questões contemporâneas

Arquitetura do nevoeiro

A sobreposição explosiva de opacidade e nitidez, incerteza e convicção, no tempo da “pós-verdade”

Guilherme Wisnik
Um ataque que procurasse de fato atingir os centros de poder e decisão hoje teria que visar e acertar não um alvo físico, mas entidades quase metafísicas, como Google, Amazon e Apple
Um ataque que procurasse de fato atingir os centros de poder e decisão hoje teria que visar e acertar não um alvo físico, mas entidades quase metafísicas, como Google, Amazon e Apple ILUSTRAÇÃO_MISHKA HENNER

Em que pese o estado de “nublamento” da percepção que temos do mundo atual, não se pode deixar de reconhecer que, ao mesmo tempo, vivemos no império da nitidez, numa “sociedade da hipervisibilidade”, em que parte importante da população mundial possui câmeras fotográficas no bolso e tem acesso imediato à postagem das fotos que produz. A também chamada “sociedade da informação” é feita de precisão e de certezas. Se antes as dúvidas que se tinha sobre os mais variados assuntos precisavam ser respondidas com base no conhecimento acumulado das pessoas ou buscando informações em enciclopédias volumosas e em bibliotecas, hoje, por meio da internet, essas respostas são obtidas de maneira imediata e assertiva, ainda que não necessariamente correta. Assertividade autoconfiante que se prolonga no comportamento mediano das pessoas nas redes sociais e por intermédio delas se propaga. Pois, além de ser um riquíssimo espaço de pesquisa e de conhecimento em potencial, o ciberespaço é também – como meio de comunicação e interação – um “lugar” no qual as pessoas expõem muito menos dúvidas do que certezas. E as certezas exprimem vontade de nitidez, de explicitação, de definições precisas.

Vivemos, portanto, um momento histórico de inegável evidenciação da definição das coisas, que acompanha o crescimento vertiginoso do acesso à informação por meios digitais. Refiro-me ao hiperrealismo manipulado das imensas fotos de Andreas Gursky e Thomas Struth, por exemplo, no campo da arte, e ao bombardeio de imagens, sempre sedutoras e acessíveis, em nossas vidas, bem como à evolução das ferramentas digitais que permitem ampliarmos muito essas imagens em suas interfaces sem que elas percam nitidez, como no caso do Google Arts & Culture. É algo que se verifica também no protagonismo atual de uma plataforma como a do YouTube, que dá novos significados a tudo – como às músicas – pelo prisma das imagens em movimento. Evidenciação das coisas que igualmente ocorre quando, no Google Earth, mergulhamos ao léu em uma cidade qualquer e, usando o modo street view, conseguimos passear pelas ruas e até explorar o interior de alguns edifícios. Progressivamente mapeado e decodificado, o mundo se oferece a nós em imagens cada vez mais nítidas, nas quais as dúvidas e ambiguidades, ou zonas de sombras e incertezas, vão sendo apagadas.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES

Guilherme Wisnik

Guilherme Wisnik  é arquiteto e ensaísta, autor de Estado Crítico: À Deriva nas Cidades, da Publifolha

Leia também

Últimas Mais Lidas

Aula de risco

Reabrir colégios, como sugeriu Bolsonaro, aumenta perigo de contaminação para 5 milhões de brasileiros de mais de 60 anos que moram com crianças em idade escolar

A Terra é redonda: Coroa de espinhos

Especialistas discutem quem é o inimigo que está prendendo bilhões em casa e como vamos sair da pandemia causada pelo coronavírus

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

Direito à despedida

As táticas de médicos e famílias para driblar a solidão de pacientes de covid-19 nas UTIs

Foro de Teresina #94: A subnotificação do vírus, Bolsonaro acuado e a economia desgovernada

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

Pandemônio em Trizidela 

Do interior do Maranhão a celebridade nas redes: prefeito xinga na tevê quem fura quarentena contra covid-19, ameaça jogar spray de pimenta e relata disputa por respirador alugado

Socorro a conta-gotas

Dos R$ 8 bi prometidos para ações de combate à Covid-19, governo federal só repassou R$ 1 bi a estados e municípios

O gás ou a comida

Na periferia de São Paulo, com epidemia de Covid-19, preço do botijão vai a R$ 150 (um quarto do auxílio prometido pelo governo), renda cai e contas continuam chegando

Na piauí_163

A capa e os destaques da revista que começa a chegar às bancas nesta semana

Mais textos
2

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

5

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

6

Não tenho resposta para tudo

A vida de uma médica entre seis hospitais e três filhos durante a pandemia

7

Direito à despedida

As táticas de médicos e famílias para driblar a solidão de pacientes de covid-19 nas UTIs

8

Separados pelo coronavírus

Ao falar contra isolamento, Bolsonaro surpreende até Bannon, favorável à quarentena total; no Brasil, cúpula do Congresso teme autoritarismo e evita confronto direto

9

Onze bilhões de reais e um barril de lágrimas

Luis Stuhlberger, o zero à esquerda que achava que nunca seria alguém, construiu o maior fundo multimercado fora dos Estados Unidos e, no meio da crise, deu mais uma tacada

10

A capa que não foi

De novo, a piauí muda a primeira página aos 45 do segundo tempo