crônica

Alô, Bozo?

Percebi pelo tom de voz que ele esperava alguma coisa do telefonema. Se minha mãe dizia estar ocupada quando eu ligava no trabalho dela, imagina só a pessoa mais importante da televisão

Antonio Prata
FOTO: CRAIG CUTLER_TRUNK ARCHIVE

Eu e o Henrique estávamos deitados na cama dos pais dele, os cotovelos enterrados no grande colchão d’água, os queixos apoiados nas mãos, os olhos vidrados no programa do Bozo, onde três cavalinhos mecânicos disputavam um páreo numa pista em miniatura. Pelo telefone, crianças faziam apostas e o vencedor levaria uma bicicleta BMX, da Monark.

O Henrique me perguntou quem iria ganhar: o preto, o branco ou o malhado? Ele não queria saber quem eu achava que iria ganhar, mas qual dos três, de fato, chegaria em primeiro, como se, por ser um ano mais velho do que ele, eu tivesse a chave para todos os mistérios deste mundo. Não me sentindo exatamente incomodado com aquela reverência, respondi, resoluto e blasé:

– O malhado, óbvio.

Para minha sorte – e maior sorte ainda de um tal Arthur, do Jardim Bonfiglioli, São Paulo, que apostara pelo telefone –, o malhado chegou em primeiro. Impressionado com minha habilidade divinatória, que só vinha inflacionar suas já distorcidas impressões a meu respeito, Henrique decidiu tentarmos a sorte na próxima rodada:

– Liga! Liga! Liga pro Bozo! Liga! – ele repetia, apontando o telefone cinza, na mesa de cabeceira.

Hesitei. Não se tratava de um procedimento simples, uma ligação. Era preciso decorar o número, girar muitas e muitas vezes aquele pesado disco de plástico, com cuidado para não escapar do dedo bem no final, mandando para a cucuia todo o esforço anterior; depois, ainda tinha que falar com adultos mal-humorados, nem sempre pacientes e dispostos a compreender as solicitações balbuciantes de uma criança. Se eu já pensava duas vezes antes de ligar para o trabalho da minha mãe e pedir para que passasse no McDonald’s na volta para casa, imagina só para o Bozo, o maior palhaço da Terra? No entanto, como o Henrique não parava de insistir e eu não queria perder a panca, acabei discando o número que aparecia na tevê.

Na primeira vez, deu ocupado. Na segunda, na terceira e na quarta, idem. Na quinta, contudo, chamou. Minha mão suava só de pensar em falar com o Bozo, ao vivo, e em ter minha voz esganiçada difundida para os quatro cantos do país. E se a Vovó Mafalda tirasse um sarro da minha cara? Se Zecão, a Lili ou Macarrão imitassem meus “S” sibilantes? Foi com alívio, portanto, que vi o programa terminar e estava prestes a desligar, a dizer “Que pena, Henrique, não deu tempo”, quando uma mulher atendeu.

Mal respondi seu alô, o Henrique começou a puxar minha camiseta e perguntar o que estava acontecendo, se era o Bozo, se não era, com quem eu estava falando. Tampei o bocal e expliquei que uma mulher havia atendido.

– É a Vovó Mafalda? Pergunta se é a Vovó Mafalda!

A mulher disse que não, não era a Vovó Mafalda. Era só alguém “da produção”, e depois de alguns segundos de silêncio, durante os quais ficamos matutando o que significaria alguém “da produção”, Henrique tomou a dianteira:

– Pede pra falar com o Bozo! Chama o Bozo!

Fiquei nervoso. Pensei em fazer uso de minhas prerrogativas de criança mais velha e explicar ao meu vizinho que a vida não era assim. Uma coisa era ligar para participar do programa, outra, completamente diferente, era ligar fora do expediente e pedir para falar com o Bozo. O Bozo não era como as nossas mães, para quem podíamos telefonar a qualquer hora do dia ou da noite pedindo quarteirões com queijo e sundaes com calda de caramelo. Mas como eu não queria parecer covarde e nós já havíamos telefonado, fazer o quê?

– Eu queria falar com o Bozo, por favor.

A mulher “da produção” disse que o Bozo não podia falar. Claro, eu sabia. O programa havia acabado, ele já estava no “camarim” – e por mais que, assim como “produção”, eu não fizesse ideia do que fosse um “camarim”, entendi que era um lugar de onde ele não conseguiria conversar conosco. Houve, porém, um murmúrio, ela pediu “um instantinho” e nos abandonou ali, pendurados por um fio preto e espiralado num abismo de expectativa. Até que a voz inconfundível surgiu do outro lado da linha, dando fim à nossa agonia:

– Alô, amiguinho! Aqui é o Bozo!

Foi eu dizer “Alô, Bozo” pro Henrique começar a pular e a correr pelo quarto, gritando: “O Bozo! É o Bozo! O Bozo de verdade! Caramba! O Bozo!” Eu também estava eufórico, o coração acelerado, as mãos suadas, mas a alegria durou pouco e os sorrisos palermas foram sugados de nossos rostos assim que ele nos perguntou:

– Então, amiguinho, o que você quer?

Bem, não tínhamos pensado nisso. O plano era apostar nos cavalinhos, mas o programa terminara, agora o Bozo estava na linha, algo precisava ser dito e não sabíamos o quê. Henrique levou as mãos à cabeça, aflito. Tentei ganhar tempo:

– Eu vi o programa… Eu, eu torci pelo cavalo malhado. Ele ganhou!

Bozo agradeceu pela audiência, elogiou a performance do malhado, foi simpático o tempo todo, mas percebi por seu tom de voz que esperava alguma coisa de nossa chamada. Se minha mãe já dizia estar ocupada quando eu ligava no trabalho dela, imagina só a pessoa mais importante da televisão.

Eu olhava pro Henrique, o Henrique olhava pra mim, e provavelmente continuaríamos nesse angustiante pingue-pongue mental até o Bozo desligar, se a Margarida, irmã do Henrique, não tivesse entrado no quarto.

– O Antonio tá falando com o Bozo! Ele tá falando com o Bozo! – disse o Henrique, e, por um instante, nossa glória prevaleceu sobre a aflição.

Margarida era um ano mais velha do que eu e, portanto, a tratava com a mesma reverência que o Henrique a mim. Às vezes, quando a chamávamos para brincar de esconde-esconde ou pega-pega, ela nem sequer respondia, apenas levantava os olhos de sua pasta de papéis de carta, dava um bocejo entediado e voltava, em silêncio, ao universo kitsch de tons pastel. Agora, contudo, a situação era diferente, tínhamos o Bozo na linha e todo poder em nossas mãos: a menina perdeu a pose, soltou três guinchos e só não deu o quarto porque o Henrique a segurou pelos ombros e explicou a urgência: O que deveríamos dizer? Margarida, dando mostra de sua maturidade, soltou de bate-pronto:

– Pede uma bicicleta!

Era um movimento ousado, mas – eu não podia negar – preciso. Para isso havíamos ligado, afinal de contas, por isso queríamos participar da corrida de cavalinhos.

– Bozo, eu quero uma bicicleta.

Dando mais mostras de seu desembaraço nas coisas da vida, Margarida me soprou os detalhes:

– Uma BMX, da Monark, vermelha.

Repeti tudo, menos a cor: vai que ele só tinha azul ou verde? Não seria por esse detalhe que abriríamos mão do brinde.

Bozo pareceu constrangido. Limpou a garganta. Explicou – sempre me chamando de “amiguinho” – que não era assim que funcionava o show business, você tinha que participar de alguma brincadeira e vencê-la para ganhar os prêmios. Então fez uma pausa, cochichou com alguém, pediu um instante e sumiu. Estávamos, mais uma vez, pendurados no abismo da agonia; os ventos da expectativa balançando-nos entre o triunfo e o fracasso, congelando nossos estômagos. Quando voltou, Bozo soltou, exultante:

– Você está no seu dia de sorte, amiguinho! Temos uma bicicleta sobrando!

Margarida corria em círculos, soltando um uivo contínuo, Henrique dava saltos em cima da cama, aterrissando de barriga sobre o colchão d’água, eu pulava no mesmo lugar, repetindo “Bicicleta! Bicicleta! Bicicleta!” A festa, contudo, terminou mais uma vez abruptamente, assim que veio a próxima pergunta:

– Amiguinho, qual é o seu endereço?

Não é que não soubéssemos nosso endereço: é que nem sequer tínhamos uma ideia precisa do que fosse um endereço. Henrique disse que já ouvira falar algo sobre “Juscelino Kubitschek”, mas eu sabia que a Juscelino era um lugar ali perto (uma avenida? uma praça?), pela qual a gente passava quando ia para a casa da minha avó, e não a nossa rua. Margarida falou que estávamos “no Itaim, a gente mora no Itaim!”, e como eu também já tinha ouvido essa palavra lá em casa, várias vezes, disse ao Bozo, cheio de esperança, que a gente morava no Itaim.

– Bibi ou Paulista, amiguinho?

Ah, o mundo! Quando você acha que está começando a dominá-lo, ele te passa mais uma de suas rasteiras… Bibi ou Paulista? Quantas infinitas possibilidades poderia haver por trás daquelas misteriosas palavras?

Margarida saiu para a rua em desabalada carreira, atrás de um adulto, enquanto eu e o Henrique debatíamos. Ele pediu para eu dizer que a casa dele era azul, era a única casa azul da vila, eu falei isso pro Bozo, mas o palhaço me explicou que não adiantava muito saber a cor da casa, sem saber a rua nem o bairro. Eu mencionei o Supermercado Barateiro, ali perto, mas foi só por desencargo de consciência: sabia que a informação era tão ou mais vaga do que a cor da casa do meu amigo. Ouvimos Margarida correndo, na escada, mas a esperança durou pouco: a empregada tinha ido ao açougue e não havia nenhum adulto lá fora. Bozo disse que nesse caso, infelizmente, não teria como mandar a bicicleta, mas sugeriu que continuássemos assistindo ao seu programa e tentássemos ligar novamente, no dia seguinte: quem sabe não participássemos da corrida de cavalos ou da batalha naval e ganhássemos algum prêmio?

– Até mais, amiguinho.

 

Depois do jantar, eu e o Henrique nos encontramos na rua. Os dois de banho tomado, ele com os cabelos lambidos para trás; o meu, tigela, penteado para o lado. Sentamo-nos no meio-fio, em frente à casa dele e, com um graveto, comecei a desenterrar uma tampa de garrafa entre dois paralelepípedos.

– A nossa rua chama Dona Alice – falei, sem tirar os olhos do chão. – A minha casa é a número 14, a sua é a 7.

– É. E Itaim é o nome do bairro – disse ele –, Itaim Bibi. – Depois repetiu: – Bi-bi – como se não acreditasse que aquelas duas sílabas aparentemente inofensivas pudessem ter uma parcela de culpa em nossa infelicidade.

Ficamos um tempo quietos. Raspei a tampinha na guia, para descobrir a marca por trás da terra e da ferrugem – era Pepsi –, e então ele me perguntou se eu sabia o que era um bairro.

– Todo mundo que mora perto, alguma coisa assim. Minha mãe explicou, mas eu não entendi direito.

Devolvi a tampinha à terra e a afundei com o calcanhar.

Passamos boa parte das tardes daquele ano no quarto da mãe do Henrique, de bruços, no grande colchão d’água, os olhos vidrados na tevê e o telefone na mão, mas só deu ocupado.

Antonio Prata

Antonio Prata é escritor e colunista da Folha de S.Paulo

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