cartas

As memórias de Persio Arida inspiraram os leitores

RAKUDIANAI

O artigo de Persio Arida me tocou profundamente (“Rakudianai”, piauí_55, abril). Em 1969, no 1º Colegial, eu estudava no Colégio de Aplicação e tinha 15 anos. E o Persio, com 17, no 3º, era um dos alunos mais respeitados daquela singular escola. Era uma pessoa brilhante, que se destacava pela inteligência. Nessa época, fui convidado a ingressar na VAR-Palmares, mas amarelei. Ou, pelo menos, foi assim que julguei minha atitude na ocasião. E por isso me cobrei e me senti cobrado por muitos colegas. Isto marcou a minha vida por muito tempo.

Esta Comissão da Verdade que está sendo aventada, ao se propor a reconstituir a história de maneira isenta, não terá uma tarefa fácil para fazer um levantamento do que aquele momento histórico representou, em seus múltiplos aspectos, para uma boa parcela de toda uma geração.

LUIS FERREIRA_SÃO JOSÉ DO RIO PRETO/SP

 

Lê-se devagar, com pena de acabar, o texto perfeito. No parquinho das memórias vertiginosas, a gangorra do estilo: no banco do alto, pernas finas balançando, a elegância do levantino da 25 de Março. Cá embaixo, balofo e bonitão, o banco do cineasta/jornalista teima em não sair do chão.



LUCIA DIAS_SÃO PAULO/SP

 

Persio Arida afirma: “Os políticos, biônicos ou eleitos, que votavam ordenadamente no Congresso de acordo com os interesses do regime militar, na verdade teriam sempre sido contrários à prática de torturas.” Difícil imaginar que políticos da Arena não soubessem das atrocidades do regime, e que não silenciaram por conveniência ou alinhamento ideológico. Aliás, o próprio general Médici afirmou que não tinha conhecimento de tal procedimento.

CARLOS RIO_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Muito bem redigido, o depoimento revela a precariedade da formação religiosa do jovem rico, mostra o Brasil vulnerável à influência totalitária soviética na segunda metade do século passado, além da extravagância da mentalidade de quem foi terrorista light e hoje é poderoso banqueiro. A burguesia e a solidez do apoio de sua família são de fazer corar algum quadro da extrema-direita. O subtítulo do artigo poderia ter sido: “De enfant gâté ao topo do dinheiro, passando pelo delírio da sombra dos Gulags.”

NICOLAU GINEFRA_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Levei três dias para ler o artigo. Um pouco pelo tamanho, mas também pelos apelos pornográficos que o restante da revista trouxe. Valeu a pena. Achei Persio Arida íntegro e sensível, além de ter um texto ótimo. Deveríamos mesmo nos perguntar por que, às vezes, parece que o assunto tortura já se esgotou no Brasil (vide a antipatia ou o desprezo por filmes sobre a ditadura). Pode ser que nem sempre se saiba como falar do assunto. Mas os europeus não se cansam de tentar formas de falar do Holocausto, e o mundo vê essa produção com curiosidade, renovando o espanto.

O texto me fez pensar na guerra de Canudos, embate surreal e repleto de perguntas não respondidas, de pontos a compreender. O livro de Euclides da Cunha ficou como um parecer quase definitivo sobre a história. E depois houve o filme (do qual, particularmente, não gosto) do Sérgio Rezende. Mas ainda há assunto a explorar ali. E esse é só um exemplo. Acho que temos que perder o medo de falar das mesmas coisas. Aprender que a maneira de dizer é o que conta, e que nenhuma versão é definitiva.

LIA COSTA_BELO HORIZONTE/MG

 

Comprei a revista na livraria do Aeroporto de Guarulhos, rumando para Brasília, mas juro que teria desistido se tivesse dado mais atenção à ilustração da capa. Nada contra ilustrações pornográficas, apenas gostaria de algo menos apelativo para ler num local público. E lá fui eu para minha leitura de qualidade. Ainda na sala de embarque, li o Diário da Dilma e caí na gargalhada, sem me preocupar com quem estava perto. Minha poltrona no avião era de corredor. Sei que ao lado se sentaram dois homens até interessantes, mas não mais interessantes que “Rakudianai”.

Persio Arida nos presenteou com sua história tão poética, linda e apaixonantemente relatada. Penso que essa seja a melhor maneira de não deixar esses anos tão obscuros se perderem. Que outras pessoas que sentiram na pele essa “obscuridade” sejam inspiradas a fazer o mesmo.

A leitura terminou com o pouso em Brasília, depois de muitas risadas irreprimíveis e lágrimas escorridas pelo rosto. Senti alguém batendo no meu ombro, e vi que o passageiro do corredor oposto me olhava com um sorriso para lá de malicioso. Ele me perguntou onde consegui a revista. “Comprei na banca (ora bolas…)”, disse eu. “Muito boa ela…”, comentou ele, e o sorriso malicioso aumentou mais ainda. Cheguei em casa e li as charges do Wolinski. Entendi a malícia e pensei: “Que pena, do melhor ele não viu nada.”

DANIELA SIMONINI TEXEIRA_BRASÍLIA/DF

 

Suas memórias me tocaram profundamente, Persio, particularmente porque em 1970 eu também era jovem, tinha 21 anos. Admiro a sua sinceridade, a sua honestidade, qualidades raras em ex-militantes das organizações armadas atualmente no poder. A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, tem dificuldade de lidar com seu passado na VAR-Palmares – quando perguntada, ela fantasia, fabula mesmo.

Meu objetivo é lhe pedir que tire a frase “Mas quem chora a morte de um traidor?”, referência a Massafumi Yoshinaga, de seu futuro livro de memórias. Essa frase destoa do texto porque você não está sendo justo.

Massafumi Yoshinaga, o Massa, não foi preso e torturado. Ele negociou sua rendição. A condição era mostrar arrependimento, servir de exemplo. E ele o fez não para “abreviar o tempo e os rigores da prisão”, mas para abreviar os suplícios da militância na VAR-Palmares. Era sincero nas suas críticas aos líderes da organização, mas a exposição pública, com elogios à ditadura, foi demais. Não conseguiu superar o trauma, sua consciência. Se traição houve, foi a si mesmo. Leia novamente aquele exemplar da Veja de 1970. Veja quantos arrependidos, depois de presos, lhe faziam companhia no Dops. Eram jovens como você, e muitos tiveram a vida arruinada, vítimas da ditadura e dos esquerdopatas da época.

Não sei por que, mas me sinto impelido a contar que o Massa e aqueles arrependidos pertenciam a outra categoria de militantes, os “de verdade”. Tanto que o batismo deles, na organização, foi um assalto a banco (eu caí fora, ou melhor, me colocaram para fora, um covarde incapaz de atirar em nome da revolução). Aquele grupo andava mal trajado, morava mal, não tinha família influente, de posses, advogado, pai dedicado e disposto a tudo para ajudar o filho. O que tinham na vida eram somente seus sonhos.

A prisão do Massa foi uma encenação, precursora da encenação de seu julgamento. Como você, ele era um falso perigoso. O grupo teve vida curtíssima. Assaltaram o banco e em seguida foram presos, exceto o nissei. A partir daí, sua vida virou um inferno, dormia um dia em cada lugar, inclusive na rua. Figura conhecida, queimada, sua alternativa foi se esconder no mato, na guerrilha do Lamarca. Sua militância era fuga.

GILBERTO CUSTODIO DE CAMARGOS_ITU/SP

 

O argumento de Persio Arida, referindo-se à guerrilha contra a ditadura – “O que teria acontecido com os direitos humanos se aquele movimento tivesse dado certo?” –, é uma falácia que tem sido entoada pelos conservadores de mentalidade mais atrasada (alguns com verniz “moderno”) para tentar justificar a violência da repressão. É um argumento também perigoso: ele absolve todos os regimes repressivos, inclusive o nazismo e o stalinismo.

No ano anterior à ascensão de Hitler, o PC era o terceiro maior partido da Alemanha, e vinha crescendo eleitoralmente, enquanto os nazistas estavam em queda. Por isso, o empresariado alemão apoiou Hitler. Então, pode-se dizer que se os comunistas tivessem chegado ao poder, a Alemanha teria tido também uma ditadura. Assim, tudo que o nazismo fez se torna “compreensível”.

Stálin também justificou as atrocidades contra os adversários alegando que, se eles fossem vitoriosos, haveria uma contrarrevolução e a volta do czar. Raciocinar apenas por hipótese, e com analogias mecânicas, como fazem Arida e os saudosistas da Guerra Fria, é um devaneio sem base na realidade.

Além disso, qualquer pesquisador honesto sabe – mas ninguém admite nem discute isso – que as organizações de extrema-esquerda não tinham possibilidade nenhuma de assumir o poder e promover uma revolução socialista. Esse argumento é uma bobagem infantil, uma mistificação ridícula.

Outra coisa que não se comenta: vários países democráticos do primeiro mundo tiveram guerrilhas violentíssimas no mesmo período – Itália, Alemanha, Japão, Inglaterra, Estados Unidos. E elas foram combatidas e derrotadas sem a quebra do estado de direito, sem torturas (pelo menos como norma institucional), sem desaparecimentos, sem censura oficial. Enfim, sem ditadura.

Acredito que Arida seja um democrata, mas será que não sabe que ditadores, de todas as ideologias, sempre alegam ter evitado um mal maior? Até Kadhafi tem justificativas para estar no poder há quarenta anos. E já disse que, se sair, virá a Al Qaeda.

JASON TÉRCIO_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Após ler “Rakudianai”, lembrei-me de uma alegoria de Michael Flürscheim, que passo a sumarizar. Muito anos depois de o homem ser expulso do Paraíso e condenado “a ganhar o pão com o suor do seu rosto”, a misericórdia começou a prevalecer. Um anjo amoroso foi enviado à terra pelo Senhor, incumbido de abrandar a pena. O nome do anjo era Espírito da Invenção. Ele começou seu trabalho ensinando o homem a fazer ferramentas úteis para domar os animais, mobilizar a força da água, do ar, do vento, do fogo e do vapor. Satanás, o anjo decaído que, sob a forma de serpente, havia concorrido para expulsar o homem do Paraíso, ficou agastado e com inveja.

Um pequeno demônio, chamado Juros, atraiu a atenção de Satanás. “Por que você não parece tão deprimido como seus companheiros?”, perguntou-lhe Satanás. “Por que eu haveria de ser deprimido, amo?”, indagou o pequeno demônio. “Não tenho vencido sempre, sob a vossa augusta orientação?” Satanás respondeu irritadamente: “Você não está à altura do Espírito da Invenção!” O pequeno demônio se dispôs a provar seu valor excepcional em um duelo.

Começou então a batalha entre Juros e o Espírito de Invenção. No início, o anjo amoroso riu, pois vinte quadras se passaram e não havia nenhum sinal da redução de sua força. O pequeno demônio não disse nada, dobrando silenciosamente suas forças a cada quadra. Na trigésima, o anjo se deu conta de que estava perdido. “O demônio Juros é mais poderoso que o Espírito da Invenção”, exclamou. “Sou seu escravo, ordene e obedecerei!” O pequeno demônio respondeu: “Sou servo de meu Grande Senhor. Ele dar-vos-á as ordens.”

E Satanás ordenou que o anjo continuasse suas atividades, de modo que a humanidade mantivesse a esperança de vitória final. Mas ao demônio Juros foram enviadas tropas ainda maiores, para capturar as novas forças, escravizá-las e, em vez de servirem ao homem, aumentar a cadeia da servidão que lhe esmagaria.

Essa é a alegoria de Flürscheim. Na juventude, Persio Arida era como o anjo amoroso. É uma pena que, depois do que sofreu na ditadura – e com quem nos solidarizamos por isso –, tenha lançado ao solo a bandeira de seu espírito libertário. Como se fosse possível fugir da política, em um autismo social inviável, a pretexto de não “suportar o fardo de ideias mofadas pelo tempo”. Tanto mais quando, atraído pelo demônio do Juros, tenha se transfigurado logo em seu antípoda… um banqueiro.

Fico aguardando a segunda parte das memórias de Persio Arida. Para explicar como essa metamorfose para lá de kafkiana, que ainda deixa seu Eu dividido, o acometeu.

LUIZ MARIANO DE CAMPOS_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Se a presença dos militares foi nefasta à nação brasileira, gostaria de lembrar que, no desfile da “Vitória”, nós, os soldados, fomos aplaudidos pelo povo nas ruas. Em 1964, com 18 anos, fomos convocados a servir a pátria e a defender a democracia. Desde que entramos no quartel, o nosso treinamento era total. Atirávamos com todo tipo de armas: pistolas calibre 45, metralhadoras e granadas de verdade. O treinamento físico era um horror, tínhamos que dar centenas de voltas no quartel debaixo do sol ou chuva, sem reclamar. O dia que não tinha marcha, tinha ginástica de quatro horas seguidas. No resto do tempo íamos para a sala de aula aprender técnicas de guerrilha, como se defender ou matar o inimigo. Peguei trauma de barulho de tiro: tínhamos que ficar perto do canhão de 150mm quando era disparado. Era para nos acostumarmos com o barulho. Tempos difíceis e perigosos.

Nesse período, vários colegas sofreram acidentes com armas. Só na minha companhia, foram mais de seis que se feriram. Deles, quem não morreu ficou aleijado, ou sumiu sem deixar rastros (soldados eram sequestrados e mortos por bandidos por causa das armas). Depois de tudo, fomos dispensados como cartuchos detonados. Depois de garantirmos a salvação da pátria, da liberdade, da democracia, o que ganhamos? Nada! Nem uma medalhinha.

EDUARDO ESTEVES_SÃO PAULO/SP

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