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Afinal, é revolução ou é neoliberalismo?

A edição de janeiro saiu com uma capa para assinantes (sem chamadas) e outra para banca

 

INFERNAL

Que capa, piauí! Pieter Huys era vidente? Pintou nosso quadro atual, verdadeiro inferno.

MÉVIA ILDA VIEIRA DIAS_SANTOS/SP

 

ARRABALDE

Parabéns a João Moreira Salles pela didática explicação da dinâmica “boom-colapso”, que resulta em ocupação insustentável da Amazônia (A fronteira é um país estrangeiro, piauí_172, janeiro). Aprendi que quando uma área de floresta é “conquistada” por atividade predatória, em poucos anos esgotam-se os recursos naturais e a população remanescente passa a depender de repasses governamentais. Compreendi que é preciso interromper o ciclo de destruição, dificultando o acesso a terras ainda intocadas e valorizando as terras já desbravadas.

Mas a devastação causada pela agropecuária e pelo garimpo clandestino não deve servir de bandeira para a proibição de outras atividades econômicas legítimas e legais que tenham o potencial de produzir sustentavelmente riqueza na região. Madeira, energia, bens florestais e minerais podem ser extraídos da Amazônia de forma cirúrgica, com limitado impacto ambiental e significativo impacto social. É tarefa difícil, mas não impossível.

JERSON KELMAN_RIO DE JANEIRO/RJ

 

O primoroso trabalho de João Moreira Salles poderia se intitular “Amazônia: uma visão não antropocêntrica”.

Deveria ser de leitura obrigatória para candidatos ao que quer que seja, de vereador a juiz, de deputado a burocrata do Incra, de governador a secretário de assuntos aleatórios de qualquer recanto da região amazônica, quanto mais a presidente.

A riqueza de detalhes e dados científicos, as agudas e profundas observações e os paralelos traçados com maestria (os dois lados da BR-163, genial!; a descrição do caos das cidades amazônicas em relação ao seu entorno) nos transportam quase visualmente à região.

O conceito de unicidade da floresta e a mutualidade dos inúmeros seres que a habitam precisam ser entendidos e compreendidos. O mundo já sabe, mas nós, brasileiros, ainda estamos distantes e vamos pagar um preço alto por estar de costas para o gigante verde. O tempo apremia, corramos. Precisamos multiplicar, precisamos de dois, dez, mil, milhões de relatos como esse.

HÉCTOR BOTTAI_SÃO PAULO/SP

 

FLORDELIS

O artigo de Jerônimo Teixeira, A mentira na caixa de sapatos (piauí_172, janeiro), tem um pouco de tudo que o público da revista aprecia: babado policial, crítica cultural, economia e… filosofia moral. Especialmente a menção ao movimento filosófico promovido por Peter Singer, chamado de Altruísmo Eficaz: a ideia é que, se você quer fazer o bem, deve procurar maneiras comprovadas de ter um impacto positivo.

Estima-se, por exemplo, que uma doação de 3 mil dólares para a Against Malaria Foundation pode salvar uma vida; isso é muito menos que o valor do cachê doado por um só ator do filme sobre a Flordelis. Claro, de nada serve perturbar atores por um erro bem-intencionado, mas é importante que sirva de exemplo – não apenas de como nossas atitudes pouco refletidas podem contribuir para um resultado indesejado, mas principalmente sobre o custo de agir sem atenção à melhor evidência. No caso da elite dos artistas, tempo, talento e conexões também são recursos úteis e escassos.

Podemos estender o raciocínio a pessoas que, desconsiderando alertas e evidências a respeito da pandemia, promovem tratamentos ineficazes e desincentivam medidas preventivas. Já como exemplo positivo, temos Chris Uhl (O mentor, piauí_111, dezembro 2015), que ensinou os pesquisadores do Imazon a analisarem a evidência antes de se engajarem diretamente no ativismo; como narrado por João Moreira Salles em Arrabalde Parte III (breve e adorável tratado sobre a exploração econômica da Amazônia), a política ambiental federal orientada por essa pesquisa levou a uma redução drástica no desmatamento (A fronteira é um país estrangeiro, piauí_172, janeiro). Afinal, como a piauí tem continuamente frisado, a floresta é crucial para o clima mundial, e prevenir sua destruição é, no longo prazo, fundamental para o bem-estar da sociedade.

CAROLINA OLIVEIRA_SÃO PAULO/SP

 

PROFESSOR ANÔNIMO

Desconcertante. Essa foi a minha impressão quando li o artigo Parece revolução, mas é só neoliberalismo (piauí_172, janeiro). Desconcertante porque o ambiente de tensão entre professores universitários e alunos que é relatado me é desconhecido! Será que em mais de duas décadas como professor universitário estive alienado de tudo o que ocorria ao meu redor?

Caso o autor esteja correto, temos um problema sério. Porém, para que essa discussão possa contribuir para o problema levantado, precisamos de dados mais concretos. Somente assim poderemos entender se, de fato, a atitude “revoltosa” dos alunos sobre o “autoritarismo” dos professores é real, com emprego de “pautas políticas” para uso egocentrista, e se esse tipo de atitude se encontra em um nível alarmante, no sentido de representar um problema a ser enfrentado.

Num ponto concordo com o autor: o individualismo dos alunos tem aumentado, levando a uma postura que poderia ser classificada (segundo o autor) como uma visão do alunato de que o professor/orientador está mais para prestador de serviços do que educador.

Há um aumento de casos em que alunos usam de sua posição para não entregar trabalhos, pedir assinaturas “para ontem”, faltar a reuniões sem justificativa, não entregar dissertações e teses a tempo de uma revisão detalhada e atos desse tipo, que revelam até mesmo falta de respeito intelectual. Porém, de que essas atitudes caracterizam um “neoliberalismo como fenômeno cultural dentro das universidades” não estou tão certo. O professor tem a prerrogativa de se posicionar como achar melhor diante dessas situações, avaliando, inclusive, o risco de represálias.

Não podemos perder o foco de nossas atenções e críticas mais prementes, que deveriam estar centradas no processo de sucateamento e destruição da delicada infraestrutura da ciência e do ensino (não apenas o universitário) no Brasil. Não é hora de dividir a universidade pública.

ALEXANDER KELLNER, DEPARTAMENTO DE GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA, MUSEU NACIONAL_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Achei revelador o artigo Parece revolução, mas é só neoliberalismo e importante sua crítica ao pensamento individual e neoliberal que transforma alunos em consumidores. Mas o autor se esqueceu de um fator importante: a maioria dos alunos não ingressa na universidade à procura de formação enriquecedora ou acadêmica. O jovem cursa o ensino médio com o objetivo de passar no vestibular e entrar na faculdade para estar mais bem qualificado no mercado de trabalho. Existe uma pressão imensa sobre o jovem para que conquiste um diploma – como se esse fosse o único caminho possível para uma vida digna. Assim, o neoliberalismo transforma o diploma em mero investimento comercial e obrigatório. Mesmo pós-graduações e mestrados são muitas vezes encarados como investimento para almejar cargos de mais destaque em uma organização. É uma lógica de mercado que destrói o sentido do ambiente de estudo acadêmico. Nessa engrenagem, o aluno é tanto vítima quanto parte do problema.

É preciso ressignificar a educação superior. E isso não será possível enquanto alunos e professores mantiverem uma relação de oposição, quando na verdade são colegas.

GUSTAVO HENRIQUE SCHMIDT_CURITIBA/PR

 

 

Gostaria de expor minha profunda insatisfação com o artigo Parece revolução, mas é só neoliberalismo. O texto apresenta uma grande distorção em relação à universidade pública, assim como traz argumentos extremamente subjetivos e parciais.

O autor se baseia no relato de casos dos quais ele teve conhecimento por meio de colegas. Relato de caso é um elemento metodológico legítimo. O problema é que os casos que o autor expõe são, no máximo, dez. E alguns são questionáveis, pois não corroboram inteiramente com a tese do autor – de que os alunos estão concebendo a educação como uma mercadoria, “a partir de uma ética individualizante e espírito do consumismo erigidos como o modelo cognitivo e normativo da vida social”. Um estudante solicitou que o professor desse mais aulas expositivas. O fato de um aluno dar uma sugestão em sala de aula comprova que ele está inserido em uma perversa lógica neoliberal, em que os alunos se veem como consumidores de uma educação entendida como mercadoria? Não, não comprova.

No final, parece que se trata apenas de “ouvir dizer”, que se baseia em um desagrado pessoal do autor, o que não fundamenta aquilo que ele entende como uma tendência visível e crescente: “O episódio que narrei pode ter sido particularmente teatral e pedagógico, mas abundam casos semelhantes nas universidades.” O que nos prova que isso acontece? Não estaria o autor simplesmente irritado com o fato de que a hierarquia e o status social do professor acadêmico estão diminuindo? Principalmente na medida em que a classe de professores universitários, até pouco tempo, era detentora de vários privilégios no funcionalismo público, estando em um topo quase de casta esclarecida e merecedora?

Por que não dizer sobre a lógica neoliberal contida nos sub-reptícios cortes da educação superior operada pelo atual governo? Por que não falar sobre a onda de negacionismo que aflige os acadêmicos de forma a descredibilizar a ciência no Brasil?

O que realmente nos leva a uma educação entendida como neoliberal é a tentativa de privatizar o ensino, menosprezar a importância do conhecimento universitário, cortar bolsas de pesquisa e, por último, inculcar a ideia de que “fazer faculdade não serve para nada”.

MIRIAN MONTEIRO KUSSUMI_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Compreendo a angústia do professor anônimo e me solidarizo com seu desabafo, mas o artigo Parece revolução, mas é só neoliberalismo seria mais inteligível sem o tipo de pirueta linguística utilizada para embasá-lo. O fenômeno narrado não é o da esquerda progressista que abraça irrefletidamente um suposto neoliberalismo cultural. Nos lugares que ocupam, os alunos exemplificados têm discernimento sobre certo e errado. Mau-caratismo, preguiça intelectual, oportunismo, self-entitlement, são muitos os nomes que podemos dar a suas atitudes sem a necessidade de explicações sociológicas mais abrangentes. Simples assim. Basicamente, o autor afirma que, se há algum problema na academia, ele sempre parte da direita, seja de maneira direta ou não. É um reducionismo terrível que reitera a velha presunção de superioridade moral tão típica da esquerda.

JORGE ROCHA NETTO_CAXIAS DO SUL/RS

 

NEURÔNIOS DE FÉRIAS?

A piauí_172, janeiro, me deu munição para algo que já faço com frequência: suspender temporariamente minha assinatura de jornal entre dezembro e janeiro por acreditar que os melhores profissionais saem de férias e, consequentemente, o conteúdo empobrece. A matéria Parece revolução, mas é só neoliberalismo joga uma tese superinteressante, mas a explora com pouca profundidade. Daí você começa a ler matérias com pouco apelo, como a do caso Flordelis (A mentira na caixa de sapatos), em que o autor parece acusar os globais que participaram do filme de não terem investigado sua vida o suficiente para saberem que era uma roubada, sendo que a própria revista alçou o Marcius Melhem do céu ao inferno em um intervalo curto de tempo (Humoristicamente correto, piauí_151, abril de 2019; O que mais você quer, filha, para calar a boca?, piauí_171, dezembro 2020). Para não ser injusto, a Pequena enciclopédia dos seres híbridos gerou um jogo de adivinhação divertido entre minha filha e suas primas que também divertiu os pais ao ouvirem as três lendo os polissílabos da Maria Esther Maciel pouco familiares a crianças. Devo suspender temporariamente as edições de dezembro/janeiro?

DANILO WEINER_SÃO PAULO/SP

NOTA MEIO PATÉTICA DA REDAÇÃO: Temos os “melhores profissionais”! Eles saem de férias em janeiro, mas existem! O ano já começou trazendo notícias surpreendentes.

 

QUADRINHOS

Sou uma mulher de 67 anos que não sai de casa há oito meses. Minha última alegria durou algumas horas: me refiro aos quadrinhos O que é que você tem?, de Andrício de Souza (piauí_172, janeiro). Para sobreviver à situação de isolamento em que nos encontramos, a tristeza e o humor são inevitáveis. Até então, não tinha visto nenhuma obra que percebesse isso. O artista demonstrou toda a tristeza em que nos encontramos por meio do humor. Eu ri horrores ao ler a fala de pensamento que fecha o quadrinho, antes de cair em convulsivo choro.

Parabéns ao autor, que soube, qual Cervantes, Woody Allen, Machado de Assis, Drummond, Philip Roth, Millôr e poucos outros, utilizar o humor para alcançar tão fundo, e fazer rir e sofrer esta já velha senhora.

VALÉRIA ALCANTARA_RECIFE/PE

 

MELHEM

Na edição de janeiro, um leitor comenta que a revista menciona o assédio da estrela global (O que mais você quer, filha, pra calar a boca?, piauí_171, dezembro 2020) e faz um paralelo com uma edição mais antiga que tecia loas ao acusado (Humoristicamente correto, piauí_151, abril 2019). São situações diferentes: em abril de 2019 o sujeito estava em ascensão. Era considerado o rei Midas do humor. Novas ideias. Novos enfoques. A bem detalhada reportagem de dezembro de 2020 mostrou sua outra face, até então desconhecida. A piauí não falhou de jeito nenhum!

GERALDO MAIA_BELO HORIZONTE/MG