ficção

Anel de vidro

Como combinar mulher, filhas, rotina doméstica com aquela compulsão puxando-o pelas entranhas?

Ana Luisa Escorel
A mulher diria que a assessora se vestia mal e se calçava pior, com os saltos finíssimos que a obrigavam a um andar artificial. Mas ele achava graça naquela movimentação afetada
A mulher diria que a assessora se vestia mal e se calçava pior, com os saltos finíssimos que a obrigavam a um andar artificial. Mas ele achava graça naquela movimentação afetada ILUSTRAÇÃO: SOCIÉTÉ RENÉ GRUAU PARIS_WWW.RENEGRUAU.COM

Nunca mulher nenhuma tinha olhado para ele daquele jeito. No princípio pareceu apenas dedicada – um riso bonito –, gostava de ter a moça por perto amaciando a rotina tensa da empresa. Não que depois de casado jamais tivessem dado em cima. Tinham. Mais abertamente, pelo menos duas vezes. Primeiro, num congresso: era loura e bem bonita. Mestre em envolvimentos sem consequência, o companheiro de quarto subia pelas paredes:

– Ah, se fosse comigo!

Não estava interessado, o pacto com o casamento era mais forte. Então se fez de bobo e a moça acabou abandonando o cerco para desespero do outro que teria dado um braço por ela.

Anos mais tarde, uma que tinha acabado de conhecer no almoço do hotel, no mesmo seminário em que esteve emborcado por uns três ou quatro dias. Quando foi de noite bateu na porta do quarto, penhoar lilás, convidando-o sem rodeios a ir para a cama. Uma dificuldade… Foi obrigado a dizer não. Aquela figura encostada na soleira coberta de babados transparentes de gosto impossível, olhos chispando como se quisessem derretê-lo… Meses depois soube que tinha engravidado, já era meio passada e queria um filho de qualquer jeito. Mulher tem dessas coisas. Também deram em cima umas colegas de equipe, mas fora de casa o foco era sempre o trabalho, então registrava e seguia adiante sem dar muito pano para manga.

Mas agora a coisa era diferente, outros tempos e a assessora mostrava uma disponibilidade que ele não conseguia entender direito. Casada, embora não se portasse como tal, destilando o tempo todo um olhar doce, prolongadíssimo. Desviava. Tinha mulher, filhas e era o chefe, ali, onde o trabalho precisava seguir a norma prevista a salvo de acidentes: funções claras para serem bem cumpridas. Mas os olhos de corça insistiam. Podia mentir para os outros, para ele mesmo, não. Um problema… Sempre que a moça aparecia latejava tudo até o pescoço, na altura da nuca. Francamente, acontecer aquilo justo com ele, sem preparo nenhum! Bonita lá isso era. E tinha uma desenvoltura toda particular. Lançava-se refreando o gesto no caminho, expressão suave organizada em torno dos olhos que assim como buscavam podiam sumir, postos no chão. Perturbava muito… Antes discreta. E também não tinha descoberto a pólvora, como certamente diria a mulher se provasse cinco minutos de conversa com a moça, na mordacidade costumeira para tudo que ficasse aquém de um inatingível patamar de qualidade. Ia achar, ainda por cima, que a assessora se vestia mal, calçando-se pior, por causa dos saltos altíssimos, fininhos, usados em qualquer horário e ocasião, saltos que a obrigavam a um andar artificial, tinha de reconhecer. Mas ele não ligava. Conseguia até achar graça naquela movimentação afetada perseguindo uma elasticidade felina, talvez, e na escolha das peças de roupa, ora excessivamente monocromáticas, ora dissonantes demais. Além disso, não estava interessado em mulher chique nem sabida: desse modelo já tinha uma em casa.

Para completar, a moça era incansável no empenho de remover pequenas questões em torno dele. Como passe de mágica, surgindo qualquer problema prático, lá estava a postos dando conta, terçando lanças para fazer menos difícil a rotina do trabalho, prestativa e eficiente como as próprias secretárias não conseguiam ser. Tocava muito. Atenciosa, sem grandes desníveis de humor, ambições intelectuais modestas e universo mental bem mais restrito que o de todos na esfera doméstica dele. Por isso mesmo, bom arrimo na tentativa de fugir do galope interno cuja origem desconhecia, com o qual não estava sabendo conviver e que o lançava num campo novo de desejos. Tinha casado tão cedo! Era um sentimento espesso. Como se desde o nascimento estivesse com a existência atada à existência da mulher. Quem seria fora das ligações tecidas ao longo daqueles anos com a família, na profissão? Longe, muito além, noutro pano de fundo, convivendo com pessoas diferentes, livre da sensação opressiva de ter aprumado a personalidade e definido a rota apoiando, a ambas, nos limites de horizontes que não ultrapassavam a mais acanhada vizinhança? Quem seria noutro tom, noutra escala?

Fazia dois, três anos, começara a ser pego de assalto pela própria inquietação. A coisa tinha se fixado no interesse crescente pelas mulheres – quantas! –, destemperado a órbita doméstica e atingido o trabalho. Um movimento sinuoso, espécie de ordem nova pedindo espaço, irrompendo lenta antes de se instalar no peito, invadir os quatro cantos da cabeça, e os músculos tensos, estirados como cordas de um instrumento sensível de alto a baixo, pronto para o toque de qualquer uma, porque, feia ou bonita, toda mulher encerra sempre algum encanto. A dele bem menos, encastelada numa frequência previsível. Nem precisava abrira boca e deixar vir à tona o desagrado. Talvez até estivesse certa, a decisão fora intempestiva, não dava para saber como se sairia. Ainda por cima pagando preço alto: atendendo à urgência interna tinha suspendido a carreira, as leituras, mas naquele momento o importante não era a disputa do certo com o errado e sim encontrar meios de aplacar o turbilhão. Na verdade, turbilhões: o de dentro e o outro, a que estava fazendo frente junto com o presidente da empresa por terem mexido na estrutura administrativa, provocando um desnorteio geral. Em casa, não sentia apoio de espécie alguma todas as vezes que trazia à baila as questões diárias. No fundo, nem era com a mulher mesmo que tinha vontade de se abrir, preferindo três ou quatro colegas com os quais afinava, ou alguma assessora. Menos trabalhoso. Para a mulher precisava ficar explicando tudo desde o começo, antevendo os comentários inadequados que certamente o irritariam. E também era difícil conviver com a queixa constante. Além disso, seria demais, tinha de admitir, ficar exigindo a atenção dela para os desdobramentos de questões estranhas ao universo de interesses a que estava habituada. Mas, para o bem e para o mal, nesse momento era antes de tudo a empresa que galvanizava, em bloco, as energias dele.

 

Assim, de supressão em supressão, adiamento em adiamento, as coisas se amornaram entre marido e mulher. E mecanizada a sequência do cotidiano, a vida foi avançando sem muitas novidades em casa, o oposto do que ocorria no trabalho, onde o ritmo ficava sempre mais vibrante com desafios, embates e surpresas encadeando-se ao longo das muitas horas de um expediente cada vez maior. Porque até ali se ocupara com os aspectos práticos da profissão. Agora, na função nova, estava comprometido com a gerência desses aspectos em projetos nos quais participava apenas da primeira etapa, criando condições para que se pusessem em pé. E aí estava implicado um feixe de situações administrativas que iam do trato pessoal aos assuntos de caráter técnico e financeiro cujo andamento nem sempre atendia às expectativas dos envolvidos. Então, vira e mexe surgiam as dores de cabeça, o desgaste provocado pelos choques dos interesses e das personalidades, apesar de, no todo, tudo estar valendo a pena. Mesmo à custa da bajulação que passara a enfrentar; decepções com colegas próximos; do trânsito obrigatório por valores para lá de convencionais; do horário pesadíssimo afastando-o de qualquer coisa situada além dos limites do cargo.

Por sorte o presidente era amigo, um ou outro funcionário graduado também, situação que por si só facilitava o andamento dos dias. As assessoras, ativas, cada qual indispensável a seu modo, e as secretárias sempre amáveis apesar de pouco atentas às miudezas de todas as horas.

Quanto às instalações: precárias. Sintomático da política daquele e de quase todos os governos imediatamente anteriores no trato com a cultura, seus espaços e instituições. Como emblema, o elevador caindo aos pedaços, ligando os doze andares. Dado o vaivém intenso, a velha máquina estalava as cartilagens subindo e descendo dez horas contínuas de segunda a sexta, pondo em risco braços, pernas, ombros, quadris e cabeças dos desavisados sem agilidade para driblar a arritmia de mecanismos cansados.

 

O comando de um dos dois setores da estatal impunha outro caráter aos relacionamentos, provocando deferências a que não estava habituado. Por causa disso via surgir em torno dele uma espécie de liturgia, incômoda no princípio – descabida mesmo –, com a qual, no entanto, acabou se acostumando logo. E, diga-se de passagem, a aprovação reverente a tudo o que dizia ou fazia não vinha só dos funcionários. Os próprios companheiros de atividade, agora do outro lado da mesa, punham acento novo na expressão, entrando com atitude respeitosa nas conversas que cercavam cada projeto, cada pedido de financiamento. Melhor de tudo, as mulheres, pelo menos boa parte delas, fossem o que fossem – funcionárias, colegas de trabalho, postulantes, conhecidas –, mostravam outro comportamento aquecendo o olhar, ou cruzando e descruzando as pernas embaixo das saias com extraordinária aplicação.

Não era nas pernas de todas que valia a pena deter o interesse e nem ele tinha o costume de fixá-las de forma escancarada. Ao longo dos anos criara e desenvolvera uma técnica pessoal para registrar encantos femininos, de alto a baixo, sem ser percebido. Sempre fora bom nisso, e nunca nenhuma conseguira surpreendê-lo no exame, de hábito, bastante minucioso. Resultado, era tido como discreto, elegante e, no convívio, acabava despertando a ternura das moças – principalmente das de nível social mais modesto –, intrigadas com a discrição, pouquíssimo usual na experiência delas. E também era muito bom aparar no corpo o interesse feminino. Até ali sempre se portara como polo ativo de alvo único, sedução e casamento tendo vindo de iniciativas dele que por muito tempo, inseguro, votara enorme agradecimento à acolhida. Até o galope irromper macerando-o por dentro, cerca de dois anos atrás, fora todo convergência na mulher e apenas nela. Mas agora enfrentava, assustado, a dispersão do foco: a dona dos olhos tristes, por exemplo, problema próximo e concreto, tinha o dom de tirá-lo do prumo. Talvez porque entre todas as assessoras fosse a que mostrasse interesse mais assíduo.

Logo ao assumir começou a notar a presença constante da moça na própria sala, trazida por pretextos os mais diferentes e também na antessala, sempre de conversa com as secretárias como para se certificar de que as duas o estavam tratando com a devida atenção. Sorriso aberto e olhar de uma doçura infinita, vivia ali, ao alcance do primeiro chamado, rondando a necessidade que pudesse ter a qualquer momento, por qualquer motivo. No fim do primeiro semestre, depois de alguns meses de convivência próxima, tinha integrado ao cotidiano aquela solicitude explícita e certamente, a partir dali, não conseguiria mais ficar sem ela. A própria mulher já havia percebido os expedientes com que a assessora impunha a presença de maneira quase ostensiva, alcançando-o em casa a propósito de tudo. A ele restava desconversar. Pior. Covarde, sempre que o tema vinha à baila reagia irritado, insinuando que a mulher via coisas. Ia fazer o quê? Negava, mesmo sabendo que a dissimulação em nada condizia com o compromisso de transparência lavrado entre eles. E como esse, um a um os princípios começaram a ruir no casamento, na maneira de conduzir os fatos do cotidiano, mas, principalmente, na ordem interna do desejo e de tudo envolvendo o terreno do eu profundo. Era esse o núcleo do problema que nos últimos tempos fazia dele um homem cindido, tateando às cegas por direção incerta.

O ritmo cotidiano teria ficado ainda mais pesado, caso não tivesse erguido algumas barreiras para se defender de tudo o que não dissesse respeito, apenas, ao circuito do trabalho. Fez-se prisioneiro do cargo e criou tais obstáculos para transpor seus limites, com tamanhas exigências a serem cumpridas, que não conseguia mais reter o próprio passe na mão, nem atravessar, sem dificuldade, a linha traçada entre a estreita geografia da empresa e o mundo fora dela.

 

Justo nesse momento, interesse voltado para além do ambiente familiar, irrompe o imponderável: a mulher adoece pedindo um mínimo de atenção. No princípio pareceu histeria, expediente para atá-lo quando precisava era de linha solta. Não que se queixasse nem quisesse companhia nos testes, exames e consultas sem fim. Nunca deixara de ser independente na saúde e, na eventualidade daquela doença, continuava se desembrulhando sozinha, graças a Deus. Ele não teria recursos internos para dar conta de ambas a um só tempo: da empresa e da mulher fragilizada, porque a carga de trabalho sugava as energias de tal forma que o espaço da casa, desde o começo do ano, vinha servindo, apenas, para repô-las. Por isso, os dias precisavam correr mansos: ela e as filhas quase invisíveis, provisões domésticas em dia, contas encaminhadas na data certa e jantar posto na mesa quando chegasse, caso nenhum compromisso o retivesse no trabalho noite adentro. Tudo deslizando sem trepidação graças à companheira enérgica e disposta, condições que sempre asseguraram um conforto considerável e particularmente necessárias agora, depois que assumira o cargo envolvendo-se numa trama complexa de relações novas. Mas os reflexos – excessivos, tinha que admitir – da função profissional na vida familiar deixavam a mulher muito contrafeita, então os dois acabavam conversando pouco já que os assuntos tendiam a convergir para o mesmo ponto: a empresa ocupava todos os espaços com seus temas, horários, exigências, personagens e celebrações. Que remédio se tudo isso estivesse caindo mal? Tomada a decisão de impor um hiato no curso traçado – até ali, de certa coerência no trabalho e nas disposições dentro de casa –, a vida corria como tinha que ser, plasmada nos moldes novos trazidos por ele.

Por outro lado não estava claro se haveria algo de mais inquietante naquela debilidade física, então ele oscilava entre dó e impaciência, conforme o caso. A mulher estava magérrima, de fato, mais do que sempre fora, tossindo muito uma tosse funda que a tomava de alto a baixo, sacudindo o corpo e marcando o rosto com uma expressão de infinito sofrimento. Não haveria de ser nada grave, bronquite aguda, talvez. O que ele definitivamente não estava podendo era prestar atenção nos levantamentos médicos, diagnósticos e culturas de material a que de uma hora para outra ela passara a se submeter. Na verdade aquilo tudo caía como raio na conveniência do momento, na maneira como tentava dispor do pouco tempo livre porque, definitivamente, não era a uma doente que pretendia dedicá-lo, cabeça e emoção tomadas por inclinações bem diversas.

 

Certo fim de tarde, sozinho na sala, expediente findo, o calor de um verão sufocante dando o ar da graça antes da hora, aparece sem ser anunciada a amiga, funcionária do departamento jurídico e, como o presidente, conhecida fazia anos. Os três eram camaradas e ela estava sendo preciosa para orientá-los nas mudanças das normas relativas às questões administrativas. Com pleno domínio dos estatutos e habilidade para fundamentar legalmente qualquer argumento na área de ação da empresa, tornara-se peça indispensável no esforço pelas reformas.

Não estranhou o excesso de familiaridade – ter entrado sem bater – quando levantou os olhos dos documentos dando com a advogada em frente à mesa, quieta, ar zombeteiro, na espera paciente de que tomasse conhecimento da presença dela. A amiga, bem mais velha, sempre dera à relação um toque maternal e, naquela altura, as secretárias já tinham ido embora. Por isso, nada pareceu fora do lugar.

– Que calor?!

– É…

– Como andam as coisas?

– Indo, já nosso projeto…

– É assim mesmo, o ritmo costuma ser lento. Acho até que vocês conseguiram muito!

– Mas a gente está longe, ainda…

– Bom, isso…

– E pelo andar da carruagem o Ministério acaba dando para trás…

– Periga…

– Francamente, questões simples!

– Simples para você, um meteco na empresa! Para a máquina qualquer novidade é um susto.

– Por isso nada funciona neste país!

– Me poupe do lugar-comum!

– …

– O que você pensava? Que ia endireitar tudo da noite para o dia e fazer do vício virtude estalando os dedos?

– Não previa essa dificuldade…

– Agora está vendo!

– …

– Melhor mudar de assunto! Já está indo?

– Não. Ainda preciso ver uns dois processos…

– Então, até amanhã… Ah! Quase ia esquecendo! Aquela sua assessora parece gostar muito de você…

– Qual? – perguntou dissimulando o sobressalto.

– Você sabe qual… Até amanhã! – E desapareceu tão mansamente como havia surgido.

A sala estava envolta no lusco-fusco do fim da tarde. Sentado, mal podia distinguir o que ficava no trajeto entre a mesa e a porta: da janela vinha só um fiapo de luz, restos de claridade dissolvida contra as primeiras tentativas da noite. Atrás das pastas de documentos, sem conseguir se concentrar em nenhuma, foi sendo tomado pela impressão de que estivera absolutamente só nos últimos trinta minutos. Ninguém tinha vindo com opiniões sobre a empresa nem sobre outro assunto qualquer, teria reagido apenas aos ecos de si mesmo, empilhados meses a fio dentro do peito. Então uma torrente de sensações desabou em cima dele, enquanto o crepúsculo imprimia nas paredes da sala, quase às escuras, sombras perturbadoras de seres malconformados, ondulações hipnóticas forçando-o para dentro de um poço sem fim. Foi cercado por borras pretas, manchas imprecisas, abantesmas movendo-se deslizantes no moto-contínuo da brisa, entrando e saindo pela janela quando, em dado momento, expressão moldada pelo ríctus do espanto, todas descolaram das paredes a um só tempo para girar aos guinchos em torno dele, horrendas, movimento cada vez mais acelerado, uivando velocíssimas uma cantilena monocórdica, sem nexo, que lhe varava a cabeça ocupando-a toda com a alucinação galopante daquela ciranda agressiva. Reduzido a mero contorno cor de chumbo, não se distinguia dos poucos móveis, porta, vidraças, dos objetos em cima da mesa e nem parecia menos inanimado que nenhum. Quanto tempo teria ficado assim, à mercê daqueles seres minúsculos, ruidosos, paralisado entre duas frequências até conseguir se livrar da vertigem alcançando o botão da luz elétrica? Cinco? Dez? Quinze minutos? Cerca de meia hora?

Puro alívio. Foi pôr o dedo no interruptor e se desenharam os quatro cantos da sala. Pouco a pouco, acomodando os olhos, retomou o prumo apoiado na camaradagem dos livros, estantes, mesa de trabalho, cadeiras, estofados para receber as visitas, todos fiéis companheiros do expediente diário. Então, abandonando de vez os documentos, jogou-se no sofá, extenuado. Não por causa da carga no trabalho – que era muita –, e sim do tropel esmigalhando-lhe cabeça, tronco e membros numa intensidade renovada, mais a constatação irrefutável: estava completa e absolutamente seduzido pela assessora com olhar de corça batida. Sempre que a cabeça ficava livre dos encargos da empresa, era ocupada pela imagem insinuante da moça deitando os olhos pretos por cima dos olhos dele com doçura sem fim. Tentara, por muitas vezes já, fazer frente ao assunto, pesando as implicações daquele envolvimento involuntário. Acabava sempre no mesmo pedaço: queria era levar a moça para a cama e poder sentir a maciez do resto assim como, por cerca de meses, se perdia na maciez da voz dela. E agora? Como combinar mulher, filhas, rotina doméstica com aquela compulsão puxando-o pelas entranhas? Até ali fora retido pela incerteza: nunca tinha vivido nada igual, não sabia como se portar e nem estava seguro de perceber na assessora inclinação parecida com a sua. Largado no sofá, foi lembrando as muitas ocasiões em que estivera na iminência de iniciativa totalmente nova para os hábitos dele. Aproveitou o silêncio da empresa – sem mais ninguém àquela hora –, e a calma das ruas desertas doze andares abaixo, para se enredar pistas adentro, criatura dos pequenos sinais. Dos olhares, entonação das frases, meneios, mudanças na expressão, movimentos sutis de pernas e virilhas apertadas nas calças justas, joguete completo do pescoço oferecendo, a cada encontro, a pele unida, caminho aberto para os beijos que ele não estava mais conseguindo reter. Francamente! Ficar atormentado feito um adolescente àquela altura da vida! De qualquer forma, fosse como fosse, a cadeia dos sentidos serviu de alerta: recolheu dois ou três documentos, pôs na pasta e apagou a luz, deixando a sala atrás do elevador que, em momentos de distração, já tinha lhe despertado corpo e memória com o golpe certeiro da velha porta automática.

Chegando em casa a mulher, penalizada, fez um comentário sobre a hora e o excesso de trabalho. Agarrando a deixa suspirou, expressão soturna, como a de qualquer homem quando pretende passar a ideia de que, nem com esforço titânico, está dando conta de manter o equilíbrio terrestre entre as escápulas:

– É, a carga anda pesada…

Jantaram só os dois quase sem se falar. Era tarde e as meninas já tinham ido para a cama.

 

Passada aquela noite tudo entrou numa disparada progressiva, de intensidade igual à que o lanhava por dentro em ritmo crescente.

A mulher, de molho, contados quarenta dias às voltas com médicos e exames, foi dada finalmente como tuberculosa. Quer dizer, tinha que ir para um clima adequado ao tratamento o quanto antes. Nestas circunstâncias, das próximas vezes precisaria controlar a exasperação em situações como a que trouxera certa manhã à casa deles a cunhada, solícita na tentativa de resolver o impasse em torno de umas radiografias. Porque ele pusera uma recusa terminante em buscá-las: estava achando tudo um exagero, uma encenação, a mulher desfeita, largada na poltrona, insistindo não ter forças para nada. Aquilo não tinha o menor cabimento! Que se arranjassem as duas!

O tom ficando cada vez mais ríspido, a irmã que assistia a tudo saiu, discreta, e foi até a clínica sem maiores alardes. Antes assim, senão ele teria se atrasado para o trabalho!

 

Feito o diagnóstico, o tratamento começou em seguida, porque não seria prudente alongar trinta dias de inoperância médica. E aí a mulher enfrentou com muita coragem o mal-estar inicial causado pela droga, que parecia não ser pouco nem pequeno, e cair-lhe no corpo enfraquecido como pó de chumbo. Quando era para fazer, fazia e ponto final. Por isso ele nem precisou se ocupar demais com as providências. Confiava na iniciativa, no bom senso e na constância dela que sempre tinha dedicado espaço considerável da rotina movimentada à saúde e à forma física: ficava difícil admitir uma doença daquelas numa mulher como a sua! Aturdido, via tudo se precipitando em volta, sem saber qual a melhor saída para cada uma das situações abertas na frente dele: os desarranjos em casa por causa da viagem iminente das três; o fechamento do ano com todo o peso da carga burocrática; as dificuldades junto ao Ministério; a situação incerta com a assessora. E pairando sobre paisagens tão diferentes, o alvoroço contínuo lançando-o na mais profunda agonia.

Nesse estado tentou dar conta de cada questão na ordem que lhe pareceu viável. Voltou-se primeiro para a família, buscando uma proximidade que naquele momento estava longe de interessá-lo. Mas sentia certa obrigação porque nos dois meses seguintes o afastamento seria inevitável e, coincidindo com as férias na escola, elas só voltariam para casa depois de controlada a febre diária da mãe, na melhor das hipóteses dali a uns sessenta dias.

Por sua vez, começara a ruminar uma viagem, ele também, para logo depois que entregasse o cargo, situação prestes a ocorrer, tantos e tais eram os desentendimentos com o Ministério. Mas não contou a ninguém. Foi indo sozinho com a ideia, tratando de inventar, antes de mais nada, alguma coisa para atender à esfera doméstica. Iriam ao cinema ver alguma coisa adequada ao estágio da fantasia das meninas, e depois jantar fora. Assim foi e, pouco antes delas viajarem, partiram para uma noite juntos: marido, mulher e filhas.

Desastre completo. Correu tudo da pior maneira e o resultado foi um embaraço total.

O filme, escolhido para agradar às filhas, caiu como bólido sobre a mulher que soluçou do princípio ao fim provocando nele uma aspereza sem limites. Durante toda a sessão deixou clara a contrariedade – francamente, cair numa armadilha daquelas! – com rispidez expressa em alto e bom som. Saíram do cinema vendidos: as meninas, por causa da agressividade lançada sobre a mãe – tristíssima, rosto entumescido, olhos vermelhos de tanto chorar –; ele, indisposto com as três, com o filme que tinha detestado, e com a perspectiva da continuação daquele programa extemporâneo.

No restaurante as coisas não andaram melhor. As filhas olhavam para ele assustadas, hesitando na escolha dos pratos, o que só fazia aumentar o teor da impaciência, àquela altura fora de controle. A mulher, por sua vez, atara com nó cego a máscara do sofrimento e mal falava. Quando falava, não era preciso mais do que o timbre da voz dela para alçá-lo aos píncaros do mau humor.

A noite terminou pesada, os quatro exaustos – 100 quilos de frustração nas costas – depois de horas do mais completo desencontro no setor onde, pelo visto, naquele momento, não havia nada a fazer. Então poucos dias depois, despedindo-se da mulher e das filhas aliviado, tratou de se concentrar nos outros já que, mal ou bem, a primeira etapa fora vencida. Faltava encaminhar o fechamento da atividade anual da empresa, a própria demissão e o caso com a assessora. Não nessa ordem, necessariamente.

Dali em diante, sozinho no apartamento, nenhuma testemunha para atos nem horários, livre dos deveres que nos últimos tempos se habituara a contornar graças à prática recorrente da dissimulação, viu irromper um sentimento conhecido, espécie de eco de outros tempos, quando todas as possibilidades que se abrem à juventude ainda estavam no horizonte. Então sentiu uma euforia, uma segurança na própria potência como havia tempos não experimentava iguais. Nesse impulso e sem compromisso com nada estranho à satisfação pessoal, acompanhou por telefone, mesmo assim, a chegada das três. Tinham viajado bem, estavam acomodadas e respirando um ar seco e limpo que certamente traria de volta a saúde da mulher, em pouco tempo.

Nesse ponto, senhor do próprio desejo, mais apaziguado em relação à família e vivendo até laivos de alguma saudade, na primeira brecha da agenda sobrecarregada tomou coragem. Depois de várias noites maldormidas, um dia inteiro assinando papéis, entrecortado de forma repetida pela imagem da assessora, pediu a uma das secretárias para chamá-la no mesmo horário em que, nos últimos tempos, haviam se aberto os poucos espaços para questões de caráter mais pessoal, ali no trabalho.

Podia ser até que ela nem estivesse mais na empresa. Luz e sombra já entravam uma pela outra se movendo imprecisas na extensão breve que traria a noite quando batem na porta. Impossível! Não teria dado tempo! Tão rápido! Mas era a moça, sim, ofegante sobre os saltos altíssimos.

Recebeu-a senhor de si, e registrando um daqueles olhares longos – praticamente uma entrega – que tinham o poder de tirá-lo do eixo, fixou-a carinhoso de volta e soltou meia dúzia de palavras pretendendo dar conta de forma lógica, racional, daquele clima ambíguo instalado entre eles, deixando escapar, ao mesmo tempo, dois ou três cacoetes típicos das funções de mando, totalmente impróprios para a ocasião.

Passada a surpresa, a moça varou com habilidade o tom inadequado, e chamando a si a iniciativa, conduziu a sequência dos instantes no rumo definido pelo ímpeto do seu desejo. Então foi docilmente levado, dando corpo, naquele fim de tarde singular, à atração decantada por meses de convívio quase diário, criatura dela, doutora com grau máximo em matéria de aventuras sentimentais.

 

Talvez não se desse bem conta, mas ali começava uma quadra nova, diferente de tudo o que tinha vindo antes. Se melhor ou pior, difícil saber, as sensações surgindo às cambulhadas, rolando umas sobre as outras em moto-contínuo, subvertendo valores e sentimentos guardados anos a fio. Sovado pela aflição que já vinha de longe, foi tropeçando pelos dias sem muita ideia do que fazer nos períodos em que a empresa não tomava dele os últimos momentos, como dirigente comprometido com uma depuração que, pelo visto, poucos lá dentro queriam ver aprumada.

A moça por sua vez, definida a situação entre ambos, nem sempre podia encontrá-lo fora do trabalho, cristalizada num casamento que jurava não interessá-la, mas do qual não se desprendia. Nessas ocasiões, sozinho em casa, ia atrás de apoio na outra ponta, buscando a mulher por telefone em intervalos muito menores do que seria razoável, dadas as circunstâncias. Na verdade não estava podendo abrir mão de nenhuma das duas, peito em fogo e cabeça confundida pelo atropelo de uma situação moralmente extenuante.

No princípio os encontros sensuais deram alento. Aí se pendurou neles como quem escapa de uma caixa lacrada, na urgência de oxigênio. Não que a conversa da moça cansasse, longe disso, gostava de estar com ela só por estar. Os assuntos costumavam ser leves e, ouvinte aplicada, companheira resistente para o álcool dos bons vinhos, suavizava um pouco a aflição. Também encontraram boas afinidades, não apenas no plano físico, e era comovente ver a alegria dela ao descobrir alguma: tinha a impressão de que o idealizava. Ou a ele, ou à maneira como vivia certos compromissos próprios da vocação intelectual, integrados à personalidade desde cedo.

Mas, desencadeado o romance, surgiram as crises de consciência e o incômodo com a decisão, precipitada por meses de fantasias eróticas insistentes. Porque ele continuava imerso no mesmo mal-estar e a carência de ares novos se mantinha, com a assessora ou sem ela. A moça era solidária, amiga, o contato físico bom, mas nada dava jeito no desterro em que se via largado: deslocasse o olhar para onde fosse e enxergava sempre a mesma superfície infinita de um mar sem cor nem movimento. Também era penoso ficar escondendo a situação da mulher. A cada telefonema sentia-se pior e mais canalha. Fora o fato de não saber direito onde inserir ela e as filhas na sucessão dos acontecimentos: tinha saudades, mas ao mesmo tempo agradecia o fato de não estarem perto. Então continuava chamando por telefone para não dizer nem perguntar nada, apenas ouvir a voz, firme como de hábito, apoiada nos valores e convicções da vida inteira: as três eram o último alicerce sustentando experiências em fuga que não atendiam mais e, agoniado, não sabia substituir. Então lutava para mantê-las como conceitos – ideias que fossem –, tentando barrar, agarrado a elas, o desfoque completo de tudo. Havia ainda outra questão, complicada: o prazer com a moça vinha inapelavelmente associado a uma espécie de estranhamento. O matiz, o calor, o cheiro e as texturas, nela, eram em tudo diferentes daqueles com os quais convivera por longos anos numa relativa tranquilidade. Então, confuso, desnorteava os sentidos na posse que, por meses a fio, no entanto, havia castigado duramente o seu desejo.

Justo neste ponto, as experiências novas dominando os horizontes, uns quinze dias depois de chegar na montanha a mulher percebeu tudo por causa de uma hesitação. Talvez tivesse parado no meio da frase de propósito, puro artifício para encaminhar uma revelação difícil. Porque era duro carregar sozinho o tumulto moral em que estava lançado: nunca fora de grandes confraternizações – nem com amigos, nem com parentes, nem com ninguém –, e qualquer contato obedecia a limites postos desde o princípio, quando deixava claro que, com ele, o espaço para as trocas afetivas seria estreito. Nesse quadro sempre tivera na mulher a escuta mais próxima até chegarem àquela distância recente. Ainda assim foi com ela que se abriu, passada a sofreguidão própria dos casos amorosos quando estão no começo. E depois daquele telefonema, diferente de todos os outros, o tom mudou, o diálogo à distância tomando caminho inesperado. Chorosa, no começo, a mulher retomou o prumo aos poucos, conseguindo botar a tristeza de lado e oferecer a compreensão dos bons amigos. Enquanto num movimento inverso, a assessora lançava-se em espirais crescentes de ansiedade, dando demonstrações contínuas de insegurança e atormentando-o com cenas de ciúmes. Mesmo inquieto com o ser insuspeitado que via saltar pela boca da namorada, encontro sim, encontro não, chegou, imprudente, a propor que fosse com ele na viagem prevista para quando viesse a demissão. No fundo ficou satisfeito quando a moça recusou o convite, sem pé nem cabeça, admitia, feito num momento de insensatez, dos muitos, enredando-o naquele ano prestes a dobrar no seguinte, que ele esperava ardentemente pudesse bater mais leve.

Ana Luisa Escorel

É designer, escritora e editora de livros. Publicou a coletânea de crônicas De Tudo um Pouco, pela Ouro sobre Azul

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Fronteiras fechadas, travessia dos Andes, drible no Exército boliviano: as idas e vindas de um casal de jornalistas para voltar ao Brasil

Decepção ambulante

Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

Foro de Teresina #93: O Brasil de quarentena, o isolamento de Bolsonaro e a economia à deriva

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

(Quase) todos contra um 

Desgastado até entre aliados, Bolsonaro se isola cada vez mais; as 24 horas seguintes ao pronunciamento do presidente tiveram embate com governadores e declaração ambígua de Mourão

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

Cinema em mutação –  É Tudo Verdade reinventado

Festival adia mostra presencial, mas fará exibições online; quando a epidemia passar, o hábito de ir ao cinema persistirá?

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Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

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Com pouco mais de mil casos de coronavírus, Japão contraria recomendações sanitárias e causa desconfiança às vésperas de uma Olimpíada cada vez mais improvável

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Posto Ipiranga, o último a admitir

Em meio ao avanço do coronavírus, demorou dez dias até Paulo Guedes ser convencido por auxiliares de que a cartilha fiscalista seria insuficiente e o aumento de gastos, inevitável