despedida

Adeus às ilhas

Nem a venda de terras homéricas e a tentativa de confisco em Chipre põem fim à crise do euro

Mario Sergio Conti
A família real do Catar comprou a ilha grega de Oxia pela pechincha de 5 milhões de euros
A família real do Catar comprou a ilha grega de Oxia pela pechincha de 5 milhões de euros ILUSTRAÇÃO: GIORGIA MASSETANI_2013

Quem deu o primeiro sinal que ilhas gregas estavam à venda foi o primeiro-ministro Antonis Samaras. “Com a condição de que não se coloque nenhum problema de segurança nacional, algumas das ilhas poderão ser usadas comercialmente”, disse ele no ano passado. A Grécia tem cerca de 6 mil ilhas, que todos os verões são percorridas por iates de milionários de todos os quadrantes.

Uma das embarcações a fazer o périplo das ilhas – um iate que mais parece um porta-aviões, de tão grande – pertence ao xeque Hamad bin Khalifa al-Thani, o emir do Catar. Político dinâmico e tradicionalista, Al-Thani destronou o pai num golpe de Estado para se tornar emir, mesmo método usado antes pelo seu próprio pai.

Embora tenha metade da área de Sergipe e uma população inferior à de Salvador, o Catar é um dos maiores produtores do mundo de petróleo e gás. Não falta dinheiro à família real. Investidor clarividente, o emir comprou a loja Harrods, em Londres. Bondoso, doou 100 milhões de dólares para que Nova Orleans se recuperasse da devastação do furacão Katrina. E, político atilado, colocou de pé a rede de televisão Al Jazeera, a maior do mundo árabe.

Politicamente, aliás, o emir poderia ser um prócer do PMDB. Ensaiou uma aproximação com Israel e permitiu a utilização do território para que os Estados Unidos invadissem o Iraque. Mas a lei islâmica, a sharia, é a instância máxima no Catar, e o emir foi o único chefe de Estado a visitar a Faixa de Gaza, dominada pelo Hamas, organização que Israel classifica como terrorista.

A família real do Catar ouviu os apelos do primeiro-ministro Samaras: por uma pechincha, acabou de comprar a ilha de Oxia. O preço do lugar, um pedaço desabitado de paraíso no Mar Jônico, era de 7 milhões de euros. Mas se fechou negócio por 5 milhões. Para quem tem três mulheres e 24 filhos, como o emir, uma ilha é mais que necessária.

 
Pode-se imaginar a gritaria se a Ilha Grande, no litoral fluminense, fosse vendida. Na Grécia, ninguém protestou, exceto os eternos insatisfeitos. Motivos poéticos, ao menos, haveria: pertencente à municipalidade de Ítaca, Oxia fica a menos de 20 quilômetros da ilha onde teria reinado Ulisses, o herói da Odisseia. Outra ilha citada por Homero, Dolicha, também está à venda (faça o seu lance: o preço pedido é de 40 milhões de euros), além de Skorpios, de Athina Onassis.

Para quem tem títulos da dívida grega, a venda das ilhas é considerada fundamental. “Os insolventes devem vender tudo o que têm para pagar os credores”, disse Josef Schlarmann, um dos dirigentes da União Democrata-Cristã da Alemanha, o partido da chanceler Angela Merkel. Na imprensa sensacionalista germânica houve reportagens com conselhos do tipo “Vendam a Acrópole”.

Aí, sim, houve gritaria entre os gregos. Isso porque há 71 anos a bandeira da suástica foi hasteada na Acrópole. A ocupação do país pelo Exército alemão durou três anos e meio e foi uma catástrofe. Provocou a maior hiperinflação já registrada na história mundial, batendo inclusive a da República de Weimar.

O descontrole inflacionário causou a maior onda de fome na Europa do século XX e mais de 200 mil gregos morreram de inanição. Se um ocupante alemão era morto pela resistência, cinquenta gregos eram executados. Oitenta por cento da comunidade judaica foi assassinada. Em apenas um mês, 49 mil gregos, a maior parte de Salônica, a “Jerusalém dos Bálcãs”, foram enviados para a morte em campos de extermínio.

Esse passado ajuda a entender por que os cartuns com Angela Merkel vestida de nazista, ou com bigode de Hitler, são populares na imprensa grega. E há um motivo ainda mais palpável: a reparação.

Pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, veio a Guerra Fria. Como a Alemanha era aliada essencial dos Estados Unidos, a indenização devida pelo país à Grécia foi adiada até uma eventual reunificação do país. A unificação veio em seguida à queda do Muro de Berlim, em 1989. Nem por isso indenização houve.

Os vários governos alemães desde então se negam a saldá-la, apesar de terem pago reparações aos Estados Unidos, à Rússia, à Inglaterra e até à França. Pelos cálculos de Atenas, a Alemanha deveria à Grécia, descontando os juros, cerca de 15 bilhões de euros. Com juros (de 3% ao ano), a indenização pela ocupação chegaria a 100 bilhões de euros.

 
Os alemães de hoje deveriam pagar pelos estragos provocados pelos alemães de ontem? Os descendentes dos gregos que padeceram merecem ser ressarcidos? A resposta depende da relação de forças entre os dois países – e a Alemanha, o país mais poderoso da zona do euro, acha que não. Mesmo com a indenização de 100 bilhões, a Grécia ainda teria que penar para sair da bancarrota: a sua dívida é de pouco menos de 400 bilhões de dólares, quase o dobro do seu Produto Nacional Bruto. A maior parte dela foi contraída em bancos da Alemanha e da França.

Com a crise financeira de 2008, constatou-se que a Grécia vivia desse crédito fácil, de incentivos da União Europeia, da sonegação generalizada e do inchaço do funcionalismo público. A sonegação começava no grande empresariado, com os capitães da indústria naval à frente, e se estendia até a classe média – só um terço dos médicos declara receber mais de 12 mil euros por ano, o que é ridículo. Os salários do setor público cresceram 50% entre 1997 e 2009. A azeitona final na mussakka grega foi o endividamento para as obras das Olimpíadas de Atenas, em 2004.

Angela Merkel diz ser injusto amenizar a dívida grega. E ainda mais porque o trabalhador alemão se aposenta aos 69 anos; os funcionários públicos gregos, aos 55. O remédio dela para a crise é amargo como ouzo. A economia grega passou a ser monitorada pelo que se convencionou chamar de troika: os chefes da Comissão Europeia, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu. O país tem que demitir 150 mil dos seus 800 mil funcionários públicos, que tiveram os salários reduzidos. A privatização deve ser generalizada, e não só das ilhas, homéricas ou não. Metade do porto do Pireu, o maior da Grécia, foi arrendada, mas não ao Catar, e sim a outra ditadura, a China.

Com uma economia que representa menos de 3% da europeia, a Grécia poderia afundar sem que ninguém, exceto os gregos, se importasse muito. Mas a sua debacle pode contaminar de imediato outras economias da zona do euro, como a Espanha e a Itália. Mesmo noutra pequenina ilha mediterrânea, Chipre, país com uma economia que é 0,2% da europeia, a troika tentou impor um confisco das contas bancárias. No voto, o Parlamento barrou o confisco das contas com menos dinheiro. A democracia, como se sabe, foi inventada na Grécia.

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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