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    ILUSTRAÇÃO: ROBERTO NEGREIROS_2016

despedida

Ascensão e queda do Santana

Sedã que já foi sucesso entre os taxistas não pode mais circular no Rio

Roberto Kaz | Edição 113, Fevereiro 2016

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Faz dois meses que o Santana amarelo de Ivo Gonçalves Mattos se tornou um pária. Não que o trajeto rumo à exclusão social tenha vindo do nada. A marca do tempo estava lá – no para-brisa trincado, no estofado rasgado, no painel do ar-condicionado remendado com durex. Foram dezesseis anos de corridas diárias pelo Rio de Janeiro; dezesseis anos de praia, calor, chuva de verão, engarrafamento, inundação na Praça da Bandeira. Os 440 mil quilômetros rodados poderiam tê-lo feito cruzar o Brasil cem vezes, rodar o mundo dez, ou alcançar a Lua sem bilhete de volta (alguns agradeceriam). Mas não. Permaneceu no asfalto quente de Copacabana, nas veredas calejadas do Méier. Antes de tudo, era um forte.

Mas veio o golpe de misericórdia, sob a forma de um decreto municipal. Desde o dia 23 de dezembro, antevéspera do Natal, nenhum táxi com mais de seis anos pode circular no Rio de Janeiro. Subitamente, os 250 Santanas amarelos que ainda tinham permissão de rodar pela cidade mergulharam no submundo da ilegalidade. Um deles era o de placa LCN 0322, de Ivo Gonçalves Mattos. “Foi o melhor carro que existiu”, lamentou o taxista.

Montado pela Volkswagen, o Santana chegou ao Brasil em 1984 para ser o primeiro sedã de luxo da empresa alemã no país. Munido de vidro elétrico, roda de alumínio e a opção de câmbio automático, ingressou numa fatia do mercado até então dominada por Monzas, Del Reys e Opalas. Aos sete anos, com a lataria redesenhada, foi eleito o carro do ano pela revista Quatro Rodas.

O feito que o eternizaria no Olimpo automotor, no entanto, viria em 1998, quando desbancou o Vectra para assumir a dianteira do ranking nacional de venda de táxis. A Volkswagen, orgulhosa, chegou a publicar um comunicado onde exaltava “a preferência dos taxistas pelos modelos da marca”. Naquele ano, 25% dos táxis vendidos no país eram Santana.

Dali em diante, foi a glória. Acessível, espaçoso e de manutenção barata, o carro cairia no gosto da classe. “De taxista que não teve Santana e motorista que não dirigiu Fusca, eu suspeito”, disse Alexandre Guimarães, que pilotou o seu de 2002 a 2007 e hoje preside a Central dos Taxistas Regulamentados do Rio de Janeiro.

Com a fama feita e o poder consolidado, o Santana repetiu a trajetória típica dos ícones que não percebem o momento de deixar o palco. Em 2002, ainda figurava entre os vinte carros mais vendidos no país. Em 2005, já defasado, caiu para o 48º lugar. O mercado, então, já estava tomado por Merivas, Sienas e Corollas. Rejeitado pela mesma classe média que o havia alçado ao estrelato, sobreviveu quase exclusivamente em forma de táxi (metade da frota de táxis do Rio, em 2006, era composta de Santanas). “No começo todo mundo queria ele. Era um carro executivo, espaçoso”, lembrou o taxista Carlos Alberto da Silva, que conduziu seu exemplar por oito anos. “Mas no final era muita recusa. O cliente fazia sinal, aí via que era Santana e virava a cara. Parecia que você era um fora da lei.”

Em 2006, o carro deixou de ser fabricado. Aos poucos Santanas que sobravam – apelidados pela classe de “ex-combatentes” – restaram os rincões menos abastados da cidade. Remendados com barras de ferro e chapas de aço, passaram a rodar em torno do Cemitério do Caju, do Piscinão de Ramos, do estádio de São Januário. Já não tinham calota, não tinham carinho, não podiam arrancar, correr não podiam. “Não sei o que aconteceu na vida pessoal do cara para ele não trocar um carro desses”, questionou o taxista Maurício Serra, intrigado com os profissionais de praça que insistiram no velho modelo da Volkswagen. “Perdeu tudo, se enrolou, não tem crédito no mercado, tem um bloqueio na cabeça. Ou é senhorzinho, aposentado. Só conversando pra entender.”

 

Ivo Gonçalves Mattos é um senhor de 70 anos que pronuncia uma palavra chula a cada dez palavrões. “Sou filho de português. Português é pica”, justifica. Atua na praça há quase três décadas. Primeiro teve um Fusca. Depois um Del Rey. Em 1999, pagou 16 mil reais pelo Santana zero-quilômetro de uma concessionária em Jacarepaguá. “Comprei mais por causa do pessoal da Zona Sul”, contou. “O Del Rey tinha duas portas. Ninguém queria entrar.”

Habituou-se à viatura – e decorou-a com gosto. Colou um adesivo com a imagem de são Jorge no porta-luvas. Pendurou um terço e algumas fitas do Senhor do Bonfim no retrovisor. Depositou uma toalha vermelha com motivos de joaninha sobre a marcha. Ainda espalhou três adesivos com a mesma mensagem: “Sr. Passageiro, se souber de uma moto antiga ocupando espaço, comunique ao motorista.” “Eu gosto de moto. Quase comprei uma Harley-Davidson”, justificou.

O carro não tem ar-condicionado: “Sou alérgico.” Também não tem rádio: “Quebraram a janela do meu falecido Del Rey para arrancar o toca-fitas. Não quis mais saber de música.” Jamais cogitou trocá-lo por outro veículo que não um Santana: “Eu já troco de cueca e de meia. Pra que trocar de carro?” Faz uma única ressalva à máquina: “Quebra pra caramba.” Mudou a junta homocinética, a bomba d’água, o radiador, o calço da caixa de marcha, os pivôs, o calço do motor e um sem-número de pequenos detalhes: “A manutenção é barata.” Está com a revisão em dia no Detran, mas não teve a licença municipal renovada.

Mattos guarda enorme rancor da Volkswagen. Acha que a montadora devia ter persistido na fabricação do modelo. “É burrice, deram mole. Por que não arredondaram a lataria e deixaram o resto como estava?” Reclama que os estrangeiros tomaram conta da praça: “Teve até francês, o Peugeot. Quando comecei a ver aquele leãozinho, falei: ‘É muita babaquice.’”

Desde a proibição, diminuiu o horário de trabalho. Estaciona num posto de gasolina do Méier, por volta de 9 horas, e lá permanece, à espera de algum passageiro, até três da madrugada. Prefere não se aventurar pelo Centro ou pela Zona Sul por medo de ter o Santana confiscado.

Para permanecer legalmente no ofício, tem cogitado a heresia de comprar um Etios, da Toyota. Não pretende incluir o Santana na negociata. “Acho que está rachado no meio. Essa merda não vale nada”, explica. “Acabou a era do Santana. O carro virou bandido.”