chegada

Agora é crise

O Guardian sobe o tom para falar do aquecimento global

Bernardo Esteves
Em razão das atuais ameaças à natureza, o jornal recomenda que o termo “mudança do clima” seja substituído por “colapso” ou “crise” do clima
Em razão das atuais ameaças à natureza, o jornal recomenda que o termo “mudança do clima” seja substituído por “colapso” ou “crise” do clima FOTO: ALEXANDER GRIR_GETTY IMAGES_2018

“A crise climática é nossa terceira guerra mundial. Precisa de uma resposta arrojada”, lia-se no título de uma coluna do economista norte–americano Joseph Stiglitz, publicada em junho no jornal britânico The Guardian. O artigo refletia sobre como a economia global pode se preparar para essa guerra. “Vamos pagar pelo colapso climático de um jeito ou de outro. Então faz sentido gastar dinheiro agora para reduzir as emissões [de gases do efeito estufa] em vez de pagar bem mais caro pelas consequências no futuro”, defendia o autor, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001.

No tom e na linguagem, o artigo de Stiglitz aderia às novas orientações do manual de redação do Guardian, atualizado em maio. O diário passou a recomendar a seus jornalistas e articulistas que não falem mais em “aquecimento global” ou “mudança do clima”, mas sim em “crise”, “emergência” ou “colapso” do clima. Para o jornal, esses termos descrevem com mais precisão as atuais ameaças ao meio ambiente. “A expressão ‘mudança do clima’ soa um tanto leve e passiva, mas o que os cientistas estão descrevendo é uma catástrofe para a humanidade”, afirmou a diretora de redação Katharine Viner no editorial que anunciou a decisão. O texto evocou um questionamento da adolescente sueca Greta Thunberg, líder do movimento que promoveu greves em escolas de aproximadamente cem países para alertar sobre a crise climática: “Estamos em 2019. Já podemos chamar as coisas pelo que elas são?”

Fundado em 1821, o Guardian é um dos mais influentes jornais ingleses e vem se engajando no combate ao aquecimento global há algum tempo. Em 2015, por exemplo, lançou uma campanha contra os investimentos em fundos e ações que tinham conexões com a indústria dos combustíveis fósseis. No fim de maio, o semanário norueguês Morgenbladet divulgou que, seguindo o diário britânico, também empregaria uma linguagem mais dura para falar de clima.

Duas semanas antes de o Guardian atualizar seu manual, o Reino Unido se tornou o primeiro Estado do mundo a declarar emergência climática e ambiental. Desde então, a Irlanda, o Vaticano e o Canadá adotaram resoluções semelhantes. A moção aprovada pelo Parlamento britânico foi uma reivindicação do grupo Extinction Rebellion, cujos protestos interromperam o trânsito em vários pontos de Londres por onze dias, no mês de abril. Embora a resolução não obrigue o governo a tomar qualquer atitude em relação ao clima, a premiê Theresa May anunciou, no início de junho, que o Reino Unido se propõe a zerar suas emissões líquidas de gases do efeito estufa até 2050.

 

Desde o século XIX, os cientistas sabem que o acúmulo desses gases na atmosfera pode aquecer o planeta. Tal risco é apontado na imprensa há mais de cem anos. Em julho de 1912, uma nota curta publicada no Braidwood Dispatch and Mining Journal, da Austrália, informou que os 7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono emitidas anualmente pelas usinas de carvão estavam criando um cobertor na atmosfera que esquentaria a Terra. “O efeito pode ser considerável em poucos séculos”, vaticinou o jornal. Mas a mudança do clima só ganhou grande visibilidade no final dos anos 80, quando os cientistas se deram conta de que os padrões de produção e consumo da humanidade aumentariam inevitavelmente a temperatura planetária. Em 1988, James Hansen, climatologista da Nasa, advertiu os senadores norte-americanos para as consequências das emissões desenfreadas de gases do efeito estufa. O New York Times dedicou uma manchete ao alerta: “O aquecimento global começou, diz especialista no Senado.”

Alguns pesquisadores já usam a expressão “crise climática” para tratar do tema em artigos científicos, apesar de o IPCC – o painel de cientistas da Organização das Nações Unidas que se dedica ao assunto – ainda preferir o termo “mudança do clima”, mais sóbrio. A decisão do Guardian reflete a compreensão mais refinada que a ciência passou a ter do aquecimento global. “A semântica muda de acordo com o estado do problema”, explicou Marcos Buckeridge, biólogo da Universidade de São Paulo (USP) e coautor do último relatório do IPCC, lançado em 2018. Segundo o trabalho, estamos sentindo agora os resultados do aumento de 1ºC na temperatura média do planeta que se verifica desde a Revolução Industrial (se não agirmos, temos, no mínimo, outros 2 ou 3 graus pela frente até o fim do século).

O ambientalista Carlos Rittl – secretário executivo do Observatório do Clima, uma coalizão com dezenas de ONGs da área ambiental – acredita que chamar o fenômeno de “crise climática” é mesmo uma opção mais realista. “‘Mudança do clima’ não transmite a gravidade do desafio.” Ele considera, porém, que não basta subir o tom. A imprensa também deve mostrar que a crise hídrica, o preço alto do feijão, a eclosão de epidemias e outras adversidades se associam às questões climáticas. “Falar em crise é extremamente importante, mas precisamos demonstrar como o problema se liga à rotina das pessoas.”

 

Nem todos apoiaram a decisão do Guardian. “Os termos ‘mudança do clima’ e ‘aquecimento global’ já são suficientes para um público que não está apto ou disposto a reconhecer o fenômeno como uma ameaça”, argumentou num artigo o jornalista norte–americano Peter Dykstra, editor da Environmental Health News. Outros articulistas aventaram igualmente a possibilidade de a decisão ser um tiro no pé: o caráter mais alarmista das novas expressões poderia estimular a indiferença ou a apatia do público, conforme já sugeriram alguns estudos acadêmicos. Afinal, se a tragédia é mesmo inevitável, não há muito que se possa fazer.

“De fato, a retórica apocalíptica não conecta os jovens à pauta climática”, avalia o cientista social Iago Hairon, da ONG Engajamundo, que busca mobilizar as novas gerações na luta contra o aquecimento global. Mas ele não crê que os termos recomendados pelo Guardian se enquadrem propriamente na categoria apocalíptica. Já o físico Paulo Artaxo, da USP, espera que a alteração no discurso traga consequências políticas. “Os governos tendem a agir mais rapidamente quando ameaçados pelo pânico.”

Em Brasília, no entanto, o pânico não parece ter chegado. Em vez de discutir se deve adotar a expressão “crise” ou “mudança climática”, o governo Bolsonaro preferiu simplesmente suprimir o assunto do organograma formal dos ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores. A ciência do aquecimento global está em baixa também no Legislativo: em maio, o Senado promoveu uma audiência com pesquisadores brasileiros que contestam a existência do fenômeno, na contramão do que sustentam praticamente todos os cientistas que publicam estudos sobre o tema. Esses contestadores também foram objeto da mudança editorial do Guardian: se antes eram chamados de “céticos do clima”, agora o jornal recomenda tratá-los por “negacionistas da ciência climática”.

 

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

Leia também

Últimas Mais Lidas

Rebelião contra Aras

Ao protestar contra inquérito das fake news, chefe do Ministério Público Federal deflagra reação na instituição

STJ, novo ringue de Bolsonaro

Tribunal tem papel decisivo na crise entre presidente e governadores

Witzel a Jato 

Celeridade da Procuradoria da República contra governador do Rio surpreende na operação que expôs contratos da primeira-dama com um dos maiores fornecedores do estado

Esgares e sorrisos

Cinemateca Brasileira em questão

Sem prova nem lápis emprestado

Estudante brasileira em Portugal relata transformações na rotina escolar depois da epidemia de Covid-19

Na contramão do governo, brasileiros acreditam mais na ciência

Pesquisa inédita aponta que, durante a pandemia, 76% dos entrevistados se mostraram mais interessados em ouvir orientações de pesquisadores e cientistas

Médico no Rio se arrisca mais e ganha menos

Governo Witzel corta adicionais de insalubridade de profissionais que atuam contra a Covid-19 em hospital da Uerj

Maria vai com as outras #8: Ela voltou

Monique Lopes, atriz pornô e acompanhante, fala novamente com Branca Vianna, agora sobre seu trabalho durante a pandemia do novo coronavírus

Autor de estudo pró-cloroquina admite erros em pesquisa

Enquanto isso, maior investigação já realizada sobre a droga reitera que não há benefício comprovado contra Covid-19 e alerta para riscos

Mais textos
1

Dentro do pesadelo

O governo Bolsonaro e a calamidade brasileira

2

Mortos que o vírus não explica

Belém tem quase 700 mortes a mais do que o esperado apenas em abril; oficialmente, Covid-19 só matou 117

3

Autor de estudo pró-cloroquina admite erros em pesquisa

Enquanto isso, maior investigação já realizada sobre a droga reitera que não há benefício comprovado contra Covid-19 e alerta para riscos

4

Amazônia perto do calor máximo

Pesquisa inédita revela que, acima de 32 graus Celsius, florestas tropicais tendem a emitir mais carbono na atmosfera do que absorver

5

Na contramão do governo, brasileiros acreditam mais na ciência

Pesquisa inédita aponta que, durante a pandemia, 76% dos entrevistados se mostraram mais interessados em ouvir orientações de pesquisadores e cientistas

6

Médico no Rio se arrisca mais e ganha menos

Governo Witzel corta adicionais de insalubridade de profissionais que atuam contra a Covid-19 em hospital da Uerj

7

Sem prova nem lápis emprestado

Estudante brasileira em Portugal relata transformações na rotina escolar depois da epidemia de Covid-19

8

Foro de Teresina #101: Bolsonaro sob pressão

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

9

Witzel a Jato 

Celeridade da Procuradoria da República contra governador do Rio surpreende na operação que expôs contratos da primeira-dama com um dos maiores fornecedores do estado

10

Uma biografia improvável

O que são vírus – esses parasitas que nos deram nada menos que 8% do nosso DNA