poesia

Algumas canções sobre a angústia

Mbate Pedro
CREDITO: CELSO YOK CHAN

vi um homem arrumar pedaços de
madeira na estante
lado a lado
os livros
vi-o conservar nas prateleiras as bonecas da filha
dias depois o medo – com suas diabruras –
e a forma circular da angústia

depois
a insônia tomou conta do homem numa quarta-feira em que o
sono desceu pelos pés da cama e esvaiu-se no chão do quarto
mais tarde muito mais tarde
o mesmo homem esconjurou numa ferida
aberta o chão das pedras

Craveirinha
o poeta
esconjurou a escuridão e a agonia dos poemas
da prisão
Cortázar
o argentino
esconjurou-se ele próprio dos
seus cronópios

e precisarei dizer-te que vi ontem o rosto da minha morte
e que tem ele a beatitude de um beijo aberto e imortal?

*

o amor que devoto ao rosto do morto
como se contemplasse uma flor murcha

o buquê de lírios que sou forçado a levar ao
papel branco para que ele se abra – até que o
miolo do poema aluda à desordem

os abraços frios e pesados que recebo às terças-feiras
como se nascessem não dos ombros mas da pélvis

o desentorpecimento

o desespero que me é dado a
assistir nos rostos bafientos e medrosos
dos poetas novatos

e no entanto
as ruas estreitas que abrem os quartos para a elucubração

em outras palavras
o cheiro a fornicação que fica grudado semanas meses
nas vestes no asfalto circundante nos copos de cerveja

tudo isto é aterrador
vês?

*

cresce em mim uma afinidade com a expiração dos
objetos sem nome
como a fixidez dos cães vira-latas
ocorre-me agora
a noite dos bêbedos alegres no autocarro das onze
as pálpebras nuas das mulheres saídas do
parto

o esôfago dentro da tua flor

e tenho aqui
uma guia de marcha
camaradas
querem ver?

e tenho no interior
da voz
meio quilo de barbitúricos e antidepressivos
– quantidade suficiente para detonar os poemas apátridas –

 

e tenho dentro
a parte mais úmida das ilhas
querem ver?

*

e alguém entra no interior da manhã
arrastando pelos pés restos de agonia

*

a tua angústia dentro da minha
entrelaçadas
num desequilíbrio de águas
a esporearem-me os dedos na

umidade do teu silêncio
dois cálices de whisky
para a satisfação
da minha hepatite

a angústia aqui vem de muito longe
de lugares distantes da alma

onde nem a poesia ousa

 


Trecho do livro Vácuos, que a Cepe Editora está lançando na Flip.

Este texto foi reeditado e atualizado em julho de 2019 para piauí_flip_2019, edição impressa e distribuída gratuitamente durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Mbate Pedro

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