questões literárias

Até lá onde a narrativa não chega

Sem a participação dos editores, eu não seria escritor

Karl Ove Knausgård
Como a arte consiste em atravessar as formas rumo ao que vem a ser, ao que é vivo, só os que não sabem escrever conseguem escrever
Como a arte consiste em atravessar as formas rumo ao que vem a ser, ao que é vivo, só os que não sabem escrever conseguem escrever CRÉDITO: A ARTE DA ESCRITA_GRAVURA DO LIVRO L’ENCYCLOPEDIE (1751-1757), DE DENIS DIDEROT E JEAN BAPTISTE LE ROND D’ALEMBERT_ DEA PICTURE LIBRARY/ALBUM/ FOTOARENA

Tradução de Guilherme da Silva Braga

O trabalho do editor de livros de literatura ocorre como que na sombra projetada pelo nome do escritor. Poucos foram os editores que saíram da sombra, e esses são quase tão infames quanto célebres, pois essas duas grandezas, “editor” e “célebre”, são quase uma contradição, uma combinação irreconciliável. Um exemplo é Gordon Lish, que entre outras coisas foi editor de Raymond Carver e era chamado de Capitão Ficção; outro é Maxwell Perkins, editor de Hemingway e Fitzgerald, que recebeu o epíteto de Editor de Gênios. Um dos mais conhecidos trabalhos de edição já realizados ficou a cargo de Ezra Pound, não exatamente na qualidade de editor, mas de amigo, quando fez a leitura implacável de uma versão incipiente de A Terra Devastada, de T. S. Eliot, e saiu fazendo cortes até dar ao poema a forma que hoje conhecemos. O estilo de Lish como editor também era independente e sem meios-termos: foi a edição feita por ele que de fato criou o estilo que hoje associamos a Carver, um estilo em relação ao qual o próprio autor mostrou-se ambivalente, mesmo que o processo tenha feito uma contribuição indiscutível para que se transformasse em um escritor renomado. Esse fato tornou-se visível quando os manuscritos de Carver foram publicados após sua morte: as histórias, vagas e exuberantes de uma forma totalmente distinta, eram quase irreconhecíveis. Restam poucas dúvidas de que o Carver do editor era melhor do que o Carver do próprio Carver – e como essa constatação deve ter feito Carver se sentir quando recebia prêmios e era tratado como o novo grande nome na literatura norte-americana? O exemplo é interessante, pois o trabalho do editor é exercer influência, não em nome do que é melhor para si, nem em nome do que é melhor para o autor, mas em nome do que é melhor para o livro – e, antes de dizer que Lish teria ido longe demais, seria necessário perguntar-se: em relação a quê? Afinal, o livro tornou-se melhor. Será que o orgulho ferido do autor seria mais importante? Sem Lish os livros de Carver seriam piores, e ele teria sido apenas um escritor decente, não um escritor brilhante. Essa constatação levanta uma questão sobre o que é um autor e quais são os limites entre o autor, o ambiente e o livro.

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Karl Ove Knausgård

Karl Ove Knausgård, escritor norueguês, é autor da série autobiográfica Minha Luta, publicada no Brasil pela Companhia das Letras