questões psicotrópicas

Achei que estivesse tomando um remédio

Doze anos à base de benzodiazepínicos

Sasha Frere-Jones
A abstinência de um benzodiazepínico não se parece com um resfriado, uma ressaca ou qualquer outro desconforto. Se eu passasse 24 horas sem tomar um comprimido, ficava com a cabeça um pouco no ar. Mas não ficava exatamente “fora do ar”. Tinha a impressão de estar com outra cabeça, ligada a um compartimento externo comandado por regras que eu não entendia e não podia mudar
A abstinência de um benzodiazepínico não se parece com um resfriado, uma ressaca ou qualquer outro desconforto. Se eu passasse 24 horas sem tomar um comprimido, ficava com a cabeça um pouco no ar. Mas não ficava exatamente “fora do ar”. Tinha a impressão de estar com outra cabeça, ligada a um compartimento externo comandado por regras que eu não entendia e não podia mudar CREDITO: LOLA DUPRE

Nunca somos só nós quatro – Heidi, eu e meus filhos, Sam e Jonah. Sam cursa o primeiro ano da faculdade e neste ano nos vimos apenas duas vezes. Jonah está no último ano do ensino médio, e o basquete é a prioridade dele. A escalação de hoje, quinta-feira, Dia de Ação de Graças, é essa. Os filhos de Heidi, Sam e Piper, foram passar o feriado com o pai.

Meu quarto é um dos oito de um loft comunitário em Gowanus, no Brooklyn, em Nova York. A luz do Sol, vinda do Sudoeste, entra e reflete nas paredes brancas. Consigo ver tudo que desejo ver, inclusive os livros, que posso espalhar numa mesa de 2,5 metros que minha companheira de quarto construiu com madeira de demolição.

Sam veio da faculdade, o que raramente acontece. Sempre acho que os meninos ficam pouco tempo comigo, mas talvez seja o suficiente para eles. Se me pego querendo dizer alguma coisa a respeito disso, dou logo um jeito de calar a boca.

Eles chegam à uma da tarde. Jonah veste uma jaqueta polonesa de lã acrílica muito justa, tipo jogador de futebol americano; Sam, uma camisa e um casaco leve estilo lenhador. Jonah se instala numa poltrona de couro preto que minha amiga Ava me emprestou; Sam desaba no meu colchão. Confabulamos se é melhor deixar o colchão ali ou levá-lo até o espaço comunitário.

Heidi aparece trazendo três plantas, uma de caule fino, duas mais cheinhas. Elas adoram sol, precisam de poucos cuidados e são perfeitas para quem costuma esquecer de regar. Coloco-as no parapeito de concreto e sirvo um refrigerante meio morno a Heidi.

Não sei dizer quem está contente ou não, mas acho razoável supor que todos queremos a companhia um do outro. O tempo corre suave e lento. Talvez eu tenha dormido bem. Talvez não esteja ansioso neste momento.

 

Achei que eu me livraria para sempre dos benzodiazepínicos em 24 de novembro de 2016. Perdi essa oportunidade, mas em 1º de maio de 2017 parei com qualquer droga da mesma família, na qual se incluem, nos Estados Unidos, Xanax, Valium e Klonopin.[1] São tranquilizantes, sedativos, substâncias que abafam o que sentimos. Você certamente conhece alguém que consome uma delas.

Aquela quinta-feira, 23 de novembro de 2017, foi meu primeiro Dia de Ação de Graças sem esses comprimidos, que eu tomava desde novembro de 2004, quando ainda era casado e costumava celebrar o feriado na casa dos meus sogros, em Weston, na Flórida. Passei um longo tempo usando benzodiazepínicos e depois tentando parar, mas sempre se pode resumir a história.

Embora se tenha uma ideia razoável dos perigos do uso continuado desses medicamentos, ainda não foi divulgado como fazer para largá-los. Existem comunidades para acolher quem não quer mais consumir álcool, heroína ou cocaína. É comum ouvir alguém dizer “estou limpo há um ano” ou ser cumprimentado por estranhos caso exiba um distintivo preto de plástico preso ao chaveiro, com a frase Keep Coming Back (Não deixe de voltar), símbolo das reuniões dos Alcoólicos Anônimos ou Narcóticos Anônimos. Já os benzodiazepínicos são vistos como drogas fronteiriças, situadas em algum ponto entre a aspirina e a heroína, e cujo consumo ainda não adquiriu traços dramáticos. São tão populares que não existe uma opinião consensual sobre seus inconvenientes.

E o mais importante: os benzodiazepínicos são mais associados à morbidade do que à mortalidade. Quando uma droga pode causar overdose, ela tende a ser estigmatizada. Os barbitúricos, por exemplo, caíram em desuso no começo dos anos 1960, depois que pessoas muito famosas, como Marilyn Monroe, morreram em decorrência da ingestão de doses fatais. Se você engolir um punhado de comprimidos de Xanax, sem misturar com nada, só vai ficar meio doidão e capotar. Se uma droga não leva diretamente à morte, o mais provável é que seja vendida enquanto for rentável para os fabricantes ou proveitosa para os usuários. A deterioração não é um fator que se leve em conta nos Estados Unidos – só a morte.

Mesmo os mais céticos admitem que os benzodiazepínicos ajudam a inibir o medo por períodos curtos: medo de viagens de avião, de uma palestra a proferir, de uma cirurgia. O uso prolongado desses medicamentos, entretanto, pode induzir à dependência química, perda de memória e pavorosos sintomas de abstinência – no que não diferem muito do álcool, combatido mais ou menos pelas mesmas razões. E muita gente bebe sem que isso resulte em sua morte. Existe até um grupo seleto de pessoas que é muito bem pago para escrever sobre as melhores bebidas do mercado, enquanto outros batalham em tempo integral pela reabilitação – e essas duas narrativas conseguem coexistir. De um lado, há os degustadores de bebidas e aromas; do outro, os desesperados, cuja maior esperança é sair vivo da experiência com o álcool e as drogas. Os americanos convivem bem com esse tipo de dissonância cognitiva, mas não quando se trata dos benzodiazepínicos, que não se enquadram em nenhuma dessas histórias, quanto mais nas duas ao mesmo tempo.

Não existe um Jesus’ Son[2] associado a essas substâncias. Não existe um equivalente ao filme O Informante,[3] sobre algum paladino que decida vir a público denunciar os planos da Pfizer. No que concerne aos benzodiazepínicos, não existe deus nem o diabo. Eles não preenchem a alma, nem condenam ninguém a trabalhos forçados. São uma presença cuja principal característica é produzir ausência: anular a dor, silenciar os nervos. Não têm um psicodelismo próprio, uma onda de filmes e peças motivada por seu consumo. Contudo, basta você eliminá-los da corrente sanguínea que eles viram seu cérebro do avesso. Só que essa história não faz sucesso. Em 1965, Grace Slick, vocalista da banda Jefferson Airplane, falou sobre o Valium na canção White Rabbit – as pílulas “que mamãe nos dá” e “não fazem nenhum efeito” – e foi essa a imagem que colou.

 

O Valium foi introduzido no mercado pela Hoffmann-La Roche em 1963. Entre 1968 e 1981, foi “o medicamento mais amplamente prescrito em todo o Ocidente”, como afirma a historiadora Andrea Tone em seu livro The Age of Anxiety (A era da ansiedade), de 2009. Logo depois de ter sido lançada, a medicação ganhou seus primeiros detratores. Pacientes se sentiram viciados em pouco tempo e relataram sintomas extremos de abstinência. Em 1978, Cyndie Maginniss, de 32 anos, mãe de três filhos, contou ao telejornal NBC Nightly News que a droga lhe fora receitada para a ansiedade, e ela vinha precisando de doses cada vez maiores. Sua dependência tinha aumentado dia após dia, e os efeitos colaterais começaram a suplantar os benefícios. “Meu corpo ficou completamente destrambelhado”, disse ela à repórter da NBC. “E por que você demorou tanto para procurar ajuda?”, a jornalista perguntou. “Achei que estivesse tomando um remédio”, respondeu Maginniss.

A produtora de tevê Barbara Gordon contou uma história semelhante sobre sua dependência do Valium e a interrupção do uso em I’m Dancing as Fast as I Can (Estou dançando o mais depressa que posso), suas memórias publicadas em 1979 e transformadas num filme estrelado por Jill Clayburgh em 1982.

No início da década de 1980, o público americano já sabia que o Valium podia produzir dependência, desorientação e até internação hospitalar. O que foi feito? Trocaram o nome do remédio. Em 1981, a Upjohn lançou Xanax, um benzodiazepínico de estrutura similar ao Valium. Com uma potência maior, mas efeito menos duradouro, Xanax tentava responder ao medo difuso de que o Valium produzisse zumbis. Mas não foi preciso muito tempo para se descobrir que ele produzia sintomas de abstinência ainda mais fortes que os do seu antecessor. Ao mesmo tempo, outros benzodiazepínicos vinham sendo receitados na recuperação de transtornos associados ao uso de drogas. Foi assim que a cantora Stevie Nicks começou a tomar Klonopin – mais tarde ela o descreveria como “mais mortífero que a cocaína”.

Enquanto ninguém morre e ainda restam nomes e configurações possíveis para novos lançamentos, um remédio continua viável. Caso não ocorra nenhum problema que macule a imagem de uma droga, as patentes nos Estados Unidos [e também no Brasil] expiram em vinte anos, portanto os medicamentos lucrativos precisam de relançamentos e novas embalagens.

“A FDA[4] só pode aprovar um remédio novo se ele tratar uma disfunção existente”, explicou-me Andrea Tone. “As indústrias farmacêuticas frequentemente promovem a existência de uma doença para cujo tratamento aprovou-se uma medicação. Nos Estados Unidos, onde a publicidade de remédios direta ao consumidor é liberada, as empresas lançam mão dessa estratégia para inflar o interesse pela disfunção e a demanda pela droga. É uma ótima forma de expandir o mercado e aumentar os lucros do laboratório.”

A imagem dos benzodiazepínicos foi prejudicada, por tabela, pelas mortes dos músicos Lil Peep, aos 21 anos, e Tom Petty, aos 66, ambas em 2017. O exame de sangue dos dois acusou o uso de Xanax, entre outros, e o remédio adquiriu tal reputação que, por algum tempo, o rapper Lil Xan preferiu ser chamado por seu verdadeiro nome, Diego. Mas a mudança durou pouco: em abril de 2018, ele lançou Total Xanarchy, seu álbum de estreia, sem fazer qualquer menção ao nome Diego.

O que complica a reflexão sobre essas mortes por overdose é que a ingestão de benzodiazepínicos não é suficiente para matar alguém. Um estudo publicado em 2016 concluiu que “houve um aumento considerável da prescrição de benzodiazepínicos e da mortalidade por overdose”, mas uma postagem no blog do New York Times esclareceu que “a maioria dessas mortes envolvia o consumo de analgésicos opioides, como a oxicodona”. Nesse mesmo ano, a FDA publicou uma advertência contra o uso combinado de benzodiazepínicos e opioides, uma classe de medicamentos que, por sua vez, encontra-se no cerne de uma crise nacional. Até uma lei aprovada no ano passado no estado de Massachusetts se refere detidamente aos perigos dos opioides, mas mal menciona o risco dos benzodiazepínicos. Por serem letais, os primeiros estão eclipsando os segundos.

 

Não é difícil descobrir como chegamos a este ponto, pois sei muito bem como eu cheguei a este ponto.

É difícil largar uma coisa quando seu médico diz que não é preciso largá-la. O primeiro médico a me receitar um benzodiazepínico, em 2005, me disse – e repetiu em 2008, 2009 e 2012 – que o Xanax era eliminado por completo da corrente sanguínea ao fim de 24 horas, e não tinha nenhum efeito residual. Ele acreditava no que o laboratório dizia – que o efeito do remédio era de curta duração. Aparentemente, nunca refletiu sobre as consequências possíveis de seu uso cumulativo. Para ele, se eu tivesse alguma dificuldade com sintomas de abstinência provocados por uma redução da dosagem, bastava interromper o uso do remédio, enlouquecer por uma semana, e não se falava mais nisso.

Só que não era bem assim.

A abstinência de um benzodiazepínico não se parece em nada com um resfriado, uma ressaca ou qualquer outro desconforto que você já tenha experimentado. Se eu passasse 24 horas sem tomar um comprimido, ficava com a cabeça um pouco no ar. Mas não ficava exatamente “fora do ar”. Tinha a impressão de estar com outra cabeça, ligada a um compartimento externo comandado por regras que eu não entendia e não tinha como mudar. Eu não sabia como fazer aquele compartimento se reconectar. O que tinha sido a minha cabeça ou o meu cérebro – transformados na mesma coisa pelo Xanax – estava apartado de todas as conexões e de toda fiação que eu conseguia localizar.

Tomar Xanax acabou sendo um modo de combater os sintomas de abstinência criados pelo próprio Xanax. Embora isso seja muitas vezes chamado de adicção, ou vício, pelos sobreviventes dos benzodiazepínicos, a descrição mais precisa é dependência química. Você não procura drogas nem as acumula em casa para se entupir delas cada vez mais, não necessariamente. Você está sob o efeito delas, e não entende por que não consegue parar de consumi-las em doses cada vez maiores.

Quanto à condição original que eu tencionava tratar com Xanax, vai saber. A ansiedade estava encoberta pela medicação, mas continuava presente, feliz da vida, por trás do nevoeiro da droga, sempre acompanhada das consequências dramáticas de uma retirada rápida. No fim das contas, minha ansiedade foi medicada por doze anos e só fez piorar.

Os benzodiazepínicos podem deixar a ansiedade pior? Sim. O suficiente para o cantor e compositor Andy Partridge, em 18 de março de 1982, sair do palco no meio da canção Respectable Street, e abandonar pouco depois as apresentações ao vivo. Eis aqui uma versão editada de sua história, a partir do documentário XTC: This Is Pop, do canal Showtime. É um resumo perfeito de como pode ser aterrorizante a abstinência dessa substância – assim como falar a respeito dela:

Eu estava no meio de uma turnê pelos Estados Unidos e uma noite, depois do show, saí para beber com algumas pessoas em Los Angeles. Então, a mulher com quem eu estava casado olhou para um tubo grande de Valium que eu tinha e pensou: “Para que ele ainda toma essa merda? Ele não precisa, esse remédio não o ajuda em nada, vou jogar fora.” E despejou os comprimidos na privada. Quando voltei àquele quarto de hotel asqueroso, estava de porre. “Vou precisar do meu Valium. Onde é que está o meu Valium?” Ela respondeu: “Joguei tudo fora. Não quero que você continue tomando essa porcaria. Precisa parar com isso.” Eu pirei. E pensava: “Ah! É a minha muleta! Como ela pôde fazer isso? Tomo esse remédio todo dia, a vida inteira, desde os meus 12 ou 13 anos!” O que era verdade.

Comecei a tomar Valium porque minha mãe tinha problemas mentais, e quando eu era pequeno a situação dela me deixou bem perturbado. Muito perturbado. Eram os anos 1960, e tinham inventado esse remédio mágico. “A mãe desse garoto é tão maluca que precisa ser internada por um tempo num hospício, e o coitado está tão mal, tem só 12 anos. Quer saber? O negócio é dar Valium para ele.” Comecei a tomar Valium desde essa época, fiquei viciado nessa merda e hoje, treze anos mais tarde, ainda não caiu a ficha de que fiquei dependente – fico achando que posso parar a hora que eu quiser.

Ao longo do ano em que parei de tomar, meu cérebro foi fundindo aos poucos. Passei a ter ataques de pânico, sem ter a menor ideia do que era aquilo, perda de memória, os braços e pernas em agitação constante: meu mundo começou a vir abaixo por causa do Valium e do modo como larguei, parando de chofre.

As coisas começaram a perder o nexo, tive agorafobia, não conseguia mais sair de casa. Sofria ataques de pânico, sem ter a menor ideia do que era um ataque de pânico. E eu, em cima do palco, passando por isso. “Iiih! Iiiih! Por quê? Por que estou com tanto medo de tudo que existe?” Não tinha a menor noção do que estava acontecendo comigo. E isso em plena turnê, primeiro pela Europa, depois Estados Unidos, ainda teria Japão, Austrália e assim por diante, pelo mundo todo, e meus miolos derretendo e escorrendo para fora do crânio. Tudo errado na minha cabeça e na minha vida, e eu sem saber o que era. Até que um dia, no palco em Paris, tive o maior ataque de pânico de todos os tempos e então pensei: “É isso. Devo estar ficando louco. Parem o mundo que eu quero descer.”

Partridge ainda passaria alguns anos se referindo a essa crise como um caso de “medo de palco”. Mas acontece que ele tinha feito centenas de shows nos cinco anos anteriores à sua interrupção do uso de Valium. Chamar o que lhe acontecia de “medo de palco” era uma explicação pouco convincente, mas pelo menos era algo que as pessoas entendiam em 1982.

Em 2005, o debate sobre o assunto não tinha se tornado nem mais frequente nem mais claro. Se meu médico tivesse recomendado exercícios de respiração e meditação em vez de comprimidos, mais adiante eu não me veria na obrigação de largar uma droga que começou a ser associada, a partir de 2014, aos estágios iniciais da demência e ao Alzheimer precoce. Eu não vivia procurando estudos a respeito disso, o que é só um pouco diferente de evitar a sua leitura. Nem queria pensar no que estaria acontecendo com meu cérebro, pois sabia que não era coisa boa. Admitir que havia algum risco já me parecia suficiente.

Quando alguém me mandou uma postagem do blog do New York Times com um link para esse estudo de 2014, passei dias sem abrir. O trabalho dizia que “os efeitos deletérios agudos dos benzodiazepínicos sobre a memória e a cognição são bem documentados, mas a possibilidade de que aumentem o risco de demência ainda é matéria controversa”. Realizado no Quebec, o estudo envolvia quase 1 800 pacientes com mais de 66 anos diagnosticados com Alzheimer e “expostos ao uso de benzodiazepínicos a partir de pelo menos cinco anos antes do diagnóstico”. Não era difícil constatar que esse grupo nada tinha a ver comigo, ainda que pudesse haver uma base científica de que os resultados do estudo fossem universalmente aplicáveis. Decidi acreditar. As alterações na minha memória eram um fato comprovado, mas a demência ainda não tinha se manifestado. Havia um motivo concreto para parar.

Em dezembro de 2017, os Archives of Clinical Neuropsychology, da Universidade- de Oxford, divulgaram uma nova pesquisa contendo a meta-análise de outros dezenove estudos e concluindo que “os resultados são importantes por corroborarem a evidência crescente de que uma série de funções neuropsíquicas sofre prejuízos em decorrência do uso prolongado de benzodiazepínicos, e que esses prejuízos tendem a persistir mesmo depois da interrupção de seu consumo”.

 

Se você prefere uma descrição breve e clara dos motivos pelos quais essa droga pode ser nociva para a sua relação com o mundo, independentemente de qualquer dano físico que o uso acumulado possa causar ao longo dos anos, eis uma boa metáfora. Imagine que sua ansiedade seja equivalente a ter, no lugar das mãos, facas das quais não consegue se livrar. Xanax, Klonopin ou qualquer benzodiazepínico atua como uma bainha de plástico que envolve a lâmina, o que não deixa de ser uma boa ideia, já que você prefere não se cortar nem ferir alguém. Entretanto, quando a bainha é retirada, você continua sem saber usar suas mãos de faca. O fato de que na prática a bainha de certo modo funcione não afeta a natureza de suas mãos cortantes. Se você acha que a bainha pode ser uma solução de longo prazo para as facas da ansiedade, seu problema está resolvido.

A bainha é um misto de alívio e supressão. A atenuação da dor psíquica representa um conforto nada desprezível – e eu gosto desse alívio. Já a supressão da ansiedade na verdade não traz conforto. As empresas que fabricam remédios como Xanax tentam reforçar a noção implícita de que a ansiedade pode até ser ignorada, pois é como um resfriado ou um corte no dedo – um padecimento que vem de fora, algo que acontece com a pessoa, e não uma condição derivada do fato de ser essa pessoa. Desse ponto de vista, não há nada a ser entendido sobre tal condição: basta comprar algum tratamento mais ou menos eficiente para enfrentá-la. É fácil vender uma pílula. Muito mais difícil seria vender a ideia de que as pessoas precisam agir com disciplina e observar tudo com cuidado, ou então – o mais difícil – de que as coisas de fato às vezes vão mal, sobretudo quando você tem facas no lugar das mãos. Tanto externa quanto internamente. Se a ansiedade é chuva, faz sentido comprar um guarda-chuva. Se a ansiedade é sangue, um guarda-chuva não vai adiantar.

Ainda assim, os guarda-chuvas pululam. Naquele estudo de 2016, lê-se: “Entre 1996 e 2013, a porcentagem de adultos que consomem benzodiazepínicos com receita médica cresceu de 4,1% para 5,6%.” O que significa que pelo menos 5,6% da população norte-americana (número que deve subir e ficar entre 10% e 20% se contarmos o consumo sem receita) vêm tomando essa droga.

Eu não sabia nada sobre a ansiedade de estudantes. Mais precisamente, nem sabia que os médicos chamavam essa angústia de ansiedade. O que escrevi no meu diário de 1985 foi o seguinte: “A BOLA DE GOLFE: ONDE VOCÊ ENFIA?” Pensava, naquela época, que a ansiedade era uma coisa de que eu não conseguiria me livrar. Não exatamente facas no lugar das mãos, mas uma coisa dura e incômoda que precisava ser acomodada de algum jeito. Eu ainda não havia intuído que a ansiedade fazia parte da própria consciência, como o tinnitus, o zumbido que tenho nos ouvidos: uma coisa que não tenho como jogar fora, uma coisa à qual, na melhor das hipóteses, só posso me acostumar.

Tive meu primeiro ataque de pânico em 1990, enquanto atravessava a Ponte do Brooklyn. Vinha ensaiando uma peça de teatro com alguns companheiros de banda, a gente fazia justamente o papel de uma banda. Eu tomava muito café, fumava, estava terminando uma relação e tinha claustrofobia quando andava de carro, mas disso eu ainda não sabia. Por que ficar claustrofóbico de uma hora para outra? Eu nunca sofrera de claustrofobia. Que porra acontece com o cérebro da gente?

Num táxi, atravessando a ponte, tive certeza de que estava tendo um enfarte. Desci do carro e deitei numa mureta de concreto. E então fiz uma série de outras descobertas. Ambulâncias não são gratuitas. Eu não estava enfartando. Profissionais das salas de emergência não gostam de perder tempo com gente que só está tendo um ataque de pânico. Em 1990, como ainda hoje, ataques de pânico são tratados com um comprimido branco oval chamado Xanax – o nome comercial do alprazolam.

Saí com um pequeno suprimento de uns quinze comprimidos num tubo de plástico transparente de cor laranja. Em uma semana, devo ter tomado no máximo uns quatro. A experiência não foi nada boa. Não gostei da alteração que senti no ritmo do meu cérebro. Eu era mais esperto quando tinha 22 anos. Nos primeiros meses de 2005, quando meu casamento começou a fazer água e passei a achar uma boa ideia tentar espatifar uma impressora Apple no chão (porque antigamente essas impressoras eram robustas), procurei um médico. E adivinhem o que ele me recomendou? “Xanax”, ele disse. E eu decidi acreditar nesse idiota.

 

A diferença entre drogas consumidas por recomendação médica e as ingeridas por recreação resulta numa narrativa claramente cindida. Quando existe uma receita, o paciente adquire o remédio na farmácia e o toma no horário recomendado e na dose prescrita. Já o usuário recreativo é um criador – ele obtém e combina as drogas que consome limitado apenas por suas possibilidades físicas e por sua capacidade para transitar em alguma faixa da dark web. O usuário recreativo não se limita aos remédios produzidos pela indústria farmacêutica. Basta visitar algum fórum de usuários de benzodiazepínicos no Reddit, por exemplo, para encontrar dicas sobre “prensados”, comprimidos com todos os ingredientes que constam da composição original do remédio e mais um amálgama de complementos e aceleradores não especificados, tudo prensado num molde que reproduz mais ou menos o formato dos comprimidos adquiridos nas farmácias. Na internet, esses moldes são vendidos como ferramentas usadas na fabricação de “doces e balas”. Afinal, as balinhas e o Xanax não são produzidos de maneira muito diferente – e o disfarce até funciona.

O mais provável é que as mãos de faca da ansiedade existam como compensação para a dureza da vida. Elas podem deixar você mais lento, e até impedi-lo de fazer alguma besteira gigante com a qual não saberia lidar depois. A ansiedade pode ser o contrário de um distúrbio; pode ser o self observando a si mesmo, ou o ego observando o ego, dependendo da escola psicoterapêutica a que você se filia.

Você compra máquinas de escrever, se exaspera com as rachaduras no teto e tenta abrir com os dentes uma lata de molho de tomate não porque ache uma boa ideia, mas porque a fronteira entre o ridículo e o plausível se apagou, e tudo parece mais plausível do que ridículo. Na verdade, você sente que as coisas estão erradas, e que não deveria fazê-las – como comprar 27 pares de meias de uma vez –, mas essa sensação de estar errado se parece com a sensação da ansiedade: algo que o Xanax lhe permite ignorar.

O que acontece quando você toma Xanax é mais ou menos o mesmo que acontece quando você deixa um pote de vidro mergulhado na água por 24 horas. O rótulo se desprende. O Xanax corrói uma superfície que também é sensível. Sem essa superfície, você não consegue sentir o seu pensamento. Quando você remove os benzodiazepínicos, volta a senti-lo.

Agora, os dias agradáveis são muito mais frequentes que os ruins, e são esplêndidos. Qualquer momento pode ter nitidez e peso próprio. As coisas adquirem um valor emocional, e o ritmo em que ocorrem permite que cada uma seja devidamente sentida. Nos dias ruins, cada vez mais raros, nem chego a um ponto em que as coisas tenham valor. Uma cerração de pânico me envolve, minha cabeça fica dando voltas. Eu poderia dizer tanto que “fico deprimido” como que “me sinto muito bem”, mas nenhum desses estados se instala, e só me resta um leque com vários matizes de nada.

Estou começando a me esquecer dos pormenores do uso continuado de benzodiazepínicos e as sensações que se sucedem minuto a minuto. Esqueço nomes e me sinto muito mais dissociado do que gostaria, mas não posso provar que isso tenha a ver com mais de uma década de consumo dessas drogas. Sou meio aéreo desde a infância, e a inaptidão motora faz parte de minha natureza. Talvez os benzodiazepínicos tenham sido nuvens de tempestade que acabei de atravessar. É muito difícil ter certeza sobre o que essas drogas causaram ou não a mim.

Minha primeira tentativa de fazer este texto data de 2015. Mas não fazia sentido escrevê-lo naquela época, pois eu ainda não tinha largado os benzodiazepínicos. Hoje, 45 anos depois de minha mãe me chamar pela primeira vez de “nervosinho”, enfrento a ansiedade como ela de fato é, em todas as suas formas, sem nenhum remédio. Estou à procura de um espaço exterior à ansiedade, de alguma brecha onde possa me fixar e ficar observando.

 

Minha visão dos benzodiazepínicos é do tipo que normalmente não é levada em conta na imprensa ou nos estudos, uma visão que os sobreviventes da droga definem como “a experiência do paciente”. Estudos e discussões sobre o uso de remédios costumam ser orientados por dados de mortalidade e outros mais adequados à testagem clínica. A complexidade do cérebro, nesses casos, é reduzida à “memória recente, velocidade de processamento, construção visual, atenção dividida, memória de trabalho e atenção concentrada”, para citar as variáveis medidas no estudo de 2017, encabeçado por Simon Crowe e Elizabeth Stranks.

Essas aptidões podem ser testadas, e a capacidade de testá-las permite inseri-las na discussão de objetivos médicos, de um modo que ainda não é possível em relação a boa parte do cérebro. Nos casos de riscos à saúde, muitas vezes existe um impulso coletivo para ignorar os pormenores da experiência pessoal em favor da generalização a partir de dados representativos, no processo de aprovar novos tratamentos destinados ao público em geral ou de facultar aos consumidores a compra de alguma merda. No meu caso, só disponho dos detalhes específicos da experiência pessoal.

Larguei os benzodiazepínicos recorrendo ao “afunilamento”, ou seja, reduzindo o uso pouco a pouco. Nenhum médico me sugeriu esse método. Mesmo aqueles que entendiam meu problema e aprovavam que eu largasse a medicação não sabiam me aconselhar quanto à melhor maneira de parar, nem tinham nada a dizer quanto ao que estava à minha espera. Nenhum médico jamais me falou do The Ashton Manual – um guia para largar os benzodiazepínicos lançado em 2001 e escrito por Chrystal Heather Ashton, professora titular de psicofarmacologia clínica na Universidade de Newcastle, na Inglaterra, hoje aposentada.

Depois de uma enxurrada de preocupações e processos na década de 1970, o tema dos danos causados por benzodiazepínicos foi desaparecendo dos principais meios de comunicação dos Estados Unidos, mas na Inglaterra ainda desperta o interesse dos tabloides. No dia em que uma celebridade norte-americana fizer alguma grande estupidez sob a influência dessa droga e o New York Post perceber que pode sacar daí uma piada sobre o advento dos zumbis, quem sabe a discussão volte a ganhar corpo. E, caso os norte-americanos comecem a considerar os benzodiazepínicos nocivos por si mesmos, da mesma forma como hoje encaram os cigarros, é possível que venha a ocorrer uma alteração de comportamento. Mas isso parece improvável. Adoramos nossos sedativos. É verdade que também adoramos os cigarros, mas tudo indica que já aceitamos que eles nos matam aos poucos. Nós ainda nos achamos mais espertos que os sedativos.

Colhi as informações que me ajudaram na redução da dosagem no Blue-light, “um fórum de discussão virtual internacional voltado para a educação do público para o uso responsável das drogas” (Bluelight estabeleceu, em 2013, uma parceria com a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos). Parte dos tópicos se dirige aos usuários recreativos que querem saber por que um saco de cocaína “batizada” cheira a benzeno ou como identificar a cocaína com alto grau de pureza. Os usuários habituais também têm suas preocupações, uma das quais é largar as drogas em questão (essas ansiedades se agrupam num fórum chamado The Dark Side). Os participantes da Bluelight abordam todo o ciclo, do primeiro uso à formação do hábito e à descontinuidade da droga. Foi lá que encontrei gente que tinha parado.

Parte da discussão continha referências à titulação do medicamento, palavra que designa o ajuste da dosagem até encontrar um nível “adequado”. No processo de abandono da droga, a titulação consiste em estabelecer uma quantidade mínima para contornar os sintomas da abstinência, uma etapa na qual você pode se refazer antes do pulo no vazio. O processo de redução da dosagem e mensuração dos efeitos dos ajustes pode ser chamado de afunilamento, desmame ou redução mesmo.

Ninguém na Bluelight via com muito entusiasmo a ideia de parar no tranco, de uma hora para outra, embora largar uma droga sempre exija alguma forma de tranco. Colin Moran, fundador de um fórum particularmente popular, o BenzoBuddies Community Forum, postou em 2012 um texto em que explicava por que achava má ideia largar de chofre, e de uma vez por todas. “No caso dos benzodiazepínicos, a menos que eles só tenham sido usados por um período muito curto (alguns dias, uma semana ou duas), interromper seu uso de forma brusca é potencialmente muito perigoso… Quanto maior a dose, e quanto maior o tempo de uso, maiores os riscos associados à parada repentina. Só altere a dose depois de consultar seu médico.”

Quando comecei a ler as advertências postadas na Bluelight, encontrei menções a crises convulsivas e ataques cardíacos, embora nenhum dos autores das postagens tivesse sofrido nada disso. As chances de me sair bem me pareciam boas se eu fosse afunilando as doses até reduzi-las ao mínimo. E então só me restaria pular no vazio.

Em maio de 2017, meu estoque de Valium com receita acabou. Eu tinha a vaga intenção de obter mais uma prescrição e, passado o verão, parar de vez. Não que esse plano fosse mais viável que qualquer outro. Estava na hora, era isso. Meu mantra era simples: “Não morrer.”

Perdi minha vaga num loft e tive que me hospedar na casa de amigos e em hotéis turísticos baratos na área central de Nova York. Acabei passando um mês num apartamento perto da Universidade Columbia. As árvores e as plantas do Morningside Park eram minhas sentinelas. Toda manhã, tentando me recompor da noite maldormida, eu saía para andar e contemplar o verde. Andaimes estavam sendo armados na base do prédio. Quando eu tinha sorte, podia ver a mulher do segundo andar se queixando por que os operários haviam tampado sua vista da janela. Meu encontro com as plantas era como bater o ponto, uma prova de que estava vivo e ainda era capaz de sentir.

 

É uma quinta-feira normal, e esta é a história de um Dia de Ação de Graças. Não tem nada escondido por baixo do pano – o dia de que me lembro é o dia que vivi, o dia como ele aconteceu. São os benzodiazepínicos que embaralham essa distinção.

Fomos até o mercadinho da esquina comprar banana, castanhas e água com gás gelada. A loja se chama Sandwich Factory. Da primeira vez que estive lá, pedi um bagel e me faltou 1 dólar para inteirar. O dono disse que eu podia acertar da próxima vez. “Vejo você sempre por aí, não tem problema.”

No Brooklyn, caminhamos da região de Gowanus até Fort Greene. Descemos a Avenida South Portland sob um túnel de plátanos e chegamos à casa onde morei na década de 1970. Eu tinha falado muitas vezes dessa casa para os meus filhos. Quando falo dela, quero que eles pensem ou sintam o quê? Eles se mostram gentis, como eu também me mostraria. É uma casa.

O programa de hoje é comer no Junior’s, nosso lugar preferido em dias de festa desde que voltei para essa região, em 2008. Nos anos 1970 e 1980, eu costumava pedir sanduíches de rosbife, e hoje meus filhos vão escolher o mesmo. As mesas continuam sendo guarnecidas de picles de pepino, beterraba e repolho, além de pãezinhos de milho – uma refeição completa antes mesmo de se fazer o pedido.

Na entrada do restaurante há um segurança, não porque o local esteja lotado, mas porque se formou uma fila de 57 pessoas para buscar os cheesecakes que encomendaram. Quando me aproximo, o segurança acena para eu entrar pelo bar, mais adiante, na mesma calçada. Eu sei que isso não se faz, mas ele já tem problemas de sobra. As pessoas na fila parecem cada vez mais nervosas. Agradecemos e enveredamos pela porta do bar.

Dizemos a uma recepcionista que fizemos uma reserva, mas ela não consulta nenhuma agenda. Limita-se a pegar quatro cardápios e nos acompanhar até uma mesa, não no salão principal. Hoje, porém, parece não ser um dia adequado para fazer reclamações.

Quando sentamos, um homem branco de 60 e poucos anos está inquieto em sua banqueta, à nossa direita. “O que é isso aqui, a Batcaverna?”, ele pergunta e se levanta. Sai andando pelo restaurante, e mesmo assim parece não encontrar o que procura. Mas talvez o ato de caminhar pelo local enquanto se queixa seja exatamente o que ele quer.

Do outro lado, um homem de uns 50 anos está acompanhado de uma mulher com a metade do seu tamanho e muito mais velha que ele. O homem fala alto demais, e ela responde numa voz que parece forçada, como a da mãe no filme Onde os Fracos Não Têm Vez, mas sem o sotaque; uma voz muito aguda de pessoa idosa. Ela está explicando por que não gosta de Paul Newman. Nunca se encontrou com ele, não tem qualquer queixa do ator, mas um amigo dela tem. Parece que esse amigo e sua mulher foram atrás de Paul Newman para tentar obter um autógrafo, mas ele se recusou a dá-lo. Ao que tudo indica, o caso não ia além disso, nem o imbróglio contra Paul Newman.

“É por isso que eu não compro o milho de pipoca que ele fabrica, nem os molhos, nem vejo os filmes dele. Eu me recuso”, disse a mulher.

Heidi e eu escolhemos o prato especial do Dia de Ação de Graças, peru com acompanhamentos, algo não muito diferente do que o Junior’s oferece o ano todo. É bem servido, traz uma porção substancial de peru e chega fumegando: não pode haver prato mais satisfatório. Os meninos pedem sanduíches Reuben, gigantescos e deliciosos. Se naquele momento caísse uma bomba no restaurante, a gente saberia como lidar com a situação.

O motorista do carro que nos leva de volta a Manhattan puxa conversa com meu filho Sam a respeito do acervo de pinturas da sua faculdade. Acompanho o papo de orelhada e concluo que estão falando do quadro Christina’s World, de Andrew Wyeth. Num ímpeto, exclamo, quase latindo: “WYETH!” Jonah e Sam riem e depois dizem que estavam falando de outro pintor. Já o motorista resolve concordar comigo, justamente a pessoa que se enganou.

“E eu sei o que digo”, ele exclama. “Sou artista.”

Quando desembarcamos, perto da porta de casa vemos uma mulher com um casaco preto justo andando atrás de uma criança bem pequena, em câmera lenta, e cantarolando: “Neném quer dinheiro?” A criança deve ter uns 3 anos, ri e parece não precisar de grana.

Sam ainda fica conosco um tempinho, depois sai para pegar o trem para Connecticut. Jonah tolera meu ruído branco de meditação por alguns minutos antes de pôr para tocar sua playlist do Spotify com Ric Flair Drip.[5] Pede para assistir à série Black Mirror com a gente, e terminamos o dia com o episódio “Nosedive”, que fala de rejeição nas redes sociais, num mundo em que todo mundo avalia todo mundo. Nesse futuro próximo, ter uma avaliação baixa é algo que poderá deixar as pessoas quase sem ar. Quem diria. J

[1] Os equivalentes no Brasil são, respectivamente, Frontal – princípio ativo alprazolam; Valium – princípio ativo diazepam; e Rivotril – princípio ativo clonazepam. Os benzodiazepínicos, na literatura médica, também são referidos como BZD.

 

[2] Livro de contos do norte-americano Denis Johnson publicado em 1992, relatando experiências associadas à heroína, do qual derivou um filme homônimo, lançado nos Estados Unidos em 1999. No Brasil, chamou-se O Filho de Jesus. O título, por sua vez, refere-se a um verso de Heroin, canção de Lou Reed gravada em 1967.

 

[3] Filme do diretor Michael Mann lançado em 2000, sobre um ex-executivo da indústria de cigarros que revela a um jornalista as estratégias de uma companhia para ampliar o efeito viciante do produto.

 

[4] Food and Drug Administration, o órgão público norte-americano encarregado do licenciamento e controle de medicamentos, entre outros produtos.

 

[5] Música do rapper Offset e do produtor Metro Boomin, lançada em 2017.

 

Sasha Frere-Jones

É escritor e músico norte-americano

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