 

Às vésperas do derradeiro espetáculo, a desolação reina no Ringling Bros. “As pessoas estão deprimidas. Éramos como uma família. Mas o show terá que continuar em outro canto”, consola-se Paulo dos Santos. Ele pretende buscar trabalho no Cirque du Soleil, onde já atuou. Enquanto isso, treina o seu filho mais velho, Kauile Fernando, 9 anos e também “baixinho”. “Nunca presenciei nenhuma crueldade com os bichos”, garante o brasileiro. “A gente dizia que eles eram mais bem tratados do que nós. Só comiam do bom e do melhor.”

Para a despedida, o paulistano pretende oferecer um churrasco aos amigos do Ringling. Acostumado às piadas sobre o destino dos animais em determinados circos, apressa-se em esclarecer: “Não vai ter filé de leão. Com sorte, vamos achar uma bela picanha brasileira.”

Ricardo Calil

Jornalista, é crítico de cinema da Folha de S.Paulo e codiretordos documentários Uma Noite em 67 e Eu Sou Carlos Imperial

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