despedida

Amarildo por um dia

As últimas 24 horas da ocupação da Câmara Municipal do Rio

Nonato Viegas
Os manifestantes ficaram doze dias dentro do prédio da Câmara em protesto, e só saíram de lá com ordem judicial
Os manifestantes ficaram doze dias dentro do prédio da Câmara em protesto, e só saíram de lá com ordem judicial FOTO: PABLO VERGARA_BRASIL DE FATO

Passava das duas da tarde de 20 de agosto, uma terça-feira, quando um estudante de matemática de 22 anos, morador do subúrbio carioca de Madureira, chegou à entrada lateral do Palácio Pedro Ernesto, a sede da Câmara Municipal do Rio, na Cinelândia, Centro da cidade. Na portaria, o jovem moreno e magrinho disse que iria ao gabinete do vereador Renato Cinco, do PSOL. Ganhou um crachá adesivo e rumou para o plenário. Estava disposto a ficar o tempo que fosse necessário. Uma semana antes, largara o emprego de vendedor de equipamentos de informática, e agora se colocava à disposição para assumir o lugar de um dos Amarildos. Corria o 11° dia da ocupação do edifício.

Amarildo foi o nome escolhido para nominar todos os manifestantes que tomaram a Câmara. “Assim, ampliamos simbolicamente o escopo da nossa ocupação”, explicou um deles, referindo-se ao ajudante de pedreiro desaparecido desde 14 de julho, quando foi detido por policiais militares na favela da Rocinha. O nome compartilhado era também uma forma de dissolver as identidades no coletivo e, em alguns casos, de evitar que as famílias soubessem da presença deles ali.

A ocupação começou de improviso, em 9 de agosto, quando manifestantes compareceram à Câmara para acompanhar o início dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Ônibus, criada para investigar indícios de cartel no transporte público do Rio. Ninguém planejava acampar por lá. Ao verem que os vereadores escolhidos para comandar a CPI eram justamente aqueles que foram contra sua instalação, decidiram não arredar o pé enquanto a composição não fosse revista.

No início eram sessenta ocupantes, a maioria filiada ao PSOL. No dia seguinte, o número baixou para 14. Depois foi caindo para dez, nove e, por fim, oito. Ninguém ligado a partidos políticos permaneceu. Os pertences e mantimentos dos remanescentes – uma dona de casa e sete estudantes – ficavam numa sala ligada ao saguão de entrada do palácio de dois andares. Quando iam para o plenário, onde se reuniam e dormiam, trancavam-na a chave.



Dos oito, cinco não comiam carne e foram adotados por dois restaurantes vegetarianos, que lhes mandavam as refeições. “Num universo de maioria carnívora, a minoria virou maioria aqui”, disse um Amarildo vegetariano, bolsista do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica. Seu namorado de 24, estudante de cinema, também participou da ocupação.

Vários Amarildos mantiveram uma rotina de trabalho pela internet. O estudante de cinema editava áudios para uma rádio de fora da cidade. O de relações internacionais fazia pesquisas acadêmicas. Apesar da determinação da direção da Câmara de que a segurança proibisse que os ocupantes saíssem do edifício e voltassem, um deles escapuliu para fazer uma entrevista de mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Não só conseguiu retornar como foi aprovado no curso.

 

Naquela terça-feira, o aluno de matemática deveria substituir o de cinema, que precisava apresentar na faculdade um projeto de curta-metragem. Mas, assim que entrou no palácio, o rapaz ficou sabendo que sua estadia poderia ser mais curta do que tinha planejado. O pedido de reintegração de posse do edifício estava desde cedo na mesa do desembargador Fernando Fernandy Fernandes. Acreditava-se que ele iria reverter a decisão da juíza Margaret de Olivaes Valle dos Santos, que havia negado a petição da Mesa Diretora da Câmara.

No que seriam as últimas horas da ocupação, os debates entre os Amarildos foram dominados pela relação com a imprensa. O tema dividiu o coletivo e gerou mal-entendidos desde o início. Os ocupantes foram acusados de vetar a entrada da mídia. A maioria, na verdade, não se opunha a falar com jornalistas, mas insistia em só fazer isso depois que o grupo todo, que não se conhecia antes do protesto, chegasse a posições comuns.

Enquanto a dona de casa de 57 anos, única mulher do grupo, conversava no portão da Câmara com manifestantes acampados do lado do fora, seis Amarildos davam entrevista a um jornal carioca. O oitavo estava isolado, no plenário. “Não tenho nada contra a imprensa. Só acho que alguns não querem entender que não estamos aqui como indivíduos, estamos aqui como coletivo. Mas a lógica de vocês é individualizar, criar ícones, heróis e vilões”, disse o estudante de pedagogia de 24 anos.

Logo o aluno de relações internacionais se juntou a ele no plenário, acompanhado do namorado e do estudante de matemática. Irritado, queixou-se de colegas que, segundo ele, estavam dando opiniões pessoais sobre assuntos que não diziam respeito à ocupação, na entrevista que transcorria em outra sala.

A repórter depois se aproximou do grupo para saber como queriam ser chamados. Todos deram sobrenomes que remetiam a um “ato de vandalismo do Estado”, citando locais de chacinas ou massacres: “Amarildo de Vigário Geral”, “Amarildo da Candelária”, “Amarildo da Maré” e “Amarildo de Eldorado dos Carajás”. “Calma aí, tem um a mais”, desconfiou a jornalista. “É que eu não estou ocupando. Só vim visitá-los”, desconversou o recém-chegado.

A noite já estava caindo quando os Amarildos começaram a derradeira assembleia. Foram convidados por um canal de tevê para participar, via Skype, de um debate sobre crise de representação e mobilização política. Discutiram se aceitariam a precondição de que fornecessem no ar ao menos os nomes de batismo. Um dos ocupantes sugeriu que inventassem nomes, mas a ideia foi rejeitada para não cometerem “o mesmo erro denunciado na ocupação, a falta de honestidade”. Acabaram desistindo do programa.

Um Amarildo de 28 anos, biólogo e doutorando em ecologia, anunciou sua saída. Disse não acreditar nas instituições com as quais o grupo tentava dialogar: “A ocupação e a pressão não representaram um avanço.” Os vereadores da base do prefeito Eduardo Paes, com ampla maioria, recusavam-se a mudar a CPI.

Por fim, todos tiveram que sair. Depois das dez da noite, o desembargador determinou a desocupação da Casa. Os Amarildos decidiram não resistir. Sairiam no dia seguinte, quando chegasse a ordem judicial. Só a dona de casa preferiu abandonar o palácio naquela noite, ao lado do biólogo decepcionado. Na quarta-feira, o estudante de matemática estava entre os que deixaram a Câmara, usando mordaças na boca. “A ocupação não se limita à parte interna. Ficarei lá fora”, disse.

No final de agosto, os manifestantes tiveram uma breve vitória, quando uma liminar da juíza Roseli Nalin suspendeu a CPI. Foram seis dias até sua revogação. Inconformados, os vereadores oposicionistas prometeram, em seguida, recorrer e formar uma comissão paralela à oficial. A ação ecoou o protesto dos jovens ocupantes da Câmara: colocaram a raposa para cuidar do galinheiro.

Nonato Viegas

Nonato Viegas, jornalista, é produtor executivo da Rádio Tupi.

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