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    CREDITO: FERNANDO PIERUCCETTI, O “MANGABEIRA”_ 1945 (REPRODUÇÃO)

despedida

Até nunca mais, corvo pousado no umbral!

O que será de nós, atleticanos, agora que somos campeões brasileiros?

Fred Melo Paiva | Edição 184, Janeiro 2022

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Adeus, sofrimento. Tchau, interminável espera. Até nunca mais, corvo pousado no umbral. Alô, José de Assis Aragão, aquele abraço. Aceito os termos do divórcio, urucubaca cinquentenária. Ando sem tempo para litígios, porque estou muito ocupado com toda a cachaça de Belo Horizonte. Assino sem ler, zica dos infernos, Zico, Nunes e Adílio. Fico com o disco do Vicente Motta, sim, o autor do nosso hino glorioso, da nossa Marselhesa. O resto é seu, malogro compulsivo. Enfie no rabo!

Cinquenta anos em cinco é para os fracos, pobre Juscelino, discreto torcedor do Cruzeiro. Cinquenta anos em cinco minutos, aí sim, querem matar o prefeito Kalil do coração. Não podia ser comum o jogo do último dia 2 de dezembro, que nos garantiu o título do Brasileirão depois de meio século na rua da amargura. Precisava a mão pesada do nosso roteirista piegas, sempre a preterir o melhor cinema em favor da novela mexicana. Precisava a virada fenomenal contra o Bahia, no chute de um Keno que mais pareceu o Éder em 1982 contra a União Soviética. E então se deu ali, naqueles 3 a 2, a nossa perestroika. O antes e o depois, o infortúnio e a glória, o jejum e o rodízio de pizza.

Claro que o atleticano está a se perguntar, mineiro que é, e agora, José? Doncovin, oncotô, o.k., o problema é proncovô. Atlético não há mais, José, e agora? Eis a verdade inconveniente, sobretudo porque bem-vinda: aquele Galo sofredor, que não conquistava o Brasileirão desde 1971, dá indícios graves de erguer em definitivo sua crista antes carcomida. Já não é mais um Galo: tamanho o estufado do peito, é agora um Chester.

Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber? Drummond, o poeta, acerta apenas em parte, não entende de Galo como outro Drummond, o Roberto, criador do romance Hilda Furacão, que cunhou a célebre “se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”. Eis a síntese da atleticanidade, aquilo que, embora inexplicável, se explica: o vício de continuar torcendo mesmo quando o corvo no umbral peleja contra os onze homens correndo atrás de uma bola.

Pois bem, sem mulher é verdade, não há casamento (nem emprego, nem cheque especial) que suporte tamanha efusividade. Sem carinho não pode ser, o Brasil inteiro se emociona com a glória finalmente alcançada, à exceção dos negacionistas de pênaltis claros. Já não pode beber? Bem… Que todos morramos, então, de Atlético! Mas o que importa é: está sem discurso. Verdade verdadeira. E agora, José?

 

Para se compreender o fenômeno da atleticanidade, há de se entender o sofrimento pelo qual passamos, e como isso moldou a identidade de 10 milhões de pessoas (segundo o DataFred; o Datafolha mente dizendo que são uns 4,2 milhões). Não se trata, aliás, de sofrimento, mas de sofrimentos adquiridos no supermercado da vida em gôndolas diversas.

Fomos, sem dúvida, assaltados em 1977 e 1980. Em nossa Comissão da Verdade, acreditamos ter sido torturados pela ditadura, que intentava desaparecer com Reinaldo, o nosso Maradona, o centroavante politizado que festejava gols com o punho cerrado e dava entrevistas para o Movimento, aguerrido jornal de oposição. Em 1977, fomos vice-campeões brasileiros invictos. Invictos, pessoal, invictos! Em 1980, novamente vice, amargamos pela frente um Brilhante Ustra disfarçado sob o codinome de José de Assis Aragão, juiz perverso que expulsou Reinaldo sem motivo algum, depois de o craque, imparável, ter feito dois na finalíssima contra o Flamengo de Zico, Nunes, Adílio e o maldito corvo do umbral.

Os homens não prestavam, compreendi justamente em 1980, aos 8 anos. Tampouco Deus existia, pois vieram os momentos de má sorte monumental. Em 1985, contra o Coritiba, a bola entrou e o juiz não viu. Duzentos mil olhos vigiavam o lance no Mineirão lotado. Apenas dois deles estavam encobertos por um filho de vidraceiro, a reafirmar que a justiça é cega.

Em 1996, a Portuguesa nos tirou – a Portuguesa. Em 1999, na final contra o Corinthians, há dúvidas se o juizão viu ou não viu a bola na mão do adversário. Já não era possível compreender a natureza de nosso sofrimento, tamanha a volúpia com que ele nos acometia. Carmas certamente contraídos em gravíssimas situações, genocídios, terrorismos, parricídios.

Em 2001, na semifinal, quando tudo caminhava para o título inevitável, um dilúvio nunca visto desabou sobre o proletariado do ABC paulista, e o São Caetano venceu uma peleja que nos era claramente favorável. Mas o apocalipse se deu mesmo no rebaixamento de 2005, ainda que o nosso goleiro Bruno, aquele, tenha defendido um pênalti do Romário. No jogo anterior, Bruno arremessara a camisa na arquibancada. Eu peguei. Credito a isso parte importante dos meus infortúnios pessoais – digamos que uns 10%.

Os outros 90% credito ao próprio Atlético. Quem faz de um time parte de si mesmo, numa perigosa simbiose, sabe que acaba por ser o próprio clube. Veja que me refiro ao Galo como “nós”, a primeira pessoa do plural. Nosso hino, escrito em 1969 pelo saudoso Motta, é assim: Nós somos do Clube Atlético Mineiro/ Jogamos com muita raça e amor/ Vibramos com alegria nas vitórias/ Clube Atlético Mineiro/ Galo forte vingador. Um parêntese: observe que já estávamos, lá atrás, a falar em vingança, o que pressupõe a injustiça. A nossa bola sempre foi uma bola de ferro presa no pé.

 

Sou jornalista. Era para eu ser publicitário, pois meu pai alcançara sucesso na profissão, conhecia o Duda Mendonça, possuía uma agência e fizera para Tancredo Neves o slogan “Muda Brasil – Tancredo presidente”. Acontece que eu era um sofredor, e um sofredor não combina com os reclames. Fui estudar jornalismo, e botava a culpa na minha opção pelo punk rock – afinal, um sofredor não ia mesmo gostar de discothèque, ele preferia Cólera, Olho Seco, Dead Kennedys.

A condição de sofredor, abalroado tanto pela falta de sorte como pela roubalheira, criou uma casta de mineiros sertanejos, antes de tudo uns bravos. O nosso espaço no Mineirão localiza-se no meio do campo, à esquerda da trave que dá para a Lagoa da Pampulha. Foi escolhido por Sempre, torcedor-símbolo na época da construção do estádio, que por óbvio nunca faltava às partidas. Em 1965, ele olhou a obra de manhã e fez sua opção. Acontece que, naquele espaço, bate um sol desgraçado. Quando o campo foi inaugurado, à tarde, a torcida estava inteirinha em chamas. Foram tirar satisfação com o Sempre. “A torcida do Galo pode ficar no sol, mas é fiel feito a sombra”, imortalizou Sempre.

Então ficamos no sol, suando em bicas por décadas, orgulhosos do nosso sofrimento. E assim somos desde Sempre. O Galo, você sabe, descende do galo de briga, um dos poucos a lutar até morrer, ainda que na mais ululante desvantagem. Assim ficamos, com o sol na moleira, lutando contra Deus e os diabos. Não há atleticanos verdadeiramente publicitários, são todos jornalistas que almoçam de pé no balcão de um pé-sujo qualquer. Somos todos punks, mesmo os sertanejos universitários.

Nesses cinquenta anos, ganhamos, é verdade. Incontáveis Mineiros, quando isso era legal. Duas copas Conmebol. A Libertadores de 2013, quando Deus parece ter nos achado lá nos porões da ditadura. A Copa do Brasil de 2014 ganhamos também, o roteiro canastrão dos épicos que nos desidrata de chorar. Agora há pouco, no abençoado mês de dezembro, faturamos mais uma Copa do Brasil. Mas foi a falta do Brasileirão, o título impossível, que nos garantiu o passaporte da vacina contra a felicidade plena que não nos pertence. Isso até os cinco minutos fatais contra o Bahia, quando o hacker cassou a comprovação do imunizante. Agora estou jogado no mundão. Vai, Carlos (eu sou Carlos Frederico), ser gauche na vida. O povão se belisca: o gaganhô!

Despeço-me, pois, da vida sofrida. Seja o que Deus quiser, se Ele existir. Nunca mais o Cólera, nunca mais o Olho Seco. Vou para Caraíva viver na sombra. Vou me afundar na lingerie, beber toda a cachaça da cidade. Se houver uma tempestade preta e branca pendurada na camisa durante o vento, o atleticano torce contra o varal. Vou trabalhar na DPZ. Agora sou bi, ninguém é de ninguém! Espero sobreviver a esse novo estado de coisas.