poesia

As durações da casa

Julia de Souza
CREDITO: GIORGIA MASSETANI_2019

MÓVEIS

É doce e boa a mobília
Paulo Henriques Britto

Crer em nada mais que o
plano lúcido dos móveis.
Não nos pedem muito:
irmãos da gravidade
toleram o que é nosso
são calmos guardiões
da pretérita e viva
duração da casa

 

INVASÃO

Um jardim penetra a casa:
há uma incisão que se renova
em sua caixa torácica a cada
hesitação do vento ou sutil
modulação do clima –
o que não deixa de aventar
um certo perigo.

Ainda assim não vou sair
para tentar não morrer
antes da tua volta

(e agora chove, chove dentro da casa)

Vou tentar perceber
o que é estar nesta casa
onde só as duas poltronas vermelhas
marcam o que é dentro

 

TRABALHAR CANSA

As tardes na casa não têm
hierarquias: é sempre
um pouco sábado
e atravessar os sábados
é ser suavemente
atravessado –
o ouvido, escuta,
o ouvido não tem pálpebras
e por isso é preciso
perdoá-lo.

Aos sábados esquecemos
que as metonímias são
uma espécie de tapa
e podemos assistir uma aranha
compondo
entre dois galhos
aos milímetros sua teia

Há tantas coisas
que deixariam de existir
se fossem tocadas.

Aqui fuma-se onde há
janelas
espera-se onde há janelas
e há janelas o bastante
(são vermelhas)
quando faz sol
aos sábados.

Aqui quase sempre
é um bom sábado
(e a casa portanto é uma sucessão
de mormaços, amadorismos
marolas). 

Aos sábados flutuamos
não sabemos nadar
mas flutuamos
como ideias que passaram
do prazo ou nasceram
antes da hora

 

ESCREVER, ESCALAR

I.
Confiar
na firmeza flutuante
da primeira agarra

II.
Ter a montanha
a um palmo de distância
– não ver o céu
não ver o fim

III.
A subida é para o alto
e para os lados:
as pedras as mãos
também
se espraiam

IV.
O coração é o gancho
de escape
o coração vai
na pochete
o coração somente
em caso
de emergência

V.
O pé na falha da pedra
não olha para baixo
para a corda ilusória
para os versos que já

VI.
A chegada não é
o oposto da queda

a chegada é inverter
a montanha:

o alpinista pendurado
lá no topo pelo ponto
final

 

PLANO

Trata-se de um movimento
em direção à clareza.
Uma braçada, duas, transpor
a extensão da água

com o vigor dos nadadores:
um movimento
pela graça da redundância
pela precisão do óbvio
pelo ver apenas
a piscina

está cheia de folhas
é preciso limpá-la

 

“EU ERA AR”

Como é estranho existir
nos é vetado atinar com isso
nos espantar com isso
sob o risco de ver pés, mãos
e sobretudo o rosto
como a abstração total;
a imagem no espelho
perde então a carne
e passa a ser passagem
olhos furados, susto,
vácuo. Você se belisca:
como é estranho existir, ver
em cada gesto um espasmo
e ver em tudo o que tem nome
e corpo apenas a forma
acidental e sem figura
de um país estranho estampado
num mapa


Poemas do livro As Durações da Casa, que a editora 7 Letras lançará em setembro.

 

Julia de Souza

Julia de Souza, poeta paulistana, é autora de Covil, lançado pela 7Letras

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