despedida

Assim na terra como no céu

Lá se foi o sorridente Waldir Pires, que dizia que o perigo é a frase de efeito

Marcos Sá Corrêa

A demissão do ministro Waldir Pires tirou dos jornais o sorriso mais simpático do governo Lula. Ali estava um modelo de homem público que não precisa de botox para atravessar, sem mudanças de expressão, as piores crises. Ele sorria com todas as rugas a que a idade lhe dá direito. Deixou isso claro até na cerimônia do bota-fora, quando o ministério da Defesa passou para as mãos de Nelson Jobim. A fotografia da posse vale mais que mil discursos. Mostra o novo ministro, alto e curvado sobre o presidente Lula, como se lhe desse condolências pelas dores políticas do desastre aéreo. Ambos estão carrancudos, metidos em ternos escuros, com gravatas sombrias.

Waldir Pires, não. Ao fundo, ele está sentado com a naturalidade de quem é capaz de ocupar qualquer cadeira sem trançar as pernas nem desabotoar o paletó. Também está de preto, mas usa gravata clara. Bate palmas, sozinho, para os salamaleques de sua queda. Por muito menos, nas ondas de choque que se seguiram à explosão do Airbus da TAM, o assessor especial Marco Aurélio Garcia ocupou as mãos com muito mais eloqüência. Imortalizado num instante de serenidade, Pires está de olhos fechados, sem o menor sinal de crispação em suas pálpebras. Tem cara de quem já viu tudo. A mesma cara que o deputado Ulysses Guimarães, citado por Nelson Jobim na transmissão do cargo, exibia aos jornalistas quando procurava, no fundo do cérebro, respostas prontas para as perguntas que o enchiam de tédio.

O sorriso de Waldir Pires fará falta. Ninguém no governo tem um sorriso anticrises como o dele. Não que faltem às outras autoridades recursos histriônicos para garantir o salário dos fotógrafos. De choro e gargalhada a política brasileira anda cheia. Em torno de Lula, há dezenas de repórteres especializados em interpretar como vão as coisas no governo com base nas mutações do primeiro-semblante, cuja testa está perenemente plácida – será botox? E, por invariavelmente sisuda, a ministra Dilma Rousseff, cada vez que aparece para falar de um assunto, consegue passar a impressão de que está pensando nos problemas que deixou no gabinete.

Sorriso como o de Pires não se vê no noticiário desde que o ministro José Dirceu perdeu a Casa Civil. Nos dois mandatos de Lula, Pires esteve mais de uma vez no olho do furacão. Sorrindo. Ele era o Controlador Geral da República quando o deputado Roberto Jefferson, em 2005, pôs fogo no mensalão. Seu posto acabava de ser elevado à categoria de Ministério, o do Controle e da Transparência, para mostrar que Lula não se contentava com uma simples corregedoria. O escândalo tinha tudo para cair no seu colo. E nem assim o novo ministro da Transparência deixou de sorrir.
Ele expôs a fórmula da serenidade numa palestra, sobre “controle, ética e transparência”, que fez para servidores da presidência. Foi em novembro de 2003. Antes, portanto, que a maré de denúncias batesse às portas da Controladoria, ele deu o recado: “Vivemos num instante do mundo contemporâneo em que a ética é provavelmente o aspecto mais polêmico, mais difícil e ao mesmo tempo mais urgente da humanidade”.



Na aula de transparência, Pires atribuiu-se o dever de evitar “toda lesão ao patrimônio público”. Prometeu se aliar à Polícia Federal e ao Ministério Público no combate ao desvio e à “lavagem de dinheiro”. Humilde, ele reconheceu que acabar com esses costumes do passado era uma tarefa gigantesca. Por isso, pensando grande, escolhera como ponto de partida as prefeituras. Por que as prefeituras? Por serem “o território onde nós vivemos, nós moramos, nós criamos nossos filhos, nós temos nossas alegrias e nossas amarguras”. Portanto, “a partir de uma unidade territorial, guardando nossa competência, sem jamais violentá-la ou expandi-la fora da lei”, a Controladoria adotou sorteios mensais. “Fazemos no momento cinqüenta sorteios, cinqüenta municípios num sorteio só, cinqüenta sorteios de municípios, uma vez por mês”, ele esclareceu, para não deixar dúvidas.

Dito e feito. Dali para a frente, durante dois anos, enquanto a seu lado tombavam ministros de Estado, bancadas governistas, marqueteiros políticos e dirigentes de partido, o Controlador Geral sorteava prefeituras, firme no rumo previamente traçado, para, de lupa na mão, averiguar se os seus barnabés não estavam sendo antiéticos. Não se distraiu com o barulho das CPIs nem dos inquéritos que o procurador Antonio Fernando de Souza resumiria em 14 000 páginas para o Supremo Tribunal Federal, juntando histórias sobre formação de quadrilha, peculato, corrupção ativa ou passiva, falsidade ideológica, gestão fraudulenta, evasão de divisas e lavagem de dinheiro à sombra do governo federal.

 

 

Waldir Pires deixou a Controladoria convencido de que a única coisa que há contra Lula é um “discurso golpista, intolerante, dentro da tradição republicana mais arcaica possível”. O mensalão, a seu ver, resvalou por um “governo em que, no combate à corrupção, se fez o que nunca se fez antes, graças à criação da Controladoria Geral da União, das instituições de controle, de correição e de transparência”.
Há quem diga coisas semelhantes só por esperteza. Ele dizia por outras razões. Tanto que iria repeti-las no ministério da Defesa, quando se viu no meio do pandemônio nos aeroportos. Mais uma vez, considerou-se diante de uma conspiração da “elite golpista”, mais uma, para moer o mandato de Lula numa “eleição que nunca acaba”. O resto era detalhe. Chegou a declarar, em fevereiro, cinco meses antes da demissão, que os passageiros poderiam usar sem susto o terminal de Congonhas, pois o aeroporto estava há dez anos sem um desastre sério em suas pistas.

De Pires se pode dizer tudo, menos que não se comporte como um homem reto. Ele fez na Defesa o que já fizera, com visível sucesso, e com a aprovação do governo, na Controladoria. Quem o nomeou conhecia-lhe os métodos. Ele se preocupa com a “insânia que não aceita a decisão do povo, que não respeita de verdade as instituições democráticas”, desde que, como consultor do governo João Goulart, viu o presidente fugir do país, em 1964.

Na Defesa, o método não funcionou. Mas, às vésperas de fazer 81 anos, Waldir Pires saiu do ministério sorrindo como entrou. Carreira não é tudo em seu currículo. Em 1989, ele renunciou a três anos de mandato certo, como governador da Bahia, para chegar em sétimo lugar como candidato a vice-presidente, na chapa de Ulysses Guimarães.

Quando assumiu o Ministério da Defesa, em 31 de março do ano passado, o primeiro desafio de Waldir Pires foi digerir uma ordem do dia do comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, louvando o regime militar que o cassara. “São as surpresas que a vida nos reserva”, disse o ministro. Ao sair, não pediu demissão, como recomendam os manuais de etiqueta palaciana. Esperou que Lula o demitisse. Despediu-se afirmando que, “se pudesse, continuaria e faria tudo outra vez”. Deixou para o sucessor um comentário que vale como conselho: “O perigo é a frase de efeito”. E levou para casa o sorriso insubstituível.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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