ficção

Assustada de repente

Porque não conseguia escrever o nome daquilo que ela era: uma mulha merlhu lhemur umrelh

Lydia Davis
Como pode haver relações indecorosas com uma mulher de 94 anos? Embora o seu corpo seja velho, a sua capacidade de trair ainda é jovem e viçosa
Como pode haver relações indecorosas com uma mulher de 94 anos? Embora o seu corpo seja velho, a sua capacidade de trair ainda é jovem e viçosa IMAGEM: HOKUSAI TYPEWRITER, 2005 @ BASTIENNE SCHMIDT

UM HOMEM DO PASSADO DELA
Acho que Mamãe anda de namoro com um homem do seu passado que não é o Papai. Digo para mim mesma: Mamãe não devia manter relações indecorosas com esse homem, um tal de “Franz”! “Franz” é um europeu. Estou dizendo que ela não devia se encontrar de um jeito indecoroso com esse homem, enquanto Papai está fora! Mas estou confundindo uma realidade velha com uma realidade nova: Papai não vai voltar para casa. Vai ficar em Vernon Hall. Quanto à Mamãe, ela tem 94 anos. Como pode haver relações indecorosas com uma mulher de 94 anos? Mesmo assim, minha confusão deve ser a seguinte: embora o seu corpo seja velho, a sua capacidade de trair ainda é jovem e viçosa.

 

IDÉIA PARA UM DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
Representantes de diversos fabricantes de produtos alimentícios tentam abrir as suas próprias embalagens.

 

ASSUNTOS PROIBIDOS
Em pouco tempo, quase todo assunto sobre o qual eles podem querer falar fica associado com mais uma cena desagradável e se torna um assunto do qual não podem mais falar. E assim, à medida que o tempo passa, há cada vez menos coisas sobre as quais eles podem falar em segurança e, mais cedo ou mais tarde, resta pouco mais além das notícias e do que eles estão lendo, mas nem tudo o que estão lendo. Não podem falar a respeito de certas pessoas da família dela, das horas de trabalho dele, das horas de trabalho dela, de coelhos, ratos, cachorros, de certas comidas, de certas universidades, de água quente, de temperatura quente e fria no quarto, tanto de dia como de noite, de luzes acesas e luzes apagadas no anoitecer no verão, do piano, de música em geral, de quanto dinheiro ele ganha, do que ela ganha, do que ela gasta etc. Mas um dia, depois de falarem sobre um assunto proibido, ainda que não seja o mais perigoso nem o mais proibido dos assuntos, ela se dá conta de que talvez seja possível, às vezes, dizer alguma coisa tranqüila e cautelosa sobre um assunto proibido, de modo que possa de novo tornar-se um assunto sobre o qual se pode falar, e depois dizer algo tranqüilo e cauteloso sobre outro assunto proibido, de modo que logo vai haver mais um assunto sobre o qual se pode falar outra vez. E que, quanto maior for o número de assuntos sobre os quais se pode de novo falar, aos poucos vai haver mais conversas entre eles dois e que, como vai haver mais conversa, vai haver também mais confiança e que, quando houver bastante confiança, eles podem se atrever a se aproximar do assunto mais perigoso e proibido de todos.

 

QUESTÕES GRAMATICAIS
Pois bem, na hora em que ele estiver morrendo, será que posso dizer, “É aqui que ele vive”?

Se alguém me pergunta, “Onde é que ele vive?”, será que eu devo responder, “Bem, neste momento, ele não está vivendo, ele está morrendo”?

Se alguém me pergunta, “Onde é que ele vive?”, será que posso dizer, “Ele vive em Vernon Hall”? Ou devo dizer, “Ele está morrendo em Vernon Hall”?
Depois que ele morrer, vou poder dizer, com o verbo no passado, “Ele vivia em Vernon Hall”. Também vou poder dizer, “Ele morreu em Vernon Hall”.

Depois que ele morrer, tudo o que tiver a ver com ele virá com o verbo no passado. Melhor dizendo, a frase “Ele está morto” vai ficar no presente. E também perguntas como “Para onde estão levando ele?” ou “Onde ele está agora?”.

Mas aí eu não vou saber se as palavras “ele” e “dele” estão corretas, no presente. Ele, depois de morrer, ainda será “ele”? E, se for assim, durante quanto tempo ele ainda é “ele”?

As pessoas podem dizer “o corpo” e depois chamá-lo de “isso”. Eu não vou ser capaz de dizer “o corpo” me referindo a ele, porque para mim ele ainda não é uma coisa que se possa chamar de “corpo”.

As pessoas podem dizer “o seu corpo”, mas isso também não parece correto. Não é o “seu” corpo, porque ele não é o dono do corpo, uma vez que ele não está mais ativo nem é mais capaz de ser dono de nada.

Não sei se existe um “ele”, ainda que as pessoas digam “Ele está morto”. Mas parece correto dizer “Ele está morto”. Essa pode ser a última vez em que ele ainda vai ser “ele”, no presente. Ou melhor, não vai ser a última vez, porque eu também vou dizer, “Ele está no caixão”. Não vou dizer, nem ninguém vai dizer, “Isso está no caixão”.

Vou continuar a dizer “meu pai”, me referindo a ele, depois que ele morrer, mas será que vou dizer isso só com o verbo no passado, ou também no presente?

Ele vai ser colocado dentro de uma caixa, não num caixão. Então, quando estiver dentro dessa caixa, será que vou dizer, “Aquilo dentro daquela caixa é o meu pai”, ou vou dizer, “Aquilo dentro daquela caixa foi o meu pai”?

Ainda vou dizer “meu pai”, mas talvez eu só vá dizer isso enquanto ele parecer o meu pai, ou for mais ou menos parecido com o meu pai. Depois, quando estiver na forma de cinzas, será que vou apontar para as cinzas
e dizer, “Aquilo é o meu pai”? Ou vou dizer, “Aquelas cinzas dentro da caixa eram o meu pai”? Ou, “Aquelas cinzas são o que foi o meu pai”?

Mais tarde, quando eu visitar o cemitério, vou apontar e dizer, “Meu pai está enterrado ali”, ou será que vou dizer, “As cinzas do meu pai estão enterradas ali”? Mas as cinzas não vão pertencer ao meu pai, ele não vai ser o dono delas. Elas vão ser “as cinzas que foram o meu pai”.

Na expressão “ele está morrendo”, as palavras “ele está” no presente, seguidas pelo gerúndio, sugerem que ele está, ativamente, fazendo uma coisa. Mas não está morrendo ativamente. A única coisa que ainda está fazendo ativamente é respirar. Parece que está respirando intencionalmente, porque faz um esforço para isso, e franze o rosto de leve. Está fazendo esforço, mas sem dúvida não tem outra opção. Às vezes, os franzidos do rosto ficam mais fundos por um instante, como se alguma coisa o machucasse, ou como se ele fizesse um esforço maior de concentração. Ainda que eu possa deduzir que franze o rosto por causa de alguma dor dentro dele, ou por causa de alguma outra alteração, mesmo assim parece que está perplexo, ou que repudia ou desaprova alguma coisa. Vi essa expressão no seu rosto muitas vezes na vida, se bem que nunca antes combinada com esses olhos entreabertos e com essa boca aberta.

“Ele está morrendo” soa mais ativo do que “ele vai estar morto em pouco tempo”. Isso acontece provavelmente por causa da palavra “está” – a gente pode “estar” alguma coisa, quer a gente escolha isso ou não. Goste ele ou não, “vai estar” morto em pouco tempo. Ele não está comendo.

“Ele não está comendo” soa ativo, também. Mas não é uma escolha sua. Não tem consciência de que não está comendo. Não tem consciência de nada. Mas “não está comendo” soa mais correto para ele do que “está morrendo”, por causa da forma negativa. “Não está” parece correto para ele, pelo menos por enquanto, porque parece estar rejeitando alguma coisa, porque está franzindo o rosto.

 

A LAGARTA
Acho uma pequena lagarta na minha cama de manhã. Não há nenhuma janela boa para eu jogar a lagarta, e não esmago nem mato nenhum ser vivo, a menos que seja inevitável. Então me dou ao trabalho de levar pela escada essa lagartinha fina, escura, sem pêlos, com a intenção de ir até o jardim. Não é uma lagarta de mariposa, embora seja do mesmo tamanho. Não arqueia o corpo no meio, mas caminha reta, firme, com os seus muitos pares de pernas. Quando saio do quarto, ela já está andando bem depressa sobre as protuberâncias da minha mão.

Mas no meio da escada, ela some – minha mão está vazia, dos dois lados. A lagarta deve ter se soltado e caído. Não consigo ver a lagarta. O vão da escada está escuro e os degraus são pintados de marrom-escuro. Eu podia pegar uma lanterna e procurar essa coisinha, para salvar a sua vida. Mas não vou chegar a esse ponto – ela vai ter de se virar sozinha. Porém, como é que ela vai conseguir chegar à porta dos fundos e sair para o jardim?

Vou cuidar da minha vida. Acho que esqueci a lagarta, mas não esqueci. Agora, toda vez que subo ou desço a escada, evito o lado de cá dos degraus. Tenho certeza de que a lagarta está ali, tentando descer.

Enfim, desisto. Pego a lanterna. O problema agora é que os degraus estão muito sujos. Não limpo a escada porque ninguém vê os degraus aqui no escuro. E a lagarta é, ou era, muito pequena. Sob o facho de luz da lanterna, muita coisa se parece com ela – uma lasquinha bem fina de madeira ou um pedaço de linha grossa. Mas quando eu toco, não se mexem. Procuro em todos os degraus daquele lado da escada e depois do outro lado também. A gente sempre acaba meio apegado a qualquer ser vivo, depois que tenta ajudá-lo. Mas a lagarta não está ali. Tem muita poeira e muitos pêlos de cachorro nos degraus. A poeira pode ter colado no corpinho da lagarta e aí ficou difícil para ela se movimentar, ou pelo menos ficou difícil ir na direção que queria. Pode ter até secado a lagarta toda. Mas, afinal, por que ela haveria de descer, em vez de subir? Não olhei no patamar acima do local onde ela sumiu. Não vou chegar a esse ponto.

Volto para o meu trabalho. Então começo a esquecer a lagarta. Esqueço durante uma hora, até eu ter de descer a escada de novo. Dessa vez, vejo que lá num dos degraus tem alguma coisa exatamente do mesmo tamanho, formato e cor. Mas está seco e achatado. Não pode ser ela, de jeito nenhum. Deve ser uma folhinha de pinheiro ou um pedaço de alguma outra planta.

Quando volto a pensar na lagarta, percebo que me esqueci dela por várias horas. Só penso na lagarta quando subo ou desço a escada. No final das contas, ela está mesmo em algum lugar, tentando achar o caminho para uma folha verde, ou então morrendo. Mas agora eu já não me importo tanto. Em breve, tenho certeza, vou esquecer a lagarta completamente.

Mais tarde, há um cheiro desagradável de bicho pairando na escada, mas não pode ser a lagarta. Ela é pequena demais para ter algum cheiro. Agora, ela na certa já morreu. De fato, era pequena demais para que eu ficasse pensando nela a vida toda.

 

DISTRAÍDO
O gato está chorando na janela. Quer entrar. Você se dá conta de que viver com um gato e com as exigências de um gato faz você pensar em coisas simples, como a necessidade que tem um gato de entrar em casa, e em como isso é bom. Você começa a pensar no assunto e fica tão ocupado pensando nisso que nem deixa o gato entrar, esquece de deixar o gato entrar, ele continua na janela, chorando. Você percebe que não deixou o gato entrar e pensa em como é esquisito que, enquanto fica pensando nas necessidades de um gato e em como é bom viver com as necessidades simples de um gato, você não deixou o gato entrar, em vez disso deixou o bicho chorando na janela. Então, enquanto está pensando sobre isso e em como é esquisito, você deixa o gato entrar sem nem saber que está deixando o gato entrar. Agora o gato pula para cima do balcão e chora por comida. Você vê que o gato está chorando por comida, mas não pensa em dar comida para ele, porque está pensando em como é esquisito ter deixado o gato entrar sem saber disso. Então você vê que ele está chorando por comida, enquanto você não dá comida para o gato, e quando vê isso e pensa que é esquisito que não tenha ouvido o gato chorar, você dá comida para o gato sem saber que está dando comida para ele.

 

 

ASSUSTADA DE REPENTE
porque não conseguia escrever o nome daquilo que ela era: uma mulha merlhu lhemur umrelh

Lydia Davis

Lydia Davis, escritora americana, tradutora e professora da Universidade de Albany. Autora do livro The Collected Stories of Lydia Davis, publicado pela Farrar, Strauss & Giroux.

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