despedida

Adeus, sarcófagos iluminados

Com as câmaras ultravioleta colocadas na ilegalidade, o astro rei é a alternativa segura para quem quer se torrar com força total neste verão

Daniela Pinheiro
George Hamilton, halterofilistas, estilistas italianos e também os Oompa-Loompas adoram o abóbora-alaranjado
George Hamilton, halterofilistas, estilistas italianos e também os Oompa-Loompas adoram o abóbora-alaranjado © HAYLIE ECKER_FLICKER.COM/LOVEHAYLIE

Eram loiras, magras, usavam óculos escuros. Estavam com o punho em riste, tinham uma expressão indignada estampada no rosto e as mãos erguiam cartazes explicando o sentido de sua luta: “Eu sou dona do meu corpo.” A imagem, publicada por vários jornais – essa sim -, não falava por si só. Era uma marcha a favor do aborto, quem sabe um levante pró-doação de órgãos? “O mundo libera. O Brazil proíbe?”, lia-se em outra cartolina.

À parte a escorregada ortográfica que americanizou o Brasil, a passeata foi animada. Organizada pelo Sindicato dos Barbeiros, Cabeleireiros e Institutos de Beleza do Rio Grande do Sul, ela reuniu mais de 100 pessoas, entre profissionais do ramo e adeptas, contra o banimento do bronzeamento artificial.

Em meados de novembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu o uso das câmaras de bronzeamento, alegando que elas aumentam em 75% o risco de câncer de pele em quem começou a usá-las antes dos 30 anos. Há também indícios de que provocam o envelhecimento precoce e o surgimento de manchas. A medida se baseou num estudo publicado pela revista médica Lancet Oncology.

Nos Estados Unidos, estima-se que 30 milhões de pessoas mantenham o bronze graças aos banhos semanais com a luzinha azul. Boa parte delas é de adolescentes. O gosto dos americanos pelo bronzeado constante se tornou alvo do escritor David Sedaris, que criou o neologismo “tanorexia” para designar a obsessão pelos raios ultravioleta. Mas o patrono do superbronzeamento eterno, o ator George Hamilton, pode ficar tranquilo: o bronzeamento por lá continua liberado.

Uma das coisas que se soube a respeito da ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, quando foi candidata republicana a vice-presidente, é que ela mantinha a sua cama de bronzeamento no próprio gabinete. No Alasca, onde faz calor duas semanas por ano, faria sentido, mas ainda assim ela foi torpedeada pela oposição, que a considerou frívola e quis saber quem havia pago a máquina.

No Brasil, não há estatísticas sobre o uso das camas ultravioleta. Nota-se que a prática está disseminada entre atrizes em começo de carreira, vedetes de programas de telerrealidade, apresentadoras, celebridades e emergentes. No Carnaval, na temporada de chuvas e antes de um ensaio para a Playboy, a medida sempre foi imprescindível.

Com a cama bronzeadora, bastam vinte minutos para se alcançar uma tonalidade de pele equivalente a se deixar torrar um dia inteiro na praia. Uma promessa tão gloriosa como a de perder um quilo só vendo televisão.

Um dos méritos da máquina foi popularizar um matiz de pele jamais definido por qualquer censo demográfico no mundo: aquele colorido historicamente reservado a halterofilistas, estilistas italianos, Hebe Camargo e Adriane Galisteu, e aos Oompa-Loompas, os ajudantes de Willy Wonka em A Fantástica Fábrica de Chocolate.

Na paleta ultravioleta, nunca se conseguiu fixar o momento exato em que o dourado passava a ser abóbora e o abóbora virava alaranjado. Nesses instantes efêmeros o adepto do bronzeamento se tornava único e inconfundível. Outro mistério nunca revelado era como alguém que atingiu o tom alaranjado continuava a se comprazer com o que via no espelho.

 

As camas bronzeadoras lembram um sarcófago. São equipadas com dezenas de spots que emitem feixes de luz compostos por 95% de raios UVA, a onda longa, ou luz negra, e o resto de UVB, a onda média, que é considerada extremamente cancerígena. Os fabricantes do sarcófago alegam que filtros potentes atenuam os raios nocivos. Deita-se de roupa de banho, ou au naturel, usando uns óculos de natação que parecem ter encolhido. A intensidade de alguns raios ultravioleta pode ser até dez vezes mais forte do que o sol do meio-dia.

Houve um tempo em que o chique era ter a pele alva como a da Branca de Neve. O bronzeado era reservado aos trabalhadores que se expunham ao ar livre, em serviços braçais. Na década de 30, o padrão começou a mudar. Os ricos passavam seus dias tomando Dry Martini em iates e a plebe gostou de poder ser confundida como quem parecia estar permanentemente de férias.

No Brasil, onde as décadas de 70 e 80 foram passadas sob sol a pino, com o corpo lambuzado com Coca-Cola, semente de urucum com óleo Johnson’s ou Rayto del Sol importado do Paraguai, o bronzeado extremado nunca saiu de moda.

Na Austrália, um país ensolarado como o Brasil, e com a maior incidência de câncer de pele no mundo, a exposição aos raios ultravioleta naturais foi considerada um problema de saúde pública já nos anos 80. As japonesas, por sua vez, saem na rua protegidas por guarda-sóis e gastam fortunas em cremes de embranquecimento, que as deixam com a tez de quem acabou de ser sugada por um vampiro. A última vez em que uma grande campanha de moda apostou em modelos de epiderme brûlée foi em 1998.

Agora, sem a cama bronzeadora, restam poucas alternativas para manter o tom de pele que é associado à turma dos saudáveis ou dos desocupados. Lagartear sob o sol também passou a ser algo proibitivo mesmo se lambrecando com os produtos mais populares no mercado. No mês passado, uma pesquisa patrocinada pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor mostrou que, das dez marcas de protetores solares mais vendidas, apenas duas foram consideradas seguras. E só três delas excluíam de sua fórmula o benzophenone-3, também considerado cancerígeno.

O teste levou em conta composição, hidratação, irritabilidade na pele, proteção e resistência à exposição solar. Apenas as marcas L’Oréal Solar Expertise e Cenoura & Bronze foram aprovadas em todos os quesitos.

Sobraram então os autobronzeadores vendidos em farmácias e os sprays de bronzeamento a jato. Os primeiros são fáceis de aplicar – e também de manchar roupas para sempre, além de tingir as palmas das mãos e as unhas por, no mínimo, uma semana.

Já a tecnologia dos jatos de sprays não para de surpreender. Antes, entrava-se em um chuveiro e recebia-se um banho de tinta laranja. Em seguida, a esteticista se aproximava empunhando um secador de cabelo para fixar o produto na pele. A desvantagem é que, em cinco dias, o bronzeado mais se assemelhava a um vitiligo localizado: as partes do corpo mais ensaboadas durante o banho voltavam rapidamente à cor original.

Mas, assim como as amantes, a ciência não se conforma. A novidade é um spray transparente, aplicado com mangueira de bico e um compressor pneumático, que reage com a queratina na camada externa da pele estimulando a melanina. Uma sessão de dez minutos custa 60 reais.

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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