memória

Antonio Candido e a menina

Lembranças do tempo em que intelectuais, artistas e militantes entravam e saíam de casa e o pai, atento e afetuoso com a filha, escrevia Formação da Literatura Brasileira e Os Parceiros do Rio Bonito

Ana Luisa Escorel
A delicadeza e o respeito do pai pela fantasia da menina surgiam como um abrigo seguro. Não havia ocasião em que se furtasse aos pedidos da filha, estivesse ele fazendo o que fosse: parava tudo e atendia com empenho e interesse as solicitações dela
A delicadeza e o respeito do pai pela fantasia da menina surgiam como um abrigo seguro. Não havia ocasião em que se furtasse aos pedidos da filha, estivesse ele fazendo o que fosse: parava tudo e atendia com empenho e interesse as solicitações dela FOTO: ARQUIVO OURO SOBRE AZUL

O pai da menina era mais para feio feio. Compleição delicada, antes baixo, carregava uma calvície precoce no meio do cabelo escuro, liso e fino. O nariz, castigado por uma acne violenta, cedo também perdera a nitidez do contorno registrada nas fotografias da primeira juventude e, pelo rosto meticulosamente barbeado sempre que as irritações da pele davam sossego, corriam dois sulcos fundos da dobra das narinas ao princípio do queixo curto. Cabeça e ombros projetados para a frente, braços compridos sem tônus nem definição, mais uma lordose que lhe arqueava as costas definiam um conjunto muscular próprio de quem passara a infância e a adolescência pregado nos livros, esquecido de qualquer espécie de atividade física que não fossem as extensas caminhadas, que sempre fez.

A mãe, por outro lado, era indiscutivelmente linda. Com o sentimento confuso, dividido entre a vontade de ter um pai com melhor figura – “Mamãe, quando você era solteira e vinha andando assim pela rua não encontrou nenhum moço mais bonito para casar?” – e o dever de uma providência que reduzisse a distância entre o aspecto dos dois, a menina se debatia no estreito limite de suas possibilidades.

– Por que é que você não deixa o bigode crescer para ficar parecido com o tio Roberto? – o irmão caçula do pai, bonito de fato, cultor de uma forma calcada nos galãs do tipo Errol Flynn.

Então, duas ou três semanas depois, com o bigode já definido e aparado, em respeito à aflição da menina porque para ele tanto fez como fazia:

– E agora?

A filha olhou, absorveu devagar a mudança e, numa ansiedade dura, disparou:

– Pode raspar. Não adiantou.

Só que dessa vez o pai não cedeu, e incorporou o bigode que de castanho escuro foi passando a grisalho e de grisalho a branco de todo, como continua até hoje. Achou graça naquela franqueza meio sem jeito, mas, certamente, foi contrariado numa inclinação interior profunda: a necessidade imperiosa de atender ao outro. Não conseguira satisfazer à menina, que tantas e tantas vezes vira o pai deixar de lado os interesses dele para acudir as mais diferentes aflições, de gente de toda sorte, com uma atenção, uma simpatia, um desprendimento de si que ela via apenas nele, em mais ninguém. A paciência com que ouvia e acalmava um contingente considerável de amigos, colegas, parentes, superiores hierárquicos e empregados faria dele o cristão exemplar, candidato seguro a um lugar próximo à mão direita do Todo-Poderoso, se cristão ele fosse, e não um socialista agnóstico, convicto.

O pai, nesse tempo beirando os 30 anos, acordava cedo. Quase tanto quanto a menina. Muitas vezes coincidia de tomarem café com leite ao mesmo tempo e, como os lugares dos dois, na mesa redonda, fossem um oposto ao outro, quando não conversavam (que o pai sempre gostou muito, mesmo, de conversar com criança), a menina ficava observando a concentração dele mastigando pão com manteiga, o olhar doce perdido na claridade da janela da sala em frente, aberta sobre o quintalzinho acanhado que mal dava para os varais de roupa e para as brincadeiras com os amigos da rua.

 

A casa ficava em uma São Paulo hoje distante, que nos anos de 1940, 1950 ainda trabalhava para definir seu melhor perfil. Embora não fosse grande, tinha uma quantidade de cômodos impensável em qualquer construção equivalente a ser erguida nos dias de hoje. Três andares, dos quais o que ficava ao rés do chão era composto por um corredor para onde davam o tanque, o quarto e o banheiro das empregadas, um segundo quarto e uma garagem bastante espaçosa. Nesse quarto o pai fizera o escritório, coberto de livros de alto a baixo, que se ligava à fachada da casa através de uma porta. Nele ficavam a escrivaninha pequena – a mesma usada desde a infância –, uma cadeira sem braços, de madeira escura, assento estofado e espaldar duro, e uma poltrona longa de encosto regulável. Havia também uma espécie de banquinho, fruto do encaixe engenhoso de duas lâminas maciças de madeira de lei, muito vermelhas, conectadas pelo centro. Aberto, tinha a forma de um xis baixo de pernas afastadas. Fechado, virava um volumezinho à toa, fino, que podia ser encostado em qualquer canto. Nesse banquinho tanto sentava quem pudesse sustentar a coluna dorsal por certo tempo, como se empilhavam os livros e as revistas que, por alguma razão, não tinham ido para as estantes.

Por fim, o pai tinha trazido a cômoda da mobília de quarto dele e da mãe da menina para servir de fichário, função para a qual se prestava muitíssimo bem, toda de pinho, com duas gavetonas em baixo, mais outras duas menores em cima, numa discreta harmonia de retas que nem destoava do ambiente, nem remetia o móvel à finalidade de origem.

A luz do escritório entrava pela porta da frente, sempre aberta, e pelo basculantezinho próximo dela, estrutura de ferro preto e corpo de vidro fosqueado por um processo comum naquele tempo, que punha na superfície o aspecto de gotas d’água cristalizadas, em relevo. Nem a porta, nem o basculante davam conta da claridade necessária à leitura, e a luz elétrica tinha que ficar o tempo todo acesa, chovesse ou fizesse sol.

No inverno, o escritório, além de muito frio, era úmido e, por causa disso, o pai passava a estação resfriado, de nariz vermelho e lenço na mão.

Como não tivessem carro, a garagem era usada para acomodar o resto da biblioteca, além de móveis e objetos fora de uso, empilhados uns sobre os outros em perfeita desordem. Pedaços da casa meio desfeita de Poços de Caldas onde os avós, o pai e os tios da menina tinham morado por vários anos, até o avô morrer.

Depois do café, sempre de chambre, o pai ia para o escritório onde passava a manhã lendo e fichando numa cartolinazinha pautada – filete vermelho no topo, linhas pretas no resto – que ele tinha às pilhas, e que a menina usava à vontade para os rabiscos dela, muitas vezes simultâneos às anotações de trabalho do pai.

Quando não estava lendo nem fichando, o pai batia à máquina com o ritmo do pensamento servido apenas pelos indicadores. Ao contrário da mãe, ele nunca aprendera a datilografar e só escrevia assim: com os dois dedos apontados para o teclado, tirando com as batidas aquele barulhinho seco e cadenciado, som integrante da vida da casa, melodia necessária garantindo que tudo corria como se esperava que fosse.

Nas máquinas a menina também brincava. De escrever.

Havia três: uma Remington preta e rombuda; uma Hermes Baby de textura áspera, cinza escura, bem mais delicada, que volta e meia aprontava acavalando as hastes num feixe metálico eriçado no ar que era um custo desfazer. E que assustava do mesmo jeito que as alucinações de Yves Tanguy, reproduzidas nos livros de arte que a mãe usava para estudar. Por fim, uma Royal imponente, larga e alta, muito maior que as outras.

A Remington tinha sido um presente do avô à filha, a mãe da menina. A Hermes, o avô – pai do pai – tinha dado ao caçula, mas foi o mais velho quem acabou usando. A Royal, coitada, estava indo embora para destino desconhecido, não fosse o apego do pai da menina ao dono dela e o respeito pelo que escrevia.

Foi assim. Um dia, o amigo veio visitar e chegou perguntando se o pai queria a máquina dele. A mulher, que também tinha vindo, reagiu no ato, indignada, e, ao pai da menina, pediu que não aceitasse. O marido tinha comprado uma máquina nova e estava querendo empurrar a velha, o que, decididamente, era o cúmulo!

Embora agradecido com a atenção da amiga, em geral severa com o marido, mais para atarantado frente aos aspectos práticos da existência, virando-se para ele, o pai da menina perguntou:

– Foi nela que você escreveu Raízes do Brasil?

No que a resposta veio que sim, decidiu, firme:

– Então, eu quero.

Buscou a máquina, mandou reformar e trabalhou nela anos a fio tirando das teclas redondas, espaçosas – letra branca sobre fundo preto –, o resultado de que foi capaz. Reverente, deu-se o compromisso de mantê-la em boa forma, empenhado numa sobrevida que lhe alongasse o passado ilustre.

Nessa Royal o pai produziu bastante. Grande parte de uma reflexão extensa sobre literatura brasileira que não acabava nunca: começou algum tempo depois de a menina nascer, por volta de 1945, e terminou quando ela já era quase uma mocinha de 13 anos. Fez muito rodapé para jornal, ensaio, argüição de doutoramento, de livre-docência e até uma tese que nem seria preciso porque, muito moço ainda, já tinha apresentado outra. Mas fez questão, para definir um percurso equivalente ao dos colegas de departamento, no tocante às etapas previstas pela carreira. O tema da tese era o modo de vida dos parceiros rurais de um certo lugar, no interior de São Paulo. E para conviver com eles, e saber como viviam, ficou um bom tempo longe de casa, em Bofete, perto de Botucatu, na fazenda de outro amigo, o Edgard Carone, observando e anotando, observando e anotando, até juntar material suficiente para poder contar aos outros o que aprendera com eles.

 

O pai da menina trabalhava muito. Além desses dois textos longos, que por bom tempo escreveu simultaneamente, tinha que preparar as aulas e, por anos a fio, entregar no jornal, toda semana, os tais rodapés nos quais atuava como crítico literário, função que nada tinha a ver com o cargo de professor de sociologia da faculdade. No entanto, nem a sobrecarga, nem as dificuldades próprias de quem se vê no início da vida profissional turvavam, de leve que fosse, o bom humor dele, dom inestimável que a menina identificou cedo e do qual aproveitou o quanto pôde. Nada desviava o pai dessa afabilidade que teria sido tomada como dado inerente à espécie humana, não fosse a presença de certos traços, nítidos também, nos outros adultos que moravam com a menina, na mesma casa. O mistério da mãe, sempre um pouco distante; a timidez do tio, irmão do meio do pai, que punha qualquer possibilidade de convívio entre repetidas vírgulas e parênteses; a paixão lancinante da avó pelo marido morto. Luto fechado, preto dos pés à cabeça, permanentemente entre dois mundos, a avó se consumia no empenho de equilibrar o que lhe restava de ligação com a vida – os três filhos, a neta, as leituras, a convivência com uns poucos amigos e parentes – e a poderosa lembrança do tempo passado. No meio dessas circunstâncias, a delicadeza e o respeito do pai pela fantasia da menina surgiam como abrigo seguro para a aflição, freqüentemente desencadeada pela lógica esquisita que comandava o universo dos que já tinham virado gente grande. Não havia ocasião em que se furtasse aos pedidos da filha, estivesse ele fazendo o que fosse: parava tudo e atendia com empenho e interesse as solicitações dela. Nem sonhava em colocar situações semelhantes às que a menina assistia na casa das outras crianças, onde os pais respectivos tendiam a ser tratados como tiranetes domésticos, cercados de mistificação e de um sem-número de anteparos para poderem produzir alguma coisa:

– Não faça barulho! Atrapalha seu pai!

Ou, o próprio, imbuído da extrema importância:

– Agora não posso! Estou ocupado. Trabalhando!

Sem falar nos mais ríspidos que não hesitavam no “Sai daqui! Já!”, muitas vezes seguido de sopapo e beliscão. A menina observava ressabiada. Na casa dela não tinha nada daquilo. Entrava no escritório do pai quando bem lhe aprouvesse, e ele nunca disse que estava ocupado e nem pedia para ela ir embora. Parava o que estivesse fazendo e atendia. Fosse ensaio, artigo, estudo sobre caipira ou sobre a formação da nossa literatura, análise de tese ou correção de trabalho de aluno. Além do mais, sendo exímio contador de histórias, não se passava um dia em que não fosse intimado a contar pelo menos uma, inventada na hora ou puxada da memória onde guardava um arsenal inumerável: Andersen, Perrault, La Fontaine, os Grimm, alguma coisa das Mil e Uma Noites e um batalhão de contos populares de autores desconhecidos de tudo quanto é país, que ele vinha acumulando desde a infância.

As histórias nem sempre eram só para a menina. Como os primos e os amigos da rua também se encantassem com a graça narrativa do pai, volta e meia ele atuava para uma pequena assistência, infalivelmente galvanizada pelo apoio expressivo dos ruídos, gestos e trejeitos com que dava verossimilhança ao entrecho e colorido próprio a cada personagem. Nessas ocasiões, a menina, por uma fração infinitesimal de tempo, que era para não perder muito da história, costumava se descolar do fio da exposição. Escolhia um ponto de vista externo que lhe permitisse observar a sintonia perfeita entre platéia e narrador constatando, orgulhosa, o interesse com que o pai se identificava com o mundo dela, dos primos e dos amigos, no qual se movia desvestido das habituais distâncias e impedimentos que tornavam tão difícil a convivência com os adultos.

 

Naquele tempo, entre os 4 e os 10 anos dela, os 30 e os 36 do pai, a casa era muito freqüentada por parentes e amigos. Ambas as famílias eram grandes e tinham ramificações que, partindo do Rio e de São Paulo, entravam pelo interior: a do pai, por Minas, a da mãe, por São Paulo mesmo, com extensões que chegavam ao Paraná. E, como o ritmo da vida fosse outro e a visita ainda permanecesse uma instituição sólida, o desfile de personagens era infindável. Assim como o dos parentes, o matiz dos amigos era variado. Tinha de tudo. Gente muito bem posta na vida: fazendeiros ricos, realizadíssimos profissionais liberais, rentistas, banqueiros. E também a outra banda, a dos pequenos proprietários, empregados do comércio, funcionários públicos de ganho curto, agricultores modestos, eternamente pendurados nos bancos. Durante as visitas, o pai nem sempre fazia sala. Quando se tratava de gente mais graúda, parcela em geral ligada às relações da mãe dele e à família da mulher, isolava-se no escritório e não aparecia, deixando as duas freqüentemente em situação difícil, sem muitas desculpas que servissem para justificar. Quando eram os parentes próximos, dele e da mulher, não se furtava. Nem ao pessoal de Minas, a família paterna, à qual se dedicava com afeto e cuja convivência lhe trazia, invariavelmente, enorme prazer.

A situação mudava quando apareciam os companheiros feitos na luta política ou desentranhados numa ou noutra pesquisa de campo. Aí era a avó quem ficava incomodada. Tinha um, o Santão, negro sólido de cabeça larga, cantador de cururu, que o pai conhecera em Piracicaba enquanto colhia dados para um trabalho e que volta e meia aparecia na hora do almoço. A avó ficava muito pouco à vontade com ele na mesa, ainda que fosse ver um doutor. Na hora de usar a lavanda, depois de observar discretamente à volta, molhava a ponta dos dedos com cuidado e usava o guardanapo com toda a delicadeza. É provável que o desagrado da avó com o Santão não fosse maior que o do pai da menina ao ter que cruzar com a burguesada convencional que ainda permanecia na vida da mãe.

Havia outro grupo, o dos colegas da faculdade, professores jovens e também os mais velhos, alguns quase da idade da avó que elegia seus preferidos, em ambas as gerações, estabelecendo vínculos particulares em função da maior ou menor simpatia que despertassem nela. Gostava muito de um deles, Florestan, moço de grande inteligência e capacidade de trabalho, mas, naquele começo de vida, bastante complicado, quase sempre em atrito com o chefe e com os companheiros de departamento. A avó ouvia as histórias – muitas vindas do próprio Florestan, que se apegara a ela – e passava tranqüilamente por cima de todas atendo-se, com acuidade, apenas ao que de fato contava: a retidão de caráter dele e o monumental esforço que estava fazendo para construir uma vida organizada a partir da infância que tivera, difícil como poucas.

Da leva de professores estrangeiros, o mais chegado dentre os que ainda estavam no Brasil era o Roger Bastide, que vez ou outra aparecia só ou com madame Bastide, grande, vistosa de batom vermelho e cabelos pintados numa dessas cores vivíssimas que se comprazem em afrontar.

Um dia, o pai chegou com ele pelo braço:

– Trouxe o professor Bastide para almoçar!

A mãe, na frente dos dois, disfarçou engrolando duas ou três frases, fez uma sala rápida, pediu licença e saiu às pressas para a cozinha, subindo pelas paredes. “Era incrível! Aprontar uma coisa daquelas! Trazer o professor Bastide para almoçar de surpresa!” Afinal tratava-se de pessoa de certa cerimônia e o marido sabia muito bem que a cozinheira era medíocre! Sempre que convidavam alguém, a mãe tinha que tomar providências: ir para a cozinha ela própria ou encomendar os pratos fora. “Francamente, esse excesso de afabilidade cria situações que ultrapassam a fronteira do razoável!” A menina acompanhava o rompante, incomodadíssima. Não gostava nada de ver a mãe assim, por conta com o pai dela, nem estava habituada a presenciar desentendimento entre os dois, e a ameaça de qualquer tipo de conflito surgia como um precedente assustador. Naquele tempo, ainda não tinha recursos para perceber que a mãe estava coberta de razão. Tampouco que incidente de proporções tão modestas jamais abalaria casamento nenhum.

Afinal, tudo acabou no melhor dos mundos. O almoço costumeiro foi preparado certamente com um pouco mais de atenção e deve ter ficado muito bom porque o professor Bastide saiu de lá satisfeito da vida, encantado com o tempero da comida brasileira.

Desses professores estrangeiros, outro que deixou impressão na menina foi o Ungaretti: Giuseppe Ungaretti, senhor de expressão vivíssima, olhos apertados, sorridentes e perscrutantes, além de bela cabeleira branca como só os verdadeiros poetas conseguem manter. Apesar de italiano, a língua que todos falavam nas visitas dele era o francês. Ungaretti era bilíngüe. Passara grande parte da vida na França, tinha sido casado com uma francesa e, no Brasil, só falava francês: um francês impecável, marcado pelo erre rascante do idioma de origem.

A avó e ele tinham uma ligação especial. Ungaretti havia perdido um filho que estava enterrado no Brasil, no mesmo cemitério que o avô da menina. Quando a avó ia visitar o túmulo do marido, dava uma espiadinha no do filho do Ungaretti para ver se estava tudo em ordem.

Mimético e habilíssimo imitador, o pai reproduzia o professor Ungaretti de forma notável. Tão bem, mas tão bem que ficava fisicamente parecido com ele: a expressão se tornava meio diabólica, as costas se arqueavam, os pés abriam, espalhando-se sobre o chão, as mãos adquiriam uma expressividade viva, agitada, a cabeça dardejava olhares penetrantes, de baixo para cima, e o francês, com sotaque rascante, atingia o timbre exato do modelo.

As imitações do pai eram, aliás, conhecidas dos amigos e dos freqüentadores da casa, que se divertiam muito com elas. E nem era necessário que a pessoa possuísse traços particularmente marcantes porque o danado imitava qualquer um. Já tinha essa habilidade integrada no modo de ser dele.

 

Um dia, a menina, já com cerca de 9, 10 anos, atendeu à campainha um casal bonito, principalmente o rapaz. Risonho, uma simpatia irradiante, era desses adultos naturalmente gentis com criança, coisa rara que ela notou logo. A moça, mais reservada, era de Araraquara, a mesma cidade da mãe. Já se conheciam há muito e a mãe lembrava sempre de um baile de Carnaval em que a namorada do moço – Ruth –, quando criança, tinha se vestido de pipoca, compondo uma figurinha linda numa fantasia que era um achado.

A menina fez os dois entrarem na sala de visitas e desceu para chamar o pai no escritório. O encontro foi efusivo e ambos acabaram carregados para baixo, sinal de que era gente próxima e querida, alunos do pai da menina, estudantes de sociologia. Como tudo indicava que fosse acontecer, os dois acabaram se casando.

A vida passou e, muitos anos depois, a moça viria a desenvolver uma obra social importante, na linha do aprendizado que tivera, e o rapaz se tornaria presidente da República.

Fora o grupo dos colegas; fora os parentes, os amigos, os companheiros da esquerda democrática, em que também havia uma gama variada de tipos – operários, profissionais liberais, jornalistas –, o pai recebia na casa dele escritores – poetas, romancistas, cronistas –, gente que chegara a ele através dos rodapés e cujo universo com certeza amaciava a produção acadêmica, construída no rigor dos métodos a que estava afeito, por dever de carreira.

Desses, o mais presente era o Oswald, que na casa da menina todos chamavam de Oswaldo, com “o” no fim. Oswald era três anos mais velho que a avó que o tratava cerimoniosamente de doutor Oswald, o senhor, e ele a ela, de senhora também. Era de 1890; a avó, de 1893. Beirava os 60 anos no tempo em que freqüentava a casa da família da menina, no entanto, era do pai de quem era amigo e até compadre. Casado com Maria Antonieta, muitíssimo mais moça que ele, mãe dos dois filhos caçulas – tivera outros, frutos de alguns dos inúmeros casamentos que fizera –, os quatro formavam uma família encantadora, muito presente nas relações da casa. Apesar da distância cronológica – o pai, naquele momento, andava pela casa dos 30 – e embora tivessem personalidades completamente diferentes um do outro, construídas por gerações organizadas em torno de precedências diferentes também, o pai e o Oswald eram muito ligados. Era bonita e comovente a amizade deles.

Homem extremamente afetuoso, Oswald era outro que vivia atento à fantasia das crianças, não tivesse sido o criador que foi. Nas visitas era só gentileza, atenção e sorrisos, com grandes e pequenos. Quando contavam à menina que ele, em moço, havia sido uma peste, desancando a tudo e a todos pelos jornais, nem conseguia acreditar! A avó, por sua vez, antes de conhecê-lo já ouvira falar dele, e muito! E não apenas se surpreendia com as maneiras e com a polidez dele, como gostava de perceber o afeto caloroso que tinha pelo filho dela.

O apartamento do Oswald e da Antonieta era antes modesto, mas cheio de quadros, objetos e esculturas mais bonitos do que os que se via nas casas em que a menina costumava ir. Havia nele uma cor, uma luminosidade, uma graça, distantes da sisudez e da falta de imaginação das outras.

De todos os amigos, dentre os que freqüentavam a casa, os mais chegados eram os do grupo da revista Clima: Décio, Paulo Emílio, Rui e Lourival. Os três primeiros apareciam sempre e, quando vinham, entravam madrugada adentro conversando com o pai e a mãe da menina uma conversa que não tinha fim, encadeando um assunto no outro, sem parar. Volta e meia a menina acordava altas horas, despertada pelo barulho da alegria deles que subia da sala de visitas, no andar de baixo, principalmente pela risada comprida do Paulo, a mais sonora de todas. O Lourival vinha menos, quase nunca. Quem vinha, vez ou outra, era a Lourdes, mulher dele, que gostava de conversar com a avó.

O mais assíduo era o Décio. Andarilho, como o pai da menina; uma vez, no fim dessas visitas, lá pelas duas, três da manhã, quando se levantou para ir embora, o pai, com certeza achando que o assunto não estivesse esgotado, saiu andando com ele, na intenção de ir apenas até certo ponto do trajeto que ligava a casa dos dois – a da família do pai ficava na Aclimação; a do Décio, em Higienópolis. Então, sempre conversando, subiram a rua Pires da Mota, pegaram um pedacinho da Apeninos, entraram pela Vergueiro, passaram para a Paraíso, daí para a Paulista, andando até chegar à avenida Angélica para alcançar a rua Itambé, onde o Décio vivia com a mulher e os dois filhos. Aí, provavelmente percebendo que ainda havia conversa, o Décio resolveu voltar com o pai da menina, também pensando andar só mais um pouco. Saíram da Itambé, subiram a Angélica até a avenida Paulista, pegaram a Paraíso, em seguida a Vergueiro, um trecho da Apeninos e desceram pela Pires da Mota até entrarem, de volta, na rua Perdões. Perto de 8 quilômetros de ida e mais outros oito de volta.

Tempos depois, chegou à menina que o trajeto fora repetido uma terceira vez, na mesma madrugada. Isso, porque nos anos de 1945 a 1955, São Paulo era uma cidade tranqüila; porque o pai e o amigo eram muito moços e, possuindo um inacreditável fervor intelectual, haviam encontrado, um no outro, o espaço de diálogo de que ambos precisavam.

 

Durante bom tempo, todos os domingos, às dez da manhã, o pai levava a menina às matinês do cinema Clímax, que ficava perto, a dois quarteirões da casa deles. Para chegar, precisavam apenas descer cerca de 40 metros pela rua Perdões, virar à esquerda na Raimundo de Brito, andar a quadra toda, virar de novo na Paes de Andrade e subir uma ladeira suave por outros 40 metros, até o Clímax.

O cinema, pequeno e muito simpático, era dessas salas de bairro que pontilhavam as grandes cidades brasileiras antes que a televisão tivesse decretado o fim delas. A programação, típica daquele período, tinha bastante qualidade: Carlitos, Harold Lloyd – a menina se afligia com um filme que mostrava o cômico pendurado por insuportáveis minutos no topo de um prédio altíssimo –, Buster Keaton, os Irmãos Marx. Num patamar inferior, Os Três Patetas, chatíssimos, a propósito dos quais ouvira o pai e a mãe tecerem comentários depreciativos que ajudavam a reforçar a opinião pouco favorável que já tinha formado deles. Havia os desenhos animados: o Pica-pau; Tom & Jerry; a família completa do Pato Donald: o próprio, a namorada, os três sobrinhos, o Tio Patinhas e a Vovó Donalda, todos insuportáveis; Mickey, Minnie e Pluto, melhores um pouco e, finalmente, um muito divertido cujo personagem principal era um galo gordo, alto e fanfarrão que sempre acabava sucumbindo à própria prosápia. A movimentação do galo era pontuada por uma musiquinha saltitante, alegre, composta para acentuar a gabolice dele.

Anos a fio o pai agüentou firme essa batida, entrava domingo, saía domingo. Provavelmente, por puro bom humor, acabou se tomando de afeto pelo galo gordo. Divertia-se em casa com a menina, fazendo imitações do jeito de ele andar e assobiando a música do personagem, contraponto alegre às trapalhadas em que se metia. Tirante Os Três Patetas, e todos os desenhos que não fossem o do galo gabola, a menina achava que o pai até gostava dos outros cômicos e isso apaziguava um pouco o sentimento de culpa dela, consciente de que ele certamente teria coisas mais interessantes para fazer, nas manhãs de domingo.

Numa dessas matinês, já com a projeção bem andada, o pai disse à menina que ia sair um pouco, ficar no saguão, lendo. E foi.

Passado algum tempo, por uma razão qualquer, ela foi atrás. Encontrou o coitado com a cabeça recostada no sofá, dormindo a sono solto, provavelmente exausto de uma dessas madrugadas em que ficara conversando com a mãe e com os amigos, até quase o raiar do dia. Então, a menina foi tomada por um sentimento esquisito, misto de abandono e vergonha por estar submetendo o pai àquele cansaço. Chamou o pobre, que acordou estremunhado, e disse que queria ir embora porque estava achando os filmes todos muito sem graça, naquela sessão.

A partir desse dia começou a espaçar as idas às matinês do Clímax e, nas poucas vezes em que ainda foi, se arranjou com a mãe ou a irmã mais velha de algum amigo porque, sozinha, o pai não deixava de jeito nenhum. Mas não era a mesma coisa e, pouco a pouco, foi deixando de ir até parar completamente.

 

Passou-se muito tempo. Muito mesmo. Tanto que a menina cresceu – vindo, com certeza, a incorrer nas mesmas limitações que, em criança, criticava nos adultos à sua volta –, casou-se, teve duas filhas e hoje tem até neto. E, como é da norma da vida, sofreu também seus maus bocados.

Por sorte, nesses pedaços, pôde contar com a escuta serena e afetuosa do pai, sem a qual a tempestade teria sido certamente mais difícil de atravessar.

Por sorte, continua podendo contar com essa mesma atenção e essa mesma camaradagem até hoje.

Ana Luisa Escorel

É designer, escritora e editora de livros. Publicou a coletânea de crônicas De Tudo um Pouco, pela Ouro sobre Azul

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